(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Existem poucos lugares onde estranhos permanecem tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes.
O elevador é um deles.
A porta se fecha e, durante alguns segundos, todos parecem assinar um acordo silencioso.
Ninguém pergunta.
Ninguém comenta.
Ninguém invade.
Cada passageiro recebe um pequeno território invisível, medido não por paredes, mas pela delicadeza de não existir demais diante dos outros.
Há quem descubra, naquele breve percurso, um interesse repentino pelos números do painel.
Outros examinam com atenção a própria imagem refletida no aço polido, como se o espelho tivesse algo novo a revelar entre o térreo e o décimo segundo andar.
Há também os que encontram extraordinário fascínio pelos próprios sapatos.
Qualquer coisa serve.
A gravata.
O relógio.
A bolsa.
O botão de abrir a porta.
Tudo parece mais confortável do que sustentar o olhar de um desconhecido durante cinco segundos.
Curiosamente, ninguém entra em um elevador levando apenas o corpo.
Entram preocupações.
Reuniões.
Consultas.
Entrevistas.
Compras.
Saudades.
Às vezes, até despedidas.
Mas tudo isso permanece escondido atrás de uma expressão cuidadosamente neutra.
Como se o silêncio fosse parte do uniforme exigido para subir alguns andares.
Uma senhora segura um vaso de violetas com as duas mãos.
Um rapaz carrega um capacete de motociclista.
Uma criança abraça uma mochila maior que as próprias costas.
Um entregador equilibra duas caixas de papelão.
Nenhum deles conhece a história do outro.
Nem precisa.
O elevador nunca foi construído para aproximar pessoas.
Foi construído para aproximar andares.
Mesmo assim, acontece.
De vez em quando, um bebê sorri para alguém.
Uma criança pergunta em voz alta por que todos estão tão quietos.
Um cachorro decide cumprimentar quem fingia não notar sua presença.
Nesses instantes, o pacto do silêncio vacila.
Os adultos sorriem.
Quase constrangidos.
Como se tivessem sido surpreendidos esquecendo uma regra que nunca foi escrita.
O painel anuncia mais um andar.
A porta se abre.
Alguém sai.
Outro entra.
O perfume muda.
O silêncio permanece.
Talvez seja esse o verdadeiro mistério dos elevadores.
Eles aproximam corpos.
Mas deixam às pessoas a tarefa muito mais difícil de decidir até onde desejam aproximar as próprias vidas.
No último andar, todos se dispersam com a rapidez de quem precisa recuperar a distância interrompida por alguns segundos.
Ninguém se despede.
Ninguém promete voltar.
O elevador fecha novamente as portas.
Desce vazio.
Pela primeira vez naquela manhã, não carrega perfumes.
Nem pastas.
Nem sacolas.
Nem silêncios.
Carrega apenas o espaço que, dentro de alguns instantes, será novamente ocupado por pessoas que aprenderam, desde muito cedo, a compartilhar poucos metros quadrados sem jamais permitir que a própria existência ultrapasse a linha discreta de um cumprimento.
(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)