Arquivo para agosto, 2026

O Último Blues

Posted in Coleção - Crônicas on 26 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Às onze e quarenta da noite, havia vinte e três pessoas no Blue Station.

Dessas, talvez quinze estivessem realmente ouvindo a música.

As outras conversavam, mexiam no celular, pediam bebidas ou aguardavam alguém. Perto do balcão, dois homens discutiam futebol. Um casal sentado junto ao palco parecia atravessar uma crise amorosa entre uma música e outra. No fundo, três turistas fotografavam tudo, inclusive aquilo que não precisava ser fotografado.

No pequeno palco, sentado num banco alto, estava Daniel Moura.

Sessenta e nove anos.

Terno preto gasto nos cotovelos, camisa branca aberta no primeiro botão, sapatos cuidadosamente engraxados e uma guitarra semiacústica que carregava havia mais de trinta anos.

A voz era rouca, grave, marcada pelo tempo. Não possuía mais a extensão da juventude, mas ganhara aquilo que nenhuma aula de canto conseguiria ensinar.

Quando Daniel cantava, algumas palavras pareciam ter morado dentro dele antes de sair.

Naquela noite interpretava blues antigos e algumas composições próprias. Nada de imitações. Gostava do Delta Blues, do Mississippi Blues, do som dos velhos clubes e daquela maneira quase insolente de transformar sofrimento em música sem pedir desculpas por isso.

Terminou uma canção.

Poucos aplaudiram.

Um homem junto ao balcão continuou falando ao telefone.

Daniel tomou um gole de água.

— Obrigado.

Ajustou o microfone.

— A próxima é sobre um homem que tinha dinheiro suficiente para comprar tudo o que não precisava e nenhum para pagar aquilo que devia.

Alguém riu.

— História verdadeira? — gritou um cliente.

Daniel olhou para ele.

— Infelizmente, autobiográfica.

Dessa vez mais gente riu.

Começou a tocar.

O dono do clube, Sérgio, observava do balcão.

Conhecia Daniel havia vinte anos. Sabia que aquele homem já tocara em festivais importantes, acompanhara cantores conhecidos, viajara pela Europa e pelos Estados Unidos e dividira palco com músicos que agora apareciam em documentários.

Também sabia que quase nada disso pagava as contas atuais.

Quando o show terminou, pouco depois da meia-noite, Daniel guardou os cabos e colocou a guitarra no estojo.

Sérgio aproximou-se.

— Público fraco hoje.

— Eu contei vinte e três.

— Você contou?

— Quando o público é pequeno, a gente conhece a família inteira.

Sérgio entregou-lhe o pagamento.

Daniel contou discretamente.

Era menos do que esperava.

— Faltou uma parte.

— Eu sei.

— Meu aluguel também sabe.

Sérgio abaixou a voz.

— Completo sexta.

Daniel guardou o dinheiro.

— Sexta de qual mês?

— Não começa.

Daniel sorriu.

Não estava bravo.

Estava cansado.

Saiu do clube à meia-noite e vinte.

A chuva havia engrossado.

Abriu um guarda-chuva pequeno que imediatamente virou para o lado errado com a primeira rajada de vento.

— Excelente.

Fechou-o.

Preferiu molhar-se com dignidade.

Levava o estojo da guitarra numa mão e uma sacola com partituras na outra. Poderia chamar um carro por aplicativo, mas a corrida até seu bairro custaria quase metade do que recebera naquela noite.

Foi para o ponto de ônibus.

Enquanto esperava, conferiu o celular.

Havia uma mensagem do proprietário do apartamento:

“Daniel, precisamos conversar sobre os dois meses atrasados.”

Ele guardou o aparelho.

Sabia.

O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio antigo sem elevador. As paredes tinham perdido a cor, o sofá fora comprado usado e a geladeira produzia ruídos que poderiam facilmente participar de uma banda experimental.

Na sala havia uma fotografia emoldurada.

Daniel, quarenta anos mais jovem, aparecia num palco ao lado de músicos estrangeiros.

Em outra fotografia, estava diante de uma plateia enorme.

Quem visitasse o apartamento talvez perguntasse como aquele homem das fotografias terminara contando moedas para pagar aluguel.

Daniel também perguntava.

Nunca encontrara uma resposta curta.

Durante anos ganhara bem e gastara melhor ainda. Viajara, casara duas vezes, divorciara-se duas vezes, ajudara amigos, fizera negócios ruins, recusara trabalhos que considerava indignos e aceitara outros que talvez fossem piores.

A vida não havia quebrado Daniel numa única noite.

Fizera isso em prestações.

O ônibus demorou vinte e sete minutos.

Desceu quatro quadras antes de casa.

A chuva continuava.

Daniel caminhou curvado contra o vento.

Foi na esquina da Rua Central que ouviu passos atrás.

Não teve tempo de virar.

— Passa a carteira.

Eram dois rapazes.

Um segurava alguma coisa debaixo da jaqueta.

Daniel não tentou descobrir o quê.

Entregou a carteira.

Havia pouco dinheiro.

O rapaz abriu.

— Só isso?

— Se tivesse mais, eu estaria de táxi.

— Celular.

Daniel entregou.

O outro olhou para o estojo.

— E isso?

Daniel apertou a alça.

— Instrumento.

— Passa.

— Isso não.

Foi a primeira resposta errada daquela noite.

O rapaz puxou o estojo.

Daniel segurou.

— Leva o dinheiro.

— Solta!

— Essa não.

Recebeu um empurrão.

Caiu contra a parede.

O estojo escapou de sua mão.

Um dos rapazes correu.

O outro o acompanhou.

Daniel tentou levantar.

— Ei!

Correu dois passos.

Parou.

Aos sessenta e nove anos, numa calçada molhada, o corpo estabeleceu uma fronteira que a vontade não conseguiu atravessar.

Viu os dois desaparecerem.

A guitarra foi com eles.

Daniel permaneceu parado na chuva.

Não gritou novamente.

Não pediu ajuda.

Apenas olhou para a esquina vazia.

Aquela guitarra não era rara o suficiente para entrar num museu. Não pertencera a B.B. King, nem a qualquer outro nome famoso. Era apenas uma velha semiacústica de acabamento escuro que Daniel comprara quando ainda tinha dinheiro para escolher instrumentos.

Chamava-a de Dolores.

Sérgio sempre zombava.

— Dar nome para guitarra é coisa de homem solitário.

Daniel respondia:

— Justamente por isso ela tem nome.

Com Dolores escrevera dezenas de músicas.

Tocara em quatro países.

Fizera sua última turnê internacional.

Acompanhara o nascimento de um filho que depois foi morar longe.

Tocara bêbado com ela.

Sóbrio também.

Chorara sobre ela na noite em que a mãe morreu.

E, durante anos ruins, vendera amplificadores, pedais e outras guitarras.

Dolores, nunca.

Até aquela esquina decidir por ele.

Chegou em casa perto das duas da manhã depois de registrar a ocorrência.

Não acendeu a luz da sala.

Sentou no sofá molhado.

Ficou assim por muito tempo.

Na manhã seguinte, telefonou para Sérgio usando um aparelho antigo que guardava numa gaveta.

— Roubaram Dolores.

Houve silêncio.

— A guitarra?

— Não conheço outra Dolores.

— Você está bem?

Daniel olhou para o hematoma no braço.

— Mais ou menos.

— Não vem hoje.

— Tenho apresentação.

— Sem guitarra?

Daniel não respondeu.

Sérgio também não.

Pela primeira vez em décadas, Daniel passou um dia inteiro sem tocar.

Tentou escrever.

Não conseguiu.

Abriu uma caixa com letras antigas. Havia canções em português, inglês, espanhol e francês. Algumas tinham sido gravadas por artistas pequenos. Outras nunca haviam saído daquele apartamento.

Encontrou uma folha datada de vinte e seis anos antes.

No alto estava escrito:

O Último Blues.

Não lembrava dela.

Leu.

Havia apenas duas estrofes e uma observação:

“terminar algum dia.”

Daniel riu sem vontade.

— Parece que chegou o dia.

Durante a semana, Sérgio emprestou-lhe uma guitarra.

Daniel agradeceu, mas recusou o show.

— Não consigo.

— Você toca qualquer guitarra.

— Tocar, eu toco.

— Então?

Daniel não explicou.

Passou sexta-feira em casa.

No sábado também.

Na segunda-feira recebeu nova mensagem sobre o aluguel.

Na terça foi até uma loja de instrumentos usados.

Perguntou quanto custaria uma guitarra razoável.

O vendedor mostrou algumas.

Daniel experimentou três.

Gostou de uma.

Olhou o preço.

Devolveu.

— Vou pensar.

O vendedor conhecia essa frase.

Não insistiu.

Na quinta-feira, Sérgio apareceu no apartamento.

Trouxe café e uma sacola de pão.

— Você precisa voltar.

— Preciso pagar aluguel.

— Também.

— Sem guitarra.

— Tenho três no clube.

Daniel abriu o café.

— Nenhuma é minha.

Sérgio sentou.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Se não for sobre dinheiro.

— Por que você nunca gravou suas músicas?

Daniel deu de ombros.

— Algumas foram gravadas.

— Estou falando das suas. Com você cantando.

— Porque ninguém quis.

— Você quis?

Daniel demorou.

— Talvez não o suficiente.

Sérgio levantou-se.

— Sábado. Dez da noite.

— Já disse que não.

— Eu ouvi.

— Então por que insiste?

— Porque sou dono do clube. Tenho o direito de ser inconveniente.

Saiu.

No sábado, às nove e cinquenta, Daniel apareceu.

Sem guitarra.

Sérgio não comentou.

Entregou-lhe uma semiacústica preta.

— Só hoje.

Daniel afinou.

Às dez, subiu ao palco.

Havia mais gente do que o normal.

Quarenta, talvez cinquenta pessoas.

Reconheceu alguns músicos.

Um antigo baixista com quem tocara nos anos 1990.

Uma cantora que não via havia mais de dez anos.

Dois ex-alunos.

Uma jornalista especializada em música.

Daniel olhou para Sérgio.

O dono do clube fingiu limpar um copo.

— O que é isso?

— Sábado.

— Não é.

— Então toca e descobre.

Daniel começou.

A primeira música saiu dura.

Na segunda, a mão relaxou.

Na terceira, a voz encontrou aquele lugar onde cansaço e música deixavam de ser coisas diferentes.

No intervalo, contou sobre o assalto.

— Levaram minha carteira, meu celular e minha guitarra.

Uma mulher perguntou:

— Recuperaram alguma coisa?

— A carteira apareceu.

— E o dinheiro?

— Não exageremos nos milagres.

Risadas.

— A guitarra, não.

Ficou em silêncio.

— Então vou tocar uma música que comecei há vinte e seis anos e terminei ontem.

Sérgio levantou a cabeça.

Daniel iniciou O Último Blues.

Não era uma canção sobre a guitarra roubada.

Era sobre tudo aquilo que uma pessoa acredita ser a última coisa.

O último amor.

O último emprego.

A última viagem.

A última oportunidade.

O último palco.

E a estranha insistência da vida em colocar alguma coisa depois.

Quando terminou, ninguém aplaudiu imediatamente.

Daniel conhecia aquele silêncio.

Era diferente do silêncio da indiferença.

Depois vieram os aplausos.

Longos.

Ele abaixou a cabeça.

— Obrigado.

Do fundo, alguém gritou:

— Mais uma!

Daniel respondeu:

— Tenho sessenta e nove anos. Negociem com minha coluna.

As pessoas riram.

Sérgio subiu ao palco.

— Antes da próxima, precisamos resolver um problema.

Daniel fechou os olhos.

— Sérgio…

— Fica quieto cinco minutos.

O dono do clube explicou que, durante a semana, publicara nas redes sociais a história do roubo. Músicos, antigos clientes e pessoas que conheciam Daniel começaram a compartilhar lembranças.

Apareceram fotografias.

Gravações antigas.

Cartazes.

Histórias de apresentações que Daniel já havia esquecido.

Uma antiga cantora enviou um vídeo da Espanha.

Um guitarrista escreveu dos Estados Unidos.

Um ex-aluno contou que aprendera blues ouvindo Daniel tocar numa pequena casa noturna vinte anos antes.

— E daí? — perguntou Daniel.

Sérgio apontou para a lateral do palco.

Dois músicos entraram carregando um estojo.

Daniel ficou imóvel.

— Não.

— Abre.

— Sérgio…

— Abre.

Daniel colocou o estojo sobre uma cadeira.

As mãos tremiam.

Abriu.

Era uma guitarra semiacústica.

Não era Dolores.

Daniel percebeu imediatamente.

O acabamento era diferente.

Mais nova.

Talvez melhor.

Na parte interna do estojo havia dezenas de assinaturas.

Sérgio explicou:

— Fizemos uma vaquinha.

Daniel passou a mão pelo instrumento.

— Eu não posso aceitar.

— Pode.

— Não é a mesma.

Sérgio respondeu:

— Ainda bem.

Daniel olhou para ele.

— A outra tinha trinta anos de histórias. Essa está vazia.

Foi uma frase simples.

Daniel entendeu.

Pegou a guitarra.

Conectou ao amplificador.

O primeiro acorde saiu limpo.

Ajustou o volume.

Tentou outro.

Depois outro.

— Tem nome? — perguntou alguém.

Daniel examinou o instrumento.

— Ainda não.

— Vai chamar Dolores?

Ele sorriu.

— Não se dá o nome de uma antiga companheira para quem acabou de chegar.

O clube inteiro riu.

Naquela madrugada, tocou até quase duas.

Depois do show, uma mulher esperava perto do palco.

Daniel a reconheceu vagamente.

— O senhor é Daniel Moura?

— Dependendo da dívida.

Ela sorriu.

Apresentou-se como produtora de um pequeno selo independente especializado em blues, jazz e música autoral.

— Gravei sua música no celular.

— Isso costuma ser proibido.

— Quer que eu apague?

Daniel pensou.

— Ficou boa?

— Ficou.

— Então podemos discutir.

Ela perguntou quantas composições próprias possuía.

— Terminadas?

— Sim.

— Umas quarenta.

— E inacabadas?

Daniel pensou na caixa em casa.

— Melhor marcarmos uma reunião longa.

Trocaram contatos.

Nada estava contratado.

Nenhum sucesso estava garantido.

A conversa poderia terminar num café e nunca produzir disco algum.

Daniel sabia disso melhor do que ninguém.

Quando voltou para casa, já não chovia.

Subiu os três andares com a guitarra nova nas costas.

Na porta encontrou outro aviso do proprietário sobre o aluguel.

Leu.

Guardou no bolso.

O problema continuava existindo.

Entrou.

Colocou o estojo sobre o sofá.

Na parede, as fotografias antigas continuavam mostrando um homem mais jovem diante de grandes plateias.

Daniel não olhou para elas.

Pegou a folha de O Último Blues.

Na parte inferior, abaixo da última estrofe, escreveu a data daquela noite.

Depois acrescentou duas palavras:

“Talvez não.”

Na manhã seguinte, acordou tarde.

Preparou café.

Abriu a janela.

A cidade estava cinzenta, como quase sempre parecia estar quando ele precisava de alguma cor.

Pegou a guitarra nova.

Tocou o primeiro acorde.

Parou.

— Você precisa de um nome.

Ficou pensando.

A campainha tocou.

Era Sérgio.

— O que você quer a essa hora?

— São onze e meia.

— Para músico é madrugada.

Sérgio entrou trazendo um jornal.

— Olha.

Havia uma pequena matéria sobre a apresentação da noite anterior.

A fotografia mostrava Daniel no palco com a guitarra nova.

O título dizia:

“Veterano do blues retorna ao palco após assalto.”

Daniel leu.

— Veterano?

— Preferia “idoso”?

— Veterano está ótimo.

Sérgio abriu um sorriso.

— Já deu nome para ela?

Daniel olhou para a guitarra.

Depois para a folha sobre a mesa.

— Ainda não.

Sentou-se.

Colocou o instrumento no colo.

Sérgio serviu café para os dois.

— Vai tocar?

Daniel posicionou os dedos nas cordas.

— Vou tentar uma coisa nova.

— Blues?

Daniel fez o primeiro acorde.

— O que mais poderia ser?

Do lado de fora, um caminhão passou, um cachorro latiu e alguém discutiu por uma vaga de estacionamento.

O aluguel continuava atrasado.

Dolores continuava desaparecida.

Daniel continuava com sessenta e nove anos.

Nada disso mudou quando ele tocou o segundo acorde.

No terceiro, porém, apareceu uma melodia que nunca havia tocado antes.

Daniel parou.

Pegou um lápis.

— Espera.

— O quê?

— Não fala.

Escreveu quatro notas no papel.

Sérgio ficou em silêncio.

Daniel voltou à guitarra.

O último blues havia terminado na noite anterior.

Aquele, evidentemente, era outro.

(Betto Gasparetto inverno de 1983)

O Último Blues

(letra e arranjo musical: Betto Gasparetto)


Tenho sessenta e nove estradas
E uns trocados pra chegar
Duas contas sobre a mesa
E um aluguel pra atrasar
Já toquei pra tanta gente
Hoje vinte vêm me escutar

Minha voz perdeu os agudos
Mas ganhou o que contar
Cada ruga trouxe um verso
Cada perda, outro lugar
Quando a vida cobra caro
Faço o velho blues pagar

Eu disse: este é meu último blues
Meu último blues pra cantar
Mas toda vez que a noite acaba
Outra manhã vem me cobrar
Se este é mesmo o último blues
Por que meus dedos querem tocar?

Dolores” dormiu comigo
Trinta anos sem reclamar
Viu meus copos, meus amores
Viu amigos me deixar
Numa esquina, em noite de chuva
Dois rapazes a fizeram passar

Levaram meu pouco dinheiro
Meu telefone e meu chão
Mas quando puxaram Dolores
Eu segurei com a mão
Meu corpo perdeu aquela briga
Meu peito perdeu muito mais, então

Eu disse: este é meu último blues
Não tenho mais o que perder
Mas o blues conhece um homem
Melhor do que ele pode entender
Quando arrancam tudo das mãos
Alguma coisa aprende a nascer

Fiquei uma semana em silêncio
Sem coragem de procurar
Uma nota naquela guitarra
Que não podia mais tocar
Até achar numa caixa antiga
Uma canção por terminar

Vinte e seis anos esperando
Duas estrofes sobre o papel
“O Último Blues”, dizia o título
Como uma dívida cruel
Sentei sozinho naquela noite
E terminei o que era meu

Este é meu último blues
Foi o que escrevi sem saber
O último amor, o último palco
A última chance de viver
Mas a vida tem essa mania
De deixar alguma coisa depois acontecer

Voltei sábado ao Blue Station
Com outra guitarra na mão
Primeiro acorde saiu estranho
O segundo encontrou meu chão
No terceiro minha velha garganta
Já conversava com o coração

Então trouxeram um estojo
Com tantos nomes pra guardar
Uma guitarra sem passado
Sem cicatriz pra recordar
Disseram: “A história dela está vazia”
Eu pensei: vamos começar

Talvez não seja o último blues
Talvez eu tenha me enganado
Enquanto houver seis cordas
E algum coração machucado
Sempre haverá outro blues
Esperando pra ser tocado

“Dolores” ainda está perdida
Meu aluguel ainda venceu
Meu cabelo não ficou mais preto
E o tempo não se arrependeu
Mas hoje nasceu uma melodia
Que ontem ainda não viveu

Se perguntarem pelo velho
Que jurou não mais cantar
Digam que ele mudou de ideia
Sem vergonha de mudar
Porque homem nenhum conhece
Qual será seu último lugar

Não, este não é o último blues
Ainda tenho o que dizer
Enquanto a noite trouxer tristeza
Vou dar um acorde pra ela beber
O último blues só será o último
Quando outro não quiser nascer


Toquei um acorde…
Depois outro também…
No terceiro veio uma música
Que eu nunca toquei pra ninguém

Eu pensei que era o fim…
Talvez não.
..

Talvez não!

O Celular Sem Sinal

Posted in Coleção - Crônicas on 25 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A pane começou às seis e dezessete da tarde, embora ninguém na Rua das Palmeiras soubesse disso naquele momento.

Às seis e dezoito, Marcelo percebeu que a mensagem enviada à esposa continuava com o pequeno relógio ao lado.

Às seis e dezenove, tentou novamente.

Sem conexão.

Levantou o celular, aproximou-o da janela e ficou olhando para a tela como se alguns centímetros de altitude fossem capazes de restabelecer toda a infraestrutura de telecomunicações do bairro.

Nada.

Desligou o Wi-Fi.

Ligou os dados móveis.

Nada.

Ativou o modo avião, esperou cinco segundos e desativou.

Nada.

Reiniciou o aparelho.

Quando voltou, continuava sem sinal.

— Pronto. Agora acabou a civilização — murmurou.

Na casa ao lado, dona Célia chegou à mesma conclusão por outro caminho.

Aos setenta e dois anos, usava o celular principalmente para conversar com as filhas, receber fotografias dos netos e encaminhar receitas que jamais preparava. Naquela tarde esperava uma chamada da filha mais velha.

Tentou ligar.

Falhou.

Foi até a janela.

Do outro lado da rua, viu Marcelo segurando o telefone para o alto.

Abriu a janela.

— O seu também parou?

Ele olhou.

— Parou.

— Então não é o meu aparelho.

— Pelo jeito, não.

— Ainda bem.

Marcelo estranhou.

— Ainda bem?

— Se fosse só o meu, eu teria que levar para consertar.

Era uma lógica difícil de contestar.

Pouco depois, outras portas começaram a se abrir.

Primeiro apareceu Eduardo, motorista de aplicativo, que havia acabado de perder acesso às corridas.

— Alguém está com internet?

— Não — respondeu Marcelo.

— Nem dados móveis?

— Nada.

Eduardo olhou para o celular.

— Então hoje estou oficialmente desempregado.

Da casa da esquina saiu Patrícia, comerciante.

— A maquininha não funciona.

— Nem Pix — acrescentou o marido.

— Tenho três clientes esperando.

Dona Célia perguntou:

— Dinheiro ainda funciona?

Patrícia olhou para ela.

— Funciona.

— Então guardaram alguma coisa útil do século passado.

Aos poucos descobriram que o problema atingia boa parte do bairro. Não havia internet fixa, o sinal móvel estava instável e até algumas linhas telefônicas apresentavam falhas.

Às seis e quarenta, a calçada tinha mais gente do que em muitos domingos.

Marcelo percebeu que conhecia quase todos de vista e poucos pelo nome.

O rapaz da casa amarela era Eduardo.

A mulher que saía às sete da manhã com duas crianças chamava-se Patrícia.

O senhor que lavava o carro todos os sábados era Arnaldo.

A jovem do sobrado azul, que ele julgava estudante, era fisioterapeuta e se chamava Bianca.

Moravam separados por alguns metros havia anos.

Precisaram perder o sinal para fazer as apresentações.

— Você mora aqui há quanto tempo? — Marcelo perguntou a Eduardo.

— Seis anos.

— Tudo isso?

— Você me vê todo dia.

— Ver é diferente.

Eduardo sorriu.

— Pelo menos reconheceria meu carro.

— Isso sim.

As crianças foram as primeiras a perceber que o desastre tinha vantagens.

Sem internet, dois irmãos apareceram com uma bola. Chamaram outro menino. Depois uma garota. Em quinze minutos, improvisaram traves com chinelos.

Uma das mães surgiu no portão.

— Cuidado com os carros!

Arnaldo, sentado numa cadeira de plástico, respondeu:

— Pode ficar tranquila. Os adultos estão todos na rua reclamando da internet. Ninguém consegue pedir carro por aplicativo.

A bola bateu no portão de Marcelo.

Ele olhou.

— Foi mal, tio!

Marcelo descobriu naquela hora que havia atingido a idade em que crianças desconhecidas o chamavam de tio.

Esse problema nenhuma operadora resolveria.

Às sete, Patrícia apareceu carregando uma garrafa térmica.

— Fiz café.

Trouxe algumas xícaras.

Dona Célia buscou um bolo.

— Fiz hoje.

Patrícia provou.

— Muito bom.

— Receita da internet.

Todos riram.

— Pelo menos ela serviu para alguma coisa antes de cair — disse Arnaldo.

As cadeiras começaram a aparecer sem combinação prévia. Uma veio da garagem de Marcelo, duas da casa de Célia, outras da residência de Eduardo.

A calçada virou uma pequena sala de estar coletiva.

Conversaram sobre o defeito da rede.

O assunto durou sete minutos.

Depois, sem a possibilidade de conferir notícias, vídeos ou mensagens, tiveram de encontrar outros temas.

Falaram da rua.

Da árvore da esquina cujas raízes levantavam a calçada.

Dos ônibus.

Do supermercado que havia fechado.

Da iluminação pública.

De um buraco que completaria três meses e, segundo Arnaldo, já poderia solicitar certidão de nascimento.

— Já reclamaram na prefeitura? — perguntou Bianca.

Três responderam ao mesmo tempo:

— Já.

— E?

Arnaldo apontou para o buraco.

A resposta estava ali.

A política apareceu desse jeito, sem discursos e sem candidatos: na lâmpada que demorava a ser trocada, na calçada irregular, no ônibus atrasado e na praça que precisava de manutenção.

Depois desapareceu da conversa com a mesma naturalidade.

Às sete e vinte, dona Célia comentou:

— A casa do seu Antônio está muito fechada.

Todos olharam.

Antônio morava quatro casas adiante. Era viúvo e raramente saía.

— Ele está viajando? — perguntou Marcelo.

Ninguém sabia.

Bianca levantou-se.

— Vou ver.

Foram até lá.

Bateram palmas no portão.

— Seu Antônio!

Nada.

Chamaram novamente.

Depois de alguns segundos, a janela se abriu.

— Que aconteceu?

— Nada — respondeu Bianca. — A gente só queria saber se o senhor está bem.

Antônio pareceu desconfiado.

— Estou.

— A internet caiu.

— Eu sei.

— Estamos tomando café ali.

Ele olhou para o pequeno grupo.

— E o que isso tem a ver comigo?

Bianca pensou.

— Nada. Quer vir?

Antônio quase recusou.

Quase.

Dez minutos depois apareceu carregando um pacote de biscoitos.

— Estavam abertos — explicou.

Ninguém havia perguntado.

Sentou-se.

A conversa continuou.

Descobriram que Antônio havia trabalhado como marceneiro durante quarenta anos. Eduardo precisava consertar uma porta de armário. Patrícia queria alguém para fazer duas prateleiras na loja.

— Estou aposentado — avisou Antônio.

— Então não faz mais nada? — perguntou Marcelo.

— Faço. Só reclamo antes.

Às oito, a rua estava estranhamente barulhenta.

Não com motores.

Com gente.

Uma adolescente saiu de casa procurando sinal e encontrou a mãe conversando na calçada.

— Mãe, a internet voltou?

— Ainda não.

— Meu Deus.

— Senta aqui.

— Fazer o quê?

— Conversar.

A menina olhou para os adultos.

— Sobre o quê?

Dona Célia puxou uma cadeira.

— Estamos tentando descobrir.

Ela sentou contrariada.

Vinte minutos depois, discutia com Arnaldo sobre filmes antigos.

Às oito e quarenta e três, os celulares começaram a vibrar.

Um.

Depois outro.

E outro.

Mensagens atrasadas chegaram de uma vez.

Notificações.

E-mails.

Vídeos.

Grupos.

Alertas.

Eduardo levantou o aparelho.

— Voltou!

Todos verificaram os próprios telefones.

Marcelo recebeu dezessete mensagens.

Patrícia correu para testar a maquininha.

Bianca respondeu a uma paciente.

A adolescente desapareceu dentro de casa antes que alguém percebesse.

Em poucos minutos, as cadeiras começaram a esvaziar.

— Boa noite.

— Até mais.

— Obrigado pelo café.

— Depois devolvo a xícara.

— Não esquece.

A rua voltou lentamente ao normal.

Portões fecharam.

Janelas acenderam.

Televisões ligaram.

As pessoas retornaram às pequenas telas onde tantas outras pessoas as esperavam.

Marcelo entrou em casa.

A esposa já havia chegado.

— Onde você estava?

— Na rua.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele colocou o celular sobre a mesa.

— Caiu a internet.

— Eu sei. Foi horrível.

Marcelo pensou.

— Mais ou menos.

Na manhã seguinte, saiu para trabalhar às sete e quinze.

Eduardo estava entrando no carro.

Antes, provavelmente teriam apenas passado um pelo outro.

— Bom dia, Eduardo.

O homem levantou a cabeça.

— Bom dia, Marcelo.

Mais adiante, dona Célia regava as plantas.

— A filha ligou?

Ela sorriu.

— Ligou. Conversamos quase uma hora.

— Então tudo certo.

— Tudo.

Marcelo continuou.

Quando chegou à esquina, precisou desviar do buraco.

Arnaldo estava do outro lado.

— Bom dia!

— Bom dia!

— Hoje vou cobrar aquele protocolo de novo.

Marcelo apontou para a cratera.

— Cuidado. Daqui a pouco ela entra no patrimônio histórico.

Arnaldo riu.

Naquela noite, ninguém colocou cadeiras na calçada.

Na seguinte, também não.

A internet funcionava perfeitamente.

Uma semana depois, Marcelo chegou do trabalho e encontrou Antônio sentado diante de casa.

Pensou em apenas cumprimentá-lo e entrar.

Parou.

— Seu Antônio, aquele café da dona Célia estava bom, não estava?

— Estava.

— Será que hoje tem?

Antônio olhou para a casa dela.

— Só existe uma maneira de descobrir.

Foram os dois.

Célia apareceu no portão.

— O que vocês querem?

— Saber se tem café.

— Tem.

— E internet?

— Também.

Marcelo sorriu.

— Hoje a gente tenta com as duas funcionando.

Ela abriu o portão.

Pouco depois, três cadeiras estavam na calçada.

Depois apareceu uma quarta.

Nenhum celular havia perdido o sinal.

(Betto Gasparetto – vi – mmxxi)

O Menino Que Viu o Super-Homem

Posted in Coleção - Crônicas on 24 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Miguel tinha oito anos e enxergava o mundo de muito perto.

Para ler, aproximava o rosto das páginas. Para reconhecer alguém à distância, procurava primeiro a voz, o jeito de andar, a cor da roupa ou algum detalhe que tivesse aprendido a guardar. Sua baixa visão transformara coisas aparentemente simples em pequenas negociações diárias com o mundo.

Isso nunca o impedira de gostar de histórias em quadrinhos.

Pelo contrário.

Tinha dezenas de gibis organizados numa estante baixa do quarto. Conhecia personagens, uniformes, poderes, planetas, inimigos e histórias que o pai já desistira de acompanhar. Também colecionava miniaturas. Algumas eram baratas, outras tinham sido presentes de aniversário e duas haviam sido compradas depois de meses juntando moedas.

A preferida ficava sobre a escrivaninha.

Super-Homem.

Miguel gostava da capa.

— É estranho — dizia o pai. — Você gosta de um herói que usa a cueca por cima da roupa.

— Pai!

— Estou apenas analisando o uniforme.

— Você não entende nada de super-herói.

Nisso Miguel provavelmente tinha razão.

Num sábado de manhã, a família decidiu visitar um grande parque de entretenimentos que passava pela cidade. Havia brinquedos, apresentações, jogos, personagens fantasiados e uma área especialmente preparada para crianças.

Miguel soube da existência dos super-heróis dois dias antes.

A partir daí, perguntou aproximadamente quarenta vezes a que horas sairiam de casa.

No sábado acordou antes de todos.

Escolheu uma camiseta azul com o símbolo do Super-Homem.

A mãe encontrou-o vestido às sete da manhã.

— Miguel, o parque abre às dez.

— Eu sei.

— Então por que já está pronto?

— Para não atrasar.

— São sete horas.

— Justamente.

Às dez e quinze, estavam na entrada.

O estacionamento já estava cheio. Crianças corriam de um lado para outro, pais conferiam ingressos no celular e funcionários tentavam organizar filas que pareciam possuir vontade própria.

Miguel segurava a mão da mãe.

O excesso de pessoas dificultava ainda mais sua orientação. O pai caminhava do outro lado, avisando sobre pequenos degraus e obstáculos.

— Tem uma placa na frente.

— Vi.

— Cuidado com a criança correndo.

— Essa eu não vi.

— Nem a mãe dela, aparentemente.

Miguel riu.

Quando chegaram perto da entrada principal, ouviu uma menina gritar:

— Olha o Super-Homem!

Miguel parou.

— Onde?

A mãe procurou.

— Perto do portão.

Ele apertou os olhos.

Via uma figura alta, predominantemente azul e vermelha, mas não conseguia distinguir o rosto.

— É ele?

— É.

Miguel soltou a mão da mãe e deu dois passos.

— Espera — disse ela.

— Quero chegar perto.

O funcionário vestido de Super-Homem chamava-se André.

Tinha vinte e nove anos, estudava Educação Física à noite e trabalhava em eventos nos fins de semana para completar a renda. Naquela manhã, sua principal função era receber as crianças, tirar fotografias e ajudar a organizar a entrada.

Gostava do trabalho, embora vestir aquela roupa durante horas não fosse exatamente um superpoder.

Já havia ouvido de tudo.

Crianças perguntavam se ele voava.

Se conhecia o Batman.

Se a capa era verdadeira.

Se conseguia levantar um carro.

Um menino certa vez perguntara onde ele estacionara a nave espacial.

André aprendera a responder sem destruir a fantasia.

— Super-Homem! — chamou Miguel.

André olhou.

Viu um menino pequeno usando uma camiseta com o mesmo símbolo de seu uniforme.

Abaixou-se.

— Ora, ora. Parece que temos outro membro da equipe por aqui.

Miguel aproximou-se até ficar muito perto dele.

A mãe começou a explicar:

— Desculpe, ele tem baixa…

Miguel interrompeu:

— Posso chegar mais perto?

André percebeu.

— Claro.

O menino aproximou o rosto.

Observou o símbolo no peito.

Tocou de leve a capa.

Depois olhou para o rosto do funcionário.

André permaneceu imóvel.

— Gostou do uniforme?

Miguel não respondeu imediatamente.

Continuou examinando-o.

Então sorriu.

— Eu sei quem você é!

André congelou.

A mãe levou a mão à boca para esconder uma risada.

O pai esperou.

André imaginou que o menino tivesse percebido a fantasia. Talvez tivesse reconhecido alguma costura, a maquiagem ou simplesmente concluído que aquele Super-Homem não poderia ser verdadeiro.

Entrou na brincadeira.

— Sabe?

Miguel confirmou com a cabeça.

— Sei.

— Então não conta para ninguém.

O menino aproximou-se mais.

André perguntou:

— Quem eu sou?

Miguel respondeu sem hesitar:

— Você é o homem que deixa as crianças felizes.

André perdeu a resposta.

Não estava preparado para aquilo.

Havia decorado frases engraçadas. Sabia fazer poses para fotografias, imitar a postura do personagem e responder perguntas sobre kryptonita.

Mas ninguém lhe ensinara o que fazer quando uma criança atravessava o uniforme e encontrava a pessoa lá dentro.

— Como você sabe? — perguntou.

Miguel apontou para seus próprios olhos.

— Eu não enxergo muito bem.

Fez uma pausa.

— Mas isso eu consigo ver.

A mãe virou o rosto.

O pai abaixou a cabeça por alguns segundos.

André permaneceu agachado diante do menino.

Ao redor deles, o parque continuava funcionando. Funcionários chamavam visitantes, crianças corriam, celulares fotografavam e uma música alta anunciava o início de alguma atração.

André estendeu a mão.

— Posso te contar um segredo?

Miguel aproximou-se.

— Pode.

— Às vezes quem está aqui dentro também esquece disso.

Miguel olhou para ele.

— Do quê?

— De fazer alguém feliz.

O menino pensou.

— Então eu lembrei você.

André sorriu.

— Lembrou.

A fila continuava crescendo.

Um colega fez sinal indicando que precisavam liberar a entrada.

André levantou-se.

— Você veio conhecer o parque?

— Vim conhecer os heróis.

— Todos?

— Quase todos.

— Qual é o seu preferido?

Miguel olhou para o símbolo da própria camiseta.

— Precisa perguntar?

— Só estava verificando.

André pegou o rádio preso ao cinto.

Falou rapidamente com alguém da organização.

A mãe de Miguel percebeu.

— Está acontecendo alguma coisa?

— Nada grave. Assunto de super-herói.

Poucos minutos depois, uma funcionária apareceu e conduziu a família até uma área lateral.

Miguel não entendeu.

— A gente não vai entrar?

— Vai — respondeu André. — Mas primeiro preciso de ajuda.

— Com quê?

— Reunir minha equipe.

Um a um, outros personagens começaram a aparecer.

Uma heroína.

Um homem com capa escura.

Outro carregando um escudo cenográfico.

Mais dois personagens que Miguel reconheceu pela voz e pelos detalhes dos uniformes quando se aproximaram.

André havia pedido que não ficassem longe.

Cada um chegou perto.

Deixaram Miguel tocar os símbolos, sentir a textura das capas e observar os rostos na distância que lhe permitia enxergar melhor.

Ninguém teve pressa.

— Esse escudo é pesado? — perguntou Miguel.

— Quer descobrir?

Colocaram o objeto em suas mãos.

— Nossa!

— Herói também faz musculação.

Miguel riu.

A mãe começou a fotografar.

Depois abaixou o celular.

Percebeu que estava assistindo àquele momento pela tela e decidiu vê-lo diretamente.

André chamou Miguel.

— Falta uma coisa.

— O quê?

— Todo grupo precisa de mais um herói.

Entregou-lhe uma pequena capa vermelha usada nas atividades infantis.

Miguel ficou parado.

— É para mim?

— Temporariamente.

— Quanto tempo?

André pensou.

— Até você decidir devolver.

Miguel vestiu a capa.

Fez uma pose.

As fotografias começaram.

Uma criança que passava apontou:

— Olha! Outro Super-Homem!

Miguel imediatamente endireitou os ombros.

— Viu, pai?

— Vi.

— Agora tem dois.

O pai respondeu:

— Estou começando a achar que tem mais.

Passaram o restante da manhã no parque.

Miguel entrou em brinquedos, perdeu duas vezes num jogo de argolas, ganhou do pai numa disputa de pontaria e comeu uma quantidade de algodão-doce que a mãe considerou incompatível com qualquer organismo humano.

Mas voltou três vezes à entrada.

Na primeira, apenas acenou para André.

Na segunda, levou uma garrafa de água.

— Minha mãe falou que você deve estar com calor aí dentro.

— Sua mãe entende de super-heróis.

Na terceira vez, pouco antes de ir embora, tirou a capa vermelha.

— Tenho que devolver.

André pegou-a.

— Tem certeza?

— Outras crianças vão precisar.

André ficou olhando para ele.

— Provavelmente.

Miguel estendeu a mão.

André pensou que receberia um aperto.

Recebeu um abraço.

— Tchau, Super-Homem.

— Tchau, Miguel.

O menino se afastou com os pais.

Depois de alguns metros, virou-se.

— Ei!

André levantou a mão.

— O quê?

Miguel gritou:

— Não esquece quem você é!

Algumas pessoas próximas riram.

André também.

— Não vou esquecer!

A família desapareceu no estacionamento.

O evento continuou.

Outra criança chegou querendo fotografia.

Depois outra.

Um menino perguntou se ele realmente conseguia voar.

André respondeu:

— Só quando o chefe não está olhando.

O menino acreditou o suficiente para rir.

No fim do expediente, André entrou no vestiário.

Retirou as botas, a capa e o uniforme azul. Diante do espelho voltou a ser apenas um rapaz cansado depois de muitas horas de trabalho.

Pegou o celular.

Havia uma mensagem da organização do evento.

Uma fotografia.

Miguel aparecia no centro, usando a pequena capa vermelha, cercado pelos personagens.

Abaixo, alguém escrevera:

“O menino que conheceu os heróis.”

André olhou para a imagem durante alguns segundos.

Depois alterou a legenda antes de salvá-la:

“O menino que enxergou.”

Guardou o telefone.

Na manhã seguinte, Miguel colocou sua miniatura do Super-Homem sobre a escrivaninha.

Ao lado dela, colocou a fotografia impressa no parque.

O pai apareceu à porta.

— Qual dos dois é o verdadeiro?

Miguel olhou para a miniatura.

Depois para a fotografia.

— Esse aqui é personagem.

Apontou para André.

— Esse é de verdade.

O pai poderia ter explicado a diferença.

Não explicou.

Na fotografia, Miguel sorria usando uma capa vermelha grande demais para seu tamanho.

Atrás dele havia homens e mulheres fantasiados de pessoas capazes de realizar coisas impossíveis.

Curiosamente, nenhum deles estava voando.

(Betto Gasparetto – viii – mmxxv)

A Vida Inteira em um Segundo

Posted in Coleção - Crônicas on 23 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Durante trinta e oito anos, Samuel acordou cedo para construir aquilo que chamava, com certo orgulho, de sua vida.

Começara com uma pequena oficina alugada, duas ferramentas compradas a prazo e uma motocicleta usada. Depois vieram os primeiros funcionários, um galpão maior, contratos melhores, uma casa própria, dois carros, terrenos, máquinas e uma empresa que finalmente conseguia funcionar alguns dias sem sua presença.

A casa talvez fosse sua maior conquista.

Não pela arquitetura, embora fosse bonita. Ali os filhos haviam crescido, a esposa escolhera as árvores do jardim e o cachorro destruíra parte da varanda quando ainda era filhote. Num armário do corredor estavam fotografias impressas de uma época em que ninguém precisava procurar lembranças dentro de uma nuvem digital.

Samuel guardava tudo.

Documentos antigos, desenhos dos filhos, relógios que não funcionavam, cartões de aniversário, a primeira nota fiscal da empresa e até uma chave da oficina original.

A esposa, Marta, reclamava:

— Você não guarda coisas. Você administra um museu.

— Um dia isso vai ter valor.

— Para quem?

— Ainda não decidi.

Naquela tarde, o céu começou a mudar pouco depois das quatro.

O calor havia sido estranho durante todo o dia. O vento desaparecera e depois voltara em rajadas. Nuvens muito escuras cresceram no horizonte com rapidez.

Samuel estava na empresa quando recebeu o primeiro alerta no celular.

TEMPESTADE SEVERA. PROCURE ABRIGO.

Leu.

Guardou o telefone.

Continuou trabalhando.

Dez minutos depois, Marta ligou.

— Você viu o aviso?

— Vi.

— Está ficando muito escuro aqui.

— Fecha as janelas. Estou indo.

— Não venha agora. A mensagem manda procurar abrigo.

Samuel caminhou até a porta do galpão.

O vento havia aumentado.

Algumas folhas atravessavam o estacionamento. Uma placa metálica vibrava na fachada do prédio vizinho.

— Vou esperar um pouco.

A ligação caiu.

A energia também.

As máquinas pararam ao mesmo tempo.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Então os celulares começaram a tocar.

Um funcionário apontou para fora.

— Samuel, olha aquilo.

Ao longe, o céu parecia ter descido até o chão.

Não era possível distinguir exatamente o que acontecia. Havia chuva, poeira e objetos sendo carregados pelo vento.

Samuel tentou ligar novamente para Marta.

Nada.

Ligou para o filho.

Nada.

Para a filha.

Chamou até cair.

O homem que durante décadas resolvera problemas de fornecedores, funcionários, bancos, impostos, clientes e máquinas descobriu que não havia nenhuma ligação profissional capaz de negociar com o céu.

— Todo mundo para o fundo! — gritou.

Os funcionários correram para uma área interna do galpão.

O barulho chegou primeiro.

Não parecia chuva.

Parecia uma composição inteira atravessando o telhado.

As estruturas metálicas começaram a estalar. Uma janela explodiu. Caixas deslizaram pelo chão. Alguém gritou para todos abaixarem a cabeça.

Samuel encostou-se à parede.

Pensou na esposa.

Não pensou na empresa.

O telhado começou a se desprender.

Uma parte foi arrancada com tanta facilidade que Samuel viu o céu durante alguns segundos onde antes havia chapas de aço.

Aquele foi o momento em que percebeu que poderia morrer.

Não houve retrospectiva organizada.

Nenhuma sequência cinematográfica de lembranças.

Pensou apenas:

Marta.

Depois:

Meus filhos.

Fechou os olhos.

O barulho aumentou.

E, de repente, começou a diminuir.

Ninguém sabia quanto tempo havia passado.

Talvez dois minutos.

Talvez cinco.

Quando finalmente saíram do abrigo, o galpão parecia outro lugar.

Parte do telhado desaparecera. Máquinas estavam cobertas por água e destroços. Um veículo fora empurrado contra o muro. A fachada havia cedido.

Samuel caminhou até onde antes ficava sua sala.

A porta não existia.

A mesa estava tombada.

Seu computador desaparecera.

Um funcionário aproximou-se.

— Todo mundo está bem.

Samuel olhou para ele.

— Todo mundo?

— Aqui, sim.

Era a única informação que importava naquele momento.

Pegou o celular.

Sem sinal.

— Preciso chegar em casa.

— A estrada está bloqueada — respondeu outro funcionário.

— Minha mulher está sozinha.

— Eu vou com você.

Era Paulo, um funcionário da manutenção com quem Samuel conversava quase exclusivamente sobre serviço.

Os dois seguiram a pé.

A cidade parecia ter sido desmontada.

Árvores atravessavam ruas. Telhas cobriam calçadas. Postes estavam inclinados. Portões haviam desaparecido. Pessoas saíam das casas chamando parentes e vizinhos.

Numa esquina, um homem que Samuel nunca vira usava uma motosserra para cortar uma árvore caída.

— Dá para passar por aqui?

— A pé, talvez. De carro, esquece.

Paulo ajudou a retirar alguns galhos.

Samuel também.

Por alguns minutos, ninguém perguntou profissão, endereço ou sobrenome.

A urgência dispensava apresentações.

Quando finalmente chegou à sua rua, Samuel parou.

A casa estava lá.

Mas não inteira.

Parte do telhado havia desaparecido. As janelas da frente estavam quebradas. Uma árvore caíra sobre a garagem.

— Marta!

Correu.

Tropeçou em telhas e entrou pela lateral.

— Marta!

Ouviu uma voz.

— Estou aqui!

Ela apareceu no corredor.

Samuel a abraçou com tanta força que ela reclamou.

— Você está me esmagando.

— Então reclama.

Marta começou a chorar.

Ele também.

Ficaram abraçados no meio da sala molhada.

Pouco depois, os filhos conseguiram fazer contato. Estavam bem.

Samuel sentou-se no chão.

Ao redor havia água, pedaços de vidro, madeira e objetos que o vento espalhara pela casa.

Uma fotografia estava perto de seu pé.

Pegou-a.

Os dois filhos ainda pequenos apareciam diante da primeira oficina.

No verso, Marta escrevera uma data.

Samuel limpou cuidadosamente a água.

— O álbum…

Marta olhou para o corredor.

Parte do armário havia caído.

Foram até lá.

Algumas fotografias estavam molhadas. Outras haviam desaparecido. Documentos estavam espalhados. Uma caixa de lembranças fora atingida pela água.

Samuel começou a separar o que podia ser salvo.

Encontrou a velha chave da primeira oficina.

Ainda estava ali.

Segurou-a por alguns segundos.

— Você estava certo — disse Marta.

— Sobre o quê?

— Algumas coisas tinham valor.

Ele olhou para a chave.

Depois para ela.

— Algumas.

Naquela noite, ninguém dormiu direito.

Vizinhos se reuniram numa casa menos atingida. Alguém trouxe café. Outro distribuiu cobertores. Uma senhora apareceu com pão. Um rapaz ofereceu carregadores ligados a uma bateria portátil.

Samuel conhecia alguns deles apenas de vista.

Um homem que morava três casas adiante entregou-lhe uma caneca.

— Sua empresa foi atingida?

— Foi.

— Muito?

Samuel demorou a responder.

— Muito.

— A minha loja também.

Sentaram-se lado a lado.

Nenhum tentou consolar o outro com frases prontas.

Não havia utilidade em dizer que tudo seria recuperado.

Algumas coisas não seriam.

Durante a madrugada, Samuel recebeu fotografias da empresa.

O estrago parecia ainda maior.

Um dos galpões estava parcialmente destruído. Equipamentos haviam sido perdidos. O estoque fora atingido pela água.

Trinta e oito anos.

Pensou nisso.

Trinta e oito anos para chegar até ali.

Minutos para desmontar boa parte.

Guardou o celular.

Perto das quatro da manhã, saiu para a varanda.

O vento havia parado.

Marta veio atrás.

— Não consegue dormir?

— Não.

Ficaram olhando a rua escura.

Samuel não era homem de falar muito sobre fé. Acreditava em Deus, mas durante anos suas orações haviam sido rápidas, quase administrativas: proteção, saúde, trabalho, agradecimento.

Naquela madrugada não encontrou palavras.

Marta segurou sua mão.

Ele abaixou a cabeça.

Ficaram assim por algum tempo.

Não pediram a casa de volta.

Não pediram máquinas.

Não pediram dinheiro.

Samuel apenas agradeceu porque conseguia sentir a mão dela.

Quando amanheceu, a devastação ficou mais clara.

E mais feia.

O sol revelou paredes abertas, árvores arrancadas, carros amassados e pessoas caminhando entre aquilo que possuíam no dia anterior.

Samuel voltou à empresa.

Encontrou funcionários no estacionamento.

Alguns tinham perdido parte de suas casas e, mesmo assim, estavam ali.

— O que vocês estão fazendo?

Paulo respondeu:

— Viemos ver o que dá para salvar.

— Hoje ninguém precisa trabalhar.

— A gente sabe.

Outro funcionário levantou uma vassoura.

— Mas também não dá para ficar olhando.

Começaram.

Separaram ferramentas.

Cobriram equipamentos.

Retiraram água.

Um empresário vizinho emprestou uma empilhadeira. Um concorrente telefonou oferecendo espaço temporário num galpão.

Samuel estranhou.

— Você está oferecendo seu depósito para mim?

Do outro lado, o homem respondeu:

— Estou.

— Nós disputamos os mesmos clientes.

— Hoje estamos disputando telha.

Samuel riu pela primeira vez desde a tempestade.

Nas semanas seguintes, vieram seguradoras, engenheiros, orçamentos, bancos, documentos e uma quantidade impressionante de formulários exigindo que a destruição fosse descrita em campos pequenos.

A vida prática voltou depressa.

A casa começou a receber reparos.

A empresa reabriu parcialmente.

Algumas máquinas foram recuperadas.

Outras viraram sucata.

Certas fotografias secaram com manchas que nunca desapareceriam.

Samuel guardou assim mesmo.

Meses depois, um funcionário perguntou onde deveria colocar a primeira máquina nova comprada após a reconstrução.

Samuel caminhou pelo galpão.

O teto estava reparado.

As paredes tinham pintura recente.

Ainda havia marcas do temporal em alguns pontos.

— Coloca ali.

— Onde ficava a antiga?

— Exatamente.

O funcionário começou a empurrar o equipamento.

Samuel permaneceu observando.

Naquela noite, voltou para casa e encontrou Marta organizando fotografias recuperadas.

Ela segurava a imagem dos filhos diante da primeira oficina.

Estava manchada numa das bordas.

— Essa não ficou muito boa.

Samuel pegou a fotografia.

— Ficou ótima.

— Está toda marcada.

— Agora tem duas histórias.

Marta colocou-a num álbum novo.

Samuel abriu uma gaveta e encontrou a velha chave.

— Ainda guardando isso?

Ele sorriu.

— Algumas coisas.

Sentaram-se para jantar.

Do lado de fora começou a chover.

Samuel interrompeu o movimento do garfo.

Por alguns segundos, escutou apenas a água batendo no telhado novo.

Marta percebeu.

Estendeu a mão sobre a mesa.

Ele segurou.

A chuva continuou.

Na manhã seguinte, a empresa abriria normalmente. Haveria contas, clientes, máquinas, salários e problemas suficientes para ocupar o dia inteiro.

A casa ainda precisava de reparos.

Algumas perdas continuavam sem substituição.

Samuel sabia disso.

Na estante da sala, entre fotografias recuperadas, estava a imagem manchada da primeira oficina.

Ao lado dela, a velha chave.

Ele passou pelas duas antes de sair para trabalhar.

Dessa vez não levou nenhuma.

(Betto Gasparetto – ii – mmxxv)

O Último Giz

Posted in Coleção - Crônicas on 22 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Naquela segunda-feira, o professor Álvaro chegou à escola às sete e dez, cumprimentou o porteiro, assinou o livro de presença e entrou na sala dos professores com a mesma pasta de couro que carregava havia quase vinte anos.

Faltavam três semanas para sua aposentadoria.

A notícia já circulava pela escola, embora ele evitasse conversar sobre o assunto. Quando alguém perguntava o que faria depois, respondia com alguma brincadeira.

— Pretendo começar dormindo numa segunda-feira.

Depois mudava de assunto.

Naquela manhã, tinha duas aulas de História com uma turma do terceiro ano. Separou o diário, conferiu algumas anotações e procurou um pincel para quadro branco.

Não encontrou.

— Acabaram de novo? — perguntou.

Uma professora apontou para uma caixa no alto do armário.

— Acho que sobrou material antigo ali.

Álvaro abriu a caixa.

Havia apagadores gastos, réguas quebradas, mapas enrolados, duas caixas vazias e alguns pedaços de giz.

Pegou um branco, curto o suficiente para desaparecer entre os dedos.

— Sobreviveu.

A colega riu.

— Isso é peça de museu.

— Então combina comigo.

Foi para a sala.

Os alunos ainda conversavam quando ele entrou. Um terminava a tarefa de outra disciplina, dois discutiam futebol e uma menina procurava desesperadamente uma tomada para carregar o celular.

— Professor, hoje tem apresentação?

— Tem aula.

— É quase a mesma coisa?

— Para quem não estudou, pode ser pior.

Algumas risadas diminuíram o barulho.

Álvaro aproximou-se do quadro verde, que permanecia numa das paredes apesar de a sala possuir televisão, projetor e acesso à internet. Durante anos ninguém tivera coragem de retirá-lo. Servia para avisos, contas rápidas e, ocasionalmente, para professores que ainda gostavam de escrever.

Com o pequeno giz, colocou a data.

Depois escreveu:

O QUE FICA DA HISTÓRIA?

Um aluno levantou a mão.

— Isso cai na prova?

Álvaro virou-se.

— Provavelmente é a pergunta mais importante do bimestre e você quer saber se vale ponto.

— Se valer, fica mais importante.

— Argumento honesto.

A aula começou.

Álvaro falou sobre memória histórica, documentos, versões dos acontecimentos e aquilo que uma sociedade escolhe preservar ou esquecer. Enquanto explicava, o giz diminuía entre seus dedos.

Foi então que percebeu a coincidência.

Durante quase quarenta anos, escrevera em quadros como aquele.

No início da carreira, o giz era indispensável. Chegava em caixas com dezenas de unidades, e os professores terminavam o dia com as mãos brancas e pequenas manchas nas roupas. Havia giz amarelo, azul, verde e vermelho para destacar datas que os alunos copiavam em cadernos.

Depois chegaram os retroprojetores.

As transparências.

As televisões.

Os computadores.

Os projetores multimídia.

As plataformas digitais.

As apresentações.

As aulas remotas.

As telas interativas.

E o velho quadro foi ficando encostado na parede, testemunhando sua própria aposentadoria sem precisar preencher requerimento.

Álvaro continuou escrevendo.

Uma estudante perguntou:

— Professor, quando o senhor começou a dar aula, já tinha computador na escola?

A turma riu antes da resposta.

— Tinha energia elétrica também.

— Estou perguntando sério.

— No começo, não. Computador apareceu depois.

— E como vocês faziam pesquisa?

— Biblioteca.

— Só?

— Livros, jornais, revistas, enciclopédias.

Um rapaz no fundo arregalou os olhos.

— E se não achasse?

— A gente continuava procurando.

— Muito trabalhoso.

— A humanidade sobreviveu.

Outra estudante perguntou:

— O senhor preferia naquela época?

Álvaro pensou antes de responder.

— Algumas coisas eram melhores. Outras eram muito piores.

— Tipo?

— Hoje vocês conseguem consultar em segundos documentos que eu levava dias para localizar. Isso é extraordinário.

— E o que era melhor?

Ele olhou para a turma.

— O intervalo tinha mais gente olhando para a cara dos outros.

Alguns celulares desceram discretamente.

— Mas vocês também faziam besteira — comentou um aluno.

— Muito mais do que vocês imaginam. A diferença é que não havia câmera em todo lugar para guardar as provas.

A sala riu.

A conversa desviou para a escola de antigamente.

Álvaro contou sobre os mimeógrafos e o cheiro de álcool das provas recém-impressas. Falou dos mapas enormes pendurados nas paredes, das chamadas feitas em cadernetas e dos trabalhos escolares escritos à mão.

Os alunos perguntaram sobre suas primeiras turmas.

Ele tentou lembrar nomes.

Alguns vieram imediatamente.

Outros haviam desaparecido da memória.

Lembrou-se de uma estudante que chorara ao receber a primeira nota baixa e terminara o ano com a melhor média da turma. De um rapaz que dormia nas aulas porque trabalhava durante a madrugada. De outro que desaparecera durante meses e depois retornara para concluir os estudos.

Também lembrou dos erros.

Aulas que não funcionaram.

Discussões desnecessárias.

Alunos que julgara preguiçosos antes de conhecer os problemas que enfrentavam em casa.

Houve um tempo em que acreditava que experiência significava errar menos. Depois descobriu que significava, principalmente, reconhecer alguns erros mais depressa.

— Professor — perguntou uma menina —, o senhor já sabe quantos alunos teve?

— Não.

— Mais de mil?

— Muito mais.

— Cinco mil?

Álvaro tentou calcular.

Desistiu.

— Espero que nenhum esteja me procurando para reclamar de nota.

O giz estava agora tão pequeno que mal conseguia segurá-lo.

Um aluno percebeu.

— Professor, pega outro.

Álvaro olhou para o pedaço entre os dedos.

— Acho que esse dá.

Continuou.

Escreveu no quadro três palavras que resumiam a discussão:

MEMÓRIA – ESCOLHA – TEMPO

Na última palavra, o giz quebrou.

Uma metade caiu no chão.

A outra permaneceu entre seus dedos.

Álvaro abaixou-se para pegar o fragmento.

Por algum motivo, guardou-o no bolso da camisa.

O sinal tocou.

Os alunos começaram a recolher os materiais.

— Semana que vem tem prova? — perguntou alguém.

— Tem.

Vieram os protestos.

— Professor, o senhor vai se aposentar e ainda vai deixar prova?

— Pretendiam que eu deixasse uma herança?

A turma saiu rindo.

Álvaro apagou o quadro.

As palavras desapareceram sob o apagador, deixando apenas uma poeira branca espalhada pela superfície verde.

Na sala dos professores, encontrou uma funcionária carregando caixas de material novo.

— Chegaram os pincéis — disse ela.

— Agora?

— Pedido atrasou.

Álvaro pegou um.

Novo, embalado, ponta perfeita.

Colocou sobre a mesa.

No intervalo, uma professora perguntou:

— Está contando os dias?

— Todo mundo pergunta isso.

— E está?

Ele abriu a agenda.

Na página daquele dia havia compromissos, números de turmas, observações sobre conteúdos e uma anotação para devolver um livro.

— Ainda não.

As três semanas passaram depressa.

No último dia, houve bolo na sala dos professores, fotografias, abraços e discursos que o deixaram mais constrangido do que gostaria. Recebeu uma placa, uma caneta e um álbum com mensagens de colegas e alunos.

Quando todos foram embora, Álvaro voltou sozinho à sala onde dera a última aula.

O quadro estava limpo.

Sobre uma carteira havia uma caneta esquecida e, no chão, uma folha de caderno amassada.

Nada solene.

Apenas uma sala esperando a próxima turma.

Sentou-se por alguns minutos.

Depois lembrou do pequeno pedaço de giz.

Ainda estava no bolso interno da pasta desde aquela aula.

Retirou-o.

Poderia levá-lo para casa.

Talvez colocá-lo junto da placa de homenagem, das fotografias e dos outros objetos que, com o tempo, acabariam numa gaveta.

Em vez disso, aproximou-se do quadro.

Pensou em escrever alguma frase bonita.

Uma despedida.

Uma data.

Talvez o próprio nome.

Não escreveu.

Colocou o pequeno giz na canaleta do quadro e fechou a pasta.

Na porta, encontrou uma professora recém-contratada carregando livros e um notebook.

— Professor Álvaro?

— Sim?

— Desculpe. Disseram que o senhor conhece muito bem as turmas do terceiro ano. Vou assumir algumas delas no próximo período.

— Meus sentimentos.

Ela riu.

— Algum conselho?

Álvaro olhou para a sala.

Quase respondeu.

Depois achou melhor não.

— Conheça a turma primeiro.

A professora agradeceu e entrou.

Álvaro seguiu pelo corredor.

Antes de virar a esquina, ouviu:

— Professor!

Era ela.

— Esse giz é seu?

Álvaro olhou para trás.

A professora segurava o pequeno pedaço branco.

— Não — respondeu. — Pode usar.

Ela examinou o fragmento e sorriu.

— Acho que ainda dá para escrever alguma coisa.

Álvaro concordou com a cabeça e continuou andando.

Atrás dele, ouviu o giz riscando o quadro.

Não voltou para ver o que ela estava escrevendo.

(Betto Gasparetto – ii – mmxiv)