(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A pane começou às seis e dezessete da tarde, embora ninguém na Rua das Palmeiras soubesse disso naquele momento.
Às seis e dezoito, Marcelo percebeu que a mensagem enviada à esposa continuava com o pequeno relógio ao lado.
Às seis e dezenove, tentou novamente.
Sem conexão.
Levantou o celular, aproximou-o da janela e ficou olhando para a tela como se alguns centímetros de altitude fossem capazes de restabelecer toda a infraestrutura de telecomunicações do bairro.
Nada.
Desligou o Wi-Fi.
Ligou os dados móveis.
Nada.
Ativou o modo avião, esperou cinco segundos e desativou.
Nada.
Reiniciou o aparelho.
Quando voltou, continuava sem sinal.
— Pronto. Agora acabou a civilização — murmurou.
Na casa ao lado, dona Célia chegou à mesma conclusão por outro caminho.
Aos setenta e dois anos, usava o celular principalmente para conversar com as filhas, receber fotografias dos netos e encaminhar receitas que jamais preparava. Naquela tarde esperava uma chamada da filha mais velha.
Tentou ligar.
Falhou.
Foi até a janela.
Do outro lado da rua, viu Marcelo segurando o telefone para o alto.
Abriu a janela.
— O seu também parou?
Ele olhou.
— Parou.
— Então não é o meu aparelho.
— Pelo jeito, não.
— Ainda bem.
Marcelo estranhou.
— Ainda bem?
— Se fosse só o meu, eu teria que levar para consertar.
Era uma lógica difícil de contestar.
Pouco depois, outras portas começaram a se abrir.
Primeiro apareceu Eduardo, motorista de aplicativo, que havia acabado de perder acesso às corridas.
— Alguém está com internet?
— Não — respondeu Marcelo.
— Nem dados móveis?
— Nada.
Eduardo olhou para o celular.
— Então hoje estou oficialmente desempregado.
Da casa da esquina saiu Patrícia, comerciante.
— A maquininha não funciona.
— Nem Pix — acrescentou o marido.
— Tenho três clientes esperando.
Dona Célia perguntou:
— Dinheiro ainda funciona?
Patrícia olhou para ela.
— Funciona.
— Então guardaram alguma coisa útil do século passado.
Aos poucos descobriram que o problema atingia boa parte do bairro. Não havia internet fixa, o sinal móvel estava instável e até algumas linhas telefônicas apresentavam falhas.
Às seis e quarenta, a calçada tinha mais gente do que em muitos domingos.
Marcelo percebeu que conhecia quase todos de vista e poucos pelo nome.
O rapaz da casa amarela era Eduardo.
A mulher que saía às sete da manhã com duas crianças chamava-se Patrícia.
O senhor que lavava o carro todos os sábados era Arnaldo.
A jovem do sobrado azul, que ele julgava estudante, era fisioterapeuta e se chamava Bianca.
Moravam separados por alguns metros havia anos.
Precisaram perder o sinal para fazer as apresentações.
— Você mora aqui há quanto tempo? — Marcelo perguntou a Eduardo.
— Seis anos.
— Tudo isso?
— Você me vê todo dia.
— Ver é diferente.
Eduardo sorriu.
— Pelo menos reconheceria meu carro.
— Isso sim.
As crianças foram as primeiras a perceber que o desastre tinha vantagens.
Sem internet, dois irmãos apareceram com uma bola. Chamaram outro menino. Depois uma garota. Em quinze minutos, improvisaram traves com chinelos.
Uma das mães surgiu no portão.
— Cuidado com os carros!
Arnaldo, sentado numa cadeira de plástico, respondeu:
— Pode ficar tranquila. Os adultos estão todos na rua reclamando da internet. Ninguém consegue pedir carro por aplicativo.
A bola bateu no portão de Marcelo.
Ele olhou.
— Foi mal, tio!
Marcelo descobriu naquela hora que havia atingido a idade em que crianças desconhecidas o chamavam de tio.
Esse problema nenhuma operadora resolveria.
Às sete, Patrícia apareceu carregando uma garrafa térmica.
— Fiz café.
Trouxe algumas xícaras.
Dona Célia buscou um bolo.
— Fiz hoje.
Patrícia provou.
— Muito bom.
— Receita da internet.
Todos riram.
— Pelo menos ela serviu para alguma coisa antes de cair — disse Arnaldo.
As cadeiras começaram a aparecer sem combinação prévia. Uma veio da garagem de Marcelo, duas da casa de Célia, outras da residência de Eduardo.
A calçada virou uma pequena sala de estar coletiva.
Conversaram sobre o defeito da rede.
O assunto durou sete minutos.
Depois, sem a possibilidade de conferir notícias, vídeos ou mensagens, tiveram de encontrar outros temas.
Falaram da rua.
Da árvore da esquina cujas raízes levantavam a calçada.
Dos ônibus.
Do supermercado que havia fechado.
Da iluminação pública.
De um buraco que completaria três meses e, segundo Arnaldo, já poderia solicitar certidão de nascimento.
— Já reclamaram na prefeitura? — perguntou Bianca.
Três responderam ao mesmo tempo:
— Já.
— E?
Arnaldo apontou para o buraco.
A resposta estava ali.
A política apareceu desse jeito, sem discursos e sem candidatos: na lâmpada que demorava a ser trocada, na calçada irregular, no ônibus atrasado e na praça que precisava de manutenção.
Depois desapareceu da conversa com a mesma naturalidade.
Às sete e vinte, dona Célia comentou:
— A casa do seu Antônio está muito fechada.
Todos olharam.
Antônio morava quatro casas adiante. Era viúvo e raramente saía.
— Ele está viajando? — perguntou Marcelo.
Ninguém sabia.
Bianca levantou-se.
— Vou ver.
Foram até lá.
Bateram palmas no portão.
— Seu Antônio!
Nada.
Chamaram novamente.
Depois de alguns segundos, a janela se abriu.
— Que aconteceu?
— Nada — respondeu Bianca. — A gente só queria saber se o senhor está bem.
Antônio pareceu desconfiado.
— Estou.
— A internet caiu.
— Eu sei.
— Estamos tomando café ali.
Ele olhou para o pequeno grupo.
— E o que isso tem a ver comigo?
Bianca pensou.
— Nada. Quer vir?
Antônio quase recusou.
Quase.
Dez minutos depois apareceu carregando um pacote de biscoitos.
— Estavam abertos — explicou.
Ninguém havia perguntado.
Sentou-se.
A conversa continuou.
Descobriram que Antônio havia trabalhado como marceneiro durante quarenta anos. Eduardo precisava consertar uma porta de armário. Patrícia queria alguém para fazer duas prateleiras na loja.
— Estou aposentado — avisou Antônio.
— Então não faz mais nada? — perguntou Marcelo.
— Faço. Só reclamo antes.
Às oito, a rua estava estranhamente barulhenta.
Não com motores.
Com gente.
Uma adolescente saiu de casa procurando sinal e encontrou a mãe conversando na calçada.
— Mãe, a internet voltou?
— Ainda não.
— Meu Deus.
— Senta aqui.
— Fazer o quê?
— Conversar.
A menina olhou para os adultos.
— Sobre o quê?
Dona Célia puxou uma cadeira.
— Estamos tentando descobrir.
Ela sentou contrariada.
Vinte minutos depois, discutia com Arnaldo sobre filmes antigos.
Às oito e quarenta e três, os celulares começaram a vibrar.
Um.
Depois outro.
E outro.
Mensagens atrasadas chegaram de uma vez.
Notificações.
E-mails.
Vídeos.
Grupos.
Alertas.
Eduardo levantou o aparelho.
— Voltou!
Todos verificaram os próprios telefones.
Marcelo recebeu dezessete mensagens.
Patrícia correu para testar a maquininha.
Bianca respondeu a uma paciente.
A adolescente desapareceu dentro de casa antes que alguém percebesse.
Em poucos minutos, as cadeiras começaram a esvaziar.
— Boa noite.
— Até mais.
— Obrigado pelo café.
— Depois devolvo a xícara.
— Não esquece.
A rua voltou lentamente ao normal.
Portões fecharam.
Janelas acenderam.
Televisões ligaram.
As pessoas retornaram às pequenas telas onde tantas outras pessoas as esperavam.
Marcelo entrou em casa.
A esposa já havia chegado.
— Onde você estava?
— Na rua.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele colocou o celular sobre a mesa.
— Caiu a internet.
— Eu sei. Foi horrível.
Marcelo pensou.
— Mais ou menos.
Na manhã seguinte, saiu para trabalhar às sete e quinze.
Eduardo estava entrando no carro.
Antes, provavelmente teriam apenas passado um pelo outro.
— Bom dia, Eduardo.
O homem levantou a cabeça.
— Bom dia, Marcelo.
Mais adiante, dona Célia regava as plantas.
— A filha ligou?
Ela sorriu.
— Ligou. Conversamos quase uma hora.
— Então tudo certo.
— Tudo.
Marcelo continuou.
Quando chegou à esquina, precisou desviar do buraco.
Arnaldo estava do outro lado.
— Bom dia!
— Bom dia!
— Hoje vou cobrar aquele protocolo de novo.
Marcelo apontou para a cratera.
— Cuidado. Daqui a pouco ela entra no patrimônio histórico.
Arnaldo riu.
Naquela noite, ninguém colocou cadeiras na calçada.
Na seguinte, também não.
A internet funcionava perfeitamente.
Uma semana depois, Marcelo chegou do trabalho e encontrou Antônio sentado diante de casa.
Pensou em apenas cumprimentá-lo e entrar.
Parou.
— Seu Antônio, aquele café da dona Célia estava bom, não estava?
— Estava.
— Será que hoje tem?
Antônio olhou para a casa dela.
— Só existe uma maneira de descobrir.
Foram os dois.
Célia apareceu no portão.
— O que vocês querem?
— Saber se tem café.
— Tem.
— E internet?
— Também.
Marcelo sorriu.
— Hoje a gente tenta com as duas funcionando.
Ela abriu o portão.
Pouco depois, três cadeiras estavam na calçada.
Depois apareceu uma quarta.
Nenhum celular havia perdido o sinal.
(Betto Gasparetto – vi – mmxxi)
