Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente
Sugestão musical: Claudio Monteverdi — Lamento della Ninfa
Æsthesis – Lamento della ninfa (Clip officiel)
(Betto Gasparetto)
Capítulo 12 — O Retrato Velado

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
No canto do salão havia um retrato coberto por um pano claro. A visita o observou por alguns instantes, como quem reconhece um objeto íntimo sem se permitir nomeá-lo.
— Ainda o mantém coberto — disse.
— Nunca soube se era devoção ou castigo — respondeu a outra voz.
Levantou-se, então, e retirou o véu.
Sob o tecido, revelou-se uma pintura feita anos antes: uma paisagem com canal, varanda e um céu de primavera. Não havia figuras humanas, mas havia, sobre a grade de ferro, duas taças. Era um retrato sem corpos e, por isso, mais doloroso do que se mostrasse rostos.
A visita aproximou-se com visível abalo.
— Eu me lembro deste dia.
— Eu também. Por isso o cobri.
O silêncio que se seguiu tinha qualquer coisa de litúrgico. Como se o quadro não representasse apenas uma lembrança, mas a prova material de que um tempo inteiro existira e fora real, apesar do que o sofrimento posterior tentara fazer parecer.
— Eu devia ter voltado antes do inverno daquele ano — disse a visita.
— Devia — respondeu a outra voz. — E eu devia ter deixado de esperar como se a espera fosse uma virtude.
Os olhos encontraram-se outra vez, mas dessa vez com menos dureza e mais exaustão. A exaustão é, às vezes, o primeiro terreno possível para a compaixão.
— E agora? — perguntou a visita, com simplicidade.
A resposta demorou, porque não dizia respeito apenas ao dia, nem à semana, nem à presença na casa.
— Agora eu não quero mais viver cercado de coisas cobertas — veio enfim a resposta. — Nem retratos, nem cartas, nem verdades.
(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)
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