Arquivo para 19 de agosto de 2026

A Dança das Safenas

Posted in Coleção - Crônicas on 19 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


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Augusto conhecia bem a burocracia do serviço público. Havia passado boa parte da vida profissional entre salas de aula, reuniões, formulários, sistemas que pediam a mesma informação em campos diferentes e prazos que pareciam sempre mais importantes para quem cobrava do que para quem precisava cumpri-los.

O que ele não conhecia era a sensação de deixar de ser funcionário por alguns dias e virar paciente.

Tudo começou com o desconforto nas pernas. Primeiro, um peso ao final do expediente. Depois vieram o inchaço, o formigamento e aquela pulsação incômoda que aparecia principalmente nos dias em que permanecia muitas horas em pé. Augusto adiou a consulta enquanto pôde. Professor experiente, tinha adquirido o péssimo hábito de considerar o próprio corpo um funcionário disciplinado, desses que nunca faltam e não precisam de manutenção.

Até que o corpo apresentou requerimento de urgência.

Vieram consultas, exames, ultrassonografias, avaliações e termos médicos que Augusto pesquisava no celular assim que saía do consultório. O diagnóstico indicou comprometimento importante da circulação venosa e necessidade de tratamento cirúrgico vascular.

Na consulta seguinte, perguntou três vezes ao médico:

— É realmente necessário operar?

Na terceira, o médico tirou os olhos do computador.

— Augusto, eu poderia responder de outra maneira, mas a resposta continuaria sendo sim.

A cirurgia foi marcada.

A partir daquele momento, a perna deixou de ser sua única preocupação.

Augusto pensava nas aulas. Nos projetos em andamento. Nos alunos. Nos compromissos assumidos. Pensava também na licença médica e numa palavra que começou a incomodá-lo mais do que deveria: falta.

Durante décadas, faltar significara não comparecer.

Agora significava estar impossibilitado.

A diferença era enorme para ele.

Para alguns sistemas administrativos, nem tanto.

Nos dias anteriores à internação, organizou materiais, enviou orientações, deixou atividades preparadas e respondeu mensagens profissionais até tarde da noite. Tinha a estranha impressão de precisar provar antecipadamente que uma cirurgia não significava abandono do trabalho.

A operação aconteceu numa quinta-feira.

No centro cirúrgico, sob luzes fortes e vozes técnicas, Augusto deixou de ser professor, servidor, coordenador ou qualquer outro título que carregasse do lado de fora.

Era apenas Augusto.

Um homem deitado numa maca tentando parecer mais tranquilo do que estava.

Quando acordou, a primeira sensação foi de peso. A segunda, de alívio.

A terceira foi procurar o celular.

A esposa percebeu.

— Nem pense.

— Só quero ver as mensagens.

— Você acabou de sair de uma cirurgia.

— Justamente.

Ela guardou o aparelho.

Horas depois, ele conseguiu recuperá-lo.

Havia mensagens.

Banco oferecendo crédito.

Operadora anunciando promoção.

Grupo de compras.

Propaganda.

Avisos automáticos.

Do trabalho, quase nada.

Augusto rolou a tela novamente, como se alguma mensagem pudesse aparecer porque ele procurara melhor.

Não apareceu.

Disse a si mesmo que as pessoas estavam ocupadas. Afinal, todos tinham problemas. Talvez nem soubessem da cirurgia. Talvez soubessem e imaginassem que ele precisasse descansar.

Guardou o telefone.

No dia seguinte, tornou a olhar.

Nada.

Dois dias depois, chegou uma mensagem.

Era do setor administrativo.

Augusto abriu imediatamente.

Não perguntava como ele estava.

Solicitava regularização das ausências no sistema.

Leu duas vezes.

Respondeu informando que estava em recuperação cirúrgica e que possuía atestado médico.

A resposta veio algum tempo depois:

— Precisa lançar corretamente para evitar faltas.

Augusto apoiou o celular sobre a cama.

A perna doía menos naquele momento.

A mensagem, não.

Os dias seguintes foram mais difíceis do que imaginara. Caminhar exigia cuidado. Ficar muito tempo em pé provocava desconforto. O sono vinha aos pedaços. Às vezes sentia formigamento; em outras, uma pulsação que o fazia parar e observar a própria perna como se ela estivesse tentando dizer alguma coisa.

O médico recomendara repouso e acompanhamento.

Augusto obedeceu, embora se sentisse culpado por obedecer.

A situação administrativa, porém, complicou-se.

Houve mudança na equipe médica responsável pelo acompanhamento. Documentos precisaram ser apresentados novamente. Um formulário exigia informação complementar. Outro dependia de análise.

Até que recebeu a notícia:

Atestado indeferido.

Augusto permaneceu olhando para a tela.

A palavra parecia absurda.

A cirurgia acontecera.

Os pontos estavam ali.

A dor estava ali.

Os exames estavam ali.

A perna estava ali.

Mas, em algum lugar entre um documento e outro, sua recuperação havia encontrado dificuldade para existir administrativamente.

Telefonou.

Explicou.

Foi transferido.

Explicou novamente.

Recebeu outro número.

Ligou.

Contou a história pela terceira vez.

— O senhor precisa aguardar a análise.

— Mas enquanto aguardo aparecem faltas.

— Compreendo.

— E o que faço?

— Aguarda.

Augusto quase riu.

Havia passado a vida ensinando que as instituições eram feitas para organizar a sociedade. Naquele momento, descobria que às vezes elas conseguiam organizar muito bem a espera.

Os dias avançaram.

A ausência de mensagens dos colegas começou a incomodá-lo mais do que gostaria de admitir. Não esperava homenagens, flores ou discursos. Bastaria um “como você está?”.

Começou a pensar se havia passado tempo demais trabalhando e pouco tempo construindo relações. Depois achou injusto culpar a si mesmo. Em seguida, culpou os outros. Logo depois, sentiu vergonha de culpá-los.

O repouso dava tempo demais para pensar.

Numa madrugada, levantou-se para beber água. Caminhou lentamente pelo corredor, sentindo a perna pesada.

Parou diante do espelho.

Estava abatido.

Pensou na carreira. Pensou nas faltas lançadas. No atestado indeferido. Na recuperação mais lenta do que desejava. Na possibilidade de voltar ao trabalho e não conseguir permanecer em pé durante uma aula inteira.

Pela primeira vez desde a cirurgia, teve medo não apenas da saúde.

Teve medo de deixar de ser necessário.

Voltou para a cama sem beber a água.

Na manhã seguinte, o telefone tocou.

Número desconhecido.

Augusto quase não atendeu.

— Professor Augusto?

— Sim.

— Aqui é o Gabriel.

Demorou alguns segundos para reconhecer.

Gabriel havia sido seu aluno muitos anos antes.

— Gabriel? Quanto tempo!

— Fiquei sabendo que o senhor fez uma cirurgia.

Augusto sentou-se na cama.

— Fiz. Estou me recuperando.

— Minha filha estuda com um aluno seu. Ele comentou em casa que o professor estava afastado. Perguntei o nome e descobri que era o senhor.

Conversaram durante alguns minutos.

Gabriel contou sobre o trabalho, o casamento, os filhos. Depois disse:

— Professor, eu nunca agradeci uma coisa.

Augusto ficou em silêncio.

— Na época do terceiro ano, eu ia abandonar a escola. Meu pai tinha perdido o emprego e eu comecei a trabalhar à noite. O senhor percebeu que eu estava faltando e foi conversar comigo. Arrumou um jeito de eu recuperar as atividades. Eu terminei o ano por causa daquela conversa.

Augusto tentou lembrar.

Não conseguiu.

— Gabriel, eu sinceramente não lembro disso.

Do outro lado veio uma risada.

— Eu lembro.

A conversa terminou pouco depois.

Augusto permaneceu sentado.

O celular ainda estava em sua mão quando outra mensagem chegou.

Dessa vez, de uma aluna atual.

“Professor, a turma soube que o senhor está se recuperando. Fizemos uma coisa.”

Abaixo havia um vídeo.

Augusto abriu.

A imagem mostrava a sala de aula.

Os alunos estavam espalhados pelas carteiras. Um deles segurava uma folha:

VOLTE QUANDO ESTIVER BEM. NÃO ANTES.

Outro apareceu:

AS ATIVIDADES A GENTE RECUPERA.

Um terceiro levantou uma placa:

A PROVA TAMBÉM PODE ESPERAR.

Do fundo alguém gritou:

— Essa parte da prova fui eu que escrevi!

A sala inteira caiu na risada.

Augusto também.

Assistiu ao vídeo novamente.

Depois uma terceira vez.

Naquela tarde, conseguiu resolver parte da documentação com auxílio de uma servidora que analisou o processo com atenção. Ela encontrou uma inconsistência cadastral, orientou sobre os documentos necessários e encaminhou o pedido para nova avaliação.

— Não posso prometer o resultado — explicou.

— Só de alguém ter entendido o problema já ajudou.

— Às vezes o sistema complica uma coisa simples.

Augusto respondeu:

— Estou começando a suspeitar disso.

Ela riu.

Alguns dias depois, chegou a nova decisão.

A licença havia sido regularizada.

Augusto leu a mensagem e não comemorou.

Sentiu apenas aquele alívio silencioso de quando uma preocupação finalmente sai de cima do peito.

A recuperação continuou.

Ainda havia desconforto. Ainda precisava respeitar limites que antes não existiam. Caminhava um pouco pela manhã, descansava, seguia as recomendações médicas e resistia à tentação de transformar melhora em autorização para exagerar.

Certa tarde colocou uma música na sala.

A esposa apareceu na porta e encontrou Augusto caminhando devagar de um lado para o outro.

— O que está fazendo?

— Exercício.

— Isso parece dança.

— É fisioterapia artística.

— O médico recomendou?

— A parte da caminhada.

Ela riu.

Augusto deu mais alguns passos.

— Devagar.

— Estou indo devagar.

— Você nunca soube fazer nada devagar.

— Estou aprendendo.

Semanas depois, voltou à escola.

Não houve corredor de aplausos.

Ninguém interrompeu as aulas.

A vida real raramente organiza recepções cinematográficas.

Na primeira turma, os alunos conversavam quando ele entrou. Aos poucos perceberam sua presença.

Um deles apontou:

— Olha quem voltou!

Outro perguntou:

— Está bem, professor?

Augusto colocou o material sobre a mesa.

— Estou melhor.

Do fundo veio a pergunta inevitável:

— Vai ter prova?

Ele olhou para a turma.

— Impressionante como a preocupação com minha saúde durou pouco.

As risadas preencheram a sala.

Durante a explicação, Augusto sentou-se algumas vezes. Em outros momentos ficou em pé. Ninguém pareceu se importar.

No intervalo, abriu o sistema funcional pelo celular.

As faltas haviam desaparecido.

Fechou a tela.

No corredor, dois alunos discutiam um trabalho. Uma professora procurava a chave de uma sala. Alguém reclamava da impressora. O sinal tocou. Uma funcionária atravessou apressada carregando documentos.

Tudo continuava exatamente desorganizado como antes.

Augusto caminhou até a janela e permaneceu alguns segundos observando o pátio.

Sentiu uma pequena pulsação na perna.

Dessa vez não se assustou.

Apenas mudou de posição.

Um aluno passou correndo e voltou dois passos.

— Professor, precisa de ajuda?

Augusto olhou para ele.

— Agora não.

O garoto seguiu.

Augusto também.

Devagar.

Ainda havia aulas, documentos, consultas, corredores e alguns medos esperando pela frente.

Quanto às pernas, pareciam finalmente ter estabelecido um acordo com o restante do corpo.

Augusto só ainda não sabia quem, naquela negociação, aprendera a acompanhar o ritmo de quem.

(Betto Gasparetto – xiii – mmxxvi)