Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente
Sugestão musical: Johann Sebastian Bach — Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ, BWV 639
(Betto Gasparetto)
Capítulo 14 — O Pacto Ainda Sem Nome

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A noite voltou devagar, sem tempestade. O céu escureceu em camadas, e as primeiras estrelas apareceram acima dos ciprestes. A casa recebeu de novo o amarelo das velas, o calor das lareiras, o perfume da cera e da lenha. Mas algo havia mudado. Não na arquitetura. No ar.
Jantaram pouco. Falaram menos. A conversa essencial já fora dita, e o coração precisava agora de tempo para acomodar o que ouvira. Depois do jantar, tornaram à varanda. O canal, negro, refletia apenas alguns pontos de luz vindos da casa e de uma janela distante de alguma propriedade vizinha.
Nenhum dos dois se sentou. Ficaram lado a lado, apoiados na grade de ferro, olhando a água.
— Não posso prometer serenidade — disse a visita. — Trago comigo consequências que ainda não terminei de resolver. Dívidas morais, materiais, vínculos quebrados, notícias que talvez não lhe agradem.
— Eu não quero promessas ornadas — respondeu a voz da casa. — Quero permanência com verdade. Só isso.
A resposta foi tão exata que quase parecia ter sido preparada pela alma durante anos.
Após uma longa pausa, a visita estendeu a mão. Não com a autoridade de quem reivindica, nem com o atrevimento da juventude, mas com a reverência de quem pede licença ao que feriu.
A outra mão pousou sobre ela.
Não havia ainda perdão inteiro.
Não havia futuro definido.
Não havia nome para o que recomeçava.
Mas havia, entre ambos, algo que não existia na noite da chegada: uma decisão tácita de não deixar que o passado continuasse a ser o único morador daquela casa.
E assim terminou o segundo episódio da grande travessia — não com o triunfo do amor, mas com algo mais verdadeiro: o consentimento, ainda frágil, de reconstruir.
(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)
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