Arquivo para julho, 2026

O Telefone Público

Posted in Sem categoria on 31 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Durante muitos anos, ele permaneceu firme na Praça Osório.

O velho orelhão ficava próximo ao ponto de ônibus, entre uma banca de jornais e um banco de madeira onde aposentados costumavam conversar sobre futebol, política e o preço do café.

Houve um tempo em que era impossível passar por ali sem vê-lo ocupado.

As pessoas faziam fila.

Alguns seguravam um punhado de fichas telefônicas.

Outros tinham moedas separadas no bolso.

Havia quem decorasse números de cor.

Havia quem anotasse em pedaços de papel.

Diante daquele aparelho, nasceram convites para casamentos, pedidos de emprego, notícias de nascimento, despedidas, desculpas e promessas.

O orelhão ouviu choros.

Ouviu gargalhadas.

Ouviu longos silêncios interrompidos apenas pela respiração de quem não sabia como começar uma conversa.

Depois chegaram os celulares.

Primeiro eram raros.

Depois caros.

Mais tarde, indispensáveis.

A fila desapareceu.

As fichas telefônicas viraram lembranças guardadas em gavetas.

As moedas já não tinham a mesma utilidade.

Mesmo assim, o velho telefone continuava ali.

Já ninguém telefonava.

Mas todos sabiam onde ele estava.

“Nos encontramos perto do orelhão.”

Era curioso.

O aparelho deixara de servir para ligar pessoas.

Agora servia para localizar encontros.

Com o tempo, a pintura perdeu o brilho.

O vidro ficou riscado.

Alguns botões deixaram de funcionar.

Mesmo assim, permanecia de pé.

Como um antigo funcionário que já não tinha tarefas, mas continuava sendo respeitado pelos colegas.

Numa manhã de terça-feira, um caminhão estacionou na praça.

Dois funcionários desparafusaram a base.

Desligaram os cabos.

Colocaram o velho orelhão sobre a carroceria.

Tudo durou menos de vinte minutos.

Quem passava apenas desviava o caminho.

Poucos perceberam.

Na semana seguinte, alguém marcou um encontro.

— Vamos nos encontrar perto…

Parou no meio da frase.

Olhou para a praça.

O espaço vazio pareceu estranho.

Como quando se muda um móvel antigo de lugar e a casa inteira parece diferente.

Meses depois, um estudante visitava um ferro-velho da cidade procurando peças para um trabalho escolar.

Entre postes antigos, placas de trânsito, bancos enferrujados e portões amassados, avistou uma estrutura conhecida.

Aproximou-se.

Era o velho orelhão da Praça Osório.

Agora estava deitado sobre um monte de sucata.

Coberto de poeira.

Sem cabos.

Sem telefone.

Sem voz.

Passou a mão sobre a carcaça metálica.

Ainda era possível ler parte da antiga identificação.

Por alguns instantes imaginou quantas histórias haviam começado exatamente ali.

Talvez nenhum museu registrasse aqueles momentos.

Nenhum arquivo guardasse aquelas conversas.

Nenhum jornal tivesse noticiado os reencontros, as reconciliações ou as despedidas que aquele aparelho testemunhou.

Mas elas existiram.

E talvez esse seja o destino de muitas coisas importantes.

Cumprirem sua missão discretamente.

Depois desaparecerem sem cerimônia.

As cidades costumam preservar monumentos.

Mas são os objetos comuns que, muitas vezes, guardam as lembranças mais humanas.

E, às vezes, um velho telefone desligado continua ligando pessoas à própria memória.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Pneu Furado

Posted in Sem categoria on 30 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A placa dizia:

“Próximo posto: 38 km.”

Roberto passou por ela sem dar muita atenção.

Viajava sozinho.

O porta-malas levava uma mala pequena, uma caixa de ferramentas e a velha confiança de quem sempre dizia:

— Comigo essas coisas nunca acontecem.

Cinco quilômetros depois, ouviu um estalo seco.

Em seguida, aquele barulho inconfundível.

Tuc… tuc… tuc…

Encostou o carro no acostamento.

Desceu.

O pneu traseiro estava completamente vazio.

Olhou em volta.

Nenhuma oficina.

Nenhuma casa.

Nenhuma sombra.

Só a estrada, o vento e um sol que parecia ter escolhido justamente aquele dia para trabalhar dobrado.

Abriu o porta-malas.

O estepe estava lá.

Mas o macaco hidráulico…

Não.

Ficara na garagem depois da última limpeza.

Roberto respirou fundo.

— Que beleza…

Sentou-se sobre o meio-fio do acostamento.

Os carros passavam depressa.

Alguns diminuíam a velocidade por curiosidade.

Nenhum parava.

Depois de quase vinte minutos, uma caminhonete antiga estacionou alguns metros à frente.

Desceu um senhor de chapéu de palha.

— Problema?

— Esqueci o macaco.

O homem sorriu.

— Então hoje quem levantou foi o carro.

Antes que Roberto respondesse, outro veículo encostou.

Era um casal de professores voltando de um congresso.

— Precisam de ajuda?

Enquanto conversavam, um motociclista que fazia entregas entre cidades também resolveu parar.

— Tenho compressor portátil, se servir.

Poucos minutos depois, apareceu um caminhoneiro.

— Alguém tem chave dezenove?

O senhor do chapéu levantou a mão.

— Tenho.

De repente, cinco desconhecidos trabalhavam como se fossem uma equipe antiga.

Um segurava o estepe.

Outro afrouxava os parafusos.

O caminhoneiro contava piadas.

O motociclista insistia que todo problema melhora depois de um café.

Os professores distribuíam garrafas de água que levavam na bolsa térmica.

Em menos de quinze minutos, o carro estava pronto para seguir viagem.

Roberto procurou a carteira.

— Pelo menos deixem eu pagar o café de vocês.

O caminhoneiro riu.

— Vai ficar caro.

— Por quê?

— Porque um dia quem vai parar para ajudar é você.

Todos sorriram.

Era um pagamento diferente.

Cada um entrou novamente em seu veículo.

Sem troca de telefones.

Sem fotografias.

Sem promessas de reencontro.

Apenas acenos.

Roberto voltou para a estrada.

Alguns quilômetros adiante, avistou um automóvel parado no acostamento.

Capô aberto.

Um casal olhava o motor sem saber por onde começar.

Reduziu a velocidade.

Por alguns segundos, pensou em continuar.

Afinal, já estava atrasado.

Então lembrou-se da caminhonete antiga.

Do motociclista.

Do caminhoneiro.

Dos professores.

Ligou a seta.

Encostou.

Desceu do carro.

— Posso ajudar?

Na estrada, há pessoas que passam pela nossa vida como os carros que cruzam na pista contrária.

Mal temos tempo de vê-las.

Mas, às vezes, basta um pneu furado para transformar desconhecidos em companheiros de alguns quilômetros.

E, curiosamente, são essas viagens inesperadas que costumam permanecer por mais tempo na memória.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Placa de “Volto Já”

Posted in Sem categoria on 29 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A placa era pequena.

Branca.

As letras pretas já estavam um pouco apagadas pelo tempo.

Dizia apenas:

VOLTO JÁ.

Ficava pendurada por um barbante na maçaneta da porta da pequena papelaria da Rua das Acácias.

Toda vez que aparecia, o bairro inteiro parecia criar uma história diferente.

— Já faz meia hora que esse “já” começou.

Resmungava um cliente olhando para o relógio.

Outro respondia:

— Deve ter ido buscar troco.

Uma senhora, sempre bem-humorada, emendava:

— Ou ganhou na loteria e esqueceu de avisar.

As risadas começavam antes mesmo da loja abrir.

Na verdade, seu Ernesto, dono da papelaria, raramente ficava mais de quinze minutos fora.

Às vezes atravessava a rua para tomar um café.

Outras vezes levava documentos ao correio.

Em certos dias ajudava a esposa na farmácia da esquina.

Mas bastava pendurar aquela pequena placa para que a imaginação dos fregueses trabalhasse mais do que qualquer impressora da loja.

Numa terça-feira, um adolescente leu a placa e comentou:

— Aposto que ele foi almoçar.

Um aposentado corrigiu:

— Pelo horário, acho que foi jogar dominó.

Uma criança perguntou à mãe:

— Será que ele escreveu isso ontem e ainda não voltou?

Até quem nunca havia entrado na papelaria parava alguns segundos diante da porta fechada.

Era curioso.

As pessoas aceitavam esperar vinte minutos por uma vaga no estacionamento.

Quarenta minutos por uma consulta.

Mais de uma hora em uma fila de banco.

Mas cinco minutos diante de uma porta fechada pareciam uma eternidade.

Naquele dia, um entregador de encomendas chegou exatamente quando três clientes aguardavam do lado de fora.

Olhou para a placa.

Sorriu.

Sentou-se no degrau da calçada.

— Se eu esperar em pé, demora mais.

Todos riram.

Pouco depois, seu Ernesto apareceu dobrando a esquina com um saco de pães ainda quentes.

Assim que viu o pequeno grupo diante da loja, levantou as mãos.

— Acho que meu “já” está ficando famoso.

Enquanto abria a porta, explicou:

— A padaria estava cheia.

O aposentado respondeu:

— Nós imaginamos coisa muito pior.

Entraram todos juntos.

A papelaria voltou ao movimento habitual.

Cadernos.

Canetas.

Fotocópias.

Conversas interrompidas pelo telefone tocando.

No fim da tarde, antes de fechar o caixa, seu Ernesto retirou a velha placa da porta.

Olhou para ela por alguns segundos.

Pensou em escrever outra.

“Volto em quinze minutos.”

“Retorno às duas.”

“Fechado temporariamente.”

Sorriu sozinho.

Nenhuma delas teria a mesma graça.

Porque “Volto já” nunca foi uma medida de tempo.

Era apenas um pequeno convite para exercitar uma virtude que anda cada vez mais rara.

A paciência.

E, às vezes, também a imaginação.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Enfermeira do Último Plantão

Posted in Sem categoria on 28 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O relógio marcava seis e vinte da manhã.

Faltavam quarenta minutos para terminar o plantão.

Para quem trabalhava do lado de fora, era apenas o começo de mais um dia.

Para Helena, enfermeira havia dezoito anos, aquele era o último corredor de uma noite que parecia não terminar nunca.

Duas internações de emergência.

Uma criança com febre alta.

Um idoso desorientado.

Medicamentos administrados no horário.

Papéis preenchidos.

Campainhas tocando.

Perguntas repetidas.

O café preparado às duas da manhã já estava frio sobre a bancada.

Ela nem lembrava de tê-lo servido.

Enquanto conferia os prontuários, ouviu uma voz baixa.

— Moça…

Era o senhor Orlando, internado desde a semana anterior.

— Atrapalho?

Helena sorriu.

— Aqui ninguém atrapalha. O que aconteceu?

Ele apontou discretamente para a janela.

— A cortina ficou aberta.

A luz está batendo no meu rosto.

Ela fechou a cortina.

Seriam dez segundos de trabalho.

Antes de sair, perguntou:

— Melhorou?

— Muito.

Obrigado.

Continuou o corredor.

No quarto seguinte, encontrou uma senhora tentando alcançar os óculos que haviam caído ao lado da cama.

Entregou-os.

No outro quarto, ajeitou um travesseiro que escorregava toda vez que o paciente mudava de posição.

Mais adiante, percebeu um carregador de celular prestes a cair da tomada.

Prendeu melhor o fio.

Nenhuma dessas tarefas apareceria no relatório do plantão.

Nenhuma fazia parte da prescrição médica.

Mesmo assim, todas faziam parte do cuidado.

Quando finalmente sentou para terminar os registros, ouviu uma risada vindo do corredor.

Era dona Celina.

Internada havia quase um mês.

Conversava com a equipe da limpeza.

— Hoje consegui pentear o cabelo sozinha.

A funcionária respondeu:

— Então já merece um desfile.

As três riram.

Helena também.

Pensou em quantas vezes um sorriso havia diminuído uma dor que nenhum remédio conseguia aliviar.

Pouco antes das sete, a equipe do turno da manhã começou a chegar.

Troca de informações.

Entrega dos prontuários.

Últimas recomendações.

Antes de ir embora, Helena passou novamente pelo quarto do senhor Orlando.

Ele estava acordado.

— Está indo?

— Finalmente.

Ele fez um gesto apontando para a cadeira ao lado da cama.

— Ontem minha filha precisou voltar cedo para cuidar dos netos.

Achei que passaria a noite sozinho.

Mas toda vez que alguém entrava aqui para medir a pressão, ajeitar o lençol ou perguntar se eu precisava de alguma coisa… eu lembrava que ainda existia gente cuidando de mim.

Ela não encontrou resposta.

Apenas segurou a mão dele por alguns segundos.

Ao sair do hospital, o sol já iluminava a rua.

A cidade despertava.

Os ônibus estavam cheios.

As padarias começavam a abrir.

O movimento parecia igual ao de qualquer outra manhã.

Helena caminhou até o ponto de ônibus sentindo o peso de uma noite inteira sem dormir.

Mas levava consigo uma certeza que nunca apareceria em nenhum prontuário.

Há medicamentos que aliviam a dor.

Há cirurgias que devolvem a saúde.

Mas existem pequenos gestos — fechar uma cortina, entregar um par de óculos, ajeitar um travesseiro, oferecer alguns minutos de atenção — que lembram ao paciente algo que nenhum comprimido consegue prescrever.

Que ele continua sendo visto.

E, às vezes, é exatamente isso que começa a curar.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Janela do Hospital

Posted in Sem categoria on 27 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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No quarto 407 havia duas camas.

A janela ficava entre elas.

Era uma janela simples, de vidro grosso, com uma vista nada extraordinária: um pedaço da rua, algumas árvores, o estacionamento do hospital e, ao fundo, os prédios da cidade seguindo sua rotina.

Para a maioria das pessoas, não havia nada interessante ali.

Mas para quem estava deitado naquele quarto, aquela janela era quase uma televisão ligada o dia inteiro.

Na cama próxima à porta estava Antônio.

Setenta anos.

Um homem acostumado a resolver tudo sozinho.

Reclamava da comida, do barulho do corredor e principalmente do tempo que parecia passar mais devagar dentro de um hospital.

— Essa árvore precisa de poda — dizia.

— Aquele carro está estacionado errado.

— A cidade está cada dia mais desorganizada.

A enfermeira já conhecia suas observações.

— O senhor percebe tudo, seu Antônio.

Ele respondia:

— Só estou velho, não cego.

Na outra cama estava Lucas.

Trinta e dois anos.

Havia chegado assustado na primeira noite.

Falava pouco.

Passava horas olhando pela janela.

Antônio achava estranho.

— Você fica olhando essa rua há dias. Está esperando alguém?

Lucas demorou a responder.

— Estou tentando imaginar quando vou voltar a caminhar por ela.

Antônio ficou em silêncio.

Pela primeira vez, percebeu que talvez não estivesse apenas dividindo um quarto.

Estava dividindo uma história.

Com o passar dos dias, os dois começaram a conversar.

Antônio contou sobre a antiga oficina que tinha fechado depois de quarenta anos.

Lucas falou sobre o filho pequeno que perguntava todos os dias quando ele voltaria para jogar bola.

A mesma janela mostrava coisas diferentes para cada um.

Quando chovia, Antônio reclamava.

— Mais um dia perdido.

Lucas observava as gotas no vidro.

— Pelo menos as árvores ficam mais bonitas.

Quando o sol aparecia, Antônio dizia:

— Esse calor ainda vai acabar com a cidade.

Lucas sorria.

— Hoje parece um bom dia para sair daqui.

Uma manhã, enquanto tomavam café, viram uma menina atravessando o estacionamento correndo para abraçar alguém que acabava de sair do hospital.

Lucas sorriu.

— Um dia vou ser eu ali fora.

Antônio olhou pela janela.

Dessa vez não encontrou nada para reclamar.

Algumas semanas depois, Lucas recebeu alta.

Arrumou suas coisas e se despediu.

— Espero que o senhor também vá embora logo.

Antônio respondeu:

— Eu também.

Quando ficou sozinho, o quarto pareceu maior.

A janela continuava exatamente no mesmo lugar.

A rua continuava movimentada.

Os carros continuavam chegando e saindo.

As pessoas continuavam apressadas.

Mas agora Antônio olhava diferente.

Não via apenas problemas.

Via histórias acontecendo.

Alguns dias depois, recebeu também a notícia de que poderia voltar para casa.

Antes de sair, aproximou-se da janela pela última vez.

A árvore continuava precisando de poda.

O carro continuava mal estacionado.

A cidade continuava cheia de problemas.

Ele sorriu.

Talvez a paisagem nunca tenha mudado.

Talvez quem precisasse mudar era o jeito de olhar para ela.

Porque uma mesma janela pode mostrar apenas uma parede para quem espera o fim.

Ou um caminho para quem ainda acredita no próximo passo.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)