(Betto Gasparetto)
Monólogo 02 — O Preço da Aparência

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I ATO — A Arte de Parecer
Passei a vida inteira parecendo.
Talvez essa seja a palavra mais exata que ainda consigo pronunciar sobre mim.
Parecendo.
Parecendo feliz quando a felicidade já havia recolhido suas coisas e saído sem despedida. Parecendo forte quando qualquer palavra pronunciada no lugar certo conseguiria desmontar aquilo que eu chamava de equilíbrio. Parecendo amado quando o amor havia se tornado apenas uma fotografia antiga que eu continuava mostrando aos outros para não precisar explicar o vazio.
Eu parecia e fui ficando extraordinariamente bom nisso.
Há pessoas que aprendem música, outras dominam idiomas, algumas constroem casas ou conhecem profundamente números, máquinas, livros e negócios.
Eu aprendi a parecer.
Aprendi a medida correta do sorriso, o momento de baixar os olhos, a duração apropriada de um abraço e a frase necessária para demonstrar interesse. Aprendi até a rir quando não havia nada dentro de mim que reconhecesse alguma graça.
Talvez eu pudesse ter recebido um prêmio. Os homens gostam de premiar representações convincentes.
Chamam isso de sucesso.
Que palavra miserável.
Sucesso.
Passei tantos anos perseguindo essa palavra que nunca perguntei exatamente onde ela pretendia levar-me.
Agora sei.
Até aqui.
Até este homem que possui algumas coisas e não consegue lembrar a última vez em que desejou sinceramente voltar para casa.
Minha casa.
Outra palavra generosa demais.
II ATO — A Casa da Ausência

Existem paredes, móveis, objetos escolhidos cuidadosamente, cortinas que combinam com o restante da decoração, taças que quase nunca foram utilizadas e uma mesa grande demais para a quantidade de pessoas que ainda desejam sentar-se comigo.
Durante anos pensei que estava construindo uma vida.
Talvez estivesse apenas mobiliando uma ausência.
Há diferença.
Demorei demais para perceber.
Minha mulher percebeu antes.
Ela costumava olhar para mim de uma maneira que me incomodava profundamente. Não era desprezo. Teria sido mais fácil se fosse.
Era pena.
A piedade de alguém que assiste ao homem que ama desaparecer dentro da personagem que inventou.
Eu odiava aquele olhar. Perguntava o que havia de errado.
Ela dizia:
“Nada.”
E eu aceitava.
Como eu gostava daquela palavra.
Nada.
Nada permitia continuar. Nada não exigia mudanças. Nada não fazia perguntas. Nada podia ser colocado debaixo do tapete junto com todas as outras coisas que não combinavam com nossa aparência.
Éramos um casal bonito.
Disseram isso muitas vezes.
Eu gostava.
Ela, nos últimos anos, sorria quando ouvia. Hoje compreendo aquele sorriso.
Era o sorriso de quem já havia descoberto a piada.
Nós parecíamos felizes.
É diferente.
Muito diferente.
Amor e aparência conseguem viver juntos durante algum tempo, mas chega uma hora em que um deles começa a sufocar.
O nosso amor sufocou.
E eu continuei ajeitando a gravata.
Essa talvez seja a lembrança que mais me enoja.
Não as discussões, não os silêncios, não a despedida.
A gravata.
Porque enquanto alguma coisa morria diante de mim, eu ainda me preocupava em parecer um homem cuja vida estava perfeitamente organizada.
Há uma vulgaridade enorme nisso.
O mundo desabando dentro de casa e eu verificando se alguém do lado de fora havia escutado o barulho.
Que homem pequeno.
Que extraordinária pobreza.
III ATO — A Aparência do Amor

Eu não queria salvar o amor.
Queria salvar a aparência do amor.
Não queria que ela permanecesse porque ainda conseguíamos alcançar um ao outro. Queria que permanecesse porque sua partida faria perguntas surgirem.
O que aconteceu?
Por quê?
Vocês pareciam tão bem.
Pareciam.
Sempre essa palavra.
Quando ela finalmente foi embora, senti uma dor profunda.
Durante algum tempo chamei aquilo de amor.
Hoje já não tenho tanta certeza.
Talvez parte daquela dor fosse apenas humilhação.
Eu havia sido abandonado.
Eu.
O homem que parecia ter tudo.
Que inconveniência.
As pessoas poderiam perceber que alguma coisa estava errada.
Então contei uma versão elegante.
Duas pessoas amadureceram de maneiras diferentes. Os caminhos se separaram. Continuamos amigos. Respeito permanece.
Essas frases são maravilhosas porque não possuem sangue.
São limpas.
Podem ser pronunciadas durante um jantar.
Ninguém perde o apetite.
A verdade era menos apresentável.
Nós nos tornamos estranhos dentro da mesma cama.
Eu havia parado de ouvi-la muito antes de ela parar de falar comigo. Ela havia desistido de pedir presença.
Eu confundia dinheiro com cuidado, estabilidade com afeto e fidelidade física com amor.
Nunca a traí com outra mulher.
Durante anos tive orgulho disso.
Como se existisse somente uma maneira de trair alguém.
Traí aquela mulher com minha indiferença, com minhas prioridades, com minha necessidade de ser admirado e com todas as vezes em que escolhi impressionar desconhecidos em vez de compreender quem dormia ao meu lado.
Fui fiel ao corpo dela e infiel à sua solidão.
IV ATO — A Verdade que a Fotografia Esconde

Não existe fotografia capaz de mostrar isso.
Ainda bem.
Fotografias foram feitas para colaborar conosco. Elas congelam o sorriso e escondem aquilo que aconteceu cinco minutos antes.
Tenho centenas.
Em todas parecemos felizes.
Às vezes espalho algumas sobre a mesa.
É quase perverso.
Dois desconhecidos sorrindo para mim.
Eu olho aquele homem mais jovem e tenho vontade de perguntar se ele sabia. Se percebia. Se alguma parte dele compreendia que estava trocando coisas verdadeiras pela admiração de pessoas que desapareceriam.
Talvez soubesse.
Essa hipótese é pior.
Porque ignorância ainda oferece alguma defesa.
Mas saber e continuar…
Há atitudes humanas que me causam repugnância: a falsidade, a bajulação, a arrogância, a ingratidão, a facilidade com que algumas pessoas abandonam outras depois de utilizá-las.
Passei anos condenando tudo isso.
Mas existe uma espécie de nojo muito mais difícil de suportar.
Aquele que sentimos quando reconhecemos no próprio comportamento uma versão daquilo que desprezávamos.
Não há distância suficiente para fugir.
Não posso atravessar a rua para evitar-me.
Não posso fechar a porta antes que eu entre.
Estou sempre aqui.
Talvez seja essa a verdadeira condenação da consciência: obrigar o homem a morar dentro daquilo que fez de si.
V ATO — O Inventário das Coisas

E agora?
O que faço com tudo aquilo que acumulei para provar que havia vencido?
Alguns ternos. Relógios. Objetos. Documentos. Fotografias. Reconhecimentos.
Coisas.
Tantas coisas.
Às vezes imagino minha casa depois que eu morrer.
Não há morbidez nisso.
Há apenas matemática.
Alguém precisará entrar, abrir armários, separar papéis e decidir o que fica e o que vai embora.
Aquilo que custou meses de trabalho poderá terminar dentro de uma caixa.
Alguém perguntará quanto vale.
Outro responderá um número decepcionante.
E pronto.
Uma existência inteira convertida em objetos usados.
Talvez seja justo.
Passei tanto tempo atribuindo valor às aparências que seria quase elegante terminar avaliado por elas.
Mas existe uma coisa que ninguém encontrará nos armários.
O tempo que não ofereci.
Esse não pode ser vendido.
As palavras que não pronunciei também não. Os abraços adiados não ocupam espaço. As noites em que alguém precisou de mim e encontrou apenas minha ausência não poderão ser colocadas numa caixa.
Que patrimônio extraordinário.
Tudo aquilo que realmente importa desaparece sem deixar recibo.
VI ATO — A Morte Não Consulta o Currículo

E então a morte.
Sempre ela.
Não como ameaça.
Como interrupção.
Como aquela mão que finalmente fecha o estabelecimento depois de perceber que nenhum cliente entrará novamente.
Penso nela algumas vezes.
Não a desejo.
Também não lhe peço distância.
Apenas reconheço sua honestidade.
Ela virá sem perguntar quanto paguei pelo relógio, sem interessar-se pelo endereço, sem verificar minhas roupas e sem consultar as pessoas que me admiravam.
Que falta de educação.
Passamos décadas construindo importância e a morte não demonstra qualquer respeito por nosso currículo.
Talvez por isso ela seja tão necessária ao pensamento.
Não porque devamos desejá-la, mas porque sua existência ridiculariza muitas das coisas pelas quais sacrificamos a vida.
Que ironia.
Sacrificar a vida por aquilo que a morte sequer reconhecerá.
E eu fiz isso.
Não quero consolo.
Já recebi consolo suficiente.
O consolo é primo da aparência.
Ambos cobrem aquilo que não desejamos olhar.
Quero permanecer diante daquilo que restou.
Sem seda.
Sem títulos.
Sem a elegância que durante tantos anos utilizei para esconder minha pobreza.
Porque fui pobre.
Terrivelmente pobre.
Não de dinheiro.
Seria mais simples.
Fui pobre de coragem para admitir que estava infeliz. Pobre de humildade para pedir perdão enquanto ainda havia alguém disposto a escutar. Pobre de presença diante de quem me amava.
Pobre de verdade.
E nenhuma riqueza consegue corrigir retroativamente essa miséria.
VII ATO — A Última Verdade Viva

Talvez um dia alguém encontre uma fotografia minha e diga que eu parecia elegante.
Provavelmente parecia.
Espero que não diga que eu parecia feliz.
Seria insuportável continuar mentindo depois de morto.
Porque agora compreendo o preço da aparência.
Não foi o dinheiro que gastei para mantê-la.
Foi aquilo que precisei esconder para que ela continuasse intacta.
Minha tristeza.
Minha covardia.
Minha solidão.
Meu amor apodrecendo sem testemunhas.
E aquele homem que poderia ter sido alguma coisa diferente, mas preferiu passar a existência inteira parecendo.
Hoje já não quero parecer.
Quero apenas chegar ao fim sem precisar representar para mim mesmo.
Se ainda houver alguma dignidade possível neste resto de homem, talvez seja essa: permitir que todas as aparências morram antes dele, para que, quando a morte finalmente vier buscar o que inevitavelmente lhe pertence, encontre ao menos uma verdade viva.
(Betto Gasparetto – 2002)