Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo
(Betto Gasparetto)
Cântico VIII — O Horizonte Nunca Era o Mesmo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Transitus Primus — A Estrada Além das Muralhas
Havia uma antiga estrada que deixava os portões da cidade e seguia em direção às colinas, atravessando campos cultivados, pequenos bosques, riachos de águas transparentes e extensas pradarias onde o vento parecia conversar silenciosamente com as altas gramíneas.
Não era um caminho conhecido apenas pelos viajantes.
Também era percorrido por aqueles que desejavam compreender melhor o próprio pensamento.
A distância oferecia uma forma singular de proximidade.
Quanto mais o horizonte se ampliava, mais claras se tornavam as ideias que permaneciam ocultas na agitação cotidiana.
As muralhas desapareciam lentamente atrás da paisagem.
As torres transformavam-se em discretos contornos desenhados sobre a linha distante do céu.
As casas, antes tão numerosas, convertiam-se em pequenas formas que pareciam repousar serenamente sobre a terra.
A vastidão ensinava humildade.
Tudo aquilo que parecia imenso dentro da cidade encontrava sua verdadeira dimensão diante da amplidão dos campos.
Também os sentimentos aprendiam semelhante lição.
A afeição verdadeira jamais desejava ocupar todo o espaço.
Escolhia caminhar ao lado da liberdade.
Respeitava os silêncios.
Compreendia os tempos de reflexão.
Sabia que nenhuma convivência floresce onde a confiança deixa de respirar.
Transitus Secundus — As Conversações do Caminho

Os primeiros raios da manhã percorriam lentamente as colinas.
As árvores recebiam a claridade antes das estradas.
Os pássaros iniciavam seus voos discretos sem perturbar a tranquilidade da paisagem.
Tudo parecia nascer novamente a cada amanhecer, embora nada perdesse sua identidade.
Essa renovação constante inspirava um entusiasmo sereno.
Era possível recomeçar sem abandonar aquilo que já havia sido construído.
As caminhadas tornaram-se parte da própria convivência.
Nenhuma possuía destino obrigatório.
Importava menos o lugar alcançado do que as conversações que acompanhavam cada passo.
Falava-se das antigas cidades cercadas por muralhas.
Dos mercados onde artesãos exibiam pacientemente o resultado de anos de aperfeiçoamento.
Dos jardins planejados para acolher tanto a contemplação quanto o descanso.
Das bibliotecas que preservavam a memória dos povos.
Dos navegadores que aprendiam a orientar-se mais pelas estrelas do conhecimento do que pelos ventos passageiros da sorte.
Cada assunto ampliava o respeito mútuo.
Cada lembrança fortalecia a admiração.
Cada pergunta revelava um novo horizonte da inteligência.
Nenhuma conversa buscava vencer.
Todas procuravam descobrir.
As respostas não encerravam os assuntos.
Abriam novas possibilidades de reflexão.
Transitus Tertius — As Lições da Paisagem

Assim como a estrada jamais terminava na colina seguinte, o pensamento também recusava qualquer sensação de conclusão definitiva.
Sempre existia uma nova perspectiva.
Sempre havia outro caminho para observar a mesma paisagem.
As antigas pontes de pedra permaneciam firmes sobre os riachos.
A água seguia seu curso sem pressa.
As margens conservavam delicadas flores silvestres que floresciam sem depender da atenção dos viajantes.
Havia uma beleza profundamente digna em existir apenas porque era natural existir.
Também o afeto encontrava sua maior elegância nessa simplicidade.
Não necessitava de testemunhas.
Não buscava reconhecimento.
Manifestava-se na constância.
Na confiança.
Na serenidade.
Na escolha diária de permanecer presente.
As estações alteravam lentamente a aparência dos campos.
O verde intenso dava lugar aos tons dourados das colheitas.
Depois surgiam as cores mais suaves do repouso da terra.
Mais tarde, novos brotos voltavam a anunciar o ciclo seguinte.
Nenhuma mudança representava perda.
Cada transformação preparava a beleza que ainda viria.
Assim também amadureciam as existências humanas.
Toda experiência acrescentava profundidade.
Toda dificuldade fortalecia a prudência.
Toda alegria ensinava gratidão.
Todo reencontro renovava a esperança.
Transitus Quartus — O Horizonte da Permanência

A caminhada prosseguia sem qualquer necessidade de acelerar os passos.
Os viajantes compreendiam que algumas jornadas não devem ser encurtadas.
Cada trecho possuía sua própria importância.
Cada paisagem merecia contemplação.
Cada silêncio trazia consigo um significado impossível de ser traduzido imediatamente em palavras.
A convivência alcançava uma forma rara de equilíbrio.
Já não dependia de novidades para conservar seu encanto.
Descobria extraordinária beleza na continuidade.
Na repetição das boas escolhas.
Na familiaridade construída lentamente.
Na segurança proporcionada por quem permanece fiel ao próprio caráter.
As sombras das árvores acompanhavam o deslocamento do sol.
O perfume da relva misturava-se ao ar fresco das colinas.
Os caminhos estreitos atravessavam pequenos bosques onde a luz penetrava delicadamente entre os galhos mais antigos.
Tudo parecia desenhado para ensinar que a verdadeira grandeza jamais precisa afastar-se da delicadeza.
Os grandes carvalhos cresciam lentamente.
As pedras permaneciam imóveis durante séculos.
Os rios jamais interrompiam seu percurso.
Nada buscava impressionar.
Tudo apenas cumpria com excelência sua própria natureza.
Era impossível caminhar tantas vezes por aquela estrada sem compreender que o romance mais elevado também pertence a essa mesma ordem silenciosa.
Não nasce para dominar.
Nasce para acompanhar.
Não exige perfeição.
Convida ao aperfeiçoamento.
Não elimina as diferenças.
Transforma-as em novas possibilidades de compreensão.
As primeiras luzes do entardecer espalhavam-se lentamente sobre os campos.
O horizonte adquiria tonalidades suaves que pareciam dissolver toda pressa acumulada ao longo do dia.
As muralhas reapareciam ao longe, acolhendo silenciosamente aqueles que regressavam.
Nada havia mudado na cidade.
Entretanto, tudo parecia diferente para quem retornava.
As mesmas ruas revelavam novos significados.
Os mesmos jardins pareciam mais amplos.
As mesmas torres tornavam-se ainda mais belas.
Porque nenhuma paisagem permanece igual depois que o olhar aprende a contemplá-la com verdadeira atenção.
Foi então que se compreendeu que o horizonte jamais se repete, não porque o mundo mude incessantemente, mas porque cada jornada transforma discretamente aquele que a percorre.
E quando duas existências aceitam caminhar lado a lado por longos caminhos, compartilhando pensamentos, respeitando silêncios, celebrando descobertas e acolhendo as mudanças com serenidade, o próprio tempo deixa de ser uma sucessão de dias e transforma-se em uma vasta estrada onde cada amanhecer oferece uma nova oportunidade de admirar, com renovado entusiasmo, a beleza inesgotável de uma história construída pela permanência, pela delicadeza e pela nobre arte de continuar caminhando juntos.
*****—*—*****—*—*****—*—*****
(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)