(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
No quarto 407 havia duas camas.
A janela ficava entre elas.
Era uma janela simples, de vidro grosso, com uma vista nada extraordinária: um pedaço da rua, algumas árvores, o estacionamento do hospital e, ao fundo, os prédios da cidade seguindo sua rotina.
Para a maioria das pessoas, não havia nada interessante ali.
Mas para quem estava deitado naquele quarto, aquela janela era quase uma televisão ligada o dia inteiro.
Na cama próxima à porta estava Antônio.
Setenta anos.
Um homem acostumado a resolver tudo sozinho.
Reclamava da comida, do barulho do corredor e principalmente do tempo que parecia passar mais devagar dentro de um hospital.
— Essa árvore precisa de poda — dizia.
— Aquele carro está estacionado errado.
— A cidade está cada dia mais desorganizada.
A enfermeira já conhecia suas observações.
— O senhor percebe tudo, seu Antônio.
Ele respondia:
— Só estou velho, não cego.
Na outra cama estava Lucas.
Trinta e dois anos.
Havia chegado assustado na primeira noite.
Falava pouco.
Passava horas olhando pela janela.
Antônio achava estranho.
— Você fica olhando essa rua há dias. Está esperando alguém?
Lucas demorou a responder.
— Estou tentando imaginar quando vou voltar a caminhar por ela.
Antônio ficou em silêncio.
Pela primeira vez, percebeu que talvez não estivesse apenas dividindo um quarto.
Estava dividindo uma história.
Com o passar dos dias, os dois começaram a conversar.
Antônio contou sobre a antiga oficina que tinha fechado depois de quarenta anos.
Lucas falou sobre o filho pequeno que perguntava todos os dias quando ele voltaria para jogar bola.
A mesma janela mostrava coisas diferentes para cada um.
Quando chovia, Antônio reclamava.
— Mais um dia perdido.
Lucas observava as gotas no vidro.
— Pelo menos as árvores ficam mais bonitas.
Quando o sol aparecia, Antônio dizia:
— Esse calor ainda vai acabar com a cidade.
Lucas sorria.
— Hoje parece um bom dia para sair daqui.
Uma manhã, enquanto tomavam café, viram uma menina atravessando o estacionamento correndo para abraçar alguém que acabava de sair do hospital.
Lucas sorriu.
— Um dia vou ser eu ali fora.
Antônio olhou pela janela.
Dessa vez não encontrou nada para reclamar.
Algumas semanas depois, Lucas recebeu alta.
Arrumou suas coisas e se despediu.
— Espero que o senhor também vá embora logo.
Antônio respondeu:
— Eu também.
Quando ficou sozinho, o quarto pareceu maior.
A janela continuava exatamente no mesmo lugar.
A rua continuava movimentada.
Os carros continuavam chegando e saindo.
As pessoas continuavam apressadas.
Mas agora Antônio olhava diferente.
Não via apenas problemas.
Via histórias acontecendo.
Alguns dias depois, recebeu também a notícia de que poderia voltar para casa.
Antes de sair, aproximou-se da janela pela última vez.
A árvore continuava precisando de poda.
O carro continuava mal estacionado.
A cidade continuava cheia de problemas.
Ele sorriu.
Talvez a paisagem nunca tenha mudado.
Talvez quem precisasse mudar era o jeito de olhar para ela.
Porque uma mesma janela pode mostrar apenas uma parede para quem espera o fim.
Ou um caminho para quem ainda acredita no próximo passo.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)