Quando a tinta seca e o dia finda, Sopro o pó dourado do querer. O papel respira e se rescinde, O amor renova o verbo “renascer”. Tu és presença até no branco puro, Que guarda o não-dito e o essencial. Teus olhos vivem no intervalo escuro, E acendem paz num lume fraternal. A carta inteira pulsa e me devora, Mas o silêncio é o que mais aflora.
II
Se o carteiro nunca te encontrar, O vento há de levar o meu recado. Ele saberá te procurar Nos campos do destino enamorado. E quando o sol tocar tua varanda, Verás no chão as sombras do papel. Serão meus versos, leves como a banda Que o céu ensaia em cor de carrossel. E entenderás: o amor é carta viva, Que o tempo lê e o sonho reescreve altiva.
III
Guardo uma cópia em mim, escrita a fogo, Pois sei que um dia o corpo se dispersa. Mas tua imagem vive em tom e logo, E o verso meu se faz tua promessa. Mesmo se o mundo mudar de estação, Mesmo se o verbo falhar, ainda assim Te amarei no intervalo da canção, Na pausa em que o silêncio toca em mim. E o que restar será pura alegria: Cartas escritas com luz e poesia.
IV
No fim do texto, a vida se resume: Um nome, um gesto, um respirar. E o tempo, comovido, se acostume A sempre ver-me em ti recomeçar. Porque amar é escrever sem fim, Sem medo, sem pressa, sem parágrafo. E o papel, cansado, olha pra mim E diz: “o amor é uma carta autografada”. Então descanso a pena e deixo a mão: Teu nome basta — é minha conclusão.
Minha alma, forte de pedra bruta e eras, onde o exército do teu nome nunca aportou. Teus gestos, ecos em vãs atmosferas, cujo império, de fato, nunca reinou.
Sou a vigilante noturna de um muro cego, mirando o deserto onde devias estar. O rancor é este templo mudo e maldito, erguido no vácuo de um verbo esculpido como o oposto de “amar”.
Deixei o espaço no portão de entrada, um oco, um hiato, para o vulto perdido no breu; entrou sem ruído a esperança cansada e ardeu, em segredo, o que jamais floresceu.
Indiferente à vitória, sou feita de espólios, decifro os vestígios do que não se ergueu. Há um luto de mármore atrás dos meus olhos, pela cidade fantasma que o tempo teceu.
Permaneço como poeira sob um sol de derrotas, repleta de ausências como escrava do cais.
O que me habita é a porta remota que se fecha no agora… no talvez, depois e no nunca mais.
Escrevo em ti o alvorecer discreto, Que o tempo deixa à beira da janela. O vento dobra a página e o soneto, E o sol traduz a vida em cor mais bela. O dia nasce em linhas de ternura, E a tinta é bruma, amor e claridade. Cada palavra em luz se transfigura, E o verbo aprende a ser simplicidade. Teu nome é título de todo dia, E a aurora o lê com melancolia.
No papel do tempo há nossas rugas, E cada sulco é verso a se lembrar. As perdas, doces, viram velhas fugas, E o coração ensina a repousar. Tua ausência é flor que não termina, Perfume antigo preso em mim, constante. E a lembrança, ao toque da rotina, Vira canção de outono itinerante. No envelope guardo o teu retrato, Que o vento lê em rito delicado.
II
Escrevo lento, para não perder O peso leve do que é verdadeiro. O som do lápis tenta compreender O amor que cabe inteiro em um janeiro. A mesa guarda o sol e as nossas sombras, E o tempo passa em marcha sem rancor. Se a vida é breve, o gesto não assombra, Pois no detalhe mora o esplendor. E o mundo cabe dentro da palavra Que o peito dita e a saudade grava.
Os móveis velhos ouvem e respiram, O chão range como um velho amigo. A casa, cúmplice, acolhe e inspira, E o relógio sorri, quase consigo. Escrevo o amor em verso disciplinado, Com métrica de brisa e compaixão. O vento sopra, audaz, desordenado, E embaralha as páginas no chão. Mas o que importa é que o sentimento Fica intacto, puro e sem tormento.
III
Há pausas entre as frases que se tocam, São beijos que o papel não pode dar. E as letras, que no tempo se deslocam, Têm teu perfume em cada respirar. As linhas curvam, suaves, como espelhos, E refletem o instante em que sonhei. A caligrafia guarda os meus conselhos, E o coração responde: “Eu te esperei.” Cada vírgula é lágrima contida, Cada ponto é promessa de partida.
No vidro antigo escorre um ouro manso, Relógio de areias calmas a cair. O tempo, sábio, tece o nosso avanço, E ensina o passo justo de sorrir. Teu nome soa grave no silêncio, Como um coral que aprende a respirar. Meu peito, outrora frágil e propenso, Virou rocha paciente à beira-mar. A cada grão que a vida nos conceda, Eu te ofereço abrigo sem moeda.
Maturidade é mesa posta em paz, Com pão partido e água generosa. É dar ao erro o sal que o humaniza, É dar ao acerto a flor silenciosa. Teu gesto é régua justa da medida, Tua palavra é linha de costura. E o pano áspero, em dobra convertida, Vira camisa clara de ternura. Não há milagre além do cotidiano: Tu e eu, presentes, mãos no mesmo plano.
II
Fiz inventário ao fim de cada outono, E descobri que a perda é professora. O que perdi me devolveu o dono, E o que ganhei me fez saber agora. Se o corpo pede abrigo na fadiga, Tu dás respaldo, música e calor. E cada dobra antiga se mitiga, E o velho medo ensaia outro fervor. Por isso escrevo: a idade nos concede O luxo raro de quem já não mede.
O destino, alfaiate sem chancela, Ajusta o terno azul do porvir nosso. Teu ombro é malha firme e clara tela, Onde bordamos fé sem alvoroço. O acaso vem, dá nó, depois afrouxa, E a força mansa aprende a nos guiar. Amor maduro é ponte que não murcha, É engenharia clara de cuidar. Dois arquitetos, planta sobre mesa, Erguendo teto em justa singeleza.
III
Saudade passa, pede seu assento, Servimos chá, conversamos devagar. Ela, educada, aceita o acolhimento, E vai, tranquila, ao ver-nos trabalhar. No calendário, marcos de memória Ganham fitas discretas de afeto. Que cada data conte outra história, Sem o exagero áspero do decreto. O coração, que antes corria à frente, Agora pisa firme e conscientemente.
Se a tarde cobre os telhados de cobre, Acendo a chama simples do fogão. Teu riso acalma o brio e torna nobre Até a bruma leve do salão. Lavamos pratos, rimos de bobagens, Guardamos louças como quem cultiva. E as minudências viram tatuagens Do grande pacto que nos preserva a vida. É nisso que o destino se decide: Na arte de cuidar sem alarde, sem lide.
IV
Falemos, então, do encontro inevitável: Não foi acaso, foi coerência e fé. Havia um eixo oculto, imponderável, Que nos pedia o sim que hoje se é. Caminhos paralelos se curvando, Como dois rios buscando o mesmo mar. O mundo, ao ver, parou por um segundo, E a luz piscou dizendo: “É por aí.” E desde então o passo é tão certeiro, Que o chão parece música em primeiro.
Chegará noite em que a cidade cala, E a luz do abajur será farol. Então teu nome, estrela que não falha, Fará do escuro um campo de girassol. Dormiremos com o mundo posto em ordem, Sem a arrogância muda de vencer. Vencer é estar, é dar abrigo e norte, É dividir o medo e o prazer. Que cada sonho acorde sem presságio, E cada dia seja o nosso estágio.
O tempo quis provar nossas promessas, Trouxe ventos, demorou estações. Mas viu, enfim, que o amor que nos atravessa Não cabe em ritos, títulos, senões. É substância, é pão, é disciplina, É o descanso certo após o labor. É a mão que aquieta, a voz que ilumina, É a lente justa do melhor valor. Se há destino, é este que escolhemos: Estar presentes, assim, amanheceremos.
V
Quando a ampulheta erguer seu último grão, E o vidro fino pedir nossa atenção, Erguerei tua mão dentro da minha mão, E o tempo, humilde, fará reverência. Porque viver, contigo, foi ciência De aprender o eterno em cada instante. E o destino, vendo a nossa paciência, Nos nomeará de “claros caminhantes”. Relógio de areia sob dois ombros: Amor que sabe o peso e evita escombros.