O VELHO BANCO DA PRAÇA

Posted in Sem categoria on 20 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Há bancos que pertencem aos jardins.

Outros pertencem às praças.

Este já não parecia pertencer a lugar nenhum.

Fazia tanto tempo que permanecia ali que até as árvores ao redor pareciam ter crescido para lhe fazer companhia. A tinta verde desaparecera em muitos pontos. A madeira carregava pequenas rachaduras abertas pelo sol de muitos verões e pela umidade de muitos invernos. Um dos pés afundava discretamente na terra, obrigando quem se sentava à direita a inclinar o corpo quase sem perceber.

A prefeitura já havia trocado os postes.

Os canteiros.

Os brinquedos.

Os ladrilhos da calçada.

O banco ficou.

Não porque fosse importante.

Mas porque ninguém se lembrara dele.

Pouco antes das seis, quando a praça ainda era maior que o barulho da cidade, o primeiro visitante chegou.

Um homem de cabelos grisalhos caminhava sempre no mesmo ritmo. Parava diante do banco, apoiava uma garrafa de água ao lado e permanecia alguns minutos olhando os galhos mais altos das sibipirunas.

Nunca se sentava imediatamente.

Como quem cumprimenta um velho amigo antes de iniciar a conversa.

Quando enfim se acomodava, fechava os olhos.

Não dormia.

Também não rezava.

Apenas permanecia.

Depois seguia a caminhada.

Sem olhar para trás.

Pouco depois chegaram dois garis.

Sentaram apenas o tempo suficiente para dividir um café trazido numa garrafa térmica.

Conversavam sobre futebol.

Mas riam das próprias dores nas costas.

— Se a coluna reclamar mais um pouco, vou pedir aposentadoria por cansaço dela.

Os dois riram.

Levantaram.

O banco voltou ao silêncio.

Às oito, uma menina de uniforme escolar esperava a mãe terminar uma ligação.

Enquanto isso, desenhava com o dedo pequenas estradas sobre a poeira acumulada no assento.

Quando a mãe chamou, ela apagou tudo com a palma da mão.

As cidades imaginárias desapareceram antes mesmo de existirem.

Mais tarde, um rapaz abriu um caderno.

Espalhou folhas.

Apagou frases.

Escreveu outras.

Olhava mais para as pessoas passando do que para aquilo que tentava escrever.

Depois arrancou uma página.

Dobrou cuidadosamente.

Guardou no bolso.

Levou o restante.

A folha ficou.

Presa sob um dos pés do banco.

O vento tentou carregá-la.

Não conseguiu.

Ao meio-dia, um entregador apoiou a mochila térmica no chão.

Comprou um salgado na padaria da esquina.

Comeu em menos de cinco minutos.

Consultou o celular.

Suspirou.

Voltou para a bicicleta.

Algumas pausas duram menos que a fome.

À tarde, a praça mudou de voz.

As crianças ocuparam os brinquedos.

As pombas desistiram do gramado.

Os cachorros passaram a acreditar que todos os bancos lhes pertenciam.

Uma senhora chegou trazendo um pequeno saco de milho.

Sentou-se devagar.

Chamava os pombos pelo mesmo assobio havia tantos anos que alguns pareciam reconhecê-la antes mesmo de enxergarem o alimento.

Enquanto os pássaros disputavam os grãos, ela sorria sozinha.

Nunca alimentava apenas os pombos.

Alimentava uma lembrança.

Quando o sol começou a baixar, um rapaz e uma moça dividiram o banco.

Entre eles havia espaço suficiente para outra pessoa.

Conversaram pouco.

Às vezes o silêncio aproximava mais do que qualquer frase.

Antes de ir embora, ela retirou discretamente uma aliança da bolsa.

Colocou-a no dedo.

Ele percebeu.

Não perguntou nada.

Levantaram juntos.

Saíram em direções opostas.

O banco permaneceu olhando para o lago.

Como sempre fizera.

No começo da noite, um homem chegou carregando um buquê de flores.

Sentou-se.

Olhou diversas vezes para o relógio.

Depois para a entrada da praça.

As flores começaram a perder o frescor.

As sombras cresceram.

As luzes dos postes acenderam.

Ele levantou.

Levou consigo apenas metade das flores.

As outras ficaram sobre o banco.

Ninguém soube se era um reencontro desfeito.

Ou uma despedida atrasada.

Quando a praça finalmente se esvaziou, o zelador iniciou a rotina de todas as noites.

Recolheu latas.

Papéis.

Uma garrafa esquecida.

Ao passar diante do banco, pegou também o pequeno buquê.

Parou por um instante.

Observou as flores.

Depois caminhou até um vaso próximo ao coreto e as colocou ali.

Talvez durassem mais um dia.

Talvez não.

Na manhã seguinte, o banco continuava no mesmo lugar.

Recebeu novamente o homem da caminhada.

Os garis.

As crianças.

Os estudantes.

Os enamorados.

Os solitários.

Nenhum deles era exatamente o mesmo do dia anterior.

O banco também não.

Agora havia, entre duas tábuas da madeira, um único grão de milho esquecido.

Uma pequena marca deixada pela água do buquê.

E uma folha de caderno que o vento finalmente conseguira levar.

Foi então que compreendi uma coisa.

As pessoas acreditam que descansam nos bancos das praças.

Talvez aconteça o contrário.

Durante alguns minutos, é a vida que repousa ali.

Depois levanta.

E continua caminhando.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

O GUARDA-CHUVA ESQUECIDO

Posted in Sem categoria on 19 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Há objetos que parecem nascer para permanecer ao lado da mesma pessoa durante toda a vida. Outros, porém, aceitam com naturalidade a condição de nunca pertencer completamente a ninguém.

O guarda-chuva talvez seja o mais inquieto deles.

Passa meses esquecido atrás de uma porta. Depois acompanha alguém por algumas quadras, protege uma conversa inesperada, atravessa uma tempestade e desaparece novamente, como se entendesse que sua verdadeira utilidade não fosse resistir à chuva, mas atravessar vidas.

Ninguém sabe exatamente quando aquele guarda-chuva apareceu no café da esquina. Era preto, de cabo de madeira já um pouco gasto e tecido marcado por pequenas manchas que denunciavam muitos invernos. Não era bonito nem chamava atenção. Talvez por isso tenha permanecido durante três dias encostado ao suporte próximo à entrada sem que ninguém perguntasse por ele.

No primeiro dia, todos imaginaram que o dono voltaria em poucos minutos. No segundo, o esquecimento começou a parecer definitivo. No terceiro, o guarda-chuva já fazia parte da paisagem, como a máquina de café ou o vaso de samambaias perto da janela.

Foi então que começou sua segunda história.

Naquela manhã, uma professora saiu apressada da padaria quando percebeu que a chuva engrossava. Hesitou por um instante diante da porta, olhou para o céu e para o relógio, como se ambos pudessem negociar alguns minutos de trégua. O balconista apontou discretamente para o guarda-chuva esquecido.

— Pode levar. Se aparecer o dono, a gente explica.

Ela agradeceu com um sorriso e desapareceu entre as gotas.

Na tarde seguinte, o guarda-chuva voltou. Não trazia mais apenas a chuva do caminho. Trazia também um pequeno risco no cabo, provavelmente deixado pelo corrimão de algum ônibus, e uma delicada fita azul amarrada próxima à empunhadura. A professora talvez a tivesse colocado para reconhecê-lo. Ou simplesmente para lhe devolver um pouco de alegria.

Dias depois, um rapaz saiu do café segurando o mesmo guarda-chuva. Não chovia. O sol era forte. Usou-o para proteger um vaso de flores durante a caminhada até o carro. Ao retornar, esqueceu-se de trazê-lo de volta.

Dessa vez foi uma criança quem o encontrou.

Perguntou à mãe se poderiam levá-lo.

A mãe respondeu que não era deles.

A menina ficou alguns segundos olhando para o guarda-chuva, depois perguntou:

— Então ele é de quem?

A mulher demorou a responder.

Percebeu que algumas perguntas são mais difíceis justamente porque parecem simples.

— Acho que, por enquanto, ele é de quem estiver precisando.

A menina aceitou a resposta como as crianças costumam aceitar as coisas que os adultos levam anos para compreender.

Passaram-se semanas.

Vieram dias de chuva e dias de céu completamente limpo.

O guarda-chuva aparecia e desaparecia sem que ninguém conseguisse acompanhar exatamente seu caminho. Às vezes voltava com gotas ainda presas às hastes. Outras vezes trazia areia na ponta, como se tivesse caminhado pela praia. Em certa ocasião, apareceu com um pequeno adesivo de um parque infantil colado junto ao cabo. Ninguém o retirou.

O objeto começava a acumular marcas que já não pertenciam ao primeiro dono.

Pertenciam ao tempo.

Numa manhã de inverno, um senhor de cabelos muito brancos entrou no café apenas para tomar um café curto antes da caminhada. Ao pagar a conta, seus olhos encontraram o velho guarda-chuva encostado junto à porta.

Aproximou-se devagar.

Passou a mão sobre o cabo de madeira.

Sorriu discretamente.

O balconista percebeu.

— É seu?

O velho permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Não sei mais.

Depois riu.

— Acho que um guarda-chuva deixa de ser da gente no dia em que protege outra pessoa.

Saiu sem levá-lo.

Naquele momento, compreendi que alguns objetos não envelhecem porque resistem ao tempo.

Envelhecem porque passam a carregar pequenos fragmentos de muitas vidas.

Talvez fosse por isso que aquele guarda-chuva já não esperasse o antigo dono.

Esperava apenas a próxima chuva.

E, com ela, a próxima história.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

A JANELA DO APARTAMENTO 707

Posted in Sem categoria on 18 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Há apartamentos que oferecem uma vista.

O 707 oferecia tempo.

Não era a paisagem mais bonita da cidade. Dali não se viam montanhas, rios ou cartões-postais. Via-se uma rua comum, dessas que os mapas desenham sem imaginar que um dia alguém possa detê-las com o olhar. Havia um semáforo, duas árvores que resistiam entre as calçadas, uma padaria de esquina, uma banca de jornais transformada em banca de conveniências e um ponto de ônibus onde as pessoas pareciam sempre esperar mais do que um coletivo.

Durante muitos anos, aquela janela servira apenas para deixar entrar a claridade das manhãs e o vento das tempestades de verão. Depois da aposentadoria, porém, ela passou a cumprir outra função. Tornou-se uma companhia.

Todas as manhãs, pouco antes das sete, ele abria a veneziana, colocava uma xícara de café sobre o parapeito interno e permanecia ali durante alguns minutos. Nunca procurava um acontecimento especial. A rua já lhe ensinara que os dias importantes quase sempre se escondem dentro dos dias comuns.

Foi assim que percebeu uma transformação que ninguém anunciara.

As árvores continuavam praticamente do mesmo tamanho.

Os edifícios, não.

A cada ano surgia mais um espigão de concreto ocupando o lugar de alguma casa antiga. Primeiro desapareceu a residência azul onde um casal costumava cultivar roseiras. Depois foi a oficina mecânica, substituída por uma torre de vinte pavimentos. Em seguida veio abaixo o pequeno sobrado cuja varanda permanecera quarenta anos coberta por buganvílias.

Os caminhões levavam os escombros.

As lembranças permaneciam do lado de dentro da janela.

Às vezes lhe parecia que a cidade desaprendera a crescer para aprender apenas a empilhar andares.

Até o vento mudara.

Antes atravessava a rua com a tranquilidade de quem conhece o caminho.

Agora desviava dos edifícios recém-construídos, descia pelos corredores estreitos entre as torres e chegava ao sétimo andar em rajadas imprevisíveis, trazendo folhas secas, poeira fina e, vez ou outra, um pedaço de jornal que dançava alguns segundos antes de desaparecer outra vez.

Ele chamava aquilo, sorrindo sozinho, de vizinho de papel reciclável.

Nunca sabia de onde vinha.

Nunca sabia para onde ia.

Talvez fosse o morador mais livre daquele quarteirão.

As buzinas também mudaram.

Na juventude, eram avisos.

Hoje pareciam discussões.

Cada motorista defendia a urgência da própria vida sem imaginar que, ouvidas do alto, todas as buzinas acabavam compondo uma mesma desordem, uma espécie de orquestra contemporânea em que ninguém aceitava seguir o mesmo maestro.

Havia manhãs em que fechava os olhos apenas para escutá-las.

Conseguia distinguir o ônibus impaciente, a motocicleta apressada, o caminhão pesado, o automóvel que insistia em reclamar de um semáforo incapaz de ouvir.

A cidade possuía sua própria música.

Apenas perdera o hábito de ensaiar.

Nem tudo, porém, era transformação.

Às sete e quinze surgia a moça dos tênis vermelhos, sempre caminhando depressa, equilibrando um copo térmico e uma mochila que parecia pesada demais para seus ombros. Às sete e vinte e dois, o entregador de bicicleta atravessava a esquina assobiando a mesma melodia. Às sete e quarenta, uma senhora muito elegante levava o cachorro para passear, embora ele demonstrasse todos os dias a mesma convicção de que preferia permanecer dormindo.

Sem conhecer seus nomes, ele começou a medir as manhãs por essas presenças.

Quando um deles faltava, a rua parecia ligeiramente incompleta.

Certa segunda-feira, a moça dos tênis vermelhos não apareceu.

Na terça também não.

Na quarta, ele já se perguntava se teria mudado de emprego, de bairro ou simplesmente de caminho.

Na quinta-feira ela voltou.

Trazia o braço esquerdo engessado.

Continuava andando depressa.

Sorriu para alguém do outro lado da rua.

Ele devolveu o sorriso sem perceber.

Ela nunca soube.

As estações passavam diante da mesma janela sem pedir licença.

O ipê amarelo florescia por poucos dias, espalhava pétalas pela calçada e voltava à discrição habitual. O vendedor de pamonha surgia apenas nos meses frios. Os primeiros temporais obrigavam os pedestres a descobrir que nenhum guarda-chuva é grande o bastante quando o vento decide mudar de direção.

Foi então que compreendeu uma delicadeza da cidade.

Ela jamais repetia um dia.

Repetia apenas os horários.

Numa tarde de domingo, o neto perguntou por que ele passava tanto tempo olhando pela janela.

O velho demorou um pouco para responder.

Depois apontou para a rua.

— Quando eu era mais novo, achava que viver era estar lá embaixo. Hoje descobri que também existe vida em aprender a olhar.

O menino aproximou-se do vidro.

Permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou:

— E a rua sabe que o senhor está olhando?

Ele sorriu.

— Ainda bem que não.

Naquela noite, antes de fechar a janela, percebeu que outro prédio começava a ser erguido no terreno da antiga oficina.

Dentro de alguns meses, uma nova fachada ocuparia parte da paisagem.

Talvez escondesse a padaria.

Talvez escondesse o ponto de ônibus.

Talvez escondesse até o velho ipê.

Mas havia uma coisa que nenhum edifício conseguiria ocultar.

Todas as manhãs, quando a cidade ainda estivesse aprendendo a acordar, alguém abriria aquela janela no sétimo andar.

Não para vigiar a rua.

Mas para lembrar que, mesmo quando deixamos de caminhar por certos lugares, continuamos pertencendo a eles de alguma maneira.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

A PADARIA ÀS SEIS DA MANHÃ

Posted in Sem categoria on 17 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Ainda não são seis.

A cidade respira devagar, como quem demora um pouco mais para abandonar o último sonho da madrugada. Algumas janelas continuam escuras. Os ônibus passam quase vazios. Os primeiros pássaros experimentam o silêncio antes que os motores decidam ocupá-lo.

Na esquina, porém, uma porta já está aberta.

O calor escapa primeiro.

Depois vem o cheiro.

Não existe relógio capaz de anunciar a manhã com tanta precisão quanto um pão saindo do forno.

Dentro da padaria, ninguém pergunta as horas.

Elas são medidas pelas fornadas.

O padeiro trabalha desde quando a cidade ainda dormia. As mãos conhecem a massa como quem reconhece um velho amigo. Não precisa olhar o relógio para saber quando o pão está pronto. O forno lhe ensinou um tempo que nenhum calendário registra.

O primeiro cliente entra sem dizer bom-dia.

Também não é falta de educação.

É costume.

Quem chega tão cedo ainda conversa mais com o próprio sono do que com o mundo.

Pede dois pães, um café sem açúcar e permanece alguns segundos diante da vitrine.

Não olha os doces.

Olha a rua.

Como se esperasse que o dia lhe desse um motivo para começar.

Pouco depois entra uma enfermeira.

O uniforme denuncia uma noite inteira acordada.

Compra apenas um café.

Segura o copo com as duas mãos.

Não bebe imediatamente.

Há cansaços que precisam primeiro do calor.

Um motociclista encosta o capacete sobre a cadeira ao lado.

Come em silêncio.

Do bolso tira uma lista dobrada.

Pão.

Leite.

Margarina.

Bananas.

Sorri discretamente ao lembrar que esqueceria metade das coisas se não fosse aquele papel amassado.

Enquanto isso, um senhor aproxima-se do balcão.

Não precisa fazer o pedido.

O balconista já separa o pão de sempre.

— Hoje queimou um pouquinho — diz o rapaz.

O velho observa o pão.

— Melhor assim.

Pão muito bonito costuma esconder pouca conversa.

O balconista ri.

Não entende completamente a frase.

Nem precisa.

Algumas pessoas passam a vida inteira dizendo coisas que só fazem sentido muitos anos depois.

A porta abre outra vez.

Uma estudante entra carregando uma mochila quase do tamanho dela.

Compra apenas um pão de queijo.

Enquanto espera o troco, relê um resumo escrito à mão.

Os olhos percorrem as palavras.

A cabeça está na prova que começará dentro de uma hora.

Ela sai sem perceber que deixou o guardanapo sobre o balcão.

O balconista dobra o papel.

Guarda-o discretamente.

Sabe que ela voltará amanhã.

Sempre volta.

Há clientes que compram pão.

Outros compram rotina.

No canto mais silencioso da padaria, um homem permanece diante de uma xícara quase cheia.

O café já esfriou.

Ele continua olhando pela janela.

Não espera ninguém.

Também não tem pressa de ir embora.

Algumas despedidas demoram mais que uma conversa.

Lá fora, a claridade finalmente alcança as fachadas dos prédios.

As calçadas recebem mais passos.

Os carros aumentam.

As bicicletas aparecem.

O barulho cresce.

A cidade desperta sem perceber que alguém já estava trabalhando muito antes do amanhecer.

Pouco antes das sete, a fila aumenta.

Os pedidos aceleram.

Os sacos de papel passam de mão em mão.

O cheiro do pão mistura-se ao das primeiras notícias do rádio.

A manhã deixa de ser promessa.

Agora já é dia.

Quando o movimento diminui, o balconista recolhe as xícaras vazias.

Sobre uma mesa permanece apenas um jornal aberto.

Na primeira página, as notícias ainda são as mesmas.

Mas ninguém que entrou ali naquela hora saiu exatamente igual a quando chegou.

Uns levaram pão.

Outros café.

Alguns apenas alguns minutos de silêncio antes que o mundo começasse a fazer perguntas.

O padeiro limpa as mãos no avental.

Olha rapidamente para a rua.

Sorri sem motivo aparente.

Daqui a pouco o bairro inteiro estará acordado.

E quase ninguém imaginará que o dia começou muito antes, no instante em que o primeiro pão deixou o forno e alguém abriu aquela porta ainda com a madrugada nos ombros.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

O CAIXA DO SUPERMERCADO

Posted in Sem categoria on 16 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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No supermercado, todas as compras parecem começar iguais.

Um carrinho.

Uma cesta.

Uma lista escrita às pressas.

No fim, nenhuma delas se parece com outra.

O caixa nunca pergunta quem é cada pessoa.

Também não precisa.

Há muitos anos aprendeu que os carrinhos chegam antes das palavras.

E quase sempre dizem mais.

Logo pela manhã aparece um carrinho pequeno.

Um pacote de café.

Pão francês.

Leite.

Uma manteiga.

Bananas.

Nada sobra.

Nada falta.

Quem o empurra conhece o preço de cada produto antes mesmo de olhar a etiqueta.

Enquanto espera a fila andar, confere discretamente a soma no visor da registradora.

Faz pequenas contas de cabeça.

Quando o valor ultrapassa o esperado, pede que retirem um chocolate.

Sorri ao fazer o pedido.

Mas o sorriso termina antes do troco.

Pouco depois chega outro carrinho.

Fraldas.

Lenços umedecidos.

Pomada.

Mamadeiras.

Um pacote enorme de papel higiênico.

No meio de tudo, escondida entre caixas e embalagens, uma pequena girafa de pelúcia.

O pai tenta colocá-la novamente sob as compras.

A menina a retira.

Abraça.

Sorri.

Ele desiste.

Algumas compras nunca estiveram na lista.

Mais tarde, uma senhora deposita lentamente seus produtos sobre a esteira.

Duas maçãs.

Meio quilo de arroz.

Um pedaço pequeno de queijo.

Chá.

Um vaso de violetas.

A operadora passa todos os produtos.

Olha novamente para a tela.

— A senhora esqueceu a flor.

A idosa sorri.

— Não.

Hoje eu resolvi lembrar de mim.

A fila continua.

Ninguém comenta.

Mas duas pessoas sorriem discretamente.

No carrinho seguinte há refrigerantes.

Carne para churrasco.

Carvão.

Sorvete.

Guardanapos coloridos.

Copos descartáveis.

Uma caixa de velas de aniversário.

Enquanto organiza as compras, um rapaz envia mensagens sem parar.

Do outro lado da tela, alguém certamente pergunta se falta alguma coisa.

Sempre falta.

Mesmo quando o carrinho parece cheio.

Mais perto da noite chegam as compras silenciosas.

Uma sopa instantânea.

Dois ovos.

Macarrão.

Sabão em pó.

Escova de dentes.

Um pacote de ração.

Quem compra olha pouco para os produtos.

Olha mais para o relógio.

Quer apenas voltar para casa.

A fila avança lentamente.

Nenhum carrinho permanece muito tempo diante do caixa.

Mas todos deixam alguma impressão.

O cheiro do pão recém-assado.

A pressa de quem esqueceu o gelo.

O cuidado de quem escolhe uma fruta de cada vez.

O constrangimento de devolver um produto.

A alegria discreta de encontrar algo em promoção.

No fim do expediente, quando as portas automáticas se fecham e o último cliente desaparece, a operadora começa a organizar o próprio caixa.

Guarda o crachá.

Desliga a esteira.

Confere os valores.

O supermercado fica quase silencioso.

Os corredores parecem maiores.

Os carrinhos permanecem enfileirados perto da entrada.

Vazios.

Pela manhã voltarão a carregar cafés, brinquedos, flores, remédios, bolos, velas, arroz, ração, chocolates, frutas e pequenas decisões que nunca aparecerão no cupom fiscal.

Porque, no supermercado, as pessoas compram alimentos.

Mas levam para casa muito mais do que isso.

Levam memórias.

Reconciliações.

Primeiros almoços.

Últimos jantares.

Esperanças.

Economias.

Ausências.

E pequenos futuros cuidadosamente acomodados entre o pão, o leite e o arroz.

Na saída, um funcionário empurra de volta os carrinhos espalhados pelo estacionamento.

Todos retornam vazios.

Como se nunca tivessem transportado a vida inteira de alguém.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)