Arquivo para 8 de julho de 2026

Os Doze Cânticos da Permanência (07/12)

Posted in Sem categoria on 8 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

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Cântico VII — O Salão das Janelas Abertas

Transitus Primus — A Arquitetura da Luz

No coração da antiga fortaleza existia um grande salão cuja imponência jamais dependia da abundância dos ornamentos, mas da harmonia cuidadosamente preservada entre a pedra, a madeira e a luz que atravessava as altas janelas voltadas para os jardins.
As colunas sustentavam o teto com a serenidade das obras concebidas para atravessar muitas gerações.
Os largos vitrais transparentes permitiam que a claridade percorresse lentamente o piso de mármore claro, desenhando formas que mudavam ao longo do dia sem jamais perder a delicadeza.
Cada banco possuía o brilho discreto da madeira polida pelo tempo.
Cada mesa revelava pequenas marcas deixadas por escribas, cartógrafos, estudiosos e artesãos que ali haviam dedicado incontáveis horas ao aperfeiçoamento de seus trabalhos.
Nada naquele lugar era excessivo.
Nada procurava impressionar pela grandiosidade.
Tudo parecia ensinar que a verdadeira elegância nasce da proporção.
Também os sentimentos encontram sua forma mais elevada quando aprendem a respeitar essa medida invisível.
A afeição não se fortalecia pela intensidade das palavras.
Crescia pela fidelidade silenciosa dos gestos.
A confiança não surgia de promessas extraordinárias.
Era construída pela repetição paciente das pequenas virtudes.
A admiração não dependia do desconhecido.
Aprofundava-se justamente quando o cotidiano revelava novas qualidades escondidas sob a simplicidade dos dias.

Transitus Secundus — O Vento Entre os Manuscritos

As janelas permaneciam sempre abertas.
Não para permitir a entrada de qualquer agitação, mas para acolher o ar fresco que percorria os jardins e renovava continuamente o ambiente.
A brisa atravessava o salão sem interromper as conversações.
Movia lentamente as páginas dos manuscritos.
Deslizava entre os mapas cuidadosamente desenhados.
Percorria as estantes repletas de livros antigos como se também desejasse participar daquele silencioso encontro entre o conhecimento e a convivência.
Os diálogos jamais procuravam ocupar todo o espaço.
Sabiam oferecer lugar ao silêncio.
Compreendiam que algumas reflexões necessitam repousar antes de serem transformadas em palavras.
Havia beleza nessa espera.
A prudência concedia profundidade ao pensamento.
A serenidade permitia que cada frase encontrasse naturalmente sua melhor forma.
Enquanto muitos acreditavam que convencer era a maior das habilidades, ali aprendia-se que compreender era uma virtude infinitamente mais rara.
Escutar tornava-se um exercício de generosidade.
Responder transformava-se em um gesto de responsabilidade.
Nenhuma opinião diminuía a outra.
Cada perspectiva ampliava o horizonte comum.
Assim crescia aquele romance.
Sem disputas.
Sem urgência.
Sem receio de que o tempo pudesse desfazer aquilo que havia sido construído com tanto cuidado.

Transitus Tertius — A Harmonia das Estações

As manhãs iluminavam lentamente o grande salão.
Ao meio-dia, a claridade preenchia completamente o recinto.
No entardecer, a luz dourada repousava sobre as colunas como um delicado véu de serenidade.
Cada momento do dia possuía sua própria beleza.
Nenhum pretendia substituir o anterior.
Todos completavam uma mesma obra.
Também as diferentes fases da convivência revelavam encantos particulares.
O primeiro encontro despertava curiosidade.
A continuidade fazia nascer confiança.
O conhecimento profundo revelava admiração.
A permanência transformava tudo isso em companheirismo.
Nada precisava ser acelerado.
As grandes histórias recusam qualquer forma de precipitação.
Os antigos mapas espalhados sobre as mesas mostravam caminhos por montanhas, rios, florestas e cidades distantes.
Entretanto, nenhuma rota parecia tão fascinante quanto aquela percorrida diariamente entre duas inteligências que aprendiam a conhecer-se cada vez melhor.
Não existia cartógrafo capaz de representar o território da confiança.
Nenhum pergaminho conseguiria registrar a extensão alcançada pela lealdade.
Algumas paisagens pertencem exclusivamente ao coração disciplinado pela prudência.
As estantes continuavam recebendo novos manuscritos.
Os escribas copiavam cuidadosamente textos antigos para que nenhuma palavra valiosa desaparecesse com a passagem dos anos.
Esse trabalho paciente inspirava profunda admiração.
Preservar era tão importante quanto criar.
Também o afeto compreendia essa verdade.
Não bastava descobrir a beleza de um sentimento.
Era necessário cultivá-lo.
Protegê-lo das distrações.
Fortalecê-lo pela constância.
Renová-lo através da atenção cotidiana.

Transitus Quartus — As Janelas da Permanência

As árvores dos jardins podiam ser vistas pelas grandes janelas.
Seus galhos moviam-se lentamente sob a brisa suave.
As flores sucediam-se conforme as estações.
Os caminhos permaneciam limpos.
As fontes jamais interrompiam seu curso.
Toda a paisagem parecia recordar que a ordem não limita a beleza.
Ao contrário.
Permite que ela floresça continuamente.
Assim acontecia também entre aquelas duas existências.
A liberdade não era diminuída pela convivência.
Encontrava nela um espaço ainda mais amplo para crescer.
O respeito oferecia segurança.
A confiança concedia tranquilidade.
A admiração preservava o entusiasmo mesmo após a passagem de muitos dias.
O salão permanecia aberto desde o amanhecer até as primeiras horas da noite.
Nenhuma porta precisava ser fechada contra quem chegava com boas intenções.
A hospitalidade fazia parte da própria arquitetura.
Era possível perceber que certos lugares acolhem não apenas pessoas, mas também ideias, esperanças e projetos destinados a permanecer.
A convivência transformava-se pouco a pouco em um desses lugares.
Um espaço invisível onde cada pensamento encontrava abrigo.
Onde cada lembrança era preservada.
Onde cada gesto sincero fortalecia ainda mais os alicerces da estima recíproca.
Quando a noite finalmente repousava sobre a fortaleza, as janelas permaneciam abertas para receber o frescor que vinha dos campos.
As velas espalhavam uma luz tranquila sobre os manuscritos ainda abertos.
As últimas conversações encerravam o dia com a mesma elegância com que haviam começado.
Não existia necessidade de grandes despedidas.
Havia apenas a certeza silenciosa de que o amanhã ofereceria novas páginas para serem escritas.
Então compreendia-se que o mais belo salão jamais construído por arquitetos não era aquele formado por colunas, mármore ou madeira cuidadosamente trabalhada.
Era aquele erguido entre duas existências que aprenderam a manter sempre abertas as janelas da confiança, permitindo que a delicadeza renovasse diariamente o ar da convivência, que a admiração iluminasse cada nova descoberta e que o amor encontrasse, na serenidade da permanência, um lugar suficientemente amplo para crescer sem conhecer limites impostos pela pressa, pelo orgulho ou pelo esquecimento.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)