Arquivo para 28 de julho de 2026

A Enfermeira do Último Plantão

Posted in Sem categoria on 28 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O relógio marcava seis e vinte da manhã.

Faltavam quarenta minutos para terminar o plantão.

Para quem trabalhava do lado de fora, era apenas o começo de mais um dia.

Para Helena, enfermeira havia dezoito anos, aquele era o último corredor de uma noite que parecia não terminar nunca.

Duas internações de emergência.

Uma criança com febre alta.

Um idoso desorientado.

Medicamentos administrados no horário.

Papéis preenchidos.

Campainhas tocando.

Perguntas repetidas.

O café preparado às duas da manhã já estava frio sobre a bancada.

Ela nem lembrava de tê-lo servido.

Enquanto conferia os prontuários, ouviu uma voz baixa.

— Moça…

Era o senhor Orlando, internado desde a semana anterior.

— Atrapalho?

Helena sorriu.

— Aqui ninguém atrapalha. O que aconteceu?

Ele apontou discretamente para a janela.

— A cortina ficou aberta.

A luz está batendo no meu rosto.

Ela fechou a cortina.

Seriam dez segundos de trabalho.

Antes de sair, perguntou:

— Melhorou?

— Muito.

Obrigado.

Continuou o corredor.

No quarto seguinte, encontrou uma senhora tentando alcançar os óculos que haviam caído ao lado da cama.

Entregou-os.

No outro quarto, ajeitou um travesseiro que escorregava toda vez que o paciente mudava de posição.

Mais adiante, percebeu um carregador de celular prestes a cair da tomada.

Prendeu melhor o fio.

Nenhuma dessas tarefas apareceria no relatório do plantão.

Nenhuma fazia parte da prescrição médica.

Mesmo assim, todas faziam parte do cuidado.

Quando finalmente sentou para terminar os registros, ouviu uma risada vindo do corredor.

Era dona Celina.

Internada havia quase um mês.

Conversava com a equipe da limpeza.

— Hoje consegui pentear o cabelo sozinha.

A funcionária respondeu:

— Então já merece um desfile.

As três riram.

Helena também.

Pensou em quantas vezes um sorriso havia diminuído uma dor que nenhum remédio conseguia aliviar.

Pouco antes das sete, a equipe do turno da manhã começou a chegar.

Troca de informações.

Entrega dos prontuários.

Últimas recomendações.

Antes de ir embora, Helena passou novamente pelo quarto do senhor Orlando.

Ele estava acordado.

— Está indo?

— Finalmente.

Ele fez um gesto apontando para a cadeira ao lado da cama.

— Ontem minha filha precisou voltar cedo para cuidar dos netos.

Achei que passaria a noite sozinho.

Mas toda vez que alguém entrava aqui para medir a pressão, ajeitar o lençol ou perguntar se eu precisava de alguma coisa… eu lembrava que ainda existia gente cuidando de mim.

Ela não encontrou resposta.

Apenas segurou a mão dele por alguns segundos.

Ao sair do hospital, o sol já iluminava a rua.

A cidade despertava.

Os ônibus estavam cheios.

As padarias começavam a abrir.

O movimento parecia igual ao de qualquer outra manhã.

Helena caminhou até o ponto de ônibus sentindo o peso de uma noite inteira sem dormir.

Mas levava consigo uma certeza que nunca apareceria em nenhum prontuário.

Há medicamentos que aliviam a dor.

Há cirurgias que devolvem a saúde.

Mas existem pequenos gestos — fechar uma cortina, entregar um par de óculos, ajeitar um travesseiro, oferecer alguns minutos de atenção — que lembram ao paciente algo que nenhum comprimido consegue prescrever.

Que ele continua sendo visto.

E, às vezes, é exatamente isso que começa a curar.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)