Nunca compreendi completamente a satisfação dos que vencem humilhando, essa alegria estreita de contemplar alguém diminuído aos seus pés, como se crescer significasse reduzir a altura daqueles que caminham próximos e como se toda conquista necessitasse do fracasso de outra pessoa.
Talvez a humanidade tenha aprendido cedo demais a construir degraus com as costas daqueles que acreditaram em promessas de companheirismo; depois chama isso de inteligência, competência, oportunidade ou destino, porque sempre encontramos palavras elegantes para nossas piores escolhas.
Também no amor conheci semelhante arquitetura de crueldade, quando alguém recebeu minha confiança como quem recebe uma casa e retirou lentamente as janelas, as portas, os móveis e as lembranças, deixando apenas paredes suficientes para que eu reconhecesse a ausência.
Desde então, certas demonstrações humanas provocam em mim uma ojeriza que não nasce do desejo de condenar pessoas, mas do cansaço de observar a facilidade com que a bondade é utilizada enquanto oferece alguma serventia e descartada quando exige coragem, renúncia ou simplesmente fidelidade.
Há dias em que me pergunto se evoluímos realmente além das aparências, pois inventamos máquinas extraordinárias e palavras cada vez mais sofisticadas, mas continuamos incapazes de sentir vergonha diante da dor que provocamos quando ninguém importante está olhando para aquilo que fazemos.
Há criaturas elegantemente vestidas cuja miséria atravessa o tecido, porque nenhuma aparência consegue esconder por muito tempo a pequenez de quem mede amizades pela utilidade, afetos pela conveniência e pessoas pela quantidade de portas que podem abrir em seu benefício.
Eu também atravessei salões onde a delicadeza servia apenas de verniz, onde mãos se apertavam enquanto pensamentos calculavam vantagens, e sorrisos impecáveis escondiam aquela antiga avidez de possuir o mundo sem oferecer ao mundo sequer a honestidade de uma palavra verdadeira.
Foi nesses lugares que senti saudade de um amor que não permaneceu, embora hoje eu saiba quanto havia de fingimento naquela antiga ternura; a memória possui crueldades particulares, pois conserva a beleza do gesto muito depois de compreendermos a pobreza moral de quem o praticou.
O que me causa repugnância não é a fragilidade natural de qualquer pessoa, porque todos carregamos falhas, hesitações, egoísmos e contradições, mas a serenidade daqueles que ferem deliberadamente e depois caminham como se a dor alheia fosse apenas um objeto quebrado deixado para trás.
Prefiro a pobreza das mãos vazias à abundância de uma alma interesseira, pois quem nada possui ainda pode oferecer presença, respeito e lealdade, enquanto certos homens acumulam tanto durante a existência que terminam possuindo tudo, exceto alguma coisa que mereça ser amada.
Há no homem uma pobreza que nenhum ouro consegue esconder, uma espécie de quarto abandonado por trás das roupas bem passadas, onde repousam promessas que ele pronunciou somente para parecer digno e afetos que ofereceu enquanto julgava possível receber alguma vantagem.
Conheci essa miséria quando amei alguém mais do que deveria, pois o amor, quando sincero, possui o terrível costume de iluminar aquilo que a conveniência humana prefere conservar na penumbra, e descobri que muitos abraços possuem a duração exata do interesse.
Não me entristece que o homem deseje possuir aquilo que ainda não tem, mas que despreze com tanta facilidade aquilo que um dia implorou para ter; há nisso uma indigência que nenhuma fortuna consegue remediar, porque o coração ingrato permanece pobre mesmo cercado de abundância.
Vi palavras de ternura envelhecerem antes de chegar ao fim da tarde, vi juramentos perderem importância diante de uma oportunidade mais cômoda, e compreendi que algumas pessoas não abandonam somente quem as ama, abandonam também a parte decente de si mesmas para não perder vantagens.
Talvez por isso eu contemple o homem com uma tristeza quase fatigada, não porque espere dele uma pureza impossível ou uma perfeição absurda, mas porque tantas vezes ele conhece perfeitamente o caminho da dignidade e escolhe, ainda assim, a pequena estrada onde sua consciência vale menos.
Passei uma parte absurda da vida esperando aplausos, não necessariamente aqueles produzidos pelas mãos. Existem aplausos muito mais discretos: um olhar de admiração, uma inveja mal escondida, alguém pronunciando nosso nome numa conversa importante, a satisfação quase indecente de entrar num lugar e perceber que fomos reconhecidos.
Também existe aquele aplauso particularmente miserável que recebemos quando alguém fracassa e, por comparação, parecemos maiores.
Conheço todos eles.
Durante anos alimentei-me dessa pobreza. Precisava ser visto. Precisava saber que alguém me considerava melhor, mais inteligente, mais importante, mais necessário, mais alguma coisa. Pouco importava exatamente o quê, desde que houvesse alguém abaixo.
Que confissão repugnante.
Mas há uma idade em que mentir para os outros ainda parece possível e mentir para si começa a exigir esforço demais. Eu cansei, e por isso posso dizer.
Houve momentos em que a derrota de certas pessoas me trouxe uma satisfação que jamais deveria ter sentido. Não porque fossem inimigas; isso seria fácil de explicar. Algumas eram amigas. Outras jamais haviam feito qualquer coisa contra mim, mas possuíam alguma coisa que me incomodava: talento, juventude, reconhecimento, amor, talvez simplesmente felicidade.
A felicidade alheia pode ser uma ofensa insuportável para quem está secretamente infeliz.
Nunca admitimos isso. Dizemos que aquela pessoa se exibe, que teve sorte, que recebeu facilidades, que não merece tanto. Encontramos defeitos, investigamos, esperamos, e quando finalmente acontece alguma desgraça, fazemos aquela expressão socialmente adequada:
“Que pena.”
Por dentro, alguma coisa relaxa.
Que criatura desprezível o homem consegue ser sem cometer crime algum.
Talvez seja isso que mais me perturbe. Não são necessários grandes horrores para que sejamos miseráveis. Basta uma pequena alegria diante da tristeza de alguém, uma satisfação escondida, um comentário maldoso pronunciado no momento exato ou uma informação verdadeira contada com intenção suja.
Porque nem toda verdade é inocente.
Aprendi isso tarde.
II ATO — A Crueldade que Não Precisa Mentir
Podemos destruir alguém sem inventar uma única mentira. Basta escolher aquilo que dizer, a quem dizer e quando dizer.
Depois lavamos as mãos.
Era verdade.
Como gostamos dessa defesa: era verdade.
E daí?
A crueldade não precisa mentir. Às vezes ela trabalha perfeitamente com fatos.
Eu trabalhei. Escolhi palavras, esperei momentos, fiz comentários que pareciam observações e ajudei certas dúvidas a crescer.
Nunca empurrei ninguém de um precipício, mas houve ocasiões em que vi alguém próximo da borda e pensei que sua queda tornaria minha paisagem mais bonita.
Tenho vergonha disso.
Não quero perdão. Ainda não.
Perdoamos depressa demais porque não suportamos permanecer culpados. Eu quero suportar um pouco.
Talvez a culpa tenha alguma utilidade quando não é transformada em espetáculo.
O homem moderno quer absolvição instantânea. Comete a indignidade pela manhã, arrepende-se depois do almoço e deseja dormir novamente convencido de que é uma excelente pessoa.
Não.
Algumas coisas deveriam permanecer conosco durante algum tempo, não para nos destruir, mas para nos impedir de repetir.
Eu precisei envelhecer para perceber quanto esforço gastei tentando ser maior que pessoas que jamais estavam competindo comigo.
Que desperdício.
Elas viviam enquanto eu comparava. Elas caminhavam enquanto eu media. Elas celebravam enquanto eu calculava. E, quando alguém me ultrapassava, eu procurava desesperadamente alguma falha que diminuísse a distância.
Talvez toda inveja seja uma régua quebrada. Nunca mede aquilo que somos; mede apenas quanto nos falta para parecer aquilo que desejamos.
E existe sempre alguém acima.
Sempre.
Essa é a crueldade perfeita dessa doença.
Você vence um e imediatamente encontra outro. Recebe um elogio e necessita do próximo. Conquista uma posição e descobre uma posição maior. É admirado por dez e começa a perguntar por que o décimo primeiro permaneceu indiferente.
Nunca termina.
Nunca.
Até que as luzes começam a apagar.
III ATO — Quando as Luzes Começam a Apagar
Primeiro discretamente.
Algumas pessoas deixam de telefonar, outras já não perguntam nossa opinião, nosso nome aparece menos, uma geração mais jovem chega sem conhecer aquilo que fizemos. Contamos uma história importante e alguém olha para o telefone.
Que humilhação maravilhosa.
O mundo continua sem nós.
Durante décadas imaginamos que nossa presença sustentava alguma parte essencial da realidade e, de repente, percebemos que fomos substituídos numa terça-feira.
Nenhuma cerimônia. Nenhuma catástrofe. Apenas outro nome na porta, outra pessoa na cadeira, outra voz sendo ouvida.
E então começamos a contar histórias sobre quando éramos importantes.
É triste.
Há homens que envelhecem falando de si mesmos no passado porque o presente já não lhes oferece plateia suficiente:
“Na minha época…”
“Quando eu estava lá…”
“Quando precisavam de mim…”
Precisavam.
Esse verbo no passado deveria ensinar alguma coisa, mas não ensina. Continuamos desejando aplausos de pessoas que sequer sabem por que deveriam aplaudir.
Talvez a velhice não seja somente a decadência do corpo. Talvez seja também o momento em que a existência começa a retirar, uma por uma, as testemunhas da personagem que construímos.
E então ficamos conosco.
Outra vez.
Sempre acabamos conosco.
É quase engraçado.
Passamos a vida tentando impressionar pessoas das quais inevitavelmente nos separaremos e negligenciamos justamente aquele que permanecerá até o último segundo: nós mesmos.
Que companhia difícil deixamos para a velhice.
IV ATO — A Vitória que Nunca Existiu
Eu poderia ter sido mais generoso.
Essa frase me persegue.
Não mais rico, não mais importante, não mais admirado.
Mais generoso.
Poderia ter elogiado sem sentir que perdia alguma coisa. Poderia ter assistido à vitória de alguém sem transformá-la numa acusação contra mim. Poderia ter ajudado pessoas talentosas sem temer que um dia fossem melhores. Poderia ter sido feliz diante da felicidade alheia.
Parece tão simples agora.
Mas eu queria vencer.
Vencer o quê?
Quem?
Para chegar onde?
Aqui?
Então esta era a linha de chegada?
Um homem cansado recordando disputas cujos adversários nem sabiam que participavam?
Que prêmio ridículo.
Que vitória miserável.
Alguns daqueles que invejei já morreram. Outros desapareceram da minha vida. Há nomes que já não consigo associar a rostos.
Agora alguns estão debaixo da terra e outros talvez estejam em algum lugar fazendo exatamente o que eu faço: tentando compreender por que gastamos tanto tempo disputando uma corrida cujo único destino era envelhecer.
Porque existe um ponto em que todas as diferenças começam a parecer pequenas.
A morte possui essa indelicadeza. Ela aproxima aquilo que a vaidade passou décadas separando: o importante e o desconhecido, o rico e o pobre, o admirado e o ignorado, o vencedor e aquele que chegou por último.
Não digo isso para glorificá-la.
A morte não precisa de propaganda.
A vida é que precisa explicar certas escolhas.
V ATO — A Vida Diante de Suas Escolhas
É a vida que deveria sentar-se aqui diante de mim e responder por que nos oferece tão pouco tempo e permite que desperdicemos tanto tentando parecer superiores.
Mas talvez ela não tenha culpa.
Talvez tenha apenas entregado os dias.
Nós fizemos o restante.
E fizemos muito mal.
Transformamos convivência em competição, amizade em comparação, amor em posse, sucesso em humilhação e reconhecimento em vício.
Depois reclamamos que estamos sozinhos.
Claro que estamos.
Quem transforma todas as pessoas em adversários termina inevitavelmente sem companhia.
Às vezes imagino um teatro vazio. Não sei por quê. Talvez porque minha vida tenha sido exatamente isso sem que eu percebesse.
Um palco.
Passei décadas entrando em cena, ajeitando a postura, escolhendo palavras e esperando aprovação.
E um homem que demorou demais para compreender que o silêncio não começou quando a plateia foi embora.
O silêncio estava dentro dele desde o início.
Talvez por isso precisasse de tanto barulho.
Eu precisava que os outros aplaudissem porque nunca soube o que fazer quando ficava sozinho.
Agora sei.
Fico.
Não corro, não invento outra competição e não procuro alguém menor para sentir-me grande.
VI ATO — A Pobreza que Tem o Meu Rosto
Permaneço diante dessa pobreza.
Minha.
Humana.
Não aquela pobreza que pede dinheiro. A outra: aquela que possui tudo e ainda precisa retirar alguma coisa de alguém para sentir que possui bastante.
Essa me causa ojeriza, sobretudo porque conheço seu rosto.
É o meu.
E talvez esse seja o último castigo da vaidade: descobrir que passamos a existência inteira procurando admiradores quando deveríamos ter procurado razões para sermos dignos de admiração.
Agora é tarde para alguns pedidos.
Há pessoas a quem jamais poderei devolver aquilo que diminuí. Há elogios que morreram dentro da minha boca. Há vitórias que eu deveria ter celebrado. Há mãos que poderia ter levantado em vez de tentar mantê-las abaixo das minhas.
Não posso corrigir tudo.
Essa é outra arrogância que precisei abandonar.
Nem todo arrependimento recebe oportunidade de reparação.
Às vezes resta apenas saber.
E carregar.
As luzes estão se apagando.
Não tenho medo delas.
Talvez seja bom finalmente enxergar menos o palco e mais aquilo que existia por trás dele.
Não quero outro aplauso.
Seria inútil.
Quero apenas não precisar mais da derrota de ninguém para suportar aquilo que sou.
VII ATO — Depois do Último Aplauso
Porque finalmente compreendi: quando as luzes se apagam, ninguém pergunta quem recebeu mais aplausos. Ninguém pergunta quem ocupou o centro do palco. Ninguém pergunta quem venceu.
Resta apenas aquilo que fizemos enquanto havia outras pessoas conosco.
E quando a última cadeira estiver vazia, quando não existir mais ninguém a quem impressionar, diminuir ou superar, talvez descubramos a verdade que nossa vaidade passou a vida inteira tentando esconder:
Nunca fomos maiores porque alguém estava abaixo.
Nunca fomos melhores porque alguém perdeu.
Nunca fomos importantes porque fomos aplaudidos.
Éramos apenas homens fazendo barulho diante do medo de sermos pequenos.
Talvez essa seja a palavra mais exata que ainda consigo pronunciar sobre mim.
Parecendo.
Parecendo feliz quando a felicidade já havia recolhido suas coisas e saído sem despedida. Parecendo forte quando qualquer palavra pronunciada no lugar certo conseguiria desmontar aquilo que eu chamava de equilíbrio. Parecendo amado quando o amor havia se tornado apenas uma fotografia antiga que eu continuava mostrando aos outros para não precisar explicar o vazio.
Eu parecia e fui ficando extraordinariamente bom nisso.
Há pessoas que aprendem música, outras dominam idiomas, algumas constroem casas ou conhecem profundamente números, máquinas, livros e negócios.
Eu aprendi a parecer.
Aprendi a medida correta do sorriso, o momento de baixar os olhos, a duração apropriada de um abraço e a frase necessária para demonstrar interesse. Aprendi até a rir quando não havia nada dentro de mim que reconhecesse alguma graça.
Talvez eu pudesse ter recebido um prêmio. Os homens gostam de premiar representações convincentes.
Chamam isso de sucesso.
Que palavra miserável.
Sucesso.
Passei tantos anos perseguindo essa palavra que nunca perguntei exatamente onde ela pretendia levar-me.
Agora sei.
Até aqui.
Até este homem que possui algumas coisas e não consegue lembrar a última vez em que desejou sinceramente voltar para casa.
Minha casa.
Outra palavra generosa demais.
II ATO — A Casa da Ausência
Existem paredes, móveis, objetos escolhidos cuidadosamente, cortinas que combinam com o restante da decoração, taças que quase nunca foram utilizadas e uma mesa grande demais para a quantidade de pessoas que ainda desejam sentar-se comigo.
Durante anos pensei que estava construindo uma vida.
Talvez estivesse apenas mobiliando uma ausência.
Há diferença.
Demorei demais para perceber.
Minha mulher percebeu antes.
Ela costumava olhar para mim de uma maneira que me incomodava profundamente. Não era desprezo. Teria sido mais fácil se fosse.
Era pena.
A piedade de alguém que assiste ao homem que ama desaparecer dentro da personagem que inventou.
Eu odiava aquele olhar. Perguntava o que havia de errado.
Ela dizia:
“Nada.”
E eu aceitava.
Como eu gostava daquela palavra.
Nada.
Nada permitia continuar. Nada não exigia mudanças. Nada não fazia perguntas. Nada podia ser colocado debaixo do tapete junto com todas as outras coisas que não combinavam com nossa aparência.
Éramos um casal bonito.
Disseram isso muitas vezes.
Eu gostava.
Ela, nos últimos anos, sorria quando ouvia. Hoje compreendo aquele sorriso.
Era o sorriso de quem já havia descoberto a piada.
Nós parecíamos felizes.
É diferente.
Muito diferente.
Amor e aparência conseguem viver juntos durante algum tempo, mas chega uma hora em que um deles começa a sufocar.
O nosso amor sufocou.
E eu continuei ajeitando a gravata.
Essa talvez seja a lembrança que mais me enoja.
Não as discussões, não os silêncios, não a despedida.
A gravata.
Porque enquanto alguma coisa morria diante de mim, eu ainda me preocupava em parecer um homem cuja vida estava perfeitamente organizada.
Há uma vulgaridade enorme nisso.
O mundo desabando dentro de casa e eu verificando se alguém do lado de fora havia escutado o barulho.
Que homem pequeno.
Que extraordinária pobreza.
III ATO — A Aparência do Amor
Eu não queria salvar o amor.
Queria salvar a aparência do amor.
Não queria que ela permanecesse porque ainda conseguíamos alcançar um ao outro. Queria que permanecesse porque sua partida faria perguntas surgirem.
O que aconteceu?
Por quê?
Vocês pareciam tão bem.
Pareciam.
Sempre essa palavra.
Quando ela finalmente foi embora, senti uma dor profunda.
Durante algum tempo chamei aquilo de amor.
Hoje já não tenho tanta certeza.
Talvez parte daquela dor fosse apenas humilhação.
Eu havia sido abandonado.
Eu.
O homem que parecia ter tudo.
Que inconveniência.
As pessoas poderiam perceber que alguma coisa estava errada.
Então contei uma versão elegante.
Duas pessoas amadureceram de maneiras diferentes. Os caminhos se separaram. Continuamos amigos. Respeito permanece.
Essas frases são maravilhosas porque não possuem sangue.
São limpas.
Podem ser pronunciadas durante um jantar.
Ninguém perde o apetite.
A verdade era menos apresentável.
Nós nos tornamos estranhos dentro da mesma cama.
Eu havia parado de ouvi-la muito antes de ela parar de falar comigo. Ela havia desistido de pedir presença.
Eu confundia dinheiro com cuidado, estabilidade com afeto e fidelidade física com amor.
Nunca a traí com outra mulher.
Durante anos tive orgulho disso.
Como se existisse somente uma maneira de trair alguém.
Traí aquela mulher com minha indiferença, com minhas prioridades, com minha necessidade de ser admirado e com todas as vezes em que escolhi impressionar desconhecidos em vez de compreender quem dormia ao meu lado.
Fui fiel ao corpo dela e infiel à sua solidão.
IV ATO — A Verdade que a Fotografia Esconde
Não existe fotografia capaz de mostrar isso.
Ainda bem.
Fotografias foram feitas para colaborar conosco. Elas congelam o sorriso e escondem aquilo que aconteceu cinco minutos antes.
Tenho centenas.
Em todas parecemos felizes.
Às vezes espalho algumas sobre a mesa.
É quase perverso.
Dois desconhecidos sorrindo para mim.
Eu olho aquele homem mais jovem e tenho vontade de perguntar se ele sabia. Se percebia. Se alguma parte dele compreendia que estava trocando coisas verdadeiras pela admiração de pessoas que desapareceriam.
Talvez soubesse.
Essa hipótese é pior.
Porque ignorância ainda oferece alguma defesa.
Mas saber e continuar…
Há atitudes humanas que me causam repugnância: a falsidade, a bajulação, a arrogância, a ingratidão, a facilidade com que algumas pessoas abandonam outras depois de utilizá-las.
Passei anos condenando tudo isso.
Mas existe uma espécie de nojo muito mais difícil de suportar.
Aquele que sentimos quando reconhecemos no próprio comportamento uma versão daquilo que desprezávamos.
Não há distância suficiente para fugir.
Não posso atravessar a rua para evitar-me.
Não posso fechar a porta antes que eu entre.
Estou sempre aqui.
Talvez seja essa a verdadeira condenação da consciência: obrigar o homem a morar dentro daquilo que fez de si.
V ATO — O Inventário das Coisas
E agora?
O que faço com tudo aquilo que acumulei para provar que havia vencido?
Alguns ternos. Relógios. Objetos. Documentos. Fotografias. Reconhecimentos.
Coisas.
Tantas coisas.
Às vezes imagino minha casa depois que eu morrer.
Não há morbidez nisso.
Há apenas matemática.
Alguém precisará entrar, abrir armários, separar papéis e decidir o que fica e o que vai embora.
Aquilo que custou meses de trabalho poderá terminar dentro de uma caixa.
Alguém perguntará quanto vale.
Outro responderá um número decepcionante.
E pronto.
Uma existência inteira convertida em objetos usados.
Talvez seja justo.
Passei tanto tempo atribuindo valor às aparências que seria quase elegante terminar avaliado por elas.
Mas existe uma coisa que ninguém encontrará nos armários.
O tempo que não ofereci.
Esse não pode ser vendido.
As palavras que não pronunciei também não. Os abraços adiados não ocupam espaço. As noites em que alguém precisou de mim e encontrou apenas minha ausência não poderão ser colocadas numa caixa.
Que patrimônio extraordinário.
Tudo aquilo que realmente importa desaparece sem deixar recibo.
VI ATO — A Morte Não Consulta o Currículo
E então a morte.
Sempre ela.
Não como ameaça.
Como interrupção.
Como aquela mão que finalmente fecha o estabelecimento depois de perceber que nenhum cliente entrará novamente.
Penso nela algumas vezes.
Não a desejo.
Também não lhe peço distância.
Apenas reconheço sua honestidade.
Ela virá sem perguntar quanto paguei pelo relógio, sem interessar-se pelo endereço, sem verificar minhas roupas e sem consultar as pessoas que me admiravam.
Que falta de educação.
Passamos décadas construindo importância e a morte não demonstra qualquer respeito por nosso currículo.
Talvez por isso ela seja tão necessária ao pensamento.
Não porque devamos desejá-la, mas porque sua existência ridiculariza muitas das coisas pelas quais sacrificamos a vida.
Que ironia.
Sacrificar a vida por aquilo que a morte sequer reconhecerá.
E eu fiz isso.
Não quero consolo.
Já recebi consolo suficiente.
O consolo é primo da aparência.
Ambos cobrem aquilo que não desejamos olhar.
Quero permanecer diante daquilo que restou.
Sem seda.
Sem títulos.
Sem a elegância que durante tantos anos utilizei para esconder minha pobreza.
Porque fui pobre.
Terrivelmente pobre.
Não de dinheiro.
Seria mais simples.
Fui pobre de coragem para admitir que estava infeliz. Pobre de humildade para pedir perdão enquanto ainda havia alguém disposto a escutar. Pobre de presença diante de quem me amava.
Pobre de verdade.
E nenhuma riqueza consegue corrigir retroativamente essa miséria.
VII ATO — A Última Verdade Viva
Talvez um dia alguém encontre uma fotografia minha e diga que eu parecia elegante.
Provavelmente parecia.
Espero que não diga que eu parecia feliz.
Seria insuportável continuar mentindo depois de morto.
Porque agora compreendo o preço da aparência.
Não foi o dinheiro que gastei para mantê-la.
Foi aquilo que precisei esconder para que ela continuasse intacta.
Minha tristeza.
Minha covardia.
Minha solidão.
Meu amor apodrecendo sem testemunhas.
E aquele homem que poderia ter sido alguma coisa diferente, mas preferiu passar a existência inteira parecendo.
Hoje já não quero parecer.
Quero apenas chegar ao fim sem precisar representar para mim mesmo.
Se ainda houver alguma dignidade possível neste resto de homem, talvez seja essa: permitir que todas as aparências morram antes dele, para que, quando a morte finalmente vier buscar o que inevitavelmente lhe pertence, encontre ao menos uma verdade viva.