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O Celular Sem Sinal

Posted in Coleção - Crônicas on 25 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A pane começou às seis e dezessete da tarde, embora ninguém na Rua das Palmeiras soubesse disso naquele momento.

Às seis e dezoito, Marcelo percebeu que a mensagem enviada à esposa continuava com o pequeno relógio ao lado.

Às seis e dezenove, tentou novamente.

Sem conexão.

Levantou o celular, aproximou-o da janela e ficou olhando para a tela como se alguns centímetros de altitude fossem capazes de restabelecer toda a infraestrutura de telecomunicações do bairro.

Nada.

Desligou o Wi-Fi.

Ligou os dados móveis.

Nada.

Ativou o modo avião, esperou cinco segundos e desativou.

Nada.

Reiniciou o aparelho.

Quando voltou, continuava sem sinal.

— Pronto. Agora acabou a civilização — murmurou.

Na casa ao lado, dona Célia chegou à mesma conclusão por outro caminho.

Aos setenta e dois anos, usava o celular principalmente para conversar com as filhas, receber fotografias dos netos e encaminhar receitas que jamais preparava. Naquela tarde esperava uma chamada da filha mais velha.

Tentou ligar.

Falhou.

Foi até a janela.

Do outro lado da rua, viu Marcelo segurando o telefone para o alto.

Abriu a janela.

— O seu também parou?

Ele olhou.

— Parou.

— Então não é o meu aparelho.

— Pelo jeito, não.

— Ainda bem.

Marcelo estranhou.

— Ainda bem?

— Se fosse só o meu, eu teria que levar para consertar.

Era uma lógica difícil de contestar.

Pouco depois, outras portas começaram a se abrir.

Primeiro apareceu Eduardo, motorista de aplicativo, que havia acabado de perder acesso às corridas.

— Alguém está com internet?

— Não — respondeu Marcelo.

— Nem dados móveis?

— Nada.

Eduardo olhou para o celular.

— Então hoje estou oficialmente desempregado.

Da casa da esquina saiu Patrícia, comerciante.

— A maquininha não funciona.

— Nem Pix — acrescentou o marido.

— Tenho três clientes esperando.

Dona Célia perguntou:

— Dinheiro ainda funciona?

Patrícia olhou para ela.

— Funciona.

— Então guardaram alguma coisa útil do século passado.

Aos poucos descobriram que o problema atingia boa parte do bairro. Não havia internet fixa, o sinal móvel estava instável e até algumas linhas telefônicas apresentavam falhas.

Às seis e quarenta, a calçada tinha mais gente do que em muitos domingos.

Marcelo percebeu que conhecia quase todos de vista e poucos pelo nome.

O rapaz da casa amarela era Eduardo.

A mulher que saía às sete da manhã com duas crianças chamava-se Patrícia.

O senhor que lavava o carro todos os sábados era Arnaldo.

A jovem do sobrado azul, que ele julgava estudante, era fisioterapeuta e se chamava Bianca.

Moravam separados por alguns metros havia anos.

Precisaram perder o sinal para fazer as apresentações.

— Você mora aqui há quanto tempo? — Marcelo perguntou a Eduardo.

— Seis anos.

— Tudo isso?

— Você me vê todo dia.

— Ver é diferente.

Eduardo sorriu.

— Pelo menos reconheceria meu carro.

— Isso sim.

As crianças foram as primeiras a perceber que o desastre tinha vantagens.

Sem internet, dois irmãos apareceram com uma bola. Chamaram outro menino. Depois uma garota. Em quinze minutos, improvisaram traves com chinelos.

Uma das mães surgiu no portão.

— Cuidado com os carros!

Arnaldo, sentado numa cadeira de plástico, respondeu:

— Pode ficar tranquila. Os adultos estão todos na rua reclamando da internet. Ninguém consegue pedir carro por aplicativo.

A bola bateu no portão de Marcelo.

Ele olhou.

— Foi mal, tio!

Marcelo descobriu naquela hora que havia atingido a idade em que crianças desconhecidas o chamavam de tio.

Esse problema nenhuma operadora resolveria.

Às sete, Patrícia apareceu carregando uma garrafa térmica.

— Fiz café.

Trouxe algumas xícaras.

Dona Célia buscou um bolo.

— Fiz hoje.

Patrícia provou.

— Muito bom.

— Receita da internet.

Todos riram.

— Pelo menos ela serviu para alguma coisa antes de cair — disse Arnaldo.

As cadeiras começaram a aparecer sem combinação prévia. Uma veio da garagem de Marcelo, duas da casa de Célia, outras da residência de Eduardo.

A calçada virou uma pequena sala de estar coletiva.

Conversaram sobre o defeito da rede.

O assunto durou sete minutos.

Depois, sem a possibilidade de conferir notícias, vídeos ou mensagens, tiveram de encontrar outros temas.

Falaram da rua.

Da árvore da esquina cujas raízes levantavam a calçada.

Dos ônibus.

Do supermercado que havia fechado.

Da iluminação pública.

De um buraco que completaria três meses e, segundo Arnaldo, já poderia solicitar certidão de nascimento.

— Já reclamaram na prefeitura? — perguntou Bianca.

Três responderam ao mesmo tempo:

— Já.

— E?

Arnaldo apontou para o buraco.

A resposta estava ali.

A política apareceu desse jeito, sem discursos e sem candidatos: na lâmpada que demorava a ser trocada, na calçada irregular, no ônibus atrasado e na praça que precisava de manutenção.

Depois desapareceu da conversa com a mesma naturalidade.

Às sete e vinte, dona Célia comentou:

— A casa do seu Antônio está muito fechada.

Todos olharam.

Antônio morava quatro casas adiante. Era viúvo e raramente saía.

— Ele está viajando? — perguntou Marcelo.

Ninguém sabia.

Bianca levantou-se.

— Vou ver.

Foram até lá.

Bateram palmas no portão.

— Seu Antônio!

Nada.

Chamaram novamente.

Depois de alguns segundos, a janela se abriu.

— Que aconteceu?

— Nada — respondeu Bianca. — A gente só queria saber se o senhor está bem.

Antônio pareceu desconfiado.

— Estou.

— A internet caiu.

— Eu sei.

— Estamos tomando café ali.

Ele olhou para o pequeno grupo.

— E o que isso tem a ver comigo?

Bianca pensou.

— Nada. Quer vir?

Antônio quase recusou.

Quase.

Dez minutos depois apareceu carregando um pacote de biscoitos.

— Estavam abertos — explicou.

Ninguém havia perguntado.

Sentou-se.

A conversa continuou.

Descobriram que Antônio havia trabalhado como marceneiro durante quarenta anos. Eduardo precisava consertar uma porta de armário. Patrícia queria alguém para fazer duas prateleiras na loja.

— Estou aposentado — avisou Antônio.

— Então não faz mais nada? — perguntou Marcelo.

— Faço. Só reclamo antes.

Às oito, a rua estava estranhamente barulhenta.

Não com motores.

Com gente.

Uma adolescente saiu de casa procurando sinal e encontrou a mãe conversando na calçada.

— Mãe, a internet voltou?

— Ainda não.

— Meu Deus.

— Senta aqui.

— Fazer o quê?

— Conversar.

A menina olhou para os adultos.

— Sobre o quê?

Dona Célia puxou uma cadeira.

— Estamos tentando descobrir.

Ela sentou contrariada.

Vinte minutos depois, discutia com Arnaldo sobre filmes antigos.

Às oito e quarenta e três, os celulares começaram a vibrar.

Um.

Depois outro.

E outro.

Mensagens atrasadas chegaram de uma vez.

Notificações.

E-mails.

Vídeos.

Grupos.

Alertas.

Eduardo levantou o aparelho.

— Voltou!

Todos verificaram os próprios telefones.

Marcelo recebeu dezessete mensagens.

Patrícia correu para testar a maquininha.

Bianca respondeu a uma paciente.

A adolescente desapareceu dentro de casa antes que alguém percebesse.

Em poucos minutos, as cadeiras começaram a esvaziar.

— Boa noite.

— Até mais.

— Obrigado pelo café.

— Depois devolvo a xícara.

— Não esquece.

A rua voltou lentamente ao normal.

Portões fecharam.

Janelas acenderam.

Televisões ligaram.

As pessoas retornaram às pequenas telas onde tantas outras pessoas as esperavam.

Marcelo entrou em casa.

A esposa já havia chegado.

— Onde você estava?

— Na rua.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele colocou o celular sobre a mesa.

— Caiu a internet.

— Eu sei. Foi horrível.

Marcelo pensou.

— Mais ou menos.

Na manhã seguinte, saiu para trabalhar às sete e quinze.

Eduardo estava entrando no carro.

Antes, provavelmente teriam apenas passado um pelo outro.

— Bom dia, Eduardo.

O homem levantou a cabeça.

— Bom dia, Marcelo.

Mais adiante, dona Célia regava as plantas.

— A filha ligou?

Ela sorriu.

— Ligou. Conversamos quase uma hora.

— Então tudo certo.

— Tudo.

Marcelo continuou.

Quando chegou à esquina, precisou desviar do buraco.

Arnaldo estava do outro lado.

— Bom dia!

— Bom dia!

— Hoje vou cobrar aquele protocolo de novo.

Marcelo apontou para a cratera.

— Cuidado. Daqui a pouco ela entra no patrimônio histórico.

Arnaldo riu.

Naquela noite, ninguém colocou cadeiras na calçada.

Na seguinte, também não.

A internet funcionava perfeitamente.

Uma semana depois, Marcelo chegou do trabalho e encontrou Antônio sentado diante de casa.

Pensou em apenas cumprimentá-lo e entrar.

Parou.

— Seu Antônio, aquele café da dona Célia estava bom, não estava?

— Estava.

— Será que hoje tem?

Antônio olhou para a casa dela.

— Só existe uma maneira de descobrir.

Foram os dois.

Célia apareceu no portão.

— O que vocês querem?

— Saber se tem café.

— Tem.

— E internet?

— Também.

Marcelo sorriu.

— Hoje a gente tenta com as duas funcionando.

Ela abriu o portão.

Pouco depois, três cadeiras estavam na calçada.

Depois apareceu uma quarta.

Nenhum celular havia perdido o sinal.

(Betto Gasparetto – vi – mmxxi)