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Cara ou Coroa

Posted in Coleção - Crônicas on 27 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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A notícia chegou à agência pouco depois das dez da manhã.

Um casal desistira, na última hora, de um pacote turístico para Jerusalém. Restavam duas passagens, ida e volta, sete noites de hotel, alimentação, traslados e passeios incluídos. Tudo pago por uma promoção da operadora.

O problema era que quatro casais aguardavam uma oportunidade havia meses.

Cristina, gerente da agência, telefonou para a operadora, procurou outros voos, verificou desistências, datas próximas e até a possibilidade de acrescentar lugares.

Nada.

Duas passagens.

Oito interessados.

Os casais estavam justamente na agência naquela manhã porque haviam sido convocados para atualizar documentos da lista de espera. Quando souberam da desistência, a pequena sala de atendimento ganhou a atmosfera de uma final de campeonato.

Otávio e Lúcia comemorariam quarenta anos de casamento. Nunca haviam viajado para fora do país.

Renato e Márcia economizaram durante anos para uma viagem internacional, mas entregaram boa parte das economias ao filho quando ele enfrentou dificuldades.

Sérgio e Helena haviam se casado sem lua de mel. Poucos dias depois da cerimônia, precisaram assumir os cuidados de um familiar gravemente enfermo.

Fábio e Denise atravessavam uma fase difícil no casamento e imaginavam que alguns dias longe da rotina talvez lhes permitissem conversar sem contas, telefone, trabalho e os silêncios acumulados dentro de casa.

Cristina explicou:

— Não tenho como escolher.

Fábio argumentou que aquela viagem poderia salvar seu casamento.

Renato falou do dinheiro que entregara ao filho.

Sérgio mencionou a lua de mel que nunca aconteceu.

Otávio ouviu tudo e finalmente disse:

— Se continuarmos assim, daqui a pouco teremos de apresentar declaração de imposto de renda e testemunhas.

Ninguém riu imediatamente.

Depois riram todos.

Era exatamente o que estavam fazendo: transformando quatro histórias pessoais numa competição para descobrir quem merecia mais duas passagens.

Cristina apoiou as mãos sobre a mesa.

— Não posso decidir qual história vale mais.

— Sorteio — sugeriu Márcia.

Sérgio retirou uma moeda do bolso.

— Cara ou coroa.

Cristina olhou para ele.

— Temos quatro casais.

— Eliminatória.

— Estamos sorteando uma viagem ou organizando campeonato?

— Neste momento, os dois.

A moeda era de um real.

Pouco para comprar qualquer coisa naquela agência, mas suficiente, aparentemente, para decidir uma viagem de milhares.

Fizeram os confrontos.

No primeiro, Otávio e Lúcia venceram Renato e Márcia.

No segundo, Sérgio e Helena venceram Fábio e Denise.

Restaram os dois casais.

De um lado, quarenta anos de casamento.

Do outro, uma lua de mel que nunca acontecera.

Cristina segurou a moeda.

— Quem escolhe?

Otávio olhou para Sérgio.

— Escolha você.

— Cara.

— Então ficamos com coroa.

Cristina lançou.

A moeda subiu, girou sob a iluminação branca da agência, bateu no balcão, quicou uma vez e parou.

Coroa.

Lúcia levou as duas mãos ao rosto.

Otávio demorou alguns segundos para acreditar.

— Ganhamos?

— Ganharam — confirmou Cristina.

Ele abraçou a esposa.

Renato e Márcia cumprimentaram os vencedores. Fábio desejou boa viagem. Sérgio apertou a mão de Otávio.

— Aproveitem por nós.

— Obrigado.

Helena também sorriu.

Depois se afastou.

Enquanto Cristina preparava a documentação, Lúcia percebeu que a jovem permanecia perto da vitrine, enxugando discretamente os olhos.

Aproximou-se.

— Você queria muito essa viagem?

Helena ficou constrangida.

— Desculpe. Não quero estragar a alegria de vocês.

— Não perguntou isso.

Helena respirou fundo.

Contou que ela e Sérgio haviam se casado sete anos antes. Planejaram uma pequena lua de mel, mas, quatro dias depois do casamento, a mãe dele sofreu um problema grave de saúde.

Cancelaram tudo.

Vieram hospital, recuperação, despesas e anos reorganizando a vida.

— Sempre dizíamos que viajaríamos no ano seguinte.

Ela sorriu.

— Descobrimos que o ano seguinte é um lugar muito movimentado.

Lúcia olhou para Sérgio.

Depois para o marido.

Otávio estava sentado diante do balcão preenchendo um formulário.

Ela não disse nada.

Apenas olhou para ele.

Quarenta anos de casamento servem, entre outras coisas, para economizar certas conversas.

Otávio largou a caneta.

— Não.

Lúcia continuou olhando.

— Lúcia…

— Eu não falei nada.

— Esse é o problema. Conheço esse olhar.

Ela sorriu.

Otávio respirou fundo, levantou-se e caminhou até Cristina.

— Essas passagens podem ser transferidas?

A gerente ergueu a cabeça.

— Para quem?

Otávio apontou para Sérgio e Helena.

O silêncio chegou antes da resposta.

— Preciso confirmar, mas acredito que sim.

Sérgio levantou imediatamente.

— Não.

— Ainda nem ofereci — respondeu Otávio.

— Eu ouvi.

Lúcia segurou a mão de Helena.

— Fiquem com elas.

— Não podemos aceitar.

— Podem.

— Vocês ganharam.

Otávio concordou.

— Tivemos quarenta anos juntos.

Olhou para Lúcia.

— Alguns muito bons.

Ela apertou os olhos.

— Cuidado.

— Trinta e nove excelentes.

Todos riram.

Então ele voltou-se para Sérgio.

— Vocês ainda estão começando os seus.

Sérgio tentou argumentar.

Não conseguiu.

Helena chorou novamente.

Dessa vez, Lúcia também.

A transferência foi autorizada naquela tarde.

Sérgio guardou a moeda.

Parecia o fim da história.

Não foi.

Três semanas depois, Cristina recebeu uma ligação da operadora. Ao solicitar a transferência, explicara por que o casal vencedor abrira mão das passagens. A história circulou internamente até chegar à diretoria responsável pela promoção.

Havia uma decisão.

Cristina telefonou imediatamente.

Lúcia atendeu.

— Dona Lúcia, tenho uma notícia sobre Jerusalém.

— Aconteceu alguma coisa com os meninos?

Ela já chamava Sérgio e Helena de meninos, embora ambos tivessem mais de quarenta anos.

— Não. Conseguimos mais duas passagens.

Silêncio.

— Para quando?

— Para a mesma semana.

Outra pausa.

Então Lúcia começou a rir.

— Otávio!

Cristina afastou o telefone do ouvido.

— O que aconteceu? — ouviu o marido perguntar.

— Arruma a mala!

No sábado do embarque, os quatro se encontraram no aeroporto.

Helena abraçou Lúcia. Sérgio cumprimentou Otávio e retirou alguma coisa do bolso.

A moeda.

— Guardei.

Otávio riu.

— Para quê?

— Para lembrar que perdemos.

Lúcia corrigiu:

— Não. Para lembrar quem ganhou primeiro.

Durante aquela semana, os quatro dividiram passeios, refeições, fotografias e atrasos. Descobriram afinidades, discordaram sobre restaurantes e aprenderam rapidamente que viajar junto também é uma maneira eficiente de testar amizades recém-inauguradas.

Voltaram amigos.

Meses depois, Sérgio apareceu novamente na agência.

Entregou a moeda a Cristina.

— Fique com ela.

— Por quê?

— Aqui começou a confusão.

Cristina mandou colocá-la numa pequena moldura sobre sua mesa.

Embaixo, escreveu apenas:

CARA OU COROA

Nada mais.

Desde então, alguns clientes perguntam o significado.

Cristina costuma olhar para a pequena moeda antes de responder:

— É uma história comprida demais para uma coisa que cabe no bolso.

Depois volta ao computador.

A moeda permanece ali, imóvel dentro da moldura.

Sem mostrar cara.

Nem coroa.

(Betto Gasparetto – i – mmxxv)