(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Durante décadas, o relógio permaneceu preso à parede central da antiga galeria comercial. Ficava acima da passagem principal, exatamente onde todos podiam vê-lo. Curiosamente, quase ninguém o olhava.
As pessoas atravessavam aquele corredor apressadas. Algumas carregavam sacolas. Outras seguravam pastas, mochilas ou celulares. Havia quem passasse falando sozinho por meio dos fones de ouvido, quem discutisse ao telefone, quem corresse porque já estava atrasado. Em poucos segundos, desapareciam pela porta oposta.
Ainda assim, o relógio continuava ali.
O jornaleiro da banca ao lado costumava chegar antes das sete. Levantava a porta de aço, organizava os jornais e, antes de começar o dia, conferia as horas no velho mostrador redondo. Não era um hábito consciente. Apenas repetia um gesto aprendido havia tantos anos que já fazia parte da rotina.
Pouco depois vinha a funcionária da cafeteria. Acendia as luzes, ligava a máquina de café e ajeitava as cadeiras da calçada. Também olhava para o relógio. Em seguida, desaparecia atrás do balcão.
Ao longo dos anos, o relógio assistiu à inauguração de lojas, liquidações, vitrines elegantes, placas novas e fachadas reformadas. Viu comerciantes encerrando atividades, crianças voltando anos mais tarde como adultos, casais começando a vida juntos e idosos caminhando mais devagar a cada inverno.
Nada disso interrompia o movimento dos ponteiros.
Quando a energia faltava, alguém logo providenciava o conserto. Afinal, a galeria não podia permanecer sem o relógio funcionando. Era curioso perceber que quase ninguém lhe dedicava atenção enquanto marcava as horas com precisão. Bastava que parasse para que sua ausência fosse imediatamente percebida.
Certa manhã, um menino esperava a mãe terminar uma compra. Sentou-se em um banco de madeira e, sem um celular nas mãos, passou alguns minutos observando o teto da galeria. Seus olhos encontraram o velho relógio.
— Mãe… esse relógio é muito antigo?
Ela levantou os olhos pela primeira vez naquele dia.
— Acho que sim.
— Quem cuida dele?
A mulher permaneceu alguns segundos em silêncio. Nunca havia pensado nisso.
Olhou novamente para o alto.
Os ponteiros continuavam avançando no mesmo ritmo de sempre.
Talvez alguém subisse uma escada de tempos em tempos para trocar uma peça, limpar o vidro ou ajustar o mecanismo. Talvez existisse um relojoeiro cuja presença quase ninguém percebesse. Ou talvez houvesse apenas pessoas discretas que entendiam que algumas coisas precisam continuar funcionando para que a vida siga seu curso sem chamar atenção.
A mãe segurou a mão do filho e voltou a caminhar.
O relógio permaneceu na parede.
Marcando o tempo daqueles que raramente se lembravam de olhar para ele.
E, por um instante, parecia existir outra pergunta suspensa no silêncio da galeria.
Quem mede o tempo de quem passa a vida medindo o tempo?
(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)