A Chave do Armário
(Betto Gasparetto)
By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na segunda-feira, às sete e vinte da manhã, quatro funcionários já estavam diante do armário de aço da sala administrativa.
Nenhum deles parecia contente.
— Quem ficou com a chave na sexta? — perguntou Márcia.
Silêncio.
Rogério examinou os próprios bolsos, embora tivesse acabado de chegar.
— Eu não.
— Eu também não — respondeu Cláudia.
Jonas, que trabalhava no almoxarifado, tentou abrir a porta puxando-a com força.
— Assim você vai arrancar o armário da parede — disse Márcia.
— Pelo menos abre.
Não abriu.
O problema seria pequeno se dentro daquele armário estivessem apenas papéis antigos. Mas alguém, anos antes, decidira que ali seria um excelente lugar para guardar tudo aquilo que não poderia desaparecer: carimbos, formulários, contratos, materiais de expediente, dois notebooks de uso compartilhado e até o controle reserva do projetor da sala de reuniões.
A chave principal sumira.
A reserva, segundo descobriram naquele momento, também estava dentro do armário.
Rogério olhou para Márcia.
— Quem guarda uma chave reserva dentro daquilo que ela deveria abrir?
— Nós.
— Então não é reserva. É companhia para a outra chave.
Às sete e quarenta, o expediente começou oficialmente.
O armário continuava fechado.
O primeiro problema surgiu quando Cláudia precisou de um carimbo.
— Tem outro?
— Só aquele.
— Posso imprimir?
— Carimbo?
— Estou procurando alternativas.
Cinco minutos depois, Jonas apareceu com uma caixa de ferramentas.
— Saiam.
— O que você vai fazer? — perguntou Márcia.
— Abrir.
— Sem destruir.
Jonas guardou a chave de fenda maior e pegou uma menor.
— Vocês dificultam muito o trabalho técnico.
Enquanto ele examinava a fechadura, Rogério procurava a chave pela sala. Abriu gavetas, levantou pastas, olhou atrás da impressora e até dentro da geladeira.
Márcia observou.
— Você acha que alguém guardou a chave junto com a marmita?
— Sexta-feira foi um dia complicado.
Ninguém podia contestar.
Na sexta, o setor encerrara o mês com sistema instável, relatórios atrasados e uma reunião que começara às quatro e terminara quando todos já pensavam no fim de semana.
A busca continuou.
Foi nesse processo que descobriram algumas coisas interessantes.
Na gaveta de Cláudia havia dezessete sachês de açúcar.
— Para que tudo isso?
— Emergência.
— Que emergência exige dezessete açúcares?
— Trabalhar aqui.
Na mesa de Rogério encontraram três carregadores de celular, nenhum compatível com o aparelho que ele usava.
Jonas guardava um pacote de biscoitos atrás de uma caixa de arquivo.
— Achei que você estivesse de dieta — comentou Márcia.
— Estou.
— E isso?
— Material confidencial.
Até Márcia, conhecida pela organização quase irritante, foi surpreendida quando apareceu uma caneca desaparecida havia seis meses no fundo de seu arquivo.
— Então estava com você! — disse Cláudia.
— Tecnicamente estava no meu armário.
— Isso é exatamente estar com você.
A chave, porém, nada.
Às nove, já havia fila de pequenas tarefas interrompidas pelo mesmo motivo.
— Preciso do contrato.
— Está no armário.
— Cadê o adaptador?
— Armário.
— Formulário de retirada?
— Armário.
Rogério colocou as mãos na cintura.
— Estou começando a achar que nossa empresa inteira cabe ali dentro.
Sem acesso aos materiais, começaram a improvisar.
Cláudia descobriu uma versão digital de um formulário que todos imprimiam havia anos. Rogério localizou contratos antigos no servidor. Márcia pediu emprestado um carimbo ao setor vizinho. Jonas encontrou um adaptador esquecido numa sala de treinamento.
Pouco antes das dez, estavam trabalhando normalmente.
Ou quase.
— Interessante — comentou Cláudia. — A gente precisava perder uma chave para descobrir onde estavam os arquivos digitais.
— Não espalha — respondeu Rogério. — Podem achar que somos eficientes.
Na hora do café, os quatro permaneceram juntos na copa.
Normalmente Márcia tomava café às nove e meia, Cláudia às dez, Rogério quando lembrava e Jonas quando o biscoito confidencial exigia acompanhamento.
Naquela manhã, a chave havia sincronizado os horários.
Conversaram sobre coisas que raramente entravam na sala administrativa.
Cláudia contou que começara um curso noturno de fotografia. Rogério revelou que estava aprendendo a cozinhar depois que a filha se mudara para outra cidade. Jonas tinha uma banda que tocava aos sábados em pequenos bares.
Márcia quase derrubou o café.
— Você canta?
— Toco bateria.
— Há oito anos você trabalha aqui e nunca contou isso.
— Você nunca perguntou.
Ela pensou um pouco.
Era verdade.
Conheciam os ramais uns dos outros, sabiam quem atrasava relatórios, quem esquecia senhas e quem usava a impressora para trabalhos particulares. Ainda assim, havia oito anos ninguém perguntara a Jonas o que ele fazia aos sábados.
Às onze e quinze, o chaveiro chegou.
Examinou a fechadura durante menos de um minuto.
— Dá para abrir.
Jonas cruzou os braços.
— Eu também disse.
— Sem destruir — lembrou Márcia.
O profissional usou duas ferramentas pequenas e, em poucos minutos, a porta cedeu.
Todos se aproximaram.
O interior estava exatamente como na sexta-feira.
Pastas.
Carimbos.
Equipamentos.
Caixas.
E, sobre a primeira prateleira, um chaveiro azul.
Cláudia apontou.
— A reserva.
Rogério pegou-a.
— Continua sendo uma ideia brilhante.
O chaveiro perguntou:
— E a principal?
Ninguém sabia.
No fim da tarde, Márcia decidiu reorganizar o armário. Separou documentos antigos, identificou caixas e retirou a chave reserva, que passaria a ficar na portaria.
Ao puxar uma pasta grossa da última prateleira, alguma coisa caiu no chão.
Tinido metálico.
Os quatro olharam ao mesmo tempo.
Era a chave principal.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
Rogério foi o primeiro:
— Então ninguém perdeu.
Márcia pegou a chave.
— Alguém guardou.
— Quem?
A pergunta percorreu a sala.
Cláudia tentou lembrar da sexta-feira. Jonas jurou que não havia mexido naquela pasta. Rogério acusou o cansaço coletivo. Márcia afirmou que jamais colocaria uma chave naquele lugar.
Nenhum deles convenceu os outros.
Às cinco e meia, guardaram as coisas e foram embora.
Antes de apagar a luz, Márcia colocou a chave principal num gancho novo ao lado da porta. Sobre ele, colou uma etiqueta:
CHAVE DO ARMÁRIO
Na manhã seguinte, quando chegou, encontrou outra etiqueta colada logo abaixo. Alguém havia escrito:
FAVOR NÃO GUARDAR DENTRO DO ARMÁRIO.
Márcia riu.
Não perguntou quem fora.
Na sala ao lado, ouviu Jonas comentando com Rogério sobre o ensaio da banda. Cláudia mostrava no celular algumas fotografias do curso, e sobre a mesa havia um pote que Rogério trouxera com o primeiro bolo que conseguira fazer sem queimar.
O armário estava aberto.
Curiosamente, naquela manhã, ninguém parecia muito interessado nele.
(Betto Gasparetto – xii – mcmxciv)


Deixe um comentário