O Pneu Furado
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A placa dizia:
“Próximo posto: 38 km.”
Roberto passou por ela sem dar muita atenção.
Viajava sozinho.
O porta-malas levava uma mala pequena, uma caixa de ferramentas e a velha confiança de quem sempre dizia:
— Comigo essas coisas nunca acontecem.
Cinco quilômetros depois, ouviu um estalo seco.
Em seguida, aquele barulho inconfundível.
Tuc… tuc… tuc…
Encostou o carro no acostamento.
Desceu.
O pneu traseiro estava completamente vazio.
Olhou em volta.
Nenhuma oficina.
Nenhuma casa.
Nenhuma sombra.
Só a estrada, o vento e um sol que parecia ter escolhido justamente aquele dia para trabalhar dobrado.
Abriu o porta-malas.
O estepe estava lá.
Mas o macaco hidráulico…
Não.
Ficara na garagem depois da última limpeza.
Roberto respirou fundo.
— Que beleza…
Sentou-se sobre o meio-fio do acostamento.
Os carros passavam depressa.
Alguns diminuíam a velocidade por curiosidade.
Nenhum parava.
Depois de quase vinte minutos, uma caminhonete antiga estacionou alguns metros à frente.
Desceu um senhor de chapéu de palha.
— Problema?
— Esqueci o macaco.
O homem sorriu.
— Então hoje quem levantou foi o carro.
Antes que Roberto respondesse, outro veículo encostou.
Era um casal de professores voltando de um congresso.
— Precisam de ajuda?
Enquanto conversavam, um motociclista que fazia entregas entre cidades também resolveu parar.
— Tenho compressor portátil, se servir.
Poucos minutos depois, apareceu um caminhoneiro.
— Alguém tem chave dezenove?
O senhor do chapéu levantou a mão.
— Tenho.
De repente, cinco desconhecidos trabalhavam como se fossem uma equipe antiga.
Um segurava o estepe.
Outro afrouxava os parafusos.
O caminhoneiro contava piadas.
O motociclista insistia que todo problema melhora depois de um café.
Os professores distribuíam garrafas de água que levavam na bolsa térmica.
Em menos de quinze minutos, o carro estava pronto para seguir viagem.
Roberto procurou a carteira.
— Pelo menos deixem eu pagar o café de vocês.
O caminhoneiro riu.
— Vai ficar caro.
— Por quê?
— Porque um dia quem vai parar para ajudar é você.
Todos sorriram.
Era um pagamento diferente.
Cada um entrou novamente em seu veículo.
Sem troca de telefones.
Sem fotografias.
Sem promessas de reencontro.
Apenas acenos.
Roberto voltou para a estrada.
Alguns quilômetros adiante, avistou um automóvel parado no acostamento.
Capô aberto.
Um casal olhava o motor sem saber por onde começar.
Reduziu a velocidade.
Por alguns segundos, pensou em continuar.
Afinal, já estava atrasado.
Então lembrou-se da caminhonete antiga.
Do motociclista.
Do caminhoneiro.
Dos professores.
Ligou a seta.
Encostou.
Desceu do carro.
— Posso ajudar?
Na estrada, há pessoas que passam pela nossa vida como os carros que cruzam na pista contrária.
Mal temos tempo de vê-las.
Mas, às vezes, basta um pneu furado para transformar desconhecidos em companheiros de alguns quilômetros.
E, curiosamente, são essas viagens inesperadas que costumam permanecer por mais tempo na memória.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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