Arquivo para 14 de agosto de 2026

O Almoço de Domingo

Posted in Coleção - Crônicas on 14 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Na família de Lúcia, almoço de domingo nunca começava ao meio-dia.

Meio-dia era apenas o horário que ela anunciava no grupo da família, numa tentativa otimista de fazer quinze pessoas chegarem antes de a comida esfriar. Às doze e vinte apareciam os primeiros. Às doze e quarenta chegavam os que moravam mais perto. E, por volta de uma da tarde, surgia alguém dizendo que o trânsito estava impossível, embora tivesse saído de casa vinte minutos antes.

Naquele domingo, Lúcia começou cedo. Às nove da manhã já havia uma panela grande no fogão, uma assadeira no forno e três potes ocupando a bancada. A receita principal era da mãe, dona Alzira, que aos oitenta anos continuava fiscalizando o preparo da comida mesmo sem precisar levantar da cadeira.

— Você colocou louro?

— Coloquei, mãe.

— Quantas folhas?

— Duas.

— Sua avó colocava três.

Lúcia continuou mexendo a panela.

— Minha avó cozinhava para onze filhos.

— Mas o tempero era bom.

Não havia argumento capaz de vencer uma receita familiar aperfeiçoada por pessoas que já não estavam presentes para confirmar nada.

O primeiro a chegar foi Marcelo, irmão de Lúcia, carregando refrigerantes e uma sobremesa comprada.

Dona Alzira olhou para a embalagem.

— Comprou?

— Comprei.

— Eu percebi.

— Como?

— Está bonita demais.

Marcelo colocou a sobremesa na geladeira sem responder.

Logo chegaram os netos. Vinícius entrou olhando para o celular. Camila apareceu com o namorado, que enfrentaria pela primeira vez o exame silencioso da família inteira. Duas crianças correram diretamente para o quintal e, antes de cumprimentar os adultos, já discutiam por causa de uma bola.

Às doze e cinquenta, quase todos estavam ali.

A mesa precisou ser aumentada com outra menor, ligeiramente mais baixa, criando um degrau entre os pratos. As cadeiras não combinavam. Faltaram garfos. Alguém recebeu um copo de plástico porque os de vidro haviam acabado.

— Agora podemos comer? — perguntou Marcelo.

Lúcia olhou para a porta.

— Seu irmão ainda não chegou.

A mesa inteira protestou.

— Ele sempre atrasa!

— A comida vai esfriar.

— Liga para ele.

— Eu falei meio-dia.

Dona Alzira resolveu a questão:

— Quem chega tarde esquenta no micro-ondas.

A autoridade dos oitenta anos encerrou o debate.

Começaram.

Nos primeiros minutos, ouviam-se apenas talheres, pedidos para passar a travessa e elogios à comida. Depois vieram as conversas paralelas.

Marcelo reclamou do preço do supermercado.

Camila comentou que estava procurando apartamento.

Vinícius disse que pretendia trocar de emprego.

Uma tia perguntou quando alguém pretendia casar.

Três pessoas fingiram não ouvir.

O namorado de Camila permaneceu concentrado no prato.

— Está gostando? — perguntou dona Alzira.

— Muito.

— Pode falar a verdade.

— Estou falando.

Ela apontou para a panela.

— Então repita.

Ele repetiu.

Foi aprovado provisoriamente.

A tranquilidade durou até Marcelo comentar que os jovens não sabiam economizar.

Vinícius largou o garfo.

— Lá vem.

— Estou falando sério. Na nossa idade, a gente juntava dinheiro.

— Na sua idade, apartamento custava quanto?

— Não interessa.

— Então interessa bastante.

Camila entrou na conversa. Uma tia defendeu Marcelo. Outro sobrinho começou a fazer contas no celular. Em poucos minutos, o almoço havia se transformado numa conferência econômica sem qualquer participante qualificado.

Dona Alzira continuou comendo.

Lúcia tentou mudar de assunto.

— Alguém quer mais arroz?

Ninguém ouviu.

— Na minha época… — começou Marcelo.

— Pronto — disse Vinícius. — Chegamos à “minha época”.

— Qual o problema da minha época?

— Nenhum. Só não dá para morar nela.

Houve um segundo de silêncio.

Marcelo tentou segurar o riso.

Não conseguiu.

Vinícius também riu.

A discussão morreu sem vencedor, como morrem muitas discussões familiares quando alguém percebe que a própria frase ficou melhor do que o argumento.

Foi então que o irmão atrasado apareceu.

Uma hora e vinte minutos depois do combinado.

Entrou carregando uma tigela.

— Trouxe maionese.

Lúcia olhou para ele.

— Você perdeu metade do almoço.

— Mas trouxe maionese.

— Isso não é justificativa.

— É contribuição.

Recebeu vaias e procurou um lugar para sentar.

Depois da comida vieram as fotografias.

Alguém encontrou no celular uma imagem antiga de dona Alzira jovem, ao lado do marido, numa praia.

Os netos se aproximaram.

— Vó, você usava esse cabelo?

— Usava.

— E o vô tinha bigode?

— Infelizmente.

Todos riram.

As fotografias seguintes produziram descobertas ainda mais perigosas: Marcelo de cabelo comprido, Lúcia com uma calça que jurou jamais ter possuído e uma tia usando óculos enormes.

Os mais jovens começaram a fotografar as fotografias.

— Para que vocês querem isso? — perguntou Marcelo.

— Para guardar.

— Mas está aqui no álbum.

— O álbum fica aqui.

— E precisa levar tudo no telefone?

Vinícius mostrou a fotografia do tio adolescente.

— Principalmente esta.

— Apaga.

— Agora ela pertence à história.

No meio da tarde, a mesa ainda estava cheia de pratos, xícaras, potes abertos e pedaços de sobremesa. As crianças tinham desaparecido para o quintal. Alguns adultos conversavam na cozinha. Outros já discutiam quem levaria o que sobrou.

Camila ajudava a avó a guardar o velho álbum quando encontrou uma folha dobrada entre duas páginas.

Era uma receita escrita à mão.

— Vó, é sua?

Dona Alzira colocou os óculos.

— Não. Era da minha mãe.

Lúcia aproximou-se.

— A receita do molho?

— Acho que sim.

As três começaram a ler.

No meio das instruções havia uma anotação:

“Duas folhas de louro.”

Lúcia olhou para a mãe.

Dona Alzira leu novamente.

— Deve estar errado.

— A senhora disse três.

— Sua avó devia ter mudado depois.

— Está escrito com a letra dela.

— Então ela esqueceu de corrigir.

Marcelo ouviu da sala:

— Mãe perdeu para um papel!

Dona Alzira fechou o álbum.

— No próximo domingo eu faço.

— Com quantas folhas? — perguntou Lúcia.

Ela pensou por alguns segundos.

— Três.

Ninguém discutiu.

Quando a tarde terminou, foram embora aos poucos. Levaram potes com comida, pedaços de sobremesa, fotografias no celular e assuntos que provavelmente voltariam no domingo seguinte.

Lúcia ficou na cozinha organizando a louça.

Sobre a mesa, encontrou a receita antiga.

Leu outra vez.

Duas folhas.

Pegou uma caneta e escreveu discretamente ao lado:

“A mãe insiste em três.”

Guardou a receita no álbum e colocou-o novamente no armário.

No domingo seguinte, certamente haveria outra discussão.

Talvez sobre dinheiro.

Talvez sobre casamento.

Talvez sobre política, futebol ou o horário combinado.

Quanto ao louro, esse assunto já parecia destinado a atravessar pelo menos mais uma geração.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)