(Betto Gasparetto)
Monólogo 03 — Ninguém Aplaude Depois que as Luzes se Apagam

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I ATO — A Fome dos Aplausos
Passei uma parte absurda da vida esperando aplausos, não necessariamente aqueles produzidos pelas mãos. Existem aplausos muito mais discretos: um olhar de admiração, uma inveja mal escondida, alguém pronunciando nosso nome numa conversa importante, a satisfação quase indecente de entrar num lugar e perceber que fomos reconhecidos.
Também existe aquele aplauso particularmente miserável que recebemos quando alguém fracassa e, por comparação, parecemos maiores.
Conheço todos eles.
Durante anos alimentei-me dessa pobreza. Precisava ser visto. Precisava saber que alguém me considerava melhor, mais inteligente, mais importante, mais necessário, mais alguma coisa. Pouco importava exatamente o quê, desde que houvesse alguém abaixo.
Que confissão repugnante.
Mas há uma idade em que mentir para os outros ainda parece possível e mentir para si começa a exigir esforço demais. Eu cansei, e por isso posso dizer.
Houve momentos em que a derrota de certas pessoas me trouxe uma satisfação que jamais deveria ter sentido. Não porque fossem inimigas; isso seria fácil de explicar. Algumas eram amigas. Outras jamais haviam feito qualquer coisa contra mim, mas possuíam alguma coisa que me incomodava: talento, juventude, reconhecimento, amor, talvez simplesmente felicidade.
A felicidade alheia pode ser uma ofensa insuportável para quem está secretamente infeliz.
Nunca admitimos isso. Dizemos que aquela pessoa se exibe, que teve sorte, que recebeu facilidades, que não merece tanto. Encontramos defeitos, investigamos, esperamos, e quando finalmente acontece alguma desgraça, fazemos aquela expressão socialmente adequada:
“Que pena.”
Por dentro, alguma coisa relaxa.
Que criatura desprezível o homem consegue ser sem cometer crime algum.
Talvez seja isso que mais me perturbe. Não são necessários grandes horrores para que sejamos miseráveis. Basta uma pequena alegria diante da tristeza de alguém, uma satisfação escondida, um comentário maldoso pronunciado no momento exato ou uma informação verdadeira contada com intenção suja.
Porque nem toda verdade é inocente.
Aprendi isso tarde.
II ATO — A Crueldade que Não Precisa Mentir

Podemos destruir alguém sem inventar uma única mentira. Basta escolher aquilo que dizer, a quem dizer e quando dizer.
Depois lavamos as mãos.
Era verdade.
Como gostamos dessa defesa: era verdade.
E daí?
A crueldade não precisa mentir. Às vezes ela trabalha perfeitamente com fatos.
Eu trabalhei. Escolhi palavras, esperei momentos, fiz comentários que pareciam observações e ajudei certas dúvidas a crescer.
Nunca empurrei ninguém de um precipício, mas houve ocasiões em que vi alguém próximo da borda e pensei que sua queda tornaria minha paisagem mais bonita.
Tenho vergonha disso.
Não quero perdão. Ainda não.
Perdoamos depressa demais porque não suportamos permanecer culpados. Eu quero suportar um pouco.
Talvez a culpa tenha alguma utilidade quando não é transformada em espetáculo.
O homem moderno quer absolvição instantânea. Comete a indignidade pela manhã, arrepende-se depois do almoço e deseja dormir novamente convencido de que é uma excelente pessoa.
Não.
Algumas coisas deveriam permanecer conosco durante algum tempo, não para nos destruir, mas para nos impedir de repetir.
Eu precisei envelhecer para perceber quanto esforço gastei tentando ser maior que pessoas que jamais estavam competindo comigo.
Que desperdício.
Elas viviam enquanto eu comparava. Elas caminhavam enquanto eu media. Elas celebravam enquanto eu calculava. E, quando alguém me ultrapassava, eu procurava desesperadamente alguma falha que diminuísse a distância.
Talvez toda inveja seja uma régua quebrada. Nunca mede aquilo que somos; mede apenas quanto nos falta para parecer aquilo que desejamos.
E existe sempre alguém acima.
Sempre.
Essa é a crueldade perfeita dessa doença.
Você vence um e imediatamente encontra outro. Recebe um elogio e necessita do próximo. Conquista uma posição e descobre uma posição maior. É admirado por dez e começa a perguntar por que o décimo primeiro permaneceu indiferente.
Nunca termina.
Nunca.
Até que as luzes começam a apagar.
III ATO — Quando as Luzes Começam a Apagar

Primeiro discretamente.
Algumas pessoas deixam de telefonar, outras já não perguntam nossa opinião, nosso nome aparece menos, uma geração mais jovem chega sem conhecer aquilo que fizemos. Contamos uma história importante e alguém olha para o telefone.
Que humilhação maravilhosa.
O mundo continua sem nós.
Durante décadas imaginamos que nossa presença sustentava alguma parte essencial da realidade e, de repente, percebemos que fomos substituídos numa terça-feira.
Nenhuma cerimônia. Nenhuma catástrofe. Apenas outro nome na porta, outra pessoa na cadeira, outra voz sendo ouvida.
E então começamos a contar histórias sobre quando éramos importantes.
É triste.
Há homens que envelhecem falando de si mesmos no passado porque o presente já não lhes oferece plateia suficiente:
“Na minha época…”
“Quando eu estava lá…”
“Quando precisavam de mim…”
Precisavam.
Esse verbo no passado deveria ensinar alguma coisa, mas não ensina. Continuamos desejando aplausos de pessoas que sequer sabem por que deveriam aplaudir.
Talvez a velhice não seja somente a decadência do corpo. Talvez seja também o momento em que a existência começa a retirar, uma por uma, as testemunhas da personagem que construímos.
E então ficamos conosco.
Outra vez.
Sempre acabamos conosco.
É quase engraçado.
Passamos a vida tentando impressionar pessoas das quais inevitavelmente nos separaremos e negligenciamos justamente aquele que permanecerá até o último segundo: nós mesmos.
Que companhia difícil deixamos para a velhice.
IV ATO — A Vitória que Nunca Existiu

Eu poderia ter sido mais generoso.
Essa frase me persegue.
Não mais rico, não mais importante, não mais admirado.
Mais generoso.
Poderia ter elogiado sem sentir que perdia alguma coisa. Poderia ter assistido à vitória de alguém sem transformá-la numa acusação contra mim. Poderia ter ajudado pessoas talentosas sem temer que um dia fossem melhores. Poderia ter sido feliz diante da felicidade alheia.
Parece tão simples agora.
Mas eu queria vencer.
Vencer o quê?
Quem?
Para chegar onde?
Aqui?
Então esta era a linha de chegada?
Um homem cansado recordando disputas cujos adversários nem sabiam que participavam?
Que prêmio ridículo.
Que vitória miserável.
Alguns daqueles que invejei já morreram. Outros desapareceram da minha vida. Há nomes que já não consigo associar a rostos.
E pensar que perdi noites por causa deles.
Comparei salários, casas, carros, reconhecimento, afetos, aparências.
Agora alguns estão debaixo da terra e outros talvez estejam em algum lugar fazendo exatamente o que eu faço: tentando compreender por que gastamos tanto tempo disputando uma corrida cujo único destino era envelhecer.
Porque existe um ponto em que todas as diferenças começam a parecer pequenas.
A morte possui essa indelicadeza. Ela aproxima aquilo que a vaidade passou décadas separando: o importante e o desconhecido, o rico e o pobre, o admirado e o ignorado, o vencedor e aquele que chegou por último.
Não digo isso para glorificá-la.
A morte não precisa de propaganda.
A vida é que precisa explicar certas escolhas.
V ATO — A Vida Diante de Suas Escolhas

É a vida que deveria sentar-se aqui diante de mim e responder por que nos oferece tão pouco tempo e permite que desperdicemos tanto tentando parecer superiores.
Mas talvez ela não tenha culpa.
Talvez tenha apenas entregado os dias.
Nós fizemos o restante.
E fizemos muito mal.
Transformamos convivência em competição, amizade em comparação, amor em posse, sucesso em humilhação e reconhecimento em vício.
Depois reclamamos que estamos sozinhos.
Claro que estamos.
Quem transforma todas as pessoas em adversários termina inevitavelmente sem companhia.
Às vezes imagino um teatro vazio. Não sei por quê. Talvez porque minha vida tenha sido exatamente isso sem que eu percebesse.
Um palco.
Passei décadas entrando em cena, ajeitando a postura, escolhendo palavras e esperando aprovação.
Havia luz, havia gente, havia ruído.
Eu confundia tudo aquilo com importância.
Agora as cadeiras estão vazias.
Não há ninguém.
Nenhuma palma, nenhum elogio, nenhum rival, nenhum olhar invejoso para alimentar minha vaidade.
Somente o palco depois do espetáculo.
E um homem que demorou demais para compreender que o silêncio não começou quando a plateia foi embora.
O silêncio estava dentro dele desde o início.
Talvez por isso precisasse de tanto barulho.
Eu precisava que os outros aplaudissem porque nunca soube o que fazer quando ficava sozinho.
Agora sei.
Fico.
Não corro, não invento outra competição e não procuro alguém menor para sentir-me grande.
VI ATO — A Pobreza que Tem o Meu Rosto

Permaneço diante dessa pobreza.
Minha.
Humana.
Não aquela pobreza que pede dinheiro. A outra: aquela que possui tudo e ainda precisa retirar alguma coisa de alguém para sentir que possui bastante.
Essa me causa ojeriza, sobretudo porque conheço seu rosto.
É o meu.
E talvez esse seja o último castigo da vaidade: descobrir que passamos a existência inteira procurando admiradores quando deveríamos ter procurado razões para sermos dignos de admiração.
Agora é tarde para alguns pedidos.
Há pessoas a quem jamais poderei devolver aquilo que diminuí. Há elogios que morreram dentro da minha boca. Há vitórias que eu deveria ter celebrado. Há mãos que poderia ter levantado em vez de tentar mantê-las abaixo das minhas.
Não posso corrigir tudo.
Essa é outra arrogância que precisei abandonar.
Nem todo arrependimento recebe oportunidade de reparação.
Às vezes resta apenas saber.
E carregar.
As luzes estão se apagando.
Não tenho medo delas.
Talvez seja bom finalmente enxergar menos o palco e mais aquilo que existia por trás dele.
Não quero outro aplauso.
Seria inútil.
Quero apenas não precisar mais da derrota de ninguém para suportar aquilo que sou.
VII ATO — Depois do Último Aplauso

Porque finalmente compreendi: quando as luzes se apagam, ninguém pergunta quem recebeu mais aplausos. Ninguém pergunta quem ocupou o centro do palco. Ninguém pergunta quem venceu.
Resta apenas aquilo que fizemos enquanto havia outras pessoas conosco.
E quando a última cadeira estiver vazia, quando não existir mais ninguém a quem impressionar, diminuir ou superar, talvez descubramos a verdade que nossa vaidade passou a vida inteira tentando esconder:
Nunca fomos maiores porque alguém estava abaixo.
Nunca fomos melhores porque alguém perdeu.
Nunca fomos importantes porque fomos aplaudidos.
Éramos apenas homens fazendo barulho diante do medo de sermos pequenos.
Agora acabou o espetáculo.
E ninguém aplaude depois que as luzes se apagam.
(Betto Gasparetto – 2002)
