O VELHO BANCO DA PRAÇA

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há bancos que pertencem aos jardins.

Outros pertencem às praças.

Este já não parecia pertencer a lugar nenhum.

Fazia tanto tempo que permanecia ali que até as árvores ao redor pareciam ter crescido para lhe fazer companhia. A tinta verde desaparecera em muitos pontos. A madeira carregava pequenas rachaduras abertas pelo sol de muitos verões e pela umidade de muitos invernos. Um dos pés afundava discretamente na terra, obrigando quem se sentava à direita a inclinar o corpo quase sem perceber.

A prefeitura já havia trocado os postes.

Os canteiros.

Os brinquedos.

Os ladrilhos da calçada.

O banco ficou.

Não porque fosse importante.

Mas porque ninguém se lembrara dele.

Pouco antes das seis, quando a praça ainda era maior que o barulho da cidade, o primeiro visitante chegou.

Um homem de cabelos grisalhos caminhava sempre no mesmo ritmo. Parava diante do banco, apoiava uma garrafa de água ao lado e permanecia alguns minutos olhando os galhos mais altos das sibipirunas.

Nunca se sentava imediatamente.

Como quem cumprimenta um velho amigo antes de iniciar a conversa.

Quando enfim se acomodava, fechava os olhos.

Não dormia.

Também não rezava.

Apenas permanecia.

Depois seguia a caminhada.

Sem olhar para trás.

Pouco depois chegaram dois garis.

Sentaram apenas o tempo suficiente para dividir um café trazido numa garrafa térmica.

Conversavam sobre futebol.

Mas riam das próprias dores nas costas.

— Se a coluna reclamar mais um pouco, vou pedir aposentadoria por cansaço dela.

Os dois riram.

Levantaram.

O banco voltou ao silêncio.

Às oito, uma menina de uniforme escolar esperava a mãe terminar uma ligação.

Enquanto isso, desenhava com o dedo pequenas estradas sobre a poeira acumulada no assento.

Quando a mãe chamou, ela apagou tudo com a palma da mão.

As cidades imaginárias desapareceram antes mesmo de existirem.

Mais tarde, um rapaz abriu um caderno.

Espalhou folhas.

Apagou frases.

Escreveu outras.

Olhava mais para as pessoas passando do que para aquilo que tentava escrever.

Depois arrancou uma página.

Dobrou cuidadosamente.

Guardou no bolso.

Levou o restante.

A folha ficou.

Presa sob um dos pés do banco.

O vento tentou carregá-la.

Não conseguiu.

Ao meio-dia, um entregador apoiou a mochila térmica no chão.

Comprou um salgado na padaria da esquina.

Comeu em menos de cinco minutos.

Consultou o celular.

Suspirou.

Voltou para a bicicleta.

Algumas pausas duram menos que a fome.

À tarde, a praça mudou de voz.

As crianças ocuparam os brinquedos.

As pombas desistiram do gramado.

Os cachorros passaram a acreditar que todos os bancos lhes pertenciam.

Uma senhora chegou trazendo um pequeno saco de milho.

Sentou-se devagar.

Chamava os pombos pelo mesmo assobio havia tantos anos que alguns pareciam reconhecê-la antes mesmo de enxergarem o alimento.

Enquanto os pássaros disputavam os grãos, ela sorria sozinha.

Nunca alimentava apenas os pombos.

Alimentava uma lembrança.

Quando o sol começou a baixar, um rapaz e uma moça dividiram o banco.

Entre eles havia espaço suficiente para outra pessoa.

Conversaram pouco.

Às vezes o silêncio aproximava mais do que qualquer frase.

Antes de ir embora, ela retirou discretamente uma aliança da bolsa.

Colocou-a no dedo.

Ele percebeu.

Não perguntou nada.

Levantaram juntos.

Saíram em direções opostas.

O banco permaneceu olhando para o lago.

Como sempre fizera.

No começo da noite, um homem chegou carregando um buquê de flores.

Sentou-se.

Olhou diversas vezes para o relógio.

Depois para a entrada da praça.

As flores começaram a perder o frescor.

As sombras cresceram.

As luzes dos postes acenderam.

Ele levantou.

Levou consigo apenas metade das flores.

As outras ficaram sobre o banco.

Ninguém soube se era um reencontro desfeito.

Ou uma despedida atrasada.

Quando a praça finalmente se esvaziou, o zelador iniciou a rotina de todas as noites.

Recolheu latas.

Papéis.

Uma garrafa esquecida.

Ao passar diante do banco, pegou também o pequeno buquê.

Parou por um instante.

Observou as flores.

Depois caminhou até um vaso próximo ao coreto e as colocou ali.

Talvez durassem mais um dia.

Talvez não.

Na manhã seguinte, o banco continuava no mesmo lugar.

Recebeu novamente o homem da caminhada.

Os garis.

As crianças.

Os estudantes.

Os enamorados.

Os solitários.

Nenhum deles era exatamente o mesmo do dia anterior.

O banco também não.

Agora havia, entre duas tábuas da madeira, um único grão de milho esquecido.

Uma pequena marca deixada pela água do buquê.

E uma folha de caderno que o vento finalmente conseguira levar.

Foi então que compreendi uma coisa.

As pessoas acreditam que descansam nos bancos das praças.

Talvez aconteça o contrário.

Durante alguns minutos, é a vida que repousa ali.

Depois levanta.

E continua caminhando.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

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