Arquivo para setembro, 2026

Réquiem aos Fragmentos Humanos (03/10)

Posted in Coleção - Poemas on 3 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 05 – Degraus Humanos

3. O Desprezo dos Satisfeitos

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Nunca compreendi completamente a satisfação dos que vencem humilhando, essa alegria estreita de contemplar alguém diminuído aos seus pés, como se crescer significasse reduzir a altura daqueles que caminham próximos e como se toda conquista necessitasse do fracasso de outra pessoa.

Talvez a humanidade tenha aprendido cedo demais a construir degraus com as costas daqueles que acreditaram em promessas de companheirismo; depois chama isso de inteligência, competência, oportunidade ou destino, porque sempre encontramos palavras elegantes para nossas piores escolhas.

Também no amor conheci semelhante arquitetura de crueldade, quando alguém recebeu minha confiança como quem recebe uma casa e retirou lentamente as janelas, as portas, os móveis e as lembranças, deixando apenas paredes suficientes para que eu reconhecesse a ausência.

Desde então, certas demonstrações humanas provocam em mim uma ojeriza que não nasce do desejo de condenar pessoas, mas do cansaço de observar a facilidade com que a bondade é utilizada enquanto oferece alguma serventia e descartada quando exige coragem, renúncia ou simplesmente fidelidade.

Há dias em que me pergunto se evoluímos realmente além das aparências, pois inventamos máquinas extraordinárias e palavras cada vez mais sofisticadas, mas continuamos incapazes de sentir vergonha diante da dor que provocamos quando ninguém importante está olhando para aquilo que fazemos.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (02/10)

Posted in Coleção - Poemas on 2 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 04 – Luxo Vazio

2. A Pobreza que Veste Seda

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há criaturas elegantemente vestidas cuja miséria atravessa o tecido, porque nenhuma aparência consegue esconder por muito tempo a pequenez de quem mede amizades pela utilidade, afetos pela conveniência e pessoas pela quantidade de portas que podem abrir em seu benefício.

Eu também atravessei salões onde a delicadeza servia apenas de verniz, onde mãos se apertavam enquanto pensamentos calculavam vantagens, e sorrisos impecáveis escondiam aquela antiga avidez de possuir o mundo sem oferecer ao mundo sequer a honestidade de uma palavra verdadeira.

Foi nesses lugares que senti saudade de um amor que não permaneceu, embora hoje eu saiba quanto havia de fingimento naquela antiga ternura; a memória possui crueldades particulares, pois conserva a beleza do gesto muito depois de compreendermos a pobreza moral de quem o praticou.

O que me causa repugnância não é a fragilidade natural de qualquer pessoa, porque todos carregamos falhas, hesitações, egoísmos e contradições, mas a serenidade daqueles que ferem deliberadamente e depois caminham como se a dor alheia fosse apenas um objeto quebrado deixado para trás.

Prefiro a pobreza das mãos vazias à abundância de uma alma interesseira, pois quem nada possui ainda pode oferecer presença, respeito e lealdade, enquanto certos homens acumulam tanto durante a existência que terminam possuindo tudo, exceto alguma coisa que mereça ser amada.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)

Réquiem aos Fragmentos Humanos (01/10)

Posted in Coleção - Poemas on 1 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Espelhos 02 – Virtudes Extras

1. O Homem Diante do Espelho

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há no homem uma pobreza que nenhum ouro consegue esconder, uma espécie de quarto abandonado por trás das roupas bem passadas, onde repousam promessas que ele pronunciou somente para parecer digno e afetos que ofereceu enquanto julgava possível receber alguma vantagem.

Conheci essa miséria quando amei alguém mais do que deveria, pois o amor, quando sincero, possui o terrível costume de iluminar aquilo que a conveniência humana prefere conservar na penumbra, e descobri que muitos abraços possuem a duração exata do interesse.

Não me entristece que o homem deseje possuir aquilo que ainda não tem, mas que despreze com tanta facilidade aquilo que um dia implorou para ter; há nisso uma indigência que nenhuma fortuna consegue remediar, porque o coração ingrato permanece pobre mesmo cercado de abundância.

Vi palavras de ternura envelhecerem antes de chegar ao fim da tarde, vi juramentos perderem importância diante de uma oportunidade mais cômoda, e compreendi que algumas pessoas não abandonam somente quem as ama, abandonam também a parte decente de si mesmas para não perder vantagens.

Talvez por isso eu contemple o homem com uma tristeza quase fatigada, não porque espere dele uma pureza impossível ou uma perfeição absurda, mas porque tantas vezes ele conhece perfeitamente o caminho da dignidade e escolhe, ainda assim, a pequena estrada onde sua consciência vale menos.

(Betto Gasparetto – 1999-2000)