Arquivo para 17 de agosto de 2026

O Menestrel da Renascença

Posted in Coleção - Crônicas on 17 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O salão havia sido preparado para impressionar antes mesmo de receber o primeiro convidado.

Centenas de velas ardiam nos grandes candelabros, refletindo-se nas taças, nos espelhos e nos fios dourados das tapeçarias. Sobre as mesas, travessas de prata sustentavam carnes assadas, frutas, pães, queijos e doces preparados durante dois dias nas cozinhas do palácio. Criados atravessavam discretamente o salão, substituindo pratos quase intocados enquanto músicos executavam melodias para convidados que conversavam alto demais para ouvi-las.

Na cabeceira estava o duque Lorenzo, anfitrião da celebração. À sua direita, nobres disputavam histórias de propriedades, cavalos e alianças. À esquerda, um banqueiro explicava quanto custara importar o mármore usado na reforma de sua residência.

— Veio de longe — dizia ele. — O transporte custou quase tanto quanto a pedra.

Um conde examinou sua taça.

— Quando alguma coisa custa pouco, ninguém pergunta de onde veio.

Os dois riram.

Perto deles, uma dama exibia um colar de pedras verdes.

— Foi presente de meu marido.

— Belíssimo.

— Ele sabe pedir desculpas.

O marido ouviu e preferiu continuar bebendo.

Naquela noite haveria uma atração especial. Lorenzo mandara buscar um menestrel que ganhara fama por apresentar-se em praças, tavernas, feiras e algumas cortes. Chamava-se Matteo e, segundo os comentários, tinha uma inconveniente habilidade para fazer pessoas importantes rirem de assuntos dos quais normalmente não gostavam de falar.

Quando entrou, alguns convidados se decepcionaram.

Não vestia seda, não carregava joias e não parecia particularmente impressionado com o lugar. Trazia roupas bem cuidadas, porém simples, e um pequeno instrumento de cordas pendurado às costas.

Fez uma reverência diante do duque.

— Disseram-me que esta é uma das casas mais ricas da região.

Lorenzo abriu um sorriso satisfeito.

— Disseram corretamente.

Matteo observou o salão.

— Ainda bem. Fiquei preocupado que faltasse comida.

Alguns convidados riram.

O duque também.

— Comece.

Matteo caminhou entre as mesas contando pequenas histórias. Falou de um comerciante que comprara tantos baús para guardar moedas que acabara sem espaço para colocar a cama. Depois contou sobre um nobre que encomendara uma estátua de si mesmo tão grande que precisou derrubar parte do jardim para conseguir admirá-la da janela.

O banqueiro riu alto.

— Conheço homens assim.

Matteo olhou para ele.

— Todos conhecemos. O difícil é reconhecer quando usam nossas roupas.

As risadas diminuíram um pouco.

Ele prosseguiu.

Contou sobre dois homens que discutiam numa feira. Um dizia possuir cinquenta hectares; o outro, oitenta. Um terceiro, que nada possuía, perguntou quanto terreno cada um precisaria quando morresse.

— O primeiro respondeu que ainda não havia pensado nisso. O segundo também não. Então o pobre sugeriu que provavelmente dois metros resolveriam a disputa.

Dessa vez, alguns convidados não riram.

O duque inclinou-se na cadeira.

— Você fala muito sobre riqueza para alguém que aparentemente possui tão pouco.

Matteo respondeu:

— É justamente por isso que consigo observá-la de fora.

Um murmúrio percorreu o salão.

Lorenzo poderia ter encerrado a apresentação.

Não encerrou.

Talvez estivesse curioso.

Talvez quisesse descobrir até onde o convidado teria coragem de ir.

— Continue.

Matteo pediu então quatro objetos.

Uma moeda de ouro.

Um anel.

Uma taça de prata.

E um pedaço de pão.

Os três primeiros apareceram imediatamente.

O pão demorou um pouco porque ninguém entendeu por que ele o queria.

Matteo colocou tudo sobre uma mesa.

— Qual destes vale mais?

— A moeda — respondeu o banqueiro.

— O anel — disse a dama das pedras verdes.

— Depende da prata — comentou alguém.

Matteo apontou para um criado que passava.

— E você?

O rapaz parou, assustado.

Ninguém costumava pedir a opinião dos criados durante os banquetes.

— Eu?

— Você mesmo.

O jovem olhou para os objetos.

— Depende.

— De quê?

— Se a pessoa estiver com fome, o pão.

Houve um breve silêncio.

Matteo pegou o pedaço de pão.

— Temos finalmente um economista no salão.

As gargalhadas voltaram.

Até o criado sorriu antes de continuar seu trabalho.

O banqueiro, porém, não desistiu.

— Isso é truque. Uma moeda compra muitos pães.

— Sem dúvida.

— Então continua valendo mais.

Matteo concordou.

— Desde que exista alguém disposto a vender o pão.

O banqueiro abriu a boca, mas não respondeu.

A apresentação prosseguiu.

Matteo não fazia sermões. Preferia perguntas, histórias absurdas e comparações inconvenientes. Ria dos ricos, dos pobres, dos soldados, dos comerciantes, dos artistas e principalmente de si mesmo. Quando alguém começava a sentir-se confortável demais com uma piada dirigida ao outro, a seguinte geralmente chegava mais perto.

Em determinado momento, aproximou-se do duque.

— Posso fazer uma pergunta a Vossa Excelência?

— Já fez várias.

— Esta custa mais caro.

— Quanto?

— Uma resposta verdadeira.

Lorenzo riu.

— Pergunte.

Matteo observou as tapeçarias, os candelabros, as mesas e os convidados.

— Se amanhã ninguém mais o chamasse de Excelência, quem o senhor seria?

Alguns rostos imediatamente se voltaram para o duque.

Lorenzo permaneceu imóvel.

Era uma pergunta simples.

Talvez por isso fosse tão desagradável.

— Lorenzo — respondeu finalmente.

Matteo fez uma reverência.

— Muito prazer, Lorenzo. Eu sou Matteo.

Dessa vez ninguém soube se deveria rir.

O duque foi o primeiro.

Começou discretamente, depois gargalhou com tanta vontade que precisou apoiar a mão sobre a mesa.

Os demais acompanharam.

Matteo encerrou sua apresentação pouco antes da meia-noite.

Lorenzo mandou entregar-lhe uma bolsa com moedas.

O menestrel pesou-a na mão.

— É muito dinheiro.

— Você merece.

— Posso fazer o que quiser com ele?

— Naturalmente.

Matteo retirou algumas moedas e guardou-as.

Depois entregou a bolsa ao criado que havia escolhido o pão.

— Divida com o pessoal da cozinha.

O rapaz arregalou os olhos.

— Senhor, eu não posso…

— Então teremos um problema sério, porque eu também não quero carregar tudo isso.

O duque observou a cena.

Não interferiu.

Na manhã seguinte, o salão estava vazio.

Sem os convidados, parecia maior e menos impressionante. Criados recolhiam taças, limpavam manchas de vinho e contavam pratos quebrados. Sob uma das mesas havia uma pérola desprendida de algum vestido. Próximo à cadeira do duque, alguém encontrara uma moeda.

O jovem criado que recebera a bolsa pegou-a.

Por alguns segundos, ficou olhando para o ouro.

Depois levou a moeda ao administrador do palácio.

— Encontramos esta no chão.

O administrador conferiu.

— Poderia ter ficado com ela.

O rapaz deu de ombros.

— Ontem já ganhei mais do que esperava.

Do outro lado da cidade, Matteo caminhava pela estrada com algumas moedas no bolso e o instrumento às costas.

No palácio, Lorenzo tomava o café da manhã quando perguntou ao criado:

— Aquele menestrel deixou alguma coisa?

— Não, Excelência.

Lorenzo passou manteiga no pão.

Parou.

Olhou para o rapaz.

— Hoje pode me chamar de Lorenzo.

O criado não soube se era ordem, brincadeira ou algum teste perigoso.

— Sim, Excelência.

Lorenzo começou a rir.

O rapaz também.

Sobre a mesa havia uma bandeja de prata, uma faca com cabo de marfim e uma pequena cesta de pães ainda quentes.

Lorenzo pegou um deles.

Ficou olhando por um instante.

Depois comeu.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)