(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na previsão do tempo, diziam que a chuva chegaria apenas à tarde.
Às seis e quarenta da manhã, porém, o céu resolveu discordar.
Bastaram poucos minutos para que as ruas desaparecessem sob uma cortina de água. Os pontos de ônibus ficaram lotados. Motociclistas procuravam abrigo sob marquises. Quem havia saído de casa confiando apenas nas nuvens claras logo descobriu que o guarda-chuva esquecido faria falta.
Na portaria da empresa, os primeiros funcionários começaram a chegar.
Carlos entrou reclamando.
— Impressionante… Basta eu lavar o carro que chove desse jeito.
Sacudiu a água da jaqueta bem no meio da recepção e continuou resmungando sobre o trânsito, a prefeitura, a meteorologia e até sobre o café que ainda nem havia tomado.
Logo atrás veio Rosana.
Sem dizer palavra, percebeu que a faxineira tentava secar o piso enquanto dezenas de pessoas continuavam entrando com os sapatos encharcados.
Pegou um rodo encostado na parede.
Durante alguns minutos, ajudou a empurrar a água para fora da porta.
Quando a faxineira agradeceu, Rosana apenas sorriu.
— Se a senhora cair aqui, quem vai limpar a bagunça depois?
As duas riram.
Pouco depois apareceu João, completamente molhado.
A camisa parecia ter sido mergulhada em uma piscina.
Assim que entrou, abriu os braços.
— Se alguém estiver precisando lavar o carro, é só me abraçar.
A recepção inteira caiu na risada.
Até Carlos, que ainda reclamava da chuva, não conseguiu segurar o sorriso.
No refeitório, alguém colocou uma chaleira para aquecer.
Outro trouxe uma caixa de biscoitos.
Uma funcionária emprestou um casaco reserva.
O segurança improvisou um varal com barbante para secar alguns guarda-chuvas.
Sem combinar, cada um foi resolvendo um pequeno problema.
Quando o relógio marcou oito horas, quase todos já estavam trabalhando.
Lá fora, a chuva continuava forte.
Lá dentro, o ambiente parecia diferente.
Durante o intervalo do almoço, Carlos comentou:
— Engraçado… A chuva estragou meu dia logo cedo.
João respondeu antes mesmo de terminar o café.
— Acho que ela só mostrou como cada um escolhe começar o dia.
Ninguém respondeu.
Não era necessário.
Do lado de fora, as poças continuavam nas calçadas.
O trânsito permanecia lento.
Os ônibus ainda chegavam atrasados.
Nada havia mudado na cidade.
Mas, dentro daquela empresa, a mesma tempestade havia produzido três resultados diferentes.
Uns chegaram trazendo reclamações.
Outros chegaram trazendo ajuda.
E houve quem trouxesse apenas um motivo para todo mundo rir.
Talvez a chuva nunca escolha quem vai molhar.
Mas cada pessoa ainda pode escolher a maneira de atravessá-la.
(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)