Arquivo para agosto, 2026

O Homem que Restou (3/3)

Posted in Sem categoria on 31 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Monólogo 03 — Ninguém Aplaude Depois que as Luzes se Apagam

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I ATO — A Fome dos Aplausos

Passei uma parte absurda da vida esperando aplausos, não necessariamente aqueles produzidos pelas mãos. Existem aplausos muito mais discretos: um olhar de admiração, uma inveja mal escondida, alguém pronunciando nosso nome numa conversa importante, a satisfação quase indecente de entrar num lugar e perceber que fomos reconhecidos.

Também existe aquele aplauso particularmente miserável que recebemos quando alguém fracassa e, por comparação, parecemos maiores.

Conheço todos eles.

Durante anos alimentei-me dessa pobreza. Precisava ser visto. Precisava saber que alguém me considerava melhor, mais inteligente, mais importante, mais necessário, mais alguma coisa. Pouco importava exatamente o quê, desde que houvesse alguém abaixo.

Que confissão repugnante.

Mas há uma idade em que mentir para os outros ainda parece possível e mentir para si começa a exigir esforço demais. Eu cansei, e por isso posso dizer.

Houve momentos em que a derrota de certas pessoas me trouxe uma satisfação que jamais deveria ter sentido. Não porque fossem inimigas; isso seria fácil de explicar. Algumas eram amigas. Outras jamais haviam feito qualquer coisa contra mim, mas possuíam alguma coisa que me incomodava: talento, juventude, reconhecimento, amor, talvez simplesmente felicidade.

A felicidade alheia pode ser uma ofensa insuportável para quem está secretamente infeliz.

Nunca admitimos isso. Dizemos que aquela pessoa se exibe, que teve sorte, que recebeu facilidades, que não merece tanto. Encontramos defeitos, investigamos, esperamos, e quando finalmente acontece alguma desgraça, fazemos aquela expressão socialmente adequada:

“Que pena.”

Por dentro, alguma coisa relaxa.

Que criatura desprezível o homem consegue ser sem cometer crime algum.

Talvez seja isso que mais me perturbe. Não são necessários grandes horrores para que sejamos miseráveis. Basta uma pequena alegria diante da tristeza de alguém, uma satisfação escondida, um comentário maldoso pronunciado no momento exato ou uma informação verdadeira contada com intenção suja.

Porque nem toda verdade é inocente.

Aprendi isso tarde.


II ATO — A Crueldade que Não Precisa Mentir

Podemos destruir alguém sem inventar uma única mentira. Basta escolher aquilo que dizer, a quem dizer e quando dizer.

Depois lavamos as mãos.

Era verdade.

Como gostamos dessa defesa: era verdade.

E daí?

A crueldade não precisa mentir. Às vezes ela trabalha perfeitamente com fatos.

Eu trabalhei. Escolhi palavras, esperei momentos, fiz comentários que pareciam observações e ajudei certas dúvidas a crescer.

Nunca empurrei ninguém de um precipício, mas houve ocasiões em que vi alguém próximo da borda e pensei que sua queda tornaria minha paisagem mais bonita.

Tenho vergonha disso.

Não quero perdão. Ainda não.

Perdoamos depressa demais porque não suportamos permanecer culpados. Eu quero suportar um pouco.

Talvez a culpa tenha alguma utilidade quando não é transformada em espetáculo.

O homem moderno quer absolvição instantânea. Comete a indignidade pela manhã, arrepende-se depois do almoço e deseja dormir novamente convencido de que é uma excelente pessoa.

Não.

Algumas coisas deveriam permanecer conosco durante algum tempo, não para nos destruir, mas para nos impedir de repetir.

Eu precisei envelhecer para perceber quanto esforço gastei tentando ser maior que pessoas que jamais estavam competindo comigo.

Que desperdício.

Elas viviam enquanto eu comparava. Elas caminhavam enquanto eu media. Elas celebravam enquanto eu calculava. E, quando alguém me ultrapassava, eu procurava desesperadamente alguma falha que diminuísse a distância.

Talvez toda inveja seja uma régua quebrada. Nunca mede aquilo que somos; mede apenas quanto nos falta para parecer aquilo que desejamos.

E existe sempre alguém acima.

Sempre.

Essa é a crueldade perfeita dessa doença.

Você vence um e imediatamente encontra outro. Recebe um elogio e necessita do próximo. Conquista uma posição e descobre uma posição maior. É admirado por dez e começa a perguntar por que o décimo primeiro permaneceu indiferente.

Nunca termina.

Nunca.

Até que as luzes começam a apagar.


III ATO — Quando as Luzes Começam a Apagar

Primeiro discretamente.

Algumas pessoas deixam de telefonar, outras já não perguntam nossa opinião, nosso nome aparece menos, uma geração mais jovem chega sem conhecer aquilo que fizemos. Contamos uma história importante e alguém olha para o telefone.

Que humilhação maravilhosa.

O mundo continua sem nós.

Durante décadas imaginamos que nossa presença sustentava alguma parte essencial da realidade e, de repente, percebemos que fomos substituídos numa terça-feira.

Nenhuma cerimônia. Nenhuma catástrofe. Apenas outro nome na porta, outra pessoa na cadeira, outra voz sendo ouvida.

E então começamos a contar histórias sobre quando éramos importantes.

É triste.

Há homens que envelhecem falando de si mesmos no passado porque o presente já não lhes oferece plateia suficiente:

“Na minha época…”

“Quando eu estava lá…”

“Quando precisavam de mim…”

Precisavam.

Esse verbo no passado deveria ensinar alguma coisa, mas não ensina. Continuamos desejando aplausos de pessoas que sequer sabem por que deveriam aplaudir.

Talvez a velhice não seja somente a decadência do corpo. Talvez seja também o momento em que a existência começa a retirar, uma por uma, as testemunhas da personagem que construímos.

E então ficamos conosco.

Outra vez.

Sempre acabamos conosco.

É quase engraçado.

Passamos a vida tentando impressionar pessoas das quais inevitavelmente nos separaremos e negligenciamos justamente aquele que permanecerá até o último segundo: nós mesmos.

Que companhia difícil deixamos para a velhice.


IV ATO — A Vitória que Nunca Existiu

Eu poderia ter sido mais generoso.

Essa frase me persegue.

Não mais rico, não mais importante, não mais admirado.

Mais generoso.

Poderia ter elogiado sem sentir que perdia alguma coisa. Poderia ter assistido à vitória de alguém sem transformá-la numa acusação contra mim. Poderia ter ajudado pessoas talentosas sem temer que um dia fossem melhores. Poderia ter sido feliz diante da felicidade alheia.

Parece tão simples agora.

Mas eu queria vencer.

Vencer o quê?

Quem?

Para chegar onde?

Aqui?

Então esta era a linha de chegada?

Um homem cansado recordando disputas cujos adversários nem sabiam que participavam?

Que prêmio ridículo.

Que vitória miserável.

Alguns daqueles que invejei já morreram. Outros desapareceram da minha vida. Há nomes que já não consigo associar a rostos.

E pensar que perdi noites por causa deles.

Comparei salários, casas, carros, reconhecimento, afetos, aparências.

Agora alguns estão debaixo da terra e outros talvez estejam em algum lugar fazendo exatamente o que eu faço: tentando compreender por que gastamos tanto tempo disputando uma corrida cujo único destino era envelhecer.

Porque existe um ponto em que todas as diferenças começam a parecer pequenas.

A morte possui essa indelicadeza. Ela aproxima aquilo que a vaidade passou décadas separando: o importante e o desconhecido, o rico e o pobre, o admirado e o ignorado, o vencedor e aquele que chegou por último.

Não digo isso para glorificá-la.

A morte não precisa de propaganda.

A vida é que precisa explicar certas escolhas.


V ATO — A Vida Diante de Suas Escolhas

É a vida que deveria sentar-se aqui diante de mim e responder por que nos oferece tão pouco tempo e permite que desperdicemos tanto tentando parecer superiores.

Mas talvez ela não tenha culpa.

Talvez tenha apenas entregado os dias.

Nós fizemos o restante.

E fizemos muito mal.

Transformamos convivência em competição, amizade em comparação, amor em posse, sucesso em humilhação e reconhecimento em vício.

Depois reclamamos que estamos sozinhos.

Claro que estamos.

Quem transforma todas as pessoas em adversários termina inevitavelmente sem companhia.

Às vezes imagino um teatro vazio. Não sei por quê. Talvez porque minha vida tenha sido exatamente isso sem que eu percebesse.

Um palco.

Passei décadas entrando em cena, ajeitando a postura, escolhendo palavras e esperando aprovação.

Havia luz, havia gente, havia ruído.

Eu confundia tudo aquilo com importância.

Agora as cadeiras estão vazias.

Não há ninguém.

Nenhuma palma, nenhum elogio, nenhum rival, nenhum olhar invejoso para alimentar minha vaidade.

Somente o palco depois do espetáculo.

E um homem que demorou demais para compreender que o silêncio não começou quando a plateia foi embora.

O silêncio estava dentro dele desde o início.

Talvez por isso precisasse de tanto barulho.

Eu precisava que os outros aplaudissem porque nunca soube o que fazer quando ficava sozinho.

Agora sei.

Fico.

Não corro, não invento outra competição e não procuro alguém menor para sentir-me grande.


VI ATO — A Pobreza que Tem o Meu Rosto

Permaneço diante dessa pobreza.

Minha.

Humana.

Não aquela pobreza que pede dinheiro. A outra: aquela que possui tudo e ainda precisa retirar alguma coisa de alguém para sentir que possui bastante.

Essa me causa ojeriza, sobretudo porque conheço seu rosto.

É o meu.

E talvez esse seja o último castigo da vaidade: descobrir que passamos a existência inteira procurando admiradores quando deveríamos ter procurado razões para sermos dignos de admiração.

Agora é tarde para alguns pedidos.

Há pessoas a quem jamais poderei devolver aquilo que diminuí. Há elogios que morreram dentro da minha boca. Há vitórias que eu deveria ter celebrado. Há mãos que poderia ter levantado em vez de tentar mantê-las abaixo das minhas.

Não posso corrigir tudo.

Essa é outra arrogância que precisei abandonar.

Nem todo arrependimento recebe oportunidade de reparação.

Às vezes resta apenas saber.

E carregar.

As luzes estão se apagando.

Não tenho medo delas.

Talvez seja bom finalmente enxergar menos o palco e mais aquilo que existia por trás dele.

Não quero outro aplauso.

Seria inútil.

Quero apenas não precisar mais da derrota de ninguém para suportar aquilo que sou.


VII ATO — Depois do Último Aplauso

Porque finalmente compreendi: quando as luzes se apagam, ninguém pergunta quem recebeu mais aplausos. Ninguém pergunta quem ocupou o centro do palco. Ninguém pergunta quem venceu.

Resta apenas aquilo que fizemos enquanto havia outras pessoas conosco.

E quando a última cadeira estiver vazia, quando não existir mais ninguém a quem impressionar, diminuir ou superar, talvez descubramos a verdade que nossa vaidade passou a vida inteira tentando esconder:

Nunca fomos maiores porque alguém estava abaixo.

Nunca fomos melhores porque alguém perdeu.

Nunca fomos importantes porque fomos aplaudidos.

Éramos apenas homens fazendo barulho diante do medo de sermos pequenos.

Agora acabou o espetáculo.

E ninguém aplaude depois que as luzes se apagam.

(Betto Gasparetto – 2002)

O Homem que Restou (2/3)

Posted in Sem categoria on 30 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Monólogo 02 — O Preço da Aparência

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I ATO — A Arte de Parecer

Passei a vida inteira parecendo.

Talvez essa seja a palavra mais exata que ainda consigo pronunciar sobre mim.

Parecendo.

Parecendo feliz quando a felicidade já havia recolhido suas coisas e saído sem despedida. Parecendo forte quando qualquer palavra pronunciada no lugar certo conseguiria desmontar aquilo que eu chamava de equilíbrio. Parecendo amado quando o amor havia se tornado apenas uma fotografia antiga que eu continuava mostrando aos outros para não precisar explicar o vazio.

Eu parecia e fui ficando extraordinariamente bom nisso.

Há pessoas que aprendem música, outras dominam idiomas, algumas constroem casas ou conhecem profundamente números, máquinas, livros e negócios.

Eu aprendi a parecer.

Aprendi a medida correta do sorriso, o momento de baixar os olhos, a duração apropriada de um abraço e a frase necessária para demonstrar interesse. Aprendi até a rir quando não havia nada dentro de mim que reconhecesse alguma graça.

Talvez eu pudesse ter recebido um prêmio. Os homens gostam de premiar representações convincentes.

Chamam isso de sucesso.

Que palavra miserável.

Sucesso.

Passei tantos anos perseguindo essa palavra que nunca perguntei exatamente onde ela pretendia levar-me.

Agora sei.

Até aqui.

Até este homem que possui algumas coisas e não consegue lembrar a última vez em que desejou sinceramente voltar para casa.

Minha casa.

Outra palavra generosa demais.


II ATO — A Casa da Ausência

Existem paredes, móveis, objetos escolhidos cuidadosamente, cortinas que combinam com o restante da decoração, taças que quase nunca foram utilizadas e uma mesa grande demais para a quantidade de pessoas que ainda desejam sentar-se comigo.

Durante anos pensei que estava construindo uma vida.

Talvez estivesse apenas mobiliando uma ausência.

Há diferença.

Demorei demais para perceber.

Minha mulher percebeu antes.

Ela costumava olhar para mim de uma maneira que me incomodava profundamente. Não era desprezo. Teria sido mais fácil se fosse.

Era pena.

A piedade de alguém que assiste ao homem que ama desaparecer dentro da personagem que inventou.

Eu odiava aquele olhar. Perguntava o que havia de errado.

Ela dizia:

“Nada.”

E eu aceitava.

Como eu gostava daquela palavra.

Nada.

Nada permitia continuar. Nada não exigia mudanças. Nada não fazia perguntas. Nada podia ser colocado debaixo do tapete junto com todas as outras coisas que não combinavam com nossa aparência.

Éramos um casal bonito.

Disseram isso muitas vezes.

Eu gostava.

Ela, nos últimos anos, sorria quando ouvia. Hoje compreendo aquele sorriso.

Era o sorriso de quem já havia descoberto a piada.

Nós parecíamos felizes.

É diferente.

Muito diferente.

Amor e aparência conseguem viver juntos durante algum tempo, mas chega uma hora em que um deles começa a sufocar.

O nosso amor sufocou.

E eu continuei ajeitando a gravata.

Essa talvez seja a lembrança que mais me enoja.

Não as discussões, não os silêncios, não a despedida.

A gravata.

Porque enquanto alguma coisa morria diante de mim, eu ainda me preocupava em parecer um homem cuja vida estava perfeitamente organizada.

Há uma vulgaridade enorme nisso.

O mundo desabando dentro de casa e eu verificando se alguém do lado de fora havia escutado o barulho.

Que homem pequeno.

Que extraordinária pobreza.


III ATO — A Aparência do Amor

Eu não queria salvar o amor.

Queria salvar a aparência do amor.

Não queria que ela permanecesse porque ainda conseguíamos alcançar um ao outro. Queria que permanecesse porque sua partida faria perguntas surgirem.

O que aconteceu?

Por quê?

Vocês pareciam tão bem.

Pareciam.

Sempre essa palavra.

Quando ela finalmente foi embora, senti uma dor profunda.

Durante algum tempo chamei aquilo de amor.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Talvez parte daquela dor fosse apenas humilhação.

Eu havia sido abandonado.

Eu.

O homem que parecia ter tudo.

Que inconveniência.

As pessoas poderiam perceber que alguma coisa estava errada.

Então contei uma versão elegante.

Duas pessoas amadureceram de maneiras diferentes. Os caminhos se separaram. Continuamos amigos. Respeito permanece.

Essas frases são maravilhosas porque não possuem sangue.

São limpas.

Podem ser pronunciadas durante um jantar.

Ninguém perde o apetite.

A verdade era menos apresentável.

Nós nos tornamos estranhos dentro da mesma cama.

Eu havia parado de ouvi-la muito antes de ela parar de falar comigo. Ela havia desistido de pedir presença.

Eu confundia dinheiro com cuidado, estabilidade com afeto e fidelidade física com amor.

Nunca a traí com outra mulher.

Durante anos tive orgulho disso.

Como se existisse somente uma maneira de trair alguém.

Traí aquela mulher com minha indiferença, com minhas prioridades, com minha necessidade de ser admirado e com todas as vezes em que escolhi impressionar desconhecidos em vez de compreender quem dormia ao meu lado.

Fui fiel ao corpo dela e infiel à sua solidão.


IV ATO — A Verdade que a Fotografia Esconde

Não existe fotografia capaz de mostrar isso.

Ainda bem.

Fotografias foram feitas para colaborar conosco. Elas congelam o sorriso e escondem aquilo que aconteceu cinco minutos antes.

Tenho centenas.

Em todas parecemos felizes.

Às vezes espalho algumas sobre a mesa.

É quase perverso.

Dois desconhecidos sorrindo para mim.

Eu olho aquele homem mais jovem e tenho vontade de perguntar se ele sabia. Se percebia. Se alguma parte dele compreendia que estava trocando coisas verdadeiras pela admiração de pessoas que desapareceriam.

Talvez soubesse.

Essa hipótese é pior.

Porque ignorância ainda oferece alguma defesa.

Mas saber e continuar…

Há atitudes humanas que me causam repugnância: a falsidade, a bajulação, a arrogância, a ingratidão, a facilidade com que algumas pessoas abandonam outras depois de utilizá-las.

Passei anos condenando tudo isso.

Mas existe uma espécie de nojo muito mais difícil de suportar.

Aquele que sentimos quando reconhecemos no próprio comportamento uma versão daquilo que desprezávamos.

Não há distância suficiente para fugir.

Não posso atravessar a rua para evitar-me.

Não posso fechar a porta antes que eu entre.

Estou sempre aqui.

Talvez seja essa a verdadeira condenação da consciência: obrigar o homem a morar dentro daquilo que fez de si.


V ATO — O Inventário das Coisas

E agora?

O que faço com tudo aquilo que acumulei para provar que havia vencido?

Alguns ternos. Relógios. Objetos. Documentos. Fotografias. Reconhecimentos.

Coisas.

Tantas coisas.

Às vezes imagino minha casa depois que eu morrer.

Não há morbidez nisso.

Há apenas matemática.

Alguém precisará entrar, abrir armários, separar papéis e decidir o que fica e o que vai embora.

Aquilo que custou meses de trabalho poderá terminar dentro de uma caixa.

Alguém perguntará quanto vale.

Outro responderá um número decepcionante.

E pronto.

Uma existência inteira convertida em objetos usados.

Talvez seja justo.

Passei tanto tempo atribuindo valor às aparências que seria quase elegante terminar avaliado por elas.

Mas existe uma coisa que ninguém encontrará nos armários.

O tempo que não ofereci.

Esse não pode ser vendido.

As palavras que não pronunciei também não. Os abraços adiados não ocupam espaço. As noites em que alguém precisou de mim e encontrou apenas minha ausência não poderão ser colocadas numa caixa.

Que patrimônio extraordinário.

Tudo aquilo que realmente importa desaparece sem deixar recibo.


VI ATO — A Morte Não Consulta o Currículo

E então a morte.

Sempre ela.

Não como ameaça.

Como interrupção.

Como aquela mão que finalmente fecha o estabelecimento depois de perceber que nenhum cliente entrará novamente.

Penso nela algumas vezes.

Não a desejo.

Também não lhe peço distância.

Apenas reconheço sua honestidade.

Ela virá sem perguntar quanto paguei pelo relógio, sem interessar-se pelo endereço, sem verificar minhas roupas e sem consultar as pessoas que me admiravam.

Que falta de educação.

Passamos décadas construindo importância e a morte não demonstra qualquer respeito por nosso currículo.

Talvez por isso ela seja tão necessária ao pensamento.

Não porque devamos desejá-la, mas porque sua existência ridiculariza muitas das coisas pelas quais sacrificamos a vida.

Que ironia.

Sacrificar a vida por aquilo que a morte sequer reconhecerá.

E eu fiz isso.

Não quero consolo.

Já recebi consolo suficiente.

O consolo é primo da aparência.

Ambos cobrem aquilo que não desejamos olhar.

Quero permanecer diante daquilo que restou.

Sem seda.

Sem títulos.

Sem a elegância que durante tantos anos utilizei para esconder minha pobreza.

Porque fui pobre.

Terrivelmente pobre.

Não de dinheiro.

Seria mais simples.

Fui pobre de coragem para admitir que estava infeliz. Pobre de humildade para pedir perdão enquanto ainda havia alguém disposto a escutar. Pobre de presença diante de quem me amava.

Pobre de verdade.

E nenhuma riqueza consegue corrigir retroativamente essa miséria.


VII ATO — A Última Verdade Viva

Talvez um dia alguém encontre uma fotografia minha e diga que eu parecia elegante.

Provavelmente parecia.

Espero que não diga que eu parecia feliz.

Seria insuportável continuar mentindo depois de morto.

Porque agora compreendo o preço da aparência.

Não foi o dinheiro que gastei para mantê-la.

Foi aquilo que precisei esconder para que ela continuasse intacta.

Minha tristeza.

Minha covardia.

Minha solidão.

Meu amor apodrecendo sem testemunhas.

E aquele homem que poderia ter sido alguma coisa diferente, mas preferiu passar a existência inteira parecendo.

Hoje já não quero parecer.

Quero apenas chegar ao fim sem precisar representar para mim mesmo.

Se ainda houver alguma dignidade possível neste resto de homem, talvez seja essa: permitir que todas as aparências morram antes dele, para que, quando a morte finalmente vier buscar o que inevitavelmente lhe pertence, encontre ao menos uma verdade viva.

(Betto Gasparetto – 2002)

O Homem que Restou (1/3)

Posted in Sem categoria on 29 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Monólogo 01 — Quando Parei de Me Reconhecer

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I ATO — O Estranho Atrás do Meu Rosto

Não me reconheço, e não digo isso porque o tempo tenha trabalhado sobre meu rosto, porque meus olhos tenham afundado um pouco mais ou porque os anos tenham decidido escrever sua passagem sobre minha pele. Essas alterações pertencem à matéria, e a matéria sempre soube que perderia essa disputa.

Falo de outra coisa. Existe alguém atrás do meu rosto que durante muito tempo respondeu pelo meu nome, utilizou minhas mãos, pronunciou minhas palavras, recebeu meus afetos e ocupou tranquilamente minha existência, e eu já não sei quem é. Talvez nunca tenha sabido.

Passei anos acreditando que um homem pudesse conhecer a si mesmo apenas porque carregava consigo a própria memória. Que ingenuidade. A memória é uma funcionária corrupta: arquiva aquilo que nos favorece, extravia aquilo que nos acusa e modifica discretamente os documentos para que consigamos continuar admirando o criminoso que mora conosco.

Eu me admirei durante muito tempo, e essa é uma confissão repugnante.

Considerava-me decente porque havia homens piores. Considerava-me generoso porque algumas vezes ofereci aquilo que não me fazia falta. Considerava-me fiel porque minhas traições nem sempre envolveram corpos. Considerava-me honesto porque nunca roubei dinheiro, embora tenha roubado tempo, confiança, esperança e pedaços inteiros da serenidade de pessoas que acreditaram em mim.

Que extraordinária contabilidade inventamos para permanecer inocentes. Somamos nossas pequenas virtudes, escondemos as crueldades nas casas decimais e depois apresentamos o resultado ao mundo como prova de que somos homens dignos, corretos e respeitáveis.

Tenho náusea dessa última palavra: respeitável.

Quantos miseráveis aprenderam a parecer respeitáveis? Quantas mãos apertamos sem saber aquilo que fizeram quando ninguém estava olhando? E quantas mãos apertaram a minha?

Não responda.

Tenho medo de que a resposta me inclua.


II ATO — O Julgamento que Sempre Adiei

Durante anos desejei conhecer a verdade sobre os outros. Queria saber quem mentia, quem fingia, quem me procurava por interesse, quem sorria diante de mim e me desprezava depois que eu saía. Hoje compreendo que fiz a pergunta errada.

Eu deveria ter perguntado quantas vezes fui exatamente aquilo que condenava.

É uma pergunta muito menos confortável.

O homem possui uma paixão extraordinária pelos defeitos alheios porque eles funcionam como cortinas. Enquanto apontamos para a podridão do outro, ninguém percebe o cheiro vindo de nossa própria casa.

Eu fiz isso. Julguei, condenei, desprezei, e cada sentença que pronunciei contra alguém serviu para manter meu próprio processo adiado.

Até que fiquei sozinho comigo.

Não existe companhia mais inconveniente.

Podemos fugir de uma mulher, de um amigo, de uma cidade ou de uma família inteira. Podemos mudar de endereço, trocar o número do telefone, atravessar oceanos, fechar portas e desaparecer durante anos, mas existe um passageiro que embarca conosco sem comprar passagem: nós mesmos.

Que castigo engenhoso é carregar por toda parte justamente aquele de quem gostaríamos de escapar.

Às vezes penso que a vida possui um senso de ironia quase ofensivo. Ela nos concede décadas para construirmos uma personagem e depois permite que envelheçamos o suficiente para assistir à maquiagem escorrer.

Primeiro perdemos a juventude, depois algumas pessoas, depois certas certezas e, por fim, a arrogância de acreditar que ainda existe tempo suficiente para corrigir tudo.

Então sobra isto: um homem diante de si, sem plateia, sem testemunhas e sem necessidade de parecer bom.

É nesse instante que começa o verdadeiro julgamento.


III ATO — A Honestidade da Morte

Não temo tanto a morte. Temo chegar até ela carregando intactas todas as mentiras que contei sobre mim.

A morte, pelo menos, possui uma honestidade que raramente encontramos entre os vivos. Ela não promete permanecer, não jura fidelidade, não pede que confiemos nela e não se apresenta como amiga para depois desaparecer. Ela apenas existe no limite, silenciosa e inegociável.

Talvez por isso a humanidade tenha tanto medo dela, porque estamos acostumados a negociar tudo.

Negociamos princípios, amizades e fidelidade. Negociamos o amor quando aparece oportunidade melhor e negociamos até nossa consciência, desde que o preço pareça suficientemente vantajoso.

Mas o fim não negocia.

E essa impossibilidade nos humilha.

Há noites em que penso na quantidade de coisas que terminarão comigo. Meu nome deixará de ser pronunciado, minha voz desaparecerá da memória, os objetos que considerei importantes irão parar nas mãos de desconhecidos e as fotografias perderão contexto.

Alguém encontrará uma imagem minha dentro de uma caixa e perguntará:

“Quem é esse?”

Talvez ninguém saiba.

Estranhamente, isso não me entristece tanto quanto deveria. O que me entristece é outra possibilidade: que alguém saiba.

Que alguém olhe minha fotografia e se lembre de uma humilhação, de uma ausência, de uma mentira ou de uma promessa que fiz sem intenção suficiente para cumpri-la.

Talvez essa seja nossa verdadeira permanência: não aquilo que construímos, mas aquilo que ferimos.

Há pessoas mortas há décadas que continuam doendo dentro de alguém.

Que espécie terrível de eternidade é essa?

Não quero essa eternidade. Prefiro o esquecimento. Prefiro desaparecer completamente a permanecer na memória de alguém como a razão pela qual deixou de confiar.


IV ATO — Tudo Aquilo que Pedimos Tarde Demais

Mas talvez eu esteja pedindo tarde demais.

Nós sempre pedimos tarde demais. Pedimos perdão depois que a ferida aprendeu nosso formato, companhia depois que transformamos presença em obrigação, confiança depois de ensinar alguém a desconfiar e tempo quando finalmente percebemos quanto desperdiçamos.

Quando todas essas súplicas já não encontram destinatário, começamos a pedir mais alguns anos à própria vida.

Mais alguns.

Para quê?

Para corrigir?

Talvez.

Ou apenas para adiar o encontro com aquilo que sabemos?

Não sei.

Há alguma coisa profundamente miserável no homem que passa a juventude comportando-se como se fosse eterno e chega à velhice negociando desesperadamente cada manhã.

Eu também sou esse homem.

Por isso não quero consolo. O consolo frequentemente é apenas uma maneira delicada de impedir que alguém termine um pensamento doloroso.

Quero terminá-lo.

Quero olhar até o fim e retirar, uma por uma, todas as desculpas com que revesti minha existência, para descobrir aquilo que permanece quando nenhuma justificativa consegue mais proteger-me.

Talvez não reste muita coisa. Talvez reste apenas vergonha, arrependimento ou um homem que finalmente compreendeu que passou boa parte da vida exigindo dos outros uma dignidade que oferecia somente quando lhe era conveniente.

Isso seria terrível.

Mas seria verdadeiro.

E neste momento a verdade me interessa mais do que qualquer absolvição.


V ATO — A Vida que não Vivemos

Comecei a suspeitar que a maior tragédia não seja morrer, porque morrer pertence à condição de todos.

A verdadeira tragédia talvez seja atravessar uma existência inteira sem jamais ter vivido honestamente dentro de si: amar sem amar, permanecer sem estar, prometer sem pretender, sorrir sem sentir, perdoar sem esquecer, pedir desculpas sem arrepender-se e chamar toda essa sucessão de representações de vida.

Se for isso, então não é a morte que deveria explicar-se diante de nós.

Somos nós que deveríamos explicar-nos diante da vida.

Explicar por que recebemos tanto tempo e gastamos uma parte dele ferindo. Por que desejamos tanto ser amados e tratamos com desprezo quem nos amou. Por que exigimos verdade enquanto aperfeiçoávamos nossas próprias mentiras. Por que reclamamos da solidão depois de expulsarmos, uma por uma, as pessoas que tentaram aproximar-se.

Não tenho respostas.

Finalmente não tenho.

E talvez essa seja a primeira coisa verdadeiramente honesta que digo há muitos anos.

Passei uma existência procurando culpados porque o culpado precisava morar fora de mim. Era mais fácil acusar o mundo, as circunstâncias, as pessoas que me decepcionaram e tudo aquilo que não aconteceu conforme desejei.

Talvez eu tenha transformado minhas próprias feridas em licença para ferir.

E existe algo repugnante nisso.

Sofremos e acreditamos que o sofrimento nos torna automaticamente melhores, quando algumas vezes ele apenas nos oferece novas maneiras de sermos cruéis.

Não quero mais essa desculpa.


VI ATO — O Homem Sem Máscaras

Agora posso olhar novamente para aquele rosto.

Não para perdoá-lo. Ainda não. Talvez algumas versões de nós não mereçam perdão tão rapidamente.

Olho porque preciso reconhecer quem esteve aqui durante todo esse tempo.

Eu.

Não o mundo, não os outros, não as circunstâncias.

Eu.

E se algum dia chegar o instante inevitável em que meus olhos precisem fechar-se definitivamente, espero ao menos não levar comigo a última das minhas farsas.

Não desejo uma absolvição fabricada às pressas pelo medo do fim, nem quero inventar virtudes tardias para ornamentar aquilo que fui. Quero apenas chegar diante desse limite sem precisar continuar defendendo a personagem que durante tanto tempo carregou meu nome.

Quero que a morte encontre um homem sem máscaras, mesmo que encontre muito pouco de homem debaixo delas.

Talvez essa seja minha última possibilidade de dignidade: não exigir que o passado seja inocentado, não modificar minhas lembranças para morrer em paz e não chamar arrependimento de reparação quando já não existe ninguém a quem devolver aquilo que retirei.

Porque talvez seja isso que reste depois que todas as nossas representações terminam: não os elogios que recebemos, não a reputação que cuidadosamente construímos, não aquilo que conseguimos convencer os outros de que éramos.

Resta aquilo que sabemos.

E diante disso já não existe plateia para enganar.

Quando finalmente chegar a hora de abandonar este rosto que durante tantos anos respondeu pelo meu nome, não quero perguntar se fui importante, admirado ou lembrado.

Quero somente saber se, antes que o tempo terminasse, tive coragem suficiente para encontrar aquele homem escondido atrás de mim.

E reconhecê-lo.

Não aquilo que dissemos ser, mas aquilo que tivemos coragem de reconhecer antes que já não houvesse tempo para mudar.

 (Betto Gasparetto – 2002)

Brilho Sobre o Cais

Posted in Coleção - Poesia on 28 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O céu cansado anuncia tempestades,
E em meu olhar descansa a solidão.
As águas passam lentas sob a ponte,
Levando promessas pela escuridão.

A noite cobre a margem das memórias,
E o vento muda o rumo do lugar.
Há algo teu vagando entre as neblinas,
Que minha alma insiste em procurar.

As folhas secas dormem nas calçadas,
E a lua perde o brilho sobre o cais.
Não há retorno aos passos esquecidos,
Nem para sonhos que não voltam mais.

Agora aceito o peso dos invernos,
E a dor do que partiu sem explicar.
Pois certos fins parecem despedidas,
Mas nunca chegam mesmo a terminar.

(Betto Gasparetto – 1999)

Cara ou Coroa

Posted in Coleção - Crônicas on 27 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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A notícia chegou à agência pouco depois das dez da manhã.

Um casal desistira, na última hora, de um pacote turístico para Jerusalém. Restavam duas passagens, ida e volta, sete noites de hotel, alimentação, traslados e passeios incluídos. Tudo pago por uma promoção da operadora.

O problema era que quatro casais aguardavam uma oportunidade havia meses.

Cristina, gerente da agência, telefonou para a operadora, procurou outros voos, verificou desistências, datas próximas e até a possibilidade de acrescentar lugares.

Nada.

Duas passagens.

Oito interessados.

Os casais estavam justamente na agência naquela manhã porque haviam sido convocados para atualizar documentos da lista de espera. Quando souberam da desistência, a pequena sala de atendimento ganhou a atmosfera de uma final de campeonato.

Otávio e Lúcia comemorariam quarenta anos de casamento. Nunca haviam viajado para fora do país.

Renato e Márcia economizaram durante anos para uma viagem internacional, mas entregaram boa parte das economias ao filho quando ele enfrentou dificuldades.

Sérgio e Helena haviam se casado sem lua de mel. Poucos dias depois da cerimônia, precisaram assumir os cuidados de um familiar gravemente enfermo.

Fábio e Denise atravessavam uma fase difícil no casamento e imaginavam que alguns dias longe da rotina talvez lhes permitissem conversar sem contas, telefone, trabalho e os silêncios acumulados dentro de casa.

Cristina explicou:

— Não tenho como escolher.

Fábio argumentou que aquela viagem poderia salvar seu casamento.

Renato falou do dinheiro que entregara ao filho.

Sérgio mencionou a lua de mel que nunca aconteceu.

Otávio ouviu tudo e finalmente disse:

— Se continuarmos assim, daqui a pouco teremos de apresentar declaração de imposto de renda e testemunhas.

Ninguém riu imediatamente.

Depois riram todos.

Era exatamente o que estavam fazendo: transformando quatro histórias pessoais numa competição para descobrir quem merecia mais duas passagens.

Cristina apoiou as mãos sobre a mesa.

— Não posso decidir qual história vale mais.

— Sorteio — sugeriu Márcia.

Sérgio retirou uma moeda do bolso.

— Cara ou coroa.

Cristina olhou para ele.

— Temos quatro casais.

— Eliminatória.

— Estamos sorteando uma viagem ou organizando campeonato?

— Neste momento, os dois.

A moeda era de um real.

Pouco para comprar qualquer coisa naquela agência, mas suficiente, aparentemente, para decidir uma viagem de milhares.

Fizeram os confrontos.

No primeiro, Otávio e Lúcia venceram Renato e Márcia.

No segundo, Sérgio e Helena venceram Fábio e Denise.

Restaram os dois casais.

De um lado, quarenta anos de casamento.

Do outro, uma lua de mel que nunca acontecera.

Cristina segurou a moeda.

— Quem escolhe?

Otávio olhou para Sérgio.

— Escolha você.

— Cara.

— Então ficamos com coroa.

Cristina lançou.

A moeda subiu, girou sob a iluminação branca da agência, bateu no balcão, quicou uma vez e parou.

Coroa.

Lúcia levou as duas mãos ao rosto.

Otávio demorou alguns segundos para acreditar.

— Ganhamos?

— Ganharam — confirmou Cristina.

Ele abraçou a esposa.

Renato e Márcia cumprimentaram os vencedores. Fábio desejou boa viagem. Sérgio apertou a mão de Otávio.

— Aproveitem por nós.

— Obrigado.

Helena também sorriu.

Depois se afastou.

Enquanto Cristina preparava a documentação, Lúcia percebeu que a jovem permanecia perto da vitrine, enxugando discretamente os olhos.

Aproximou-se.

— Você queria muito essa viagem?

Helena ficou constrangida.

— Desculpe. Não quero estragar a alegria de vocês.

— Não perguntou isso.

Helena respirou fundo.

Contou que ela e Sérgio haviam se casado sete anos antes. Planejaram uma pequena lua de mel, mas, quatro dias depois do casamento, a mãe dele sofreu um problema grave de saúde.

Cancelaram tudo.

Vieram hospital, recuperação, despesas e anos reorganizando a vida.

— Sempre dizíamos que viajaríamos no ano seguinte.

Ela sorriu.

— Descobrimos que o ano seguinte é um lugar muito movimentado.

Lúcia olhou para Sérgio.

Depois para o marido.

Otávio estava sentado diante do balcão preenchendo um formulário.

Ela não disse nada.

Apenas olhou para ele.

Quarenta anos de casamento servem, entre outras coisas, para economizar certas conversas.

Otávio largou a caneta.

— Não.

Lúcia continuou olhando.

— Lúcia…

— Eu não falei nada.

— Esse é o problema. Conheço esse olhar.

Ela sorriu.

Otávio respirou fundo, levantou-se e caminhou até Cristina.

— Essas passagens podem ser transferidas?

A gerente ergueu a cabeça.

— Para quem?

Otávio apontou para Sérgio e Helena.

O silêncio chegou antes da resposta.

— Preciso confirmar, mas acredito que sim.

Sérgio levantou imediatamente.

— Não.

— Ainda nem ofereci — respondeu Otávio.

— Eu ouvi.

Lúcia segurou a mão de Helena.

— Fiquem com elas.

— Não podemos aceitar.

— Podem.

— Vocês ganharam.

Otávio concordou.

— Tivemos quarenta anos juntos.

Olhou para Lúcia.

— Alguns muito bons.

Ela apertou os olhos.

— Cuidado.

— Trinta e nove excelentes.

Todos riram.

Então ele voltou-se para Sérgio.

— Vocês ainda estão começando os seus.

Sérgio tentou argumentar.

Não conseguiu.

Helena chorou novamente.

Dessa vez, Lúcia também.

A transferência foi autorizada naquela tarde.

Sérgio guardou a moeda.

Parecia o fim da história.

Não foi.

Três semanas depois, Cristina recebeu uma ligação da operadora. Ao solicitar a transferência, explicara por que o casal vencedor abrira mão das passagens. A história circulou internamente até chegar à diretoria responsável pela promoção.

Havia uma decisão.

Cristina telefonou imediatamente.

Lúcia atendeu.

— Dona Lúcia, tenho uma notícia sobre Jerusalém.

— Aconteceu alguma coisa com os meninos?

Ela já chamava Sérgio e Helena de meninos, embora ambos tivessem mais de quarenta anos.

— Não. Conseguimos mais duas passagens.

Silêncio.

— Para quando?

— Para a mesma semana.

Outra pausa.

Então Lúcia começou a rir.

— Otávio!

Cristina afastou o telefone do ouvido.

— O que aconteceu? — ouviu o marido perguntar.

— Arruma a mala!

No sábado do embarque, os quatro se encontraram no aeroporto.

Helena abraçou Lúcia. Sérgio cumprimentou Otávio e retirou alguma coisa do bolso.

A moeda.

— Guardei.

Otávio riu.

— Para quê?

— Para lembrar que perdemos.

Lúcia corrigiu:

— Não. Para lembrar quem ganhou primeiro.

Durante aquela semana, os quatro dividiram passeios, refeições, fotografias e atrasos. Descobriram afinidades, discordaram sobre restaurantes e aprenderam rapidamente que viajar junto também é uma maneira eficiente de testar amizades recém-inauguradas.

Voltaram amigos.

Meses depois, Sérgio apareceu novamente na agência.

Entregou a moeda a Cristina.

— Fique com ela.

— Por quê?

— Aqui começou a confusão.

Cristina mandou colocá-la numa pequena moldura sobre sua mesa.

Embaixo, escreveu apenas:

CARA OU COROA

Nada mais.

Desde então, alguns clientes perguntam o significado.

Cristina costuma olhar para a pequena moeda antes de responder:

— É uma história comprida demais para uma coisa que cabe no bolso.

Depois volta ao computador.

A moeda permanece ali, imóvel dentro da moldura.

Sem mostrar cara.

Nem coroa.

(Betto Gasparetto – i – mmxxv)