(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Às onze e quarenta da noite, havia vinte e três pessoas no Blue Station.
Dessas, talvez quinze estivessem realmente ouvindo a música.
As outras conversavam, mexiam no celular, pediam bebidas ou aguardavam alguém. Perto do balcão, dois homens discutiam futebol. Um casal sentado junto ao palco parecia atravessar uma crise amorosa entre uma música e outra. No fundo, três turistas fotografavam tudo, inclusive aquilo que não precisava ser fotografado.
No pequeno palco, sentado num banco alto, estava Daniel Moura.
Sessenta e nove anos.
Terno preto gasto nos cotovelos, camisa branca aberta no primeiro botão, sapatos cuidadosamente engraxados e uma guitarra semiacústica que carregava havia mais de trinta anos.
A voz era rouca, grave, marcada pelo tempo. Não possuía mais a extensão da juventude, mas ganhara aquilo que nenhuma aula de canto conseguiria ensinar.
Quando Daniel cantava, algumas palavras pareciam ter morado dentro dele antes de sair.
Naquela noite interpretava blues antigos e algumas composições próprias. Nada de imitações. Gostava do Delta Blues, do Mississippi Blues, do som dos velhos clubes e daquela maneira quase insolente de transformar sofrimento em música sem pedir desculpas por isso.
Terminou uma canção.
Poucos aplaudiram.
Um homem junto ao balcão continuou falando ao telefone.
Daniel tomou um gole de água.
— Obrigado.
Ajustou o microfone.
— A próxima é sobre um homem que tinha dinheiro suficiente para comprar tudo o que não precisava e nenhum para pagar aquilo que devia.
Alguém riu.
— História verdadeira? — gritou um cliente.
Daniel olhou para ele.
— Infelizmente, autobiográfica.
Dessa vez mais gente riu.
Começou a tocar.
O dono do clube, Sérgio, observava do balcão.
Conhecia Daniel havia vinte anos. Sabia que aquele homem já tocara em festivais importantes, acompanhara cantores conhecidos, viajara pela Europa e pelos Estados Unidos e dividira palco com músicos que agora apareciam em documentários.
Também sabia que quase nada disso pagava as contas atuais.
Quando o show terminou, pouco depois da meia-noite, Daniel guardou os cabos e colocou a guitarra no estojo.
Sérgio aproximou-se.
— Público fraco hoje.
— Eu contei vinte e três.
— Você contou?
— Quando o público é pequeno, a gente conhece a família inteira.
Sérgio entregou-lhe o pagamento.
Daniel contou discretamente.
Era menos do que esperava.
— Faltou uma parte.
— Eu sei.
— Meu aluguel também sabe.
Sérgio abaixou a voz.
— Completo sexta.
Daniel guardou o dinheiro.
— Sexta de qual mês?
— Não começa.
Daniel sorriu.
Não estava bravo.
Estava cansado.
Saiu do clube à meia-noite e vinte.
A chuva havia engrossado.
Abriu um guarda-chuva pequeno que imediatamente virou para o lado errado com a primeira rajada de vento.
— Excelente.
Fechou-o.
Preferiu molhar-se com dignidade.
Levava o estojo da guitarra numa mão e uma sacola com partituras na outra. Poderia chamar um carro por aplicativo, mas a corrida até seu bairro custaria quase metade do que recebera naquela noite.
Foi para o ponto de ônibus.
Enquanto esperava, conferiu o celular.
Havia uma mensagem do proprietário do apartamento:
“Daniel, precisamos conversar sobre os dois meses atrasados.”
Ele guardou o aparelho.
Sabia.
O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio antigo sem elevador. As paredes tinham perdido a cor, o sofá fora comprado usado e a geladeira produzia ruídos que poderiam facilmente participar de uma banda experimental.
Na sala havia uma fotografia emoldurada.
Daniel, quarenta anos mais jovem, aparecia num palco ao lado de músicos estrangeiros.
Em outra fotografia, estava diante de uma plateia enorme.
Quem visitasse o apartamento talvez perguntasse como aquele homem das fotografias terminara contando moedas para pagar aluguel.
Daniel também perguntava.
Nunca encontrara uma resposta curta.
Durante anos ganhara bem e gastara melhor ainda. Viajara, casara duas vezes, divorciara-se duas vezes, ajudara amigos, fizera negócios ruins, recusara trabalhos que considerava indignos e aceitara outros que talvez fossem piores.
A vida não havia quebrado Daniel numa única noite.
Fizera isso em prestações.
O ônibus demorou vinte e sete minutos.
Desceu quatro quadras antes de casa.
A chuva continuava.
Daniel caminhou curvado contra o vento.
Foi na esquina da Rua Central que ouviu passos atrás.
Não teve tempo de virar.
— Passa a carteira.
Eram dois rapazes.
Um segurava alguma coisa debaixo da jaqueta.
Daniel não tentou descobrir o quê.
Entregou a carteira.
Havia pouco dinheiro.
O rapaz abriu.
— Só isso?
— Se tivesse mais, eu estaria de táxi.
— Celular.
Daniel entregou.
O outro olhou para o estojo.
— E isso?
Daniel apertou a alça.
— Instrumento.
— Passa.
— Isso não.
Foi a primeira resposta errada daquela noite.
O rapaz puxou o estojo.
Daniel segurou.
— Leva o dinheiro.
— Solta!
— Essa não.
Recebeu um empurrão.
Caiu contra a parede.
O estojo escapou de sua mão.
Um dos rapazes correu.
O outro o acompanhou.
Daniel tentou levantar.
— Ei!
Correu dois passos.
Parou.
Aos sessenta e nove anos, numa calçada molhada, o corpo estabeleceu uma fronteira que a vontade não conseguiu atravessar.
Viu os dois desaparecerem.
A guitarra foi com eles.
Daniel permaneceu parado na chuva.
Não gritou novamente.
Não pediu ajuda.
Apenas olhou para a esquina vazia.
Aquela guitarra não era rara o suficiente para entrar num museu. Não pertencera a B.B. King, nem a qualquer outro nome famoso. Era apenas uma velha semiacústica de acabamento escuro que Daniel comprara quando ainda tinha dinheiro para escolher instrumentos.
Chamava-a de Dolores.
Sérgio sempre zombava.
— Dar nome para guitarra é coisa de homem solitário.
Daniel respondia:
— Justamente por isso ela tem nome.
Com Dolores escrevera dezenas de músicas.
Tocara em quatro países.
Fizera sua última turnê internacional.
Acompanhara o nascimento de um filho que depois foi morar longe.
Tocara bêbado com ela.
Sóbrio também.
Chorara sobre ela na noite em que a mãe morreu.
E, durante anos ruins, vendera amplificadores, pedais e outras guitarras.
Dolores, nunca.
Até aquela esquina decidir por ele.
Chegou em casa perto das duas da manhã depois de registrar a ocorrência.
Não acendeu a luz da sala.
Sentou no sofá molhado.
Ficou assim por muito tempo.
Na manhã seguinte, telefonou para Sérgio usando um aparelho antigo que guardava numa gaveta.
— Roubaram Dolores.
Houve silêncio.
— A guitarra?
— Não conheço outra Dolores.
— Você está bem?
Daniel olhou para o hematoma no braço.
— Mais ou menos.
— Não vem hoje.
— Tenho apresentação.
— Sem guitarra?
Daniel não respondeu.
Sérgio também não.
Pela primeira vez em décadas, Daniel passou um dia inteiro sem tocar.
Tentou escrever.
Não conseguiu.
Abriu uma caixa com letras antigas. Havia canções em português, inglês, espanhol e francês. Algumas tinham sido gravadas por artistas pequenos. Outras nunca haviam saído daquele apartamento.
Encontrou uma folha datada de vinte e seis anos antes.
No alto estava escrito:
O Último Blues.
Não lembrava dela.
Leu.
Havia apenas duas estrofes e uma observação:
“terminar algum dia.”
Daniel riu sem vontade.
— Parece que chegou o dia.
Durante a semana, Sérgio emprestou-lhe uma guitarra.
Daniel agradeceu, mas recusou o show.
— Não consigo.
— Você toca qualquer guitarra.
— Tocar, eu toco.
— Então?
Daniel não explicou.
Passou sexta-feira em casa.
No sábado também.
Na segunda-feira recebeu nova mensagem sobre o aluguel.
Na terça foi até uma loja de instrumentos usados.
Perguntou quanto custaria uma guitarra razoável.
O vendedor mostrou algumas.
Daniel experimentou três.
Gostou de uma.
Olhou o preço.
Devolveu.
— Vou pensar.
O vendedor conhecia essa frase.
Não insistiu.
Na quinta-feira, Sérgio apareceu no apartamento.
Trouxe café e uma sacola de pão.
— Você precisa voltar.
— Preciso pagar aluguel.
— Também.
— Sem guitarra.
— Tenho três no clube.
Daniel abriu o café.
— Nenhuma é minha.
Sérgio sentou.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Se não for sobre dinheiro.
— Por que você nunca gravou suas músicas?
Daniel deu de ombros.
— Algumas foram gravadas.
— Estou falando das suas. Com você cantando.
— Porque ninguém quis.
— Você quis?
Daniel demorou.
— Talvez não o suficiente.
Sérgio levantou-se.
— Sábado. Dez da noite.
— Já disse que não.
— Eu ouvi.
— Então por que insiste?
— Porque sou dono do clube. Tenho o direito de ser inconveniente.
Saiu.
No sábado, às nove e cinquenta, Daniel apareceu.
Sem guitarra.
Sérgio não comentou.
Entregou-lhe uma semiacústica preta.
— Só hoje.
Daniel afinou.
Às dez, subiu ao palco.
Havia mais gente do que o normal.
Quarenta, talvez cinquenta pessoas.
Reconheceu alguns músicos.
Um antigo baixista com quem tocara nos anos 1990.
Uma cantora que não via havia mais de dez anos.
Dois ex-alunos.
Uma jornalista especializada em música.
Daniel olhou para Sérgio.
O dono do clube fingiu limpar um copo.
— O que é isso?
— Sábado.
— Não é.
— Então toca e descobre.
Daniel começou.
A primeira música saiu dura.
Na segunda, a mão relaxou.
Na terceira, a voz encontrou aquele lugar onde cansaço e música deixavam de ser coisas diferentes.
No intervalo, contou sobre o assalto.
— Levaram minha carteira, meu celular e minha guitarra.
Uma mulher perguntou:
— Recuperaram alguma coisa?
— A carteira apareceu.
— E o dinheiro?
— Não exageremos nos milagres.
Risadas.
— A guitarra, não.
Ficou em silêncio.
— Então vou tocar uma música que comecei há vinte e seis anos e terminei ontem.
Sérgio levantou a cabeça.
Daniel iniciou O Último Blues.
Não era uma canção sobre a guitarra roubada.
Era sobre tudo aquilo que uma pessoa acredita ser a última coisa.
O último amor.
O último emprego.
A última viagem.
A última oportunidade.
O último palco.
E a estranha insistência da vida em colocar alguma coisa depois.
Quando terminou, ninguém aplaudiu imediatamente.
Daniel conhecia aquele silêncio.
Era diferente do silêncio da indiferença.
Depois vieram os aplausos.
Longos.
Ele abaixou a cabeça.
— Obrigado.
Do fundo, alguém gritou:
— Mais uma!
Daniel respondeu:
— Tenho sessenta e nove anos. Negociem com minha coluna.
As pessoas riram.
Sérgio subiu ao palco.
— Antes da próxima, precisamos resolver um problema.
Daniel fechou os olhos.
— Sérgio…
— Fica quieto cinco minutos.
O dono do clube explicou que, durante a semana, publicara nas redes sociais a história do roubo. Músicos, antigos clientes e pessoas que conheciam Daniel começaram a compartilhar lembranças.
Apareceram fotografias.
Gravações antigas.
Cartazes.
Histórias de apresentações que Daniel já havia esquecido.
Uma antiga cantora enviou um vídeo da Espanha.
Um guitarrista escreveu dos Estados Unidos.
Um ex-aluno contou que aprendera blues ouvindo Daniel tocar numa pequena casa noturna vinte anos antes.
— E daí? — perguntou Daniel.
Sérgio apontou para a lateral do palco.
Dois músicos entraram carregando um estojo.
Daniel ficou imóvel.
— Não.
— Abre.
— Sérgio…
— Abre.
Daniel colocou o estojo sobre uma cadeira.
As mãos tremiam.
Abriu.
Era uma guitarra semiacústica.
Não era Dolores.
Daniel percebeu imediatamente.
O acabamento era diferente.
Mais nova.
Talvez melhor.
Na parte interna do estojo havia dezenas de assinaturas.
Sérgio explicou:
— Fizemos uma vaquinha.
Daniel passou a mão pelo instrumento.
— Eu não posso aceitar.
— Pode.
— Não é a mesma.
Sérgio respondeu:
— Ainda bem.
Daniel olhou para ele.
— A outra tinha trinta anos de histórias. Essa está vazia.
Foi uma frase simples.
Daniel entendeu.
Pegou a guitarra.
Conectou ao amplificador.
O primeiro acorde saiu limpo.
Ajustou o volume.
Tentou outro.
Depois outro.
— Tem nome? — perguntou alguém.
Daniel examinou o instrumento.
— Ainda não.
— Vai chamar Dolores?
Ele sorriu.
— Não se dá o nome de uma antiga companheira para quem acabou de chegar.
O clube inteiro riu.
Naquela madrugada, tocou até quase duas.
Depois do show, uma mulher esperava perto do palco.
Daniel a reconheceu vagamente.
— O senhor é Daniel Moura?
— Dependendo da dívida.
Ela sorriu.
Apresentou-se como produtora de um pequeno selo independente especializado em blues, jazz e música autoral.
— Gravei sua música no celular.
— Isso costuma ser proibido.
— Quer que eu apague?
Daniel pensou.
— Ficou boa?
— Ficou.
— Então podemos discutir.
Ela perguntou quantas composições próprias possuía.
— Terminadas?
— Sim.
— Umas quarenta.
— E inacabadas?
Daniel pensou na caixa em casa.
— Melhor marcarmos uma reunião longa.
Trocaram contatos.
Nada estava contratado.
Nenhum sucesso estava garantido.
A conversa poderia terminar num café e nunca produzir disco algum.
Daniel sabia disso melhor do que ninguém.
Quando voltou para casa, já não chovia.
Subiu os três andares com a guitarra nova nas costas.
Na porta encontrou outro aviso do proprietário sobre o aluguel.
Leu.
Guardou no bolso.
O problema continuava existindo.
Entrou.
Colocou o estojo sobre o sofá.
Na parede, as fotografias antigas continuavam mostrando um homem mais jovem diante de grandes plateias.
Daniel não olhou para elas.
Pegou a folha de O Último Blues.
Na parte inferior, abaixo da última estrofe, escreveu a data daquela noite.
Depois acrescentou duas palavras:
“Talvez não.”
Na manhã seguinte, acordou tarde.
Preparou café.
Abriu a janela.
A cidade estava cinzenta, como quase sempre parecia estar quando ele precisava de alguma cor.
Pegou a guitarra nova.
Tocou o primeiro acorde.
Parou.
— Você precisa de um nome.
Ficou pensando.
A campainha tocou.
Era Sérgio.
— O que você quer a essa hora?
— São onze e meia.
— Para músico é madrugada.
Sérgio entrou trazendo um jornal.
— Olha.
Havia uma pequena matéria sobre a apresentação da noite anterior.
A fotografia mostrava Daniel no palco com a guitarra nova.
O título dizia:
“Veterano do blues retorna ao palco após assalto.”
Daniel leu.
— Veterano?
— Preferia “idoso”?
— Veterano está ótimo.
Sérgio abriu um sorriso.
— Já deu nome para ela?
Daniel olhou para a guitarra.
Depois para a folha sobre a mesa.
— Ainda não.
Sentou-se.
Colocou o instrumento no colo.
Sérgio serviu café para os dois.
— Vai tocar?
Daniel posicionou os dedos nas cordas.
— Vou tentar uma coisa nova.
— Blues?
Daniel fez o primeiro acorde.
— O que mais poderia ser?
Do lado de fora, um caminhão passou, um cachorro latiu e alguém discutiu por uma vaga de estacionamento.
O aluguel continuava atrasado.
Dolores continuava desaparecida.
Daniel continuava com sessenta e nove anos.
Nada disso mudou quando ele tocou o segundo acorde.
No terceiro, porém, apareceu uma melodia que nunca havia tocado antes.
Daniel parou.
Pegou um lápis.
— Espera.
— O quê?
— Não fala.
Escreveu quatro notas no papel.
Sérgio ficou em silêncio.
Daniel voltou à guitarra.
O último blues havia terminado na noite anterior.
Aquele, evidentemente, era outro.
(Betto Gasparetto – inverno de 1983)
O Último Blues
(letra e arranjo musical: Betto Gasparetto)
Tenho sessenta e nove estradas
E uns trocados pra chegar
Duas contas sobre a mesa
E um aluguel pra atrasar
Já toquei pra tanta gente
Hoje vinte vêm me escutar
Minha voz perdeu os agudos
Mas ganhou o que contar
Cada ruga trouxe um verso
Cada perda, outro lugar
Quando a vida cobra caro
Faço o velho blues pagar
Eu disse: este é meu último blues
Meu último blues pra cantar
Mas toda vez que a noite acaba
Outra manhã vem me cobrar
Se este é mesmo o último blues
Por que meus dedos querem tocar?
“Dolores” dormiu comigo
Trinta anos sem reclamar
Viu meus copos, meus amores
Viu amigos me deixar
Numa esquina, em noite de chuva
Dois rapazes a fizeram passar
Levaram meu pouco dinheiro
Meu telefone e meu chão
Mas quando puxaram Dolores
Eu segurei com a mão
Meu corpo perdeu aquela briga
Meu peito perdeu muito mais, então
Eu disse: este é meu último blues
Não tenho mais o que perder
Mas o blues conhece um homem
Melhor do que ele pode entender
Quando arrancam tudo das mãos
Alguma coisa aprende a nascer
Fiquei uma semana em silêncio
Sem coragem de procurar
Uma nota naquela guitarra
Que não podia mais tocar
Até achar numa caixa antiga
Uma canção por terminar
Vinte e seis anos esperando
Duas estrofes sobre o papel
“O Último Blues”, dizia o título
Como uma dívida cruel
Sentei sozinho naquela noite
E terminei o que era meu
Este é meu último blues
Foi o que escrevi sem saber
O último amor, o último palco
A última chance de viver
Mas a vida tem essa mania
De deixar alguma coisa depois acontecer
Voltei sábado ao Blue Station
Com outra guitarra na mão
Primeiro acorde saiu estranho
O segundo encontrou meu chão
No terceiro minha velha garganta
Já conversava com o coração
Então trouxeram um estojo
Com tantos nomes pra guardar
Uma guitarra sem passado
Sem cicatriz pra recordar
Disseram: “A história dela está vazia”
Eu pensei: vamos começar
Talvez não seja o último blues
Talvez eu tenha me enganado
Enquanto houver seis cordas
E algum coração machucado
Sempre haverá outro blues
Esperando pra ser tocado
“Dolores” ainda está perdida
Meu aluguel ainda venceu
Meu cabelo não ficou mais preto
E o tempo não se arrependeu
Mas hoje nasceu uma melodia
Que ontem ainda não viveu
Se perguntarem pelo velho
Que jurou não mais cantar
Digam que ele mudou de ideia
Sem vergonha de mudar
Porque homem nenhum conhece
Qual será seu último lugar
Não, este não é o último blues
Ainda tenho o que dizer
Enquanto a noite trouxer tristeza
Vou dar um acorde pra ela beber
O último blues só será o último
Quando outro não quiser nascer
Toquei um acorde…
Depois outro também…
No terceiro veio uma música
Que eu nunca toquei pra ninguém
Eu pensei que era o fim…
Talvez não...
Talvez não!








