O Amor é uma Carta Autografada

Posted in Sem categoria on 26 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Quando a tinta seca e o dia finda,
Sopro o pó dourado do querer.
O papel respira e se rescinde,
O amor renova o verbo “renascer”.
Tu és presença até no branco puro,
Que guarda o não-dito e o essencial.
Teus olhos vivem no intervalo escuro,
E acendem paz num lume fraternal.
A carta inteira pulsa e me devora,
Mas o silêncio é o que mais aflora.

II

Se o carteiro nunca te encontrar,
O vento há de levar o meu recado.
Ele saberá te procurar
Nos campos do destino enamorado.
E quando o sol tocar tua varanda,
Verás no chão as sombras do papel.
Serão meus versos, leves como a banda
Que o céu ensaia em cor de carrossel.
E entenderás: o amor é carta viva,
Que o tempo lê e o sonho reescreve altiva.

III

Guardo uma cópia em mim, escrita a fogo,
Pois sei que um dia o corpo se dispersa.
Mas tua imagem vive em tom e logo,
E o verso meu se faz tua promessa.
Mesmo se o mundo mudar de estação,
Mesmo se o verbo falhar, ainda assim
Te amarei no intervalo da canção,
Na pausa em que o silêncio toca em mim.
E o que restar será pura alegria:
Cartas escritas com luz e poesia.

IV

No fim do texto, a vida se resume:
Um nome, um gesto, um respirar.
E o tempo, comovido, se acostume
A sempre ver-me em ti recomeçar.
Porque amar é escrever sem fim,
Sem medo, sem pressa, sem parágrafo.
E o papel, cansado, olha pra mim
E diz: “o amor é uma carta autografada”.
Então descanso a pena e deixo a mão:
Teu nome basta — é minha conclusão.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvi)

A Geometria da Dissolução

Posted in Sem categoria on 25 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

(Brenda GG – i-xxvi)

Sentinela de Sombras

Posted in Sem categoria on 24 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Minha alma, forte de pedra bruta e eras,
onde o exército do teu nome nunca aportou.
Teus gestos, ecos em vãs atmosferas,
cujo império, de fato, nunca reinou.

Sou a vigilante noturna de um muro cego,
mirando o deserto onde devias estar.
O rancor é este templo mudo e maldito,
erguido no vácuo de um verbo esculpido como o oposto de “amar”.

Deixei o espaço no portão de entrada,
um oco, um hiato, para o vulto perdido no breu;
entrou sem ruído a esperança cansada
e ardeu, em segredo, o que jamais floresceu.

Indiferente à vitória, sou feita de espólios,
decifro os vestígios do que não se ergueu.
Há um luto de mármore atrás dos meus olhos,
pela cidade fantasma que o tempo teceu.

Permaneço como poeira sob um sol de derrotas,
repleta de ausências como escrava do cais.

O que me habita é a porta remota
que se fecha no agora… no talvez, depois
e no nunca mais.

(Brenda GG – i-xxvi)

Cartas Escritas com Luz da Manhã

Posted in Sem categoria on 24 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Escrevo em ti o alvorecer discreto,
Que o tempo deixa à beira da janela.
O vento dobra a página e o soneto,
E o sol traduz a vida em cor mais bela.
O dia nasce em linhas de ternura,
E a tinta é bruma, amor e claridade.
Cada palavra em luz se transfigura,
E o verbo aprende a ser simplicidade.
Teu nome é título de todo dia,
E a aurora o lê com melancolia.

No papel do tempo há nossas rugas,
E cada sulco é verso a se lembrar.
As perdas, doces, viram velhas fugas,
E o coração ensina a repousar.
Tua ausência é flor que não termina,
Perfume antigo preso em mim, constante.
E a lembrança, ao toque da rotina,
Vira canção de outono itinerante.
No envelope guardo o teu retrato,
Que o vento lê em rito delicado.

II

Escrevo lento, para não perder
O peso leve do que é verdadeiro.
O som do lápis tenta compreender
O amor que cabe inteiro em um janeiro.
A mesa guarda o sol e as nossas sombras,
E o tempo passa em marcha sem rancor.
Se a vida é breve, o gesto não assombra,
Pois no detalhe mora o esplendor.
E o mundo cabe dentro da palavra
Que o peito dita e a saudade grava.

Os móveis velhos ouvem e respiram,
O chão range como um velho amigo.
A casa, cúmplice, acolhe e inspira,
E o relógio sorri, quase consigo.
Escrevo o amor em verso disciplinado,
Com métrica de brisa e compaixão.
O vento sopra, audaz, desordenado,
E embaralha as páginas no chão.
Mas o que importa é que o sentimento
Fica intacto, puro e sem tormento.

III

Há pausas entre as frases que se tocam,
São beijos que o papel não pode dar.
E as letras, que no tempo se deslocam,
Têm teu perfume em cada respirar.
As linhas curvam, suaves, como espelhos,
E refletem o instante em que sonhei.
A caligrafia guarda os meus conselhos,
E o coração responde: “Eu te esperei.”
Cada vírgula é lágrima contida,
Cada ponto é promessa de partida.

(Betto Gasparetto- ii-mmxvix)

Relógio de Areia Sob Dois Ombros

Posted in Sem categoria on 23 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

No vidro antigo escorre um ouro manso,
Relógio de areias calmas a cair.
O tempo, sábio, tece o nosso avanço,
E ensina o passo justo de sorrir.
Teu nome soa grave no silêncio,
Como um coral que aprende a respirar.
Meu peito, outrora frágil e propenso,
Virou rocha paciente à beira-mar.
A cada grão que a vida nos conceda,
Eu te ofereço abrigo sem moeda.

Maturidade é mesa posta em paz,
Com pão partido e água generosa.
É dar ao erro o sal que o humaniza,
É dar ao acerto a flor silenciosa.
Teu gesto é régua justa da medida,
Tua palavra é linha de costura.
E o pano áspero, em dobra convertida,
Vira camisa clara de ternura.
Não há milagre além do cotidiano:
Tu e eu, presentes, mãos no mesmo plano.

II

Fiz inventário ao fim de cada outono,
E descobri que a perda é professora.
O que perdi me devolveu o dono,
E o que ganhei me fez saber agora.
Se o corpo pede abrigo na fadiga,
Tu dás respaldo, música e calor.
E cada dobra antiga se mitiga,
E o velho medo ensaia outro fervor.
Por isso escrevo: a idade nos concede
O luxo raro de quem já não mede.

O destino, alfaiate sem chancela,
Ajusta o terno azul do porvir nosso.
Teu ombro é malha firme e clara tela,
Onde bordamos fé sem alvoroço.
O acaso vem, dá nó, depois afrouxa,
E a força mansa aprende a nos guiar.
Amor maduro é ponte que não murcha,
É engenharia clara de cuidar.
Dois arquitetos, planta sobre mesa,
Erguendo teto em justa singeleza.

III

Saudade passa, pede seu assento,
Servimos chá, conversamos devagar.
Ela, educada, aceita o acolhimento,
E vai, tranquila, ao ver-nos trabalhar.
No calendário, marcos de memória
Ganham fitas discretas de afeto.
Que cada data conte outra história,
Sem o exagero áspero do decreto.
O coração, que antes corria à frente,
Agora pisa firme e conscientemente.

Se a tarde cobre os telhados de cobre,
Acendo a chama simples do fogão.
Teu riso acalma o brio e torna nobre
Até a bruma leve do salão.
Lavamos pratos, rimos de bobagens,
Guardamos louças como quem cultiva.
E as minudências viram tatuagens
Do grande pacto que nos preserva a vida.
É nisso que o destino se decide:
Na arte de cuidar sem alarde, sem lide.

IV

Falemos, então, do encontro inevitável:
Não foi acaso, foi coerência e fé.
Havia um eixo oculto, imponderável,
Que nos pedia o sim que hoje se é.
Caminhos paralelos se curvando,
Como dois rios buscando o mesmo mar.
O mundo, ao ver, parou por um segundo,
E a luz piscou dizendo: “É por aí.”
E desde então o passo é tão certeiro,
Que o chão parece música em primeiro.

Chegará noite em que a cidade cala,
E a luz do abajur será farol.
Então teu nome, estrela que não falha,
Fará do escuro um campo de girassol.
Dormiremos com o mundo posto em ordem,
Sem a arrogância muda de vencer.
Vencer é estar, é dar abrigo e norte,
É dividir o medo e o prazer.
Que cada sonho acorde sem presságio,
E cada dia seja o nosso estágio.

O tempo quis provar nossas promessas,
Trouxe ventos, demorou estações.
Mas viu, enfim, que o amor que nos atravessa
Não cabe em ritos, títulos, senões.
É substância, é pão, é disciplina,
É o descanso certo após o labor.
É a mão que aquieta, a voz que ilumina,
É a lente justa do melhor valor.
Se há destino, é este que escolhemos:
Estar presentes, assim, amanheceremos.

V

Quando a ampulheta erguer seu último grão,
E o vidro fino pedir nossa atenção,
Erguerei tua mão dentro da minha mão,
E o tempo, humilde, fará reverência.
Porque viver, contigo, foi ciência
De aprender o eterno em cada instante.
E o destino, vendo a nossa paciência,
Nos nomeará de “claros caminhantes”.
Relógio de areia sob dois ombros:
Amor que sabe o peso e evita escombros.

(Betto Gasparetto- ii-mmxvix)