Arquivo para agosto, 2026

Eu, na Praça de Alimentação

Posted in Coleção - Crônicas on 21 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


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Às três e quarenta da tarde, a praça de alimentação tinha aquele movimento indefinido entre o almoço atrasado e o café antecipado. Algumas mesas permaneciam ocupadas por famílias carregadas de sacolas; adolescentes dividiam batatas fritas enquanto olhavam os celulares; funcionários das lojas aproveitavam os últimos minutos do intervalo; crianças negociavam sobremesas com os pais em condições que nenhum adulto sensato aceitaria fora dali.

Ricardo procurava apenas um lugar para sentar.

Tinha cinquenta e dois anos, trabalhava havia quase três décadas na mesma empresa e acabara de sair de uma reunião que durara quarenta minutos e conseguira resumir vinte e sete anos de trabalho em poucas frases cuidadosamente escolhidas.

Reestruturação.

Adequação de custos.

Novo posicionamento.

Agradecimento pela contribuição.

Quando entrou no shopping, ainda carregava numa pasta o documento da demissão.

Não pretendia comprar nada. Também não estava com fome. Entrara porque começou a chover e porque não queria voltar imediatamente para casa.

Ainda não sabia como contaria à esposa.

Escolheu uma mesa próxima ao vidro, colocou a pasta sobre uma cadeira e percebeu que havia um livro na outra.

Olhou em volta.

Ninguém parecia procurá-lo.

Pegou o volume.

A capa dizia:

EU E OUTRAS POESIAS — AUGUSTO DOS ANJOS

Conhecia o nome do poeta das aulas de literatura, muitos anos antes. Lembrava vagamente de palavras difíceis, morte, matéria, vermes e de um professor tentando convencer adolescentes de dezesseis anos de que havia beleza naquilo.

Folheou algumas páginas.

O livro era usado. Havia marcas de leitura, pequenos sinais a lápis e uma dobra antiga perto do final. Nada que identificasse o proprietário.

Ricardo chamou uma funcionária da limpeza.

— Alguém esqueceu este livro aqui?

Ela olhou.

— Quando limpei a mesa, ele já estava aí.

— Tem achados e perdidos?

— No atendimento ao cliente, no piso de baixo.

Ricardo agradeceu.

Poderia ter levado o livro imediatamente.

Mas pediu um café primeiro.

Enquanto esperava, tornou a folhear.

Foi quando caiu um pequeno papel dobrado.

Ricardo recolheu-o do chão.

Era um bilhete manuscrito.

Na parte superior havia uma passagem identificada como pertencente a Versos Íntimos:

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.”

Abaixo, em outra letra ou talvez escrita com outra caneta:

“Talvez algumas coisas precisem terminar para que outras encontrem lugar para nascer.”

Ricardo continuou lendo:

“Se este livro chegou às suas mãos, não tenha pressa em devolvê-lo.

Leia primeiro.

Depois você entenderá por que o deixei aqui.”

Ele olhou novamente ao redor.

A praça continuava funcionando.

Uma criança chorava porque deixara cair o sorvete. Um casal discutia diante de uma bandeja. Dois estudantes dividiam um refrigerante. Um homem falava tão alto ao telefone que várias mesas já conheciam os problemas de sua empresa.

Ninguém observava Ricardo.

Leu o bilhete outra vez.

A coincidência o incomodou.

Naquela manhã, ainda possuía cargo, sala, equipe e senha de acesso a sistemas que conhecia melhor do que muita gente que permaneceria na empresa. Às duas da tarde, entregara o crachá.

Agora um poeta morto havia mais de um século falava de uma quimera enterrada.

— Muito engraçado — murmurou.

O rapaz da mesa ao lado olhou para ele.

Ricardo fingiu estar falando ao telefone.

Tomou o café e começou a ler.

Não seguiu a ordem das páginas. Passava de um poema a outro, voltava, relia alguns versos e abandonava outros pela metade. Augusto dos Anjos não oferecia o tipo de companhia que alguém escolheria para melhorar o humor. Havia angústia, decomposição, solidão, desencanto e uma linguagem que parecia colocar o ser humano diante de coisas que normalmente preferia deixar escondidas.

Curiosamente, Ricardo continuou.

Talvez porque também não estivesse procurando consolo.

Passara anos acreditando que sua vida profissional seguia uma linha razoavelmente previsível. Trabalharia, avançaria, envelheceria dentro da empresa e, quando chegasse a hora, sairia pela porta com alguma homenagem, um relógio, talvez uma placa.

Não aconteceu.

Recebeu uma reunião agendada no calendário e uma pasta.

Percebeu então que sua irritação não vinha apenas da perda do emprego.

Havia perdido uma versão do futuro que considerava garantida.

O celular vibrou.

Era a esposa.

“Vai demorar?”

Ricardo começou a escrever:

“Precisamos conversar.”

Apagou.

Tentou novamente:

“Estou no shopping.”

Apagou também.

Por fim escreveu:

“Chego às cinco. Vamos tomar um café juntos?”

A resposta veio logo:

“Claro. Aconteceu alguma coisa?”

Ele olhou para a pasta.

“Aconteceu.”

Guardou o celular.

Continuou lendo.

Quase uma hora havia passado quando se lembrou do achados e perdidos.

Fechou o livro.

O bilhete dizia para não ter pressa em devolvê-lo, mas talvez aquilo fosse apenas uma brincadeira do antigo dono. Ou uma maneira estranha de abandonar um objeto sem sentir que o estava jogando fora.

Desceu até o atendimento.

A funcionária recebeu o livro, examinou a capa e perguntou:

— Encontrou onde?

— Na praça de alimentação.

Ela abriu um formulário.

— Seu nome?

Ricardo respondeu.

— Telefone?

Informou.

A funcionária colocou uma etiqueta no livro.

Ele observou.

Sentiu-se incomodado.

— Quanto tempo vocês guardam?

— Objetos não reclamados ficam aqui por um período e depois seguem o procedimento interno.

— Entendi.

Deu alguns passos.

Voltou.

— Posso ver o livro mais uma vez?

A atendente estranhou, mas entregou.

Ricardo abriu na primeira página.

Havia uma inscrição que não percebera antes, escrita bem perto da lombada:

“Não estou perdido.”

Ele mostrou à funcionária.

— Acho que esse livro não foi esquecido.

Ela leu.

— Então por que deixaram na mesa?

— Estou começando a achar que justamente para alguém pegar.

— E esse alguém seria o senhor?

Ricardo olhou para o livro.

— Pelo jeito, fui o primeiro a sentar.

A atendente sorriu.

— Tecnicamente continua sendo um objeto encontrado.

— A burocracia venceu a poesia.

— Normalmente vence.

Os dois riram.

Ricardo deixou seu telefone e combinou que, caso ninguém reclamasse o livro dentro do prazo estabelecido, gostaria de ser avisado.

Saiu do shopping sem ele.

Em casa, contou à esposa sobre a demissão.

Não conseguiu fazer um discurso sereno. Ficou irritado novamente. Disse que fora injusto, que havia dedicado anos demais à empresa, que não sabia o que faria aos cinquenta e dois.

Ela ouviu.

Quando ele terminou, perguntou:

— E amanhã?

— Amanhã o quê?

— O que você vai fazer?

Ricardo não sabia.

Pela primeira vez em muitos anos, sua agenda estava vazia.

Nas semanas seguintes, enviou currículos. Reencontrou antigos colegas. Descobriu que algumas pessoas que imaginava bem-sucedidas também haviam sido demitidas, recomeçado, fracassado, mudado de área ou simplesmente aprendido a viver com menos certezas.

Começou ainda um curso que adiava havia anos.

Não houve transformação milagrosa.

Continuava preocupado com dinheiro.

Sentia falta da rotina.

Em alguns dias acordava animado; em outros, passava a manhã inteira convencido de que ninguém contrataria um profissional de sua idade.

Quarenta e três dias depois, recebeu uma ligação do shopping.

Ninguém havia procurado o livro.

Ricardo foi buscá-lo.

Naquela tarde, sentou-se na mesma praça de alimentação e pediu o mesmo café.

Abriu o exemplar.

O bilhete continuava lá.

Leu novamente a frase sobre o fim e o nascimento das coisas. Dessa vez, achou-a otimista demais.

Sorriu.

Pegou uma caneta.

No verso do papel escreveu:

“Nem tudo o que termina abre imediatamente espaço para alguma coisa. Às vezes sobra apenas um espaço vazio, e precisamos descobrir o que fazer com ele.”

Pensou um pouco e acrescentou:

“Li. Ainda não entendi tudo.”

Guardou o bilhete dentro do livro.

Durante alguns meses, o exemplar permaneceu em sua casa. Ricardo leu poemas, pesquisou sobre Augusto dos Anjos e voltou várias vezes às páginas que inicialmente lhe pareciam mais estranhas.

Conseguiu trabalho em outra empresa.

Menor.

Salário um pouco inferior.

Cargo diferente.

No primeiro dia, sentiu-se novamente um iniciante, sensação que não experimentava havia quase trinta anos.

Não gostou muito.

Depois gostou um pouco.

Certo sábado, voltou ao mesmo shopping com a esposa.

Almoçaram.

Antes de ir embora, Ricardo retirou da mochila o velho exemplar de Eu e Outras Poesias.

— Vai fazer o quê? — ela perguntou.

— Ainda não sei.

Escolheu uma mesa vazia próxima ao vidro.

Colocou o livro sobre uma cadeira.

— Você vai abandonar?

— Não estava perdido quando encontrei.

— E agora?

Ricardo olhou para a capa.

— Continua não estando.

A esposa balançou a cabeça.

— Espero que o próximo entenda essa lógica.

— Eu demorei meses.

Os dois caminharam em direção à saída.

Antes de chegar à escada rolante, Ricardo olhou para trás.

Uma jovem usando uniforme de uma das lojas procurava lugar para sentar. Carregava uma bandeja numa mão e o celular na outra.

Viu a mesa vazia.

Sentou-se.

Afastou o livro para colocar a bandeja.

Depois reparou na capa.

Pegou-o.

Abriu.

Ricardo poderia ter esperado para ver o que aconteceria.

Não esperou.

Desceu a escada rolante ao lado da esposa.

Na praça de alimentação, a jovem encontrou o bilhete entre as páginas.

Agora havia três vozes naquele pedaço de papel.

A de Augusto dos Anjos.

A de alguém que Ricardo nunca conhecera.

E a dele.

Ainda sobrava espaço no verso.

(Betto Gasparetto – vi – mmxxiv)

Um Sonho de Papel

Posted in Coleção - Crônicas on 20 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


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A abordagem aconteceu pouco depois das dez da manhã, numa avenida movimentada onde ninguém parecia ter tempo para reparar nos outros.

Álvaro e Teresa caminhavam devagar, aproveitando o sol depois de uma semana de chuva. Ambos aposentados, tinham ido ao centro resolver assuntos no banco, comprar medicamentos e almoçar num restaurante onde dividiam o mesmo prato havia anos, mais por hábito do que por economia.

Foi perto de uma banca de jornais que uma jovem se aproximou.

— Desculpem incomodar. Os senhores sabem onde fica uma agência da loteria por aqui?

Ela aparentava pouco mais de trinta anos. Estava acompanhada de um rapaz que segurava uma pasta transparente. Pareciam nervosos.

Teresa apontou para o outro lado da avenida.

— Tem uma duas quadras abaixo.

A jovem agradeceu, mas não saiu.

— É que aconteceu uma coisa e nós não sabemos direito o que fazer.

O rapaz retirou da pasta um bilhete de loteria e um papel dobrado.

— Parece que ganhamos trezentos mil reais.

Álvaro olhou para Teresa.

— “Parece”?

— Nós conferimos duas vezes — respondeu a jovem. — Mas não conseguimos receber agora.

A história veio aos poucos.

O casal dizia ser de outra cidade. O filho estava internado e precisava passar por uma cirurgia. Havia despesas hospitalares urgentes. Por problemas documentais e bancários, não conseguiriam retirar imediatamente o prêmio.

— Precisamos de trinta mil — disse o rapaz. — Só isso. Se os senhores puderem nos ajudar, ficam com o bilhete e recebem os trezentos mil.

Teresa franziu a testa.

— Vocês querem trocar trezentos por trinta?

A jovem começou a chorar.

— Eu quero meu filho operado.

Foi essa frase que mudou a conversa.

Álvaro e Teresa tinham dois filhos e três netos. Conheciam o medo de esperar notícias em corredor de hospital. Teresa segurou discretamente o braço do marido.

Ainda assim, Álvaro desconfiou.

— Se o bilhete vale tudo isso, por que não procuram o banco?

O rapaz apresentou documentos, comprovantes e um número de telefone que, segundo ele, pertencia ao hospital. Ligaram. Uma pessoa confirmou parte da história.

Depois telefonaram para um número indicado como central da loteria. Outra voz confirmou que o bilhete correspondia a um prêmio.

Tudo parecia encaixar.

Rápido demais, talvez.

Mas a pressa costuma ser uma excelente inimiga da dúvida.

No banco, Teresa ainda hesitou.

— Álvaro, é muito dinheiro.

Ele sabia.

Trinta mil reais eram parte importante das economias acumuladas durante anos. Não os tornariam ricos, mas representavam tranquilidade para emergências, reparos na casa e despesas que a aposentadoria nem sempre acompanhava.

A jovem segurava o bilhete com as duas mãos.

— Eu não pediria se não fosse pelo meu menino.

Teresa olhou para Álvaro.

Ele autorizou a transferência.

O rapaz entregou o bilhete.

Abraçou os dois.

A jovem chorou novamente.

— Vocês salvaram nosso filho.

Saíram do banco juntos, mas se separaram na esquina. O casal jovem seguiria para o hospital. Álvaro e Teresa iriam verificar como receber o prêmio.

Antes de partir, o rapaz repetiu:

— Nunca vamos esquecer o que fizeram.

Duas horas depois, Álvaro desejaria que aquela frase tivesse sido verdade.

Na agência indicada para o resgate, a atendente examinou o bilhete por tempo demais.

Chamou outro funcionário.

Depois um supervisor.

— Há algum problema? — perguntou Teresa.

O supervisor pediu que aguardassem.

Minutos depois, dois policiais entraram.

Álvaro sentiu as pernas enfraquecerem.

O bilhete era falso.

Não apenas falso. Fazia parte de uma sequência de documentos semelhantes apreendidos em investigações de golpes contra idosos.

Teresa começou a chorar.

Dessa vez não havia ninguém tentando convencê-la de nada.

Na delegacia, contaram a história inteira. A transferência bancária, os telefonemas, o hospital, a criança, os documentos.

— Eles sabiam exatamente o que dizer — repetia Álvaro.

Um investigador respondeu:

— É assim que funciona. Não vendem um bilhete. Vendem uma urgência.

O dinheiro já havia sido movimentado para outra conta.

Naquela noite, os telejornais divulgaram imagens captadas por câmeras de segurança. Uma delas mostrava Álvaro recebendo o bilhete. Outra registrava Teresa conversando com a jovem.

A reportagem anunciou que a polícia investigava um grupo especializado no chamado golpe do bilhete premiado.

No dia seguinte, uma manchete em um portal local provocou ainda mais confusão:

POLÍCIA IDENTIFICA CASAL LIGADO A GOLPE DE FALSO PRÊMIO

A fotografia usada era justamente a de Álvaro e Teresa.

O texto explicava que eles eram vítimas e colaboravam com a investigação.

Muita gente não passou do título.

O telefone começou a tocar.

Uma vizinha perguntou discretamente se “aquilo era verdade”. Um conhecido encaminhou a reportagem no grupo do condomínio. Alguém escreveu que nunca imaginara uma coisa dessas “da parte deles”.

Teresa desligou o celular.

— Além de perder dinheiro, agora somos golpistas.

Álvaro tentou brincar:

— Pelo menos subimos de profissão depois da aposentadoria.

Ela não riu.

Nos dias seguintes, quase não saíram.

A vergonha era estranha porque não haviam cometido crime algum. Mesmo assim, Teresa repassava cada minuto daquela manhã tentando descobrir em que momento deveria ter percebido.

— Eu sabia que estava errado.

— Não sabia.

— Desconfiei.

— Eu também.

— Então por que fizemos?

Álvaro não respondeu.

Essa pergunta era pior do que perder os trinta mil.

Uma semana depois, o investigador telefonou.

Havia novidades.

O casal suspeito fora localizado.

Teresa sentou-se.

— Recuperaram o dinheiro?

— Parte dos valores foi bloqueada. Ainda estamos verificando.

Foram novamente à delegacia.

Lá souberam que a jovem e o rapaz haviam aplicado golpes semelhantes em outras cidades. Usavam nomes falsos, documentos preparados e comparsas que atendiam aos telefonemas confirmando histórias inventadas.

Mas havia algo inesperado.

Durante a prisão, a polícia encontrou no celular da jovem diversas mensagens relacionadas a uma criança internada.

A história do filho não era inteiramente falsa.

Ela realmente tinha um menino de sete anos em tratamento hospitalar.

A cirurgia também existia.

O valor de trinta mil, não.

O procedimento era realizado pelo sistema público e não dependia daquele pagamento.

Teresa ficou imóvel.

— Então o menino está doente?

— Está — respondeu o investigador. — Mas foi usado para dar credibilidade ao golpe.

No caminho para casa, nenhum dos dois falou muito.

Teresa parecia especialmente perturbada.

— Eu preferia que tudo fosse mentira.

Álvaro entendeu.

Era mais fácil odiar uma história inventada do que descobrir uma criança verdadeira escondida dentro dela.

Alguns dias depois, parte do dinheiro foi recuperada por bloqueio judicial. O restante dependeria do processo.

A imprensa publicou uma correção mais clara sobre Álvaro e Teresa. O condomínio voltou aos assuntos habituais. O grupo de mensagens abandonou o caso e retomou reclamações sobre garagem, cachorro e taxa de manutenção.

A vida tinha pressa para encontrar outra notícia.

Cerca de um mês depois, Teresa recebeu uma ligação.

Era uma assistente social do hospital.

Perguntou se ela conhecia uma mulher chamada Daniela.

Teresa reconheceu o nome verdadeiro da jovem presa.

— Infelizmente.

A assistente explicou que a criança continuava internada e estava temporariamente sob os cuidados da avó. Durante uma conversa, o menino mencionara “um casal que ajudou minha mãe quando ela estava desesperada”.

Teresa apertou o telefone.

— Ele sabe o que aconteceu?

— Não tudo.

— E a cirurgia?

— Correu bem.

Teresa fechou os olhos.

Agradeceu pela informação e desligou.

Naquela noite contou a Álvaro.

Ele permaneceu alguns segundos olhando para a televisão desligada.

— Então pelo menos o menino está bem.

— Está.

— Ainda quero nosso dinheiro de volta.

— Eu também.

Os dois riram, finalmente.

Meses depois, o processo continuava.

Uma parte do dinheiro retornara à conta. Outra permanecia bloqueada. Havia audiências, documentos e prazos que pareciam multiplicar-se sozinhos.

Certa manhã, Teresa encontrou no correio um envelope sem remetente.

Dentro havia uma folha de caderno dobrada.

Um desenho mostrava quatro pessoas diante de um prédio grande. Uma delas era pequena e segurava um balão azul. Embaixo, com letras irregulares, estava escrito:

“Obrigado por querer ajudar.”

Não havia pedido de desculpas.

Nenhuma explicação.

Nenhuma promessa.

Apenas o desenho.

Álvaro leu duas vezes.

— Foi o menino?

— Acho que sim.

— Como conseguiu nosso endereço?

— Não sei.

Ele virou a folha procurando alguma coisa no verso.

Nada.

Teresa guardou o desenho na gaveta da sala.

Não junto dos documentos do processo.

Nem dos comprovantes bancários.

Colocou-o entre fotografias antigas da família.

O bilhete falso ficou com a polícia como prova.

Às vezes Álvaro ainda pensava nos trinta mil reais. Teresa também.

Nenhum dos dois voltou a conversar com desconhecidos sobre dinheiro na rua.

Mas, quando passavam pela mesma avenida onde tudo começara, Teresa diminuía o passo perto da antiga banca de jornais.

Não procurava o casal.

Não esperava recuperar nada.

Talvez tentasse apenas localizar o ponto exato em que uma boa intenção havia se confundido com uma mentira.

Nunca conseguiu.

A avenida continuava cheia demais.

(Betto Gasparetto – iii – mmiv)

A Dança das Safenas

Posted in Coleção - Crônicas on 19 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


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Augusto conhecia bem a burocracia do serviço público. Havia passado boa parte da vida profissional entre salas de aula, reuniões, formulários, sistemas que pediam a mesma informação em campos diferentes e prazos que pareciam sempre mais importantes para quem cobrava do que para quem precisava cumpri-los.

O que ele não conhecia era a sensação de deixar de ser funcionário por alguns dias e virar paciente.

Tudo começou com o desconforto nas pernas. Primeiro, um peso ao final do expediente. Depois vieram o inchaço, o formigamento e aquela pulsação incômoda que aparecia principalmente nos dias em que permanecia muitas horas em pé. Augusto adiou a consulta enquanto pôde. Professor experiente, tinha adquirido o péssimo hábito de considerar o próprio corpo um funcionário disciplinado, desses que nunca faltam e não precisam de manutenção.

Até que o corpo apresentou requerimento de urgência.

Vieram consultas, exames, ultrassonografias, avaliações e termos médicos que Augusto pesquisava no celular assim que saía do consultório. O diagnóstico indicou comprometimento importante da circulação venosa e necessidade de tratamento cirúrgico vascular.

Na consulta seguinte, perguntou três vezes ao médico:

— É realmente necessário operar?

Na terceira, o médico tirou os olhos do computador.

— Augusto, eu poderia responder de outra maneira, mas a resposta continuaria sendo sim.

A cirurgia foi marcada.

A partir daquele momento, a perna deixou de ser sua única preocupação.

Augusto pensava nas aulas. Nos projetos em andamento. Nos alunos. Nos compromissos assumidos. Pensava também na licença médica e numa palavra que começou a incomodá-lo mais do que deveria: falta.

Durante décadas, faltar significara não comparecer.

Agora significava estar impossibilitado.

A diferença era enorme para ele.

Para alguns sistemas administrativos, nem tanto.

Nos dias anteriores à internação, organizou materiais, enviou orientações, deixou atividades preparadas e respondeu mensagens profissionais até tarde da noite. Tinha a estranha impressão de precisar provar antecipadamente que uma cirurgia não significava abandono do trabalho.

A operação aconteceu numa quinta-feira.

No centro cirúrgico, sob luzes fortes e vozes técnicas, Augusto deixou de ser professor, servidor, coordenador ou qualquer outro título que carregasse do lado de fora.

Era apenas Augusto.

Um homem deitado numa maca tentando parecer mais tranquilo do que estava.

Quando acordou, a primeira sensação foi de peso. A segunda, de alívio.

A terceira foi procurar o celular.

A esposa percebeu.

— Nem pense.

— Só quero ver as mensagens.

— Você acabou de sair de uma cirurgia.

— Justamente.

Ela guardou o aparelho.

Horas depois, ele conseguiu recuperá-lo.

Havia mensagens.

Banco oferecendo crédito.

Operadora anunciando promoção.

Grupo de compras.

Propaganda.

Avisos automáticos.

Do trabalho, quase nada.

Augusto rolou a tela novamente, como se alguma mensagem pudesse aparecer porque ele procurara melhor.

Não apareceu.

Disse a si mesmo que as pessoas estavam ocupadas. Afinal, todos tinham problemas. Talvez nem soubessem da cirurgia. Talvez soubessem e imaginassem que ele precisasse descansar.

Guardou o telefone.

No dia seguinte, tornou a olhar.

Nada.

Dois dias depois, chegou uma mensagem.

Era do setor administrativo.

Augusto abriu imediatamente.

Não perguntava como ele estava.

Solicitava regularização das ausências no sistema.

Leu duas vezes.

Respondeu informando que estava em recuperação cirúrgica e que possuía atestado médico.

A resposta veio algum tempo depois:

— Precisa lançar corretamente para evitar faltas.

Augusto apoiou o celular sobre a cama.

A perna doía menos naquele momento.

A mensagem, não.

Os dias seguintes foram mais difíceis do que imaginara. Caminhar exigia cuidado. Ficar muito tempo em pé provocava desconforto. O sono vinha aos pedaços. Às vezes sentia formigamento; em outras, uma pulsação que o fazia parar e observar a própria perna como se ela estivesse tentando dizer alguma coisa.

O médico recomendara repouso e acompanhamento.

Augusto obedeceu, embora se sentisse culpado por obedecer.

A situação administrativa, porém, complicou-se.

Houve mudança na equipe médica responsável pelo acompanhamento. Documentos precisaram ser apresentados novamente. Um formulário exigia informação complementar. Outro dependia de análise.

Até que recebeu a notícia:

Atestado indeferido.

Augusto permaneceu olhando para a tela.

A palavra parecia absurda.

A cirurgia acontecera.

Os pontos estavam ali.

A dor estava ali.

Os exames estavam ali.

A perna estava ali.

Mas, em algum lugar entre um documento e outro, sua recuperação havia encontrado dificuldade para existir administrativamente.

Telefonou.

Explicou.

Foi transferido.

Explicou novamente.

Recebeu outro número.

Ligou.

Contou a história pela terceira vez.

— O senhor precisa aguardar a análise.

— Mas enquanto aguardo aparecem faltas.

— Compreendo.

— E o que faço?

— Aguarda.

Augusto quase riu.

Havia passado a vida ensinando que as instituições eram feitas para organizar a sociedade. Naquele momento, descobria que às vezes elas conseguiam organizar muito bem a espera.

Os dias avançaram.

A ausência de mensagens dos colegas começou a incomodá-lo mais do que gostaria de admitir. Não esperava homenagens, flores ou discursos. Bastaria um “como você está?”.

Começou a pensar se havia passado tempo demais trabalhando e pouco tempo construindo relações. Depois achou injusto culpar a si mesmo. Em seguida, culpou os outros. Logo depois, sentiu vergonha de culpá-los.

O repouso dava tempo demais para pensar.

Numa madrugada, levantou-se para beber água. Caminhou lentamente pelo corredor, sentindo a perna pesada.

Parou diante do espelho.

Estava abatido.

Pensou na carreira. Pensou nas faltas lançadas. No atestado indeferido. Na recuperação mais lenta do que desejava. Na possibilidade de voltar ao trabalho e não conseguir permanecer em pé durante uma aula inteira.

Pela primeira vez desde a cirurgia, teve medo não apenas da saúde.

Teve medo de deixar de ser necessário.

Voltou para a cama sem beber a água.

Na manhã seguinte, o telefone tocou.

Número desconhecido.

Augusto quase não atendeu.

— Professor Augusto?

— Sim.

— Aqui é o Gabriel.

Demorou alguns segundos para reconhecer.

Gabriel havia sido seu aluno muitos anos antes.

— Gabriel? Quanto tempo!

— Fiquei sabendo que o senhor fez uma cirurgia.

Augusto sentou-se na cama.

— Fiz. Estou me recuperando.

— Minha filha estuda com um aluno seu. Ele comentou em casa que o professor estava afastado. Perguntei o nome e descobri que era o senhor.

Conversaram durante alguns minutos.

Gabriel contou sobre o trabalho, o casamento, os filhos. Depois disse:

— Professor, eu nunca agradeci uma coisa.

Augusto ficou em silêncio.

— Na época do terceiro ano, eu ia abandonar a escola. Meu pai tinha perdido o emprego e eu comecei a trabalhar à noite. O senhor percebeu que eu estava faltando e foi conversar comigo. Arrumou um jeito de eu recuperar as atividades. Eu terminei o ano por causa daquela conversa.

Augusto tentou lembrar.

Não conseguiu.

— Gabriel, eu sinceramente não lembro disso.

Do outro lado veio uma risada.

— Eu lembro.

A conversa terminou pouco depois.

Augusto permaneceu sentado.

O celular ainda estava em sua mão quando outra mensagem chegou.

Dessa vez, de uma aluna atual.

“Professor, a turma soube que o senhor está se recuperando. Fizemos uma coisa.”

Abaixo havia um vídeo.

Augusto abriu.

A imagem mostrava a sala de aula.

Os alunos estavam espalhados pelas carteiras. Um deles segurava uma folha:

VOLTE QUANDO ESTIVER BEM. NÃO ANTES.

Outro apareceu:

AS ATIVIDADES A GENTE RECUPERA.

Um terceiro levantou uma placa:

A PROVA TAMBÉM PODE ESPERAR.

Do fundo alguém gritou:

— Essa parte da prova fui eu que escrevi!

A sala inteira caiu na risada.

Augusto também.

Assistiu ao vídeo novamente.

Depois uma terceira vez.

Naquela tarde, conseguiu resolver parte da documentação com auxílio de uma servidora que analisou o processo com atenção. Ela encontrou uma inconsistência cadastral, orientou sobre os documentos necessários e encaminhou o pedido para nova avaliação.

— Não posso prometer o resultado — explicou.

— Só de alguém ter entendido o problema já ajudou.

— Às vezes o sistema complica uma coisa simples.

Augusto respondeu:

— Estou começando a suspeitar disso.

Ela riu.

Alguns dias depois, chegou a nova decisão.

A licença havia sido regularizada.

Augusto leu a mensagem e não comemorou.

Sentiu apenas aquele alívio silencioso de quando uma preocupação finalmente sai de cima do peito.

A recuperação continuou.

Ainda havia desconforto. Ainda precisava respeitar limites que antes não existiam. Caminhava um pouco pela manhã, descansava, seguia as recomendações médicas e resistia à tentação de transformar melhora em autorização para exagerar.

Certa tarde colocou uma música na sala.

A esposa apareceu na porta e encontrou Augusto caminhando devagar de um lado para o outro.

— O que está fazendo?

— Exercício.

— Isso parece dança.

— É fisioterapia artística.

— O médico recomendou?

— A parte da caminhada.

Ela riu.

Augusto deu mais alguns passos.

— Devagar.

— Estou indo devagar.

— Você nunca soube fazer nada devagar.

— Estou aprendendo.

Semanas depois, voltou à escola.

Não houve corredor de aplausos.

Ninguém interrompeu as aulas.

A vida real raramente organiza recepções cinematográficas.

Na primeira turma, os alunos conversavam quando ele entrou. Aos poucos perceberam sua presença.

Um deles apontou:

— Olha quem voltou!

Outro perguntou:

— Está bem, professor?

Augusto colocou o material sobre a mesa.

— Estou melhor.

Do fundo veio a pergunta inevitável:

— Vai ter prova?

Ele olhou para a turma.

— Impressionante como a preocupação com minha saúde durou pouco.

As risadas preencheram a sala.

Durante a explicação, Augusto sentou-se algumas vezes. Em outros momentos ficou em pé. Ninguém pareceu se importar.

No intervalo, abriu o sistema funcional pelo celular.

As faltas haviam desaparecido.

Fechou a tela.

No corredor, dois alunos discutiam um trabalho. Uma professora procurava a chave de uma sala. Alguém reclamava da impressora. O sinal tocou. Uma funcionária atravessou apressada carregando documentos.

Tudo continuava exatamente desorganizado como antes.

Augusto caminhou até a janela e permaneceu alguns segundos observando o pátio.

Sentiu uma pequena pulsação na perna.

Dessa vez não se assustou.

Apenas mudou de posição.

Um aluno passou correndo e voltou dois passos.

— Professor, precisa de ajuda?

Augusto olhou para ele.

— Agora não.

O garoto seguiu.

Augusto também.

Devagar.

Ainda havia aulas, documentos, consultas, corredores e alguns medos esperando pela frente.

Quanto às pernas, pareciam finalmente ter estabelecido um acordo com o restante do corpo.

Augusto só ainda não sabia quem, naquela negociação, aprendera a acompanhar o ritmo de quem.

(Betto Gasparetto – xiii – mmxxvi)

A Chave do Armário

Posted in Coleção - Crônicas on 18 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Na segunda-feira, às sete e vinte da manhã, quatro funcionários já estavam diante do armário de aço da sala administrativa.

Nenhum deles parecia contente.

— Quem ficou com a chave na sexta? — perguntou Márcia.

Silêncio.

Rogério examinou os próprios bolsos, embora tivesse acabado de chegar.

— Eu não.

— Eu também não — respondeu Cláudia.

Jonas, que trabalhava no almoxarifado, tentou abrir a porta puxando-a com força.

— Assim você vai arrancar o armário da parede — disse Márcia.

— Pelo menos abre.

Não abriu.

O problema seria pequeno se dentro daquele armário estivessem apenas papéis antigos. Mas alguém, anos antes, decidira que ali seria um excelente lugar para guardar tudo aquilo que não poderia desaparecer: carimbos, formulários, contratos, materiais de expediente, dois notebooks de uso compartilhado e até o controle reserva do projetor da sala de reuniões.

A chave principal sumira.

A reserva, segundo descobriram naquele momento, também estava dentro do armário.

Rogério olhou para Márcia.

— Quem guarda uma chave reserva dentro daquilo que ela deveria abrir?

— Nós.

— Então não é reserva. É companhia para a outra chave.

Às sete e quarenta, o expediente começou oficialmente.

O armário continuava fechado.

O primeiro problema surgiu quando Cláudia precisou de um carimbo.

— Tem outro?

— Só aquele.

— Posso imprimir?

— Carimbo?

— Estou procurando alternativas.

Cinco minutos depois, Jonas apareceu com uma caixa de ferramentas.

— Saiam.

— O que você vai fazer? — perguntou Márcia.

— Abrir.

— Sem destruir.

Jonas guardou a chave de fenda maior e pegou uma menor.

— Vocês dificultam muito o trabalho técnico.

Enquanto ele examinava a fechadura, Rogério procurava a chave pela sala. Abriu gavetas, levantou pastas, olhou atrás da impressora e até dentro da geladeira.

Márcia observou.

— Você acha que alguém guardou a chave junto com a marmita?

— Sexta-feira foi um dia complicado.

Ninguém podia contestar.

Na sexta, o setor encerrara o mês com sistema instável, relatórios atrasados e uma reunião que começara às quatro e terminara quando todos já pensavam no fim de semana.

A busca continuou.

Foi nesse processo que descobriram algumas coisas interessantes.

Na gaveta de Cláudia havia dezessete sachês de açúcar.

— Para que tudo isso?

— Emergência.

— Que emergência exige dezessete açúcares?

— Trabalhar aqui.

Na mesa de Rogério encontraram três carregadores de celular, nenhum compatível com o aparelho que ele usava.

Jonas guardava um pacote de biscoitos atrás de uma caixa de arquivo.

— Achei que você estivesse de dieta — comentou Márcia.

— Estou.

— E isso?

— Material confidencial.

Até Márcia, conhecida pela organização quase irritante, foi surpreendida quando apareceu uma caneca desaparecida havia seis meses no fundo de seu arquivo.

— Então estava com você! — disse Cláudia.

— Tecnicamente estava no meu armário.

— Isso é exatamente estar com você.

A chave, porém, nada.

Às nove, já havia fila de pequenas tarefas interrompidas pelo mesmo motivo.

— Preciso do contrato.

— Está no armário.

— Cadê o adaptador?

— Armário.

— Formulário de retirada?

— Armário.

Rogério colocou as mãos na cintura.

— Estou começando a achar que nossa empresa inteira cabe ali dentro.

Sem acesso aos materiais, começaram a improvisar.

Cláudia descobriu uma versão digital de um formulário que todos imprimiam havia anos. Rogério localizou contratos antigos no servidor. Márcia pediu emprestado um carimbo ao setor vizinho. Jonas encontrou um adaptador esquecido numa sala de treinamento.

Pouco antes das dez, estavam trabalhando normalmente.

Ou quase.

— Interessante — comentou Cláudia. — A gente precisava perder uma chave para descobrir onde estavam os arquivos digitais.

— Não espalha — respondeu Rogério. — Podem achar que somos eficientes.

Na hora do café, os quatro permaneceram juntos na copa.

Normalmente Márcia tomava café às nove e meia, Cláudia às dez, Rogério quando lembrava e Jonas quando o biscoito confidencial exigia acompanhamento.

Naquela manhã, a chave havia sincronizado os horários.

Conversaram sobre coisas que raramente entravam na sala administrativa.

Cláudia contou que começara um curso noturno de fotografia. Rogério revelou que estava aprendendo a cozinhar depois que a filha se mudara para outra cidade. Jonas tinha uma banda que tocava aos sábados em pequenos bares.

Márcia quase derrubou o café.

— Você canta?

— Toco bateria.

— Há oito anos você trabalha aqui e nunca contou isso.

— Você nunca perguntou.

Ela pensou um pouco.

Era verdade.

Conheciam os ramais uns dos outros, sabiam quem atrasava relatórios, quem esquecia senhas e quem usava a impressora para trabalhos particulares. Ainda assim, havia oito anos ninguém perguntara a Jonas o que ele fazia aos sábados.

Às onze e quinze, o chaveiro chegou.

Examinou a fechadura durante menos de um minuto.

— Dá para abrir.

Jonas cruzou os braços.

— Eu também disse.

— Sem destruir — lembrou Márcia.

O profissional usou duas ferramentas pequenas e, em poucos minutos, a porta cedeu.

Todos se aproximaram.

O interior estava exatamente como na sexta-feira.

Pastas.

Carimbos.

Equipamentos.

Caixas.

E, sobre a primeira prateleira, um chaveiro azul.

Cláudia apontou.

— A reserva.

Rogério pegou-a.

— Continua sendo uma ideia brilhante.

O chaveiro perguntou:

— E a principal?

Ninguém sabia.

No fim da tarde, Márcia decidiu reorganizar o armário. Separou documentos antigos, identificou caixas e retirou a chave reserva, que passaria a ficar na portaria.

Ao puxar uma pasta grossa da última prateleira, alguma coisa caiu no chão.

Tinido metálico.

Os quatro olharam ao mesmo tempo.

Era a chave principal.

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

Rogério foi o primeiro:

— Então ninguém perdeu.

Márcia pegou a chave.

— Alguém guardou.

— Quem?

A pergunta percorreu a sala.

Cláudia tentou lembrar da sexta-feira. Jonas jurou que não havia mexido naquela pasta. Rogério acusou o cansaço coletivo. Márcia afirmou que jamais colocaria uma chave naquele lugar.

Nenhum deles convenceu os outros.

Às cinco e meia, guardaram as coisas e foram embora.

Antes de apagar a luz, Márcia colocou a chave principal num gancho novo ao lado da porta. Sobre ele, colou uma etiqueta:

CHAVE DO ARMÁRIO

Na manhã seguinte, quando chegou, encontrou outra etiqueta colada logo abaixo. Alguém havia escrito:

FAVOR NÃO GUARDAR DENTRO DO ARMÁRIO.

Márcia riu.

Não perguntou quem fora.

Na sala ao lado, ouviu Jonas comentando com Rogério sobre o ensaio da banda. Cláudia mostrava no celular algumas fotografias do curso, e sobre a mesa havia um pote que Rogério trouxera com o primeiro bolo que conseguira fazer sem queimar.

O armário estava aberto.

Curiosamente, naquela manhã, ninguém parecia muito interessado nele.

(Betto Gasparetto – xii – mcmxciv)

O Menestrel da Renascença

Posted in Coleção - Crônicas on 17 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O salão havia sido preparado para impressionar antes mesmo de receber o primeiro convidado.

Centenas de velas ardiam nos grandes candelabros, refletindo-se nas taças, nos espelhos e nos fios dourados das tapeçarias. Sobre as mesas, travessas de prata sustentavam carnes assadas, frutas, pães, queijos e doces preparados durante dois dias nas cozinhas do palácio. Criados atravessavam discretamente o salão, substituindo pratos quase intocados enquanto músicos executavam melodias para convidados que conversavam alto demais para ouvi-las.

Na cabeceira estava o duque Lorenzo, anfitrião da celebração. À sua direita, nobres disputavam histórias de propriedades, cavalos e alianças. À esquerda, um banqueiro explicava quanto custara importar o mármore usado na reforma de sua residência.

— Veio de longe — dizia ele. — O transporte custou quase tanto quanto a pedra.

Um conde examinou sua taça.

— Quando alguma coisa custa pouco, ninguém pergunta de onde veio.

Os dois riram.

Perto deles, uma dama exibia um colar de pedras verdes.

— Foi presente de meu marido.

— Belíssimo.

— Ele sabe pedir desculpas.

O marido ouviu e preferiu continuar bebendo.

Naquela noite haveria uma atração especial. Lorenzo mandara buscar um menestrel que ganhara fama por apresentar-se em praças, tavernas, feiras e algumas cortes. Chamava-se Matteo e, segundo os comentários, tinha uma inconveniente habilidade para fazer pessoas importantes rirem de assuntos dos quais normalmente não gostavam de falar.

Quando entrou, alguns convidados se decepcionaram.

Não vestia seda, não carregava joias e não parecia particularmente impressionado com o lugar. Trazia roupas bem cuidadas, porém simples, e um pequeno instrumento de cordas pendurado às costas.

Fez uma reverência diante do duque.

— Disseram-me que esta é uma das casas mais ricas da região.

Lorenzo abriu um sorriso satisfeito.

— Disseram corretamente.

Matteo observou o salão.

— Ainda bem. Fiquei preocupado que faltasse comida.

Alguns convidados riram.

O duque também.

— Comece.

Matteo caminhou entre as mesas contando pequenas histórias. Falou de um comerciante que comprara tantos baús para guardar moedas que acabara sem espaço para colocar a cama. Depois contou sobre um nobre que encomendara uma estátua de si mesmo tão grande que precisou derrubar parte do jardim para conseguir admirá-la da janela.

O banqueiro riu alto.

— Conheço homens assim.

Matteo olhou para ele.

— Todos conhecemos. O difícil é reconhecer quando usam nossas roupas.

As risadas diminuíram um pouco.

Ele prosseguiu.

Contou sobre dois homens que discutiam numa feira. Um dizia possuir cinquenta hectares; o outro, oitenta. Um terceiro, que nada possuía, perguntou quanto terreno cada um precisaria quando morresse.

— O primeiro respondeu que ainda não havia pensado nisso. O segundo também não. Então o pobre sugeriu que provavelmente dois metros resolveriam a disputa.

Dessa vez, alguns convidados não riram.

O duque inclinou-se na cadeira.

— Você fala muito sobre riqueza para alguém que aparentemente possui tão pouco.

Matteo respondeu:

— É justamente por isso que consigo observá-la de fora.

Um murmúrio percorreu o salão.

Lorenzo poderia ter encerrado a apresentação.

Não encerrou.

Talvez estivesse curioso.

Talvez quisesse descobrir até onde o convidado teria coragem de ir.

— Continue.

Matteo pediu então quatro objetos.

Uma moeda de ouro.

Um anel.

Uma taça de prata.

E um pedaço de pão.

Os três primeiros apareceram imediatamente.

O pão demorou um pouco porque ninguém entendeu por que ele o queria.

Matteo colocou tudo sobre uma mesa.

— Qual destes vale mais?

— A moeda — respondeu o banqueiro.

— O anel — disse a dama das pedras verdes.

— Depende da prata — comentou alguém.

Matteo apontou para um criado que passava.

— E você?

O rapaz parou, assustado.

Ninguém costumava pedir a opinião dos criados durante os banquetes.

— Eu?

— Você mesmo.

O jovem olhou para os objetos.

— Depende.

— De quê?

— Se a pessoa estiver com fome, o pão.

Houve um breve silêncio.

Matteo pegou o pedaço de pão.

— Temos finalmente um economista no salão.

As gargalhadas voltaram.

Até o criado sorriu antes de continuar seu trabalho.

O banqueiro, porém, não desistiu.

— Isso é truque. Uma moeda compra muitos pães.

— Sem dúvida.

— Então continua valendo mais.

Matteo concordou.

— Desde que exista alguém disposto a vender o pão.

O banqueiro abriu a boca, mas não respondeu.

A apresentação prosseguiu.

Matteo não fazia sermões. Preferia perguntas, histórias absurdas e comparações inconvenientes. Ria dos ricos, dos pobres, dos soldados, dos comerciantes, dos artistas e principalmente de si mesmo. Quando alguém começava a sentir-se confortável demais com uma piada dirigida ao outro, a seguinte geralmente chegava mais perto.

Em determinado momento, aproximou-se do duque.

— Posso fazer uma pergunta a Vossa Excelência?

— Já fez várias.

— Esta custa mais caro.

— Quanto?

— Uma resposta verdadeira.

Lorenzo riu.

— Pergunte.

Matteo observou as tapeçarias, os candelabros, as mesas e os convidados.

— Se amanhã ninguém mais o chamasse de Excelência, quem o senhor seria?

Alguns rostos imediatamente se voltaram para o duque.

Lorenzo permaneceu imóvel.

Era uma pergunta simples.

Talvez por isso fosse tão desagradável.

— Lorenzo — respondeu finalmente.

Matteo fez uma reverência.

— Muito prazer, Lorenzo. Eu sou Matteo.

Dessa vez ninguém soube se deveria rir.

O duque foi o primeiro.

Começou discretamente, depois gargalhou com tanta vontade que precisou apoiar a mão sobre a mesa.

Os demais acompanharam.

Matteo encerrou sua apresentação pouco antes da meia-noite.

Lorenzo mandou entregar-lhe uma bolsa com moedas.

O menestrel pesou-a na mão.

— É muito dinheiro.

— Você merece.

— Posso fazer o que quiser com ele?

— Naturalmente.

Matteo retirou algumas moedas e guardou-as.

Depois entregou a bolsa ao criado que havia escolhido o pão.

— Divida com o pessoal da cozinha.

O rapaz arregalou os olhos.

— Senhor, eu não posso…

— Então teremos um problema sério, porque eu também não quero carregar tudo isso.

O duque observou a cena.

Não interferiu.

Na manhã seguinte, o salão estava vazio.

Sem os convidados, parecia maior e menos impressionante. Criados recolhiam taças, limpavam manchas de vinho e contavam pratos quebrados. Sob uma das mesas havia uma pérola desprendida de algum vestido. Próximo à cadeira do duque, alguém encontrara uma moeda.

O jovem criado que recebera a bolsa pegou-a.

Por alguns segundos, ficou olhando para o ouro.

Depois levou a moeda ao administrador do palácio.

— Encontramos esta no chão.

O administrador conferiu.

— Poderia ter ficado com ela.

O rapaz deu de ombros.

— Ontem já ganhei mais do que esperava.

Do outro lado da cidade, Matteo caminhava pela estrada com algumas moedas no bolso e o instrumento às costas.

No palácio, Lorenzo tomava o café da manhã quando perguntou ao criado:

— Aquele menestrel deixou alguma coisa?

— Não, Excelência.

Lorenzo passou manteiga no pão.

Parou.

Olhou para o rapaz.

— Hoje pode me chamar de Lorenzo.

O criado não soube se era ordem, brincadeira ou algum teste perigoso.

— Sim, Excelência.

Lorenzo começou a rir.

O rapaz também.

Sobre a mesa havia uma bandeja de prata, uma faca com cabo de marfim e uma pequena cesta de pães ainda quentes.

Lorenzo pegou um deles.

Ficou olhando por um instante.

Depois comeu.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)