O GUARDA-CHUVA ESQUECIDO

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há objetos que parecem nascer para permanecer ao lado da mesma pessoa durante toda a vida. Outros, porém, aceitam com naturalidade a condição de nunca pertencer completamente a ninguém.

O guarda-chuva talvez seja o mais inquieto deles.

Passa meses esquecido atrás de uma porta. Depois acompanha alguém por algumas quadras, protege uma conversa inesperada, atravessa uma tempestade e desaparece novamente, como se entendesse que sua verdadeira utilidade não fosse resistir à chuva, mas atravessar vidas.

Ninguém sabe exatamente quando aquele guarda-chuva apareceu no café da esquina. Era preto, de cabo de madeira já um pouco gasto e tecido marcado por pequenas manchas que denunciavam muitos invernos. Não era bonito nem chamava atenção. Talvez por isso tenha permanecido durante três dias encostado ao suporte próximo à entrada sem que ninguém perguntasse por ele.

No primeiro dia, todos imaginaram que o dono voltaria em poucos minutos. No segundo, o esquecimento começou a parecer definitivo. No terceiro, o guarda-chuva já fazia parte da paisagem, como a máquina de café ou o vaso de samambaias perto da janela.

Foi então que começou sua segunda história.

Naquela manhã, uma professora saiu apressada da padaria quando percebeu que a chuva engrossava. Hesitou por um instante diante da porta, olhou para o céu e para o relógio, como se ambos pudessem negociar alguns minutos de trégua. O balconista apontou discretamente para o guarda-chuva esquecido.

— Pode levar. Se aparecer o dono, a gente explica.

Ela agradeceu com um sorriso e desapareceu entre as gotas.

Na tarde seguinte, o guarda-chuva voltou. Não trazia mais apenas a chuva do caminho. Trazia também um pequeno risco no cabo, provavelmente deixado pelo corrimão de algum ônibus, e uma delicada fita azul amarrada próxima à empunhadura. A professora talvez a tivesse colocado para reconhecê-lo. Ou simplesmente para lhe devolver um pouco de alegria.

Dias depois, um rapaz saiu do café segurando o mesmo guarda-chuva. Não chovia. O sol era forte. Usou-o para proteger um vaso de flores durante a caminhada até o carro. Ao retornar, esqueceu-se de trazê-lo de volta.

Dessa vez foi uma criança quem o encontrou.

Perguntou à mãe se poderiam levá-lo.

A mãe respondeu que não era deles.

A menina ficou alguns segundos olhando para o guarda-chuva, depois perguntou:

— Então ele é de quem?

A mulher demorou a responder.

Percebeu que algumas perguntas são mais difíceis justamente porque parecem simples.

— Acho que, por enquanto, ele é de quem estiver precisando.

A menina aceitou a resposta como as crianças costumam aceitar as coisas que os adultos levam anos para compreender.

Passaram-se semanas.

Vieram dias de chuva e dias de céu completamente limpo.

O guarda-chuva aparecia e desaparecia sem que ninguém conseguisse acompanhar exatamente seu caminho. Às vezes voltava com gotas ainda presas às hastes. Outras vezes trazia areia na ponta, como se tivesse caminhado pela praia. Em certa ocasião, apareceu com um pequeno adesivo de um parque infantil colado junto ao cabo. Ninguém o retirou.

O objeto começava a acumular marcas que já não pertenciam ao primeiro dono.

Pertenciam ao tempo.

Numa manhã de inverno, um senhor de cabelos muito brancos entrou no café apenas para tomar um café curto antes da caminhada. Ao pagar a conta, seus olhos encontraram o velho guarda-chuva encostado junto à porta.

Aproximou-se devagar.

Passou a mão sobre o cabo de madeira.

Sorriu discretamente.

O balconista percebeu.

— É seu?

O velho permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Não sei mais.

Depois riu.

— Acho que um guarda-chuva deixa de ser da gente no dia em que protege outra pessoa.

Saiu sem levá-lo.

Naquele momento, compreendi que alguns objetos não envelhecem porque resistem ao tempo.

Envelhecem porque passam a carregar pequenos fragmentos de muitas vidas.

Talvez fosse por isso que aquele guarda-chuva já não esperasse o antigo dono.

Esperava apenas a próxima chuva.

E, com ela, a próxima história.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

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