(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Durante trinta e oito anos, Samuel acordou cedo para construir aquilo que chamava, com certo orgulho, de sua vida.
Começara com uma pequena oficina alugada, duas ferramentas compradas a prazo e uma motocicleta usada. Depois vieram os primeiros funcionários, um galpão maior, contratos melhores, uma casa própria, dois carros, terrenos, máquinas e uma empresa que finalmente conseguia funcionar alguns dias sem sua presença.
A casa talvez fosse sua maior conquista.
Não pela arquitetura, embora fosse bonita. Ali os filhos haviam crescido, a esposa escolhera as árvores do jardim e o cachorro destruíra parte da varanda quando ainda era filhote. Num armário do corredor estavam fotografias impressas de uma época em que ninguém precisava procurar lembranças dentro de uma nuvem digital.
Samuel guardava tudo.
Documentos antigos, desenhos dos filhos, relógios que não funcionavam, cartões de aniversário, a primeira nota fiscal da empresa e até uma chave da oficina original.
A esposa, Marta, reclamava:
— Você não guarda coisas. Você administra um museu.
— Um dia isso vai ter valor.
— Para quem?
— Ainda não decidi.
Naquela tarde, o céu começou a mudar pouco depois das quatro.
O calor havia sido estranho durante todo o dia. O vento desaparecera e depois voltara em rajadas. Nuvens muito escuras cresceram no horizonte com rapidez.
Samuel estava na empresa quando recebeu o primeiro alerta no celular.
TEMPESTADE SEVERA. PROCURE ABRIGO.
Leu.
Guardou o telefone.
Continuou trabalhando.
Dez minutos depois, Marta ligou.
— Você viu o aviso?
— Vi.
— Está ficando muito escuro aqui.
— Fecha as janelas. Estou indo.
— Não venha agora. A mensagem manda procurar abrigo.
Samuel caminhou até a porta do galpão.
O vento havia aumentado.
Algumas folhas atravessavam o estacionamento. Uma placa metálica vibrava na fachada do prédio vizinho.
— Vou esperar um pouco.
A ligação caiu.
A energia também.
As máquinas pararam ao mesmo tempo.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Então os celulares começaram a tocar.
Um funcionário apontou para fora.
— Samuel, olha aquilo.
Ao longe, o céu parecia ter descido até o chão.
Não era possível distinguir exatamente o que acontecia. Havia chuva, poeira e objetos sendo carregados pelo vento.
Samuel tentou ligar novamente para Marta.
Nada.
Ligou para o filho.
Nada.
Para a filha.
Chamou até cair.
O homem que durante décadas resolvera problemas de fornecedores, funcionários, bancos, impostos, clientes e máquinas descobriu que não havia nenhuma ligação profissional capaz de negociar com o céu.
— Todo mundo para o fundo! — gritou.
Os funcionários correram para uma área interna do galpão.
O barulho chegou primeiro.
Não parecia chuva.
Parecia uma composição inteira atravessando o telhado.
As estruturas metálicas começaram a estalar. Uma janela explodiu. Caixas deslizaram pelo chão. Alguém gritou para todos abaixarem a cabeça.
Samuel encostou-se à parede.
Pensou na esposa.
Não pensou na empresa.
O telhado começou a se desprender.
Uma parte foi arrancada com tanta facilidade que Samuel viu o céu durante alguns segundos onde antes havia chapas de aço.
Aquele foi o momento em que percebeu que poderia morrer.
Não houve retrospectiva organizada.
Nenhuma sequência cinematográfica de lembranças.
Pensou apenas:
Marta.
Depois:
Meus filhos.
Fechou os olhos.
O barulho aumentou.
E, de repente, começou a diminuir.
Ninguém sabia quanto tempo havia passado.
Talvez dois minutos.
Talvez cinco.
Quando finalmente saíram do abrigo, o galpão parecia outro lugar.
Parte do telhado desaparecera. Máquinas estavam cobertas por água e destroços. Um veículo fora empurrado contra o muro. A fachada havia cedido.
Samuel caminhou até onde antes ficava sua sala.
A porta não existia.
A mesa estava tombada.
Seu computador desaparecera.
Um funcionário aproximou-se.
— Todo mundo está bem.
Samuel olhou para ele.
— Todo mundo?
— Aqui, sim.
Era a única informação que importava naquele momento.
Pegou o celular.
Sem sinal.
— Preciso chegar em casa.
— A estrada está bloqueada — respondeu outro funcionário.
— Minha mulher está sozinha.
— Eu vou com você.
Era Paulo, um funcionário da manutenção com quem Samuel conversava quase exclusivamente sobre serviço.
Os dois seguiram a pé.
A cidade parecia ter sido desmontada.
Árvores atravessavam ruas. Telhas cobriam calçadas. Postes estavam inclinados. Portões haviam desaparecido. Pessoas saíam das casas chamando parentes e vizinhos.
Numa esquina, um homem que Samuel nunca vira usava uma motosserra para cortar uma árvore caída.
— Dá para passar por aqui?
— A pé, talvez. De carro, esquece.
Paulo ajudou a retirar alguns galhos.
Samuel também.
Por alguns minutos, ninguém perguntou profissão, endereço ou sobrenome.
A urgência dispensava apresentações.
Quando finalmente chegou à sua rua, Samuel parou.
A casa estava lá.
Mas não inteira.
Parte do telhado havia desaparecido. As janelas da frente estavam quebradas. Uma árvore caíra sobre a garagem.
— Marta!
Correu.
Tropeçou em telhas e entrou pela lateral.
— Marta!
Ouviu uma voz.
— Estou aqui!
Ela apareceu no corredor.
Samuel a abraçou com tanta força que ela reclamou.
— Você está me esmagando.
— Então reclama.
Marta começou a chorar.
Ele também.
Ficaram abraçados no meio da sala molhada.
Pouco depois, os filhos conseguiram fazer contato. Estavam bem.
Samuel sentou-se no chão.
Ao redor havia água, pedaços de vidro, madeira e objetos que o vento espalhara pela casa.
Uma fotografia estava perto de seu pé.
Pegou-a.
Os dois filhos ainda pequenos apareciam diante da primeira oficina.
No verso, Marta escrevera uma data.
Samuel limpou cuidadosamente a água.
— O álbum…
Marta olhou para o corredor.
Parte do armário havia caído.
Foram até lá.
Algumas fotografias estavam molhadas. Outras haviam desaparecido. Documentos estavam espalhados. Uma caixa de lembranças fora atingida pela água.
Samuel começou a separar o que podia ser salvo.
Encontrou a velha chave da primeira oficina.
Ainda estava ali.
Segurou-a por alguns segundos.
— Você estava certo — disse Marta.
— Sobre o quê?
— Algumas coisas tinham valor.
Ele olhou para a chave.
Depois para ela.
— Algumas.
Naquela noite, ninguém dormiu direito.
Vizinhos se reuniram numa casa menos atingida. Alguém trouxe café. Outro distribuiu cobertores. Uma senhora apareceu com pão. Um rapaz ofereceu carregadores ligados a uma bateria portátil.
Samuel conhecia alguns deles apenas de vista.
Um homem que morava três casas adiante entregou-lhe uma caneca.
— Sua empresa foi atingida?
— Foi.
— Muito?
Samuel demorou a responder.
— Muito.
— A minha loja também.
Sentaram-se lado a lado.
Nenhum tentou consolar o outro com frases prontas.
Não havia utilidade em dizer que tudo seria recuperado.
Algumas coisas não seriam.
Durante a madrugada, Samuel recebeu fotografias da empresa.
O estrago parecia ainda maior.
Um dos galpões estava parcialmente destruído. Equipamentos haviam sido perdidos. O estoque fora atingido pela água.
Trinta e oito anos.
Pensou nisso.
Trinta e oito anos para chegar até ali.
Minutos para desmontar boa parte.
Guardou o celular.
Perto das quatro da manhã, saiu para a varanda.
O vento havia parado.
Marta veio atrás.
— Não consegue dormir?
— Não.
Ficaram olhando a rua escura.
Samuel não era homem de falar muito sobre fé. Acreditava em Deus, mas durante anos suas orações haviam sido rápidas, quase administrativas: proteção, saúde, trabalho, agradecimento.
Naquela madrugada não encontrou palavras.
Marta segurou sua mão.
Ele abaixou a cabeça.
Ficaram assim por algum tempo.
Não pediram a casa de volta.
Não pediram máquinas.
Não pediram dinheiro.
Samuel apenas agradeceu porque conseguia sentir a mão dela.
Quando amanheceu, a devastação ficou mais clara.
E mais feia.
O sol revelou paredes abertas, árvores arrancadas, carros amassados e pessoas caminhando entre aquilo que possuíam no dia anterior.
Samuel voltou à empresa.
Encontrou funcionários no estacionamento.
Alguns tinham perdido parte de suas casas e, mesmo assim, estavam ali.
— O que vocês estão fazendo?
Paulo respondeu:
— Viemos ver o que dá para salvar.
— Hoje ninguém precisa trabalhar.
— A gente sabe.
Outro funcionário levantou uma vassoura.
— Mas também não dá para ficar olhando.
Começaram.
Separaram ferramentas.
Cobriram equipamentos.
Retiraram água.
Um empresário vizinho emprestou uma empilhadeira. Um concorrente telefonou oferecendo espaço temporário num galpão.
Samuel estranhou.
— Você está oferecendo seu depósito para mim?
Do outro lado, o homem respondeu:
— Estou.
— Nós disputamos os mesmos clientes.
— Hoje estamos disputando telha.
Samuel riu pela primeira vez desde a tempestade.
Nas semanas seguintes, vieram seguradoras, engenheiros, orçamentos, bancos, documentos e uma quantidade impressionante de formulários exigindo que a destruição fosse descrita em campos pequenos.
A vida prática voltou depressa.
A casa começou a receber reparos.
A empresa reabriu parcialmente.
Algumas máquinas foram recuperadas.
Outras viraram sucata.
Certas fotografias secaram com manchas que nunca desapareceriam.
Samuel guardou assim mesmo.
Meses depois, um funcionário perguntou onde deveria colocar a primeira máquina nova comprada após a reconstrução.
Samuel caminhou pelo galpão.
O teto estava reparado.
As paredes tinham pintura recente.
Ainda havia marcas do temporal em alguns pontos.
— Coloca ali.
— Onde ficava a antiga?
— Exatamente.
O funcionário começou a empurrar o equipamento.
Samuel permaneceu observando.
Naquela noite, voltou para casa e encontrou Marta organizando fotografias recuperadas.
Ela segurava a imagem dos filhos diante da primeira oficina.
Estava manchada numa das bordas.
— Essa não ficou muito boa.
Samuel pegou a fotografia.
— Ficou ótima.
— Está toda marcada.
— Agora tem duas histórias.
Marta colocou-a num álbum novo.
Samuel abriu uma gaveta e encontrou a velha chave.
— Ainda guardando isso?
Ele sorriu.
— Algumas coisas.
Sentaram-se para jantar.
Do lado de fora começou a chover.
Samuel interrompeu o movimento do garfo.
Por alguns segundos, escutou apenas a água batendo no telhado novo.
Marta percebeu.
Estendeu a mão sobre a mesa.
Ele segurou.
A chuva continuou.
Na manhã seguinte, a empresa abriria normalmente. Haveria contas, clientes, máquinas, salários e problemas suficientes para ocupar o dia inteiro.
A casa ainda precisava de reparos.
Algumas perdas continuavam sem substituição.
Samuel sabia disso.
Na estante da sala, entre fotografias recuperadas, estava a imagem manchada da primeira oficina.
Ao lado dela, a velha chave.
Ele passou pelas duas antes de sair para trabalhar.
Dessa vez não levou nenhuma.
(Betto Gasparetto – ii – mmxxv)
