Arquivo para maio, 2026

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 39/39)

Posted in Sem categoria on 31 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Salão Nobre

Trilha: Sergei Rachmaninoff — Vocalise

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 39 — Uma Rosa Fria

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O vento sopra forte. Uma rosa fria repousa no chão frio de alguém.

Naquela noite todos estavam presentes.

Todos.

O salão principal encontrava-se iluminado por dezenas de velas.

As lareiras queimavam.

Do lado externo a tempestade reaparecera.

Mais forte.

Muito mais.

Vento.

Neve.

Escuridão.

Parecia que o mundo havia desaparecido além das paredes do Solar.

A mesa do jantar permanecia posta.

Mas ninguém realmente jantava.

Conversavam pouco.

Observavam demais.

E Sophie percebeu.

Sophie sempre percebia.

Olhou:

Clara evitava Marguerite.

Marguerite evitava Alaric.

Helena evitava perguntas.

Émile evitava fotografias.

Lukas evitava o pai.

E Alaric

Alaric evitava a si mesmo.

Silêncio.

Até que Nikola entrou correndo.

Outra vez.

Ofegante.

Segurando papel dobrado.

Anika levantou-se imediatamente.

— Nikola!

Mas o menino parou.

Olhou todos.

Depois:

— Achei perto da oficina.

Silêncio.

Entregou a Helena Dubois.

Ela abriu.

Leu.

Empalideceu.

Muito.

Silêncio absoluto.

Clara levantou-se.

— O que houve?

Helena permaneceu imóvel.

Longamente.

Depois entregou a folha para Alaric.

Silêncio.

Ele leu.

E pela primeira vez desde a chegada dos hóspedes perdeu a cor completamente.

Porque no papel havia apenas: GY

E abaixo:

“O PRIMEIRO INVERNO COMEÇOU COM UMA CRIANÇA.”

Silêncio.

Mais abaixo:

“Perguntem a Adrien.”

Silêncio absoluto.

Nenhum som.

Nenhum.

Porque aquele nome nunca fora pronunciado.

Nunca.

Nunca diante de todos.

Marguerite deixou a taça cair.

Clara fechou os olhos.

Helena Dubois recuou.

Émile levantou lentamente a cabeça.

E Alaric

Alaric sussurrou algo.

Baixo.

Tão baixo que quase ninguém ouviu.

Quase.

Mas Sophie ouviu.

E escreveu imediatamente:

“Ele não perguntou quem era Adrien.”

Pausa.

Mais uma.

“Ele perguntou: quem escreveu isso?”

Silêncio.

E parece que tudo terminou, parece sem dúvidas que terminou…

Porque naquela noite todos compreenderam algo:

algumas pessoas desaparecem.

Outras são apagadas.

E existe uma diferença terrível entre as duas coisas.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 5

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 38/39)

Posted in Sem categoria on 30 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Edvard Grieg — Morning Mood

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 38 — O Estábulo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na madrugada seguinte Lukas deixou o Solar.

Precisava respirar.

Ou fugir.

Naquele momento já não distinguia.

Atravessou corredores silenciosos.

Desceu escadas.

Vestiu casaco.

Saiu.

A neve alcançava parte das botas.

Os jardins pareciam irreais.

Brancos.

Imóveis.

Distantes.

No estábulo encontrou Elise Bauer.

Ela acariciava lentamente um cavalo escuro.

Não se assustou ao vê-lo.

Como se soubesse.

Silêncio.

Longo.

Lukas aproximou-se.

— Veio cedo.

Elise sorriu pouco.

— Os animais ficam inquietos quando as pessoas mentem demais.

Silêncio.

Lukas quase sorriu.

Quase.

Depois:

— Então deveriam ter fugido da casa há muitos anos.

Elise baixou os olhos.

O cavalo aproximou-se lentamente.

Cheirou Lukas.

Depois encostou a cabeça nele.

Silêncio.

Elise observou.

Longamente.

— Estranho.

Lukas:

— O quê?

Silêncio.

Ela aproximou-se.

Passou a mão no animal.

Depois:

— Ele faz isso apenas com pessoas que já viu antes.

Silêncio absoluto.

Lukas franziu a testa.

— Impossível.

Silêncio.

Elise olhou o cavalo.

Depois Lukas.

Depois:

— Talvez.

Mais silêncio.

Mas alguma coisa mudou.

Porque naquele instante Lukas recordou algo.

Muito pequeno.

Muito distante.

Cheiro de feno.

Chuva.

Um celeiro.

Mãos pequenas.

E uma voz feminina:

“Corra.”

Silêncio.

E a lembrança desapareceu antes de tornar-se inteira.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 39

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 37/39)

Posted in Sem categoria on 29 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Antonín Dvořák — Serenade for Strings, II Tempo di Valse

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 37 — A Sauna Romana

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na ala sul do Solar havia um ambiente raramente mencionado aos visitantes.

A antiga sauna romana.

Construída décadas antes por um ancestral fascinado por arquitetura clássica, permanecia revestida em mármore escuro, colunas baixas, mosaicos antigos e pequenas luminárias embutidas nas paredes curvas. O vapor aquecia o ambiente lentamente, criando uma névoa suave que deformava contornos e tornava os rostos menos precisos.

Talvez por isso os homens da casa gostassem daquele lugar.

Ali expressões desapareciam.

E expressões costumam denunciar mais do que palavras.

Naquela noite encontravam-se ali:

Alaric von Eichenwald.
Émile Laurent.
Matteo Ricci.
Sebastian Krüger.
E pouco depois Lukas.

Nenhum falava.

O som da água.

O estalar discreto do vapor.

Respirações.

Silêncio.

Foi Matteo quem rompeu:

— O frio piorou a senhora Clara.

Silêncio.

Alaric permaneceu imóvel.

Émile observava a água.

Sebastian fechara os olhos.

Matteo insistiu:

— Ela não precisa apenas de remédios.

Silêncio.

Mais um.

— Precisa de paz.

Longa pausa.

Alaric respondeu:

— Paz não é tratamento médico.

Matteo ergueu os olhos.

— Não.

Silêncio.

Depois:

— Mas a ausência dela produz doenças extraordinariamente previsíveis.

Silêncio absoluto.

Porque Matteo falava de Clara.

Mas não apenas.

Émile sorriu discretamente.

Triste.

Muito.

Depois:

— Algumas doenças começam quando alguém passa tempo demais vivendo uma vida que pertence a outras pessoas.

Silêncio.

Lukas ergueu lentamente os olhos.

Porque aquela frase lhe atingira de modo cruel.

Alaric observou Émile.

Longamente.

Muito.

E pela primeira vez em dias não havia cordialidade no olhar.

Nem disfarce.

Nem hospitalidade.

Apenas passado.

E vapor.

Muito vapor.

Porque existem ambientes construídos para relaxar.

E outros construídos para impedir que pessoas se matem.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 38

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 36/39)

Posted in Sem categoria on 28 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Anton Bruckner — Symphony No. 8, Adagio

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 36 — A Sala das Armas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Enquanto isso, no Solar, Sebastian Krüger permanecia sozinho na Sala das Armas.

Ou quase.

As vitrines exibiam espadas.

Medalhas.

Mapas militares.

Pistolas antigas.

Animais empalhados.

E retratos de gerações que aprenderam a transformar herança em autoridade.

Sebastian caminhava lentamente.

Não apreciava armas.

Apreciava registros.

E certas salas escondem documentos melhor do que cofres.

Parou diante de pequena estante lateral.

Observou.

Silêncio.

Passou os dedos sobre a madeira.

Algo.

Muito discreto.

Pequena diferença.

Pressionou.

Silêncio.

Uma gaveta abriu-se.

Lentamente.

Dentro:

papéis.

Registros.

Cartas.

Selos.

E um envelope.

Muito antigo.

Sebastian retirou.

Abriu.

Leu.

Empalideceu.

Pela primeira vez desde sua chegada.

Porque havia uma certidão.

Parcialmente rasurada.

Nome do pai:

ilegível.

Nome da mãe:

ilegível.

Mas abaixo:

“transferência de tutela autorizada.”

Silêncio.

Mais abaixo: GY

E uma frase escrita à mão:

“Os sobrenomes foram corrigidos.”

Silêncio absoluto.

Porque Sebastian compreendeu imediatamente.

Não era documento comum.

Era dinamite.

Pura.

E naquele instante passos surgiram atrás dele.

Virou-se.

Alaric.

Imóvel.

Olhando.

Longamente.

Nenhum dos dois falou.

Porque ambos sabiam:

a partir daquele momento a sala já não guardava armas.

Guardava guerra.

Última frase:

“No andar superior, Sophie abriu o diário e escreveu: ‘Talvez ninguém esteja procurando pessoas. Talvez estejam procurando quem lhes foi tirado.'”

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 37

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 35/39)

Posted in Sem categoria on 27 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Jean Sibelius — Valse Triste

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 35 — A Aldeia

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Muito pouco.

O suficiente apenas para revelar a aldeia ao longe.

Pequenas casas.

Chaminés.

Telhados cobertos de neve.

Silêncio.

Henrik Sørensen observava a paisagem diante da oficina antiga.

Ex-jardineiro do Solar.

Velho.

Reservado.

Homem que carregava nos olhos a aparência de quem passara décadas observando acontecimentos e decidira não comentá-los.

Mas memórias envelhecem.

E memórias cansadas desejam companhia.

Tomasz Kowalczyk aproximou-se.

Carregava lenha.

Parou.

— O senhor está estranho.

Henrik permaneceu observando a neve.

Silêncio.

Depois:

— Às vezes o inverno devolve sons.

Tomasz franziu a testa.

— Sons?

Longa pausa.

Henrik continuou:

— Há muitos anos.

Mais silêncio.

— Chovia.

Noite escura.

O solar ainda possuía criados antigos.

Carruagens.

Muitos cavalos.

Silêncio.

Depois:

— Vi alguém partir.

Tomasz permaneceu imóvel.

Henrik continuou:

— Uma criança.

Silêncio absoluto.

A neve parecia mais pesada.

Mais fria.

— Quem?

Henrik fechou os olhos.

Longamente.

Muito.

Depois:

— Nunca vi o rosto.

Pausa.

Mais uma.

— Mas lembro do choro.

Silêncio.

E pela primeira vez Tomasz não fez outra pergunta.

Porque há histórias que, antes de serem compreendidas, precisam apenas ser escutadas.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 36