Eu, na Praça de Alimentação
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Às três e quarenta da tarde, a praça de alimentação tinha aquele movimento indefinido entre o almoço atrasado e o café antecipado. Algumas mesas permaneciam ocupadas por famílias carregadas de sacolas; adolescentes dividiam batatas fritas enquanto olhavam os celulares; funcionários das lojas aproveitavam os últimos minutos do intervalo; crianças negociavam sobremesas com os pais em condições que nenhum adulto sensato aceitaria fora dali.
Ricardo procurava apenas um lugar para sentar.
Tinha cinquenta e dois anos, trabalhava havia quase três décadas na mesma empresa e acabara de sair de uma reunião que durara quarenta minutos e conseguira resumir vinte e sete anos de trabalho em poucas frases cuidadosamente escolhidas.
Reestruturação.
Adequação de custos.
Novo posicionamento.
Agradecimento pela contribuição.
Quando entrou no shopping, ainda carregava numa pasta o documento da demissão.
Não pretendia comprar nada. Também não estava com fome. Entrara porque começou a chover e porque não queria voltar imediatamente para casa.
Ainda não sabia como contaria à esposa.
Escolheu uma mesa próxima ao vidro, colocou a pasta sobre uma cadeira e percebeu que havia um livro na outra.
Olhou em volta.
Ninguém parecia procurá-lo.
Pegou o volume.
A capa dizia:
EU E OUTRAS POESIAS — AUGUSTO DOS ANJOS
Conhecia o nome do poeta das aulas de literatura, muitos anos antes. Lembrava vagamente de palavras difíceis, morte, matéria, vermes e de um professor tentando convencer adolescentes de dezesseis anos de que havia beleza naquilo.
Folheou algumas páginas.
O livro era usado. Havia marcas de leitura, pequenos sinais a lápis e uma dobra antiga perto do final. Nada que identificasse o proprietário.
Ricardo chamou uma funcionária da limpeza.
— Alguém esqueceu este livro aqui?
Ela olhou.
— Quando limpei a mesa, ele já estava aí.
— Tem achados e perdidos?
— No atendimento ao cliente, no piso de baixo.
Ricardo agradeceu.
Poderia ter levado o livro imediatamente.
Mas pediu um café primeiro.
Enquanto esperava, tornou a folhear.
Foi quando caiu um pequeno papel dobrado.
Ricardo recolheu-o do chão.
Era um bilhete manuscrito.
Na parte superior havia uma passagem identificada como pertencente a Versos Íntimos:
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.”
Abaixo, em outra letra ou talvez escrita com outra caneta:
“Talvez algumas coisas precisem terminar para que outras encontrem lugar para nascer.”
Ricardo continuou lendo:
“Se este livro chegou às suas mãos, não tenha pressa em devolvê-lo.
Leia primeiro.
Depois você entenderá por que o deixei aqui.”
Ele olhou novamente ao redor.
A praça continuava funcionando.
Uma criança chorava porque deixara cair o sorvete. Um casal discutia diante de uma bandeja. Dois estudantes dividiam um refrigerante. Um homem falava tão alto ao telefone que várias mesas já conheciam os problemas de sua empresa.
Ninguém observava Ricardo.
Leu o bilhete outra vez.
A coincidência o incomodou.
Naquela manhã, ainda possuía cargo, sala, equipe e senha de acesso a sistemas que conhecia melhor do que muita gente que permaneceria na empresa. Às duas da tarde, entregara o crachá.
Agora um poeta morto havia mais de um século falava de uma quimera enterrada.
— Muito engraçado — murmurou.
O rapaz da mesa ao lado olhou para ele.
Ricardo fingiu estar falando ao telefone.
Tomou o café e começou a ler.
Não seguiu a ordem das páginas. Passava de um poema a outro, voltava, relia alguns versos e abandonava outros pela metade. Augusto dos Anjos não oferecia o tipo de companhia que alguém escolheria para melhorar o humor. Havia angústia, decomposição, solidão, desencanto e uma linguagem que parecia colocar o ser humano diante de coisas que normalmente preferia deixar escondidas.
Curiosamente, Ricardo continuou.
Talvez porque também não estivesse procurando consolo.
Passara anos acreditando que sua vida profissional seguia uma linha razoavelmente previsível. Trabalharia, avançaria, envelheceria dentro da empresa e, quando chegasse a hora, sairia pela porta com alguma homenagem, um relógio, talvez uma placa.
Não aconteceu.
Recebeu uma reunião agendada no calendário e uma pasta.
Percebeu então que sua irritação não vinha apenas da perda do emprego.
Havia perdido uma versão do futuro que considerava garantida.
O celular vibrou.
Era a esposa.
“Vai demorar?”
Ricardo começou a escrever:
“Precisamos conversar.”
Apagou.
Tentou novamente:
“Estou no shopping.”
Apagou também.
Por fim escreveu:
“Chego às cinco. Vamos tomar um café juntos?”
A resposta veio logo:
“Claro. Aconteceu alguma coisa?”
Ele olhou para a pasta.
“Aconteceu.”
Guardou o celular.
Continuou lendo.
Quase uma hora havia passado quando se lembrou do achados e perdidos.
Fechou o livro.
O bilhete dizia para não ter pressa em devolvê-lo, mas talvez aquilo fosse apenas uma brincadeira do antigo dono. Ou uma maneira estranha de abandonar um objeto sem sentir que o estava jogando fora.
Desceu até o atendimento.
A funcionária recebeu o livro, examinou a capa e perguntou:
— Encontrou onde?
— Na praça de alimentação.
Ela abriu um formulário.
— Seu nome?
Ricardo respondeu.
— Telefone?
Informou.
A funcionária colocou uma etiqueta no livro.
Ele observou.
Sentiu-se incomodado.
— Quanto tempo vocês guardam?
— Objetos não reclamados ficam aqui por um período e depois seguem o procedimento interno.
— Entendi.
Deu alguns passos.
Voltou.
— Posso ver o livro mais uma vez?
A atendente estranhou, mas entregou.
Ricardo abriu na primeira página.
Havia uma inscrição que não percebera antes, escrita bem perto da lombada:
“Não estou perdido.”
Ele mostrou à funcionária.
— Acho que esse livro não foi esquecido.
Ela leu.
— Então por que deixaram na mesa?
— Estou começando a achar que justamente para alguém pegar.
— E esse alguém seria o senhor?
Ricardo olhou para o livro.
— Pelo jeito, fui o primeiro a sentar.
A atendente sorriu.
— Tecnicamente continua sendo um objeto encontrado.
— A burocracia venceu a poesia.
— Normalmente vence.
Os dois riram.
Ricardo deixou seu telefone e combinou que, caso ninguém reclamasse o livro dentro do prazo estabelecido, gostaria de ser avisado.
Saiu do shopping sem ele.
Em casa, contou à esposa sobre a demissão.
Não conseguiu fazer um discurso sereno. Ficou irritado novamente. Disse que fora injusto, que havia dedicado anos demais à empresa, que não sabia o que faria aos cinquenta e dois.
Ela ouviu.
Quando ele terminou, perguntou:
— E amanhã?
— Amanhã o quê?
— O que você vai fazer?
Ricardo não sabia.
Pela primeira vez em muitos anos, sua agenda estava vazia.
Nas semanas seguintes, enviou currículos. Reencontrou antigos colegas. Descobriu que algumas pessoas que imaginava bem-sucedidas também haviam sido demitidas, recomeçado, fracassado, mudado de área ou simplesmente aprendido a viver com menos certezas.
Começou ainda um curso que adiava havia anos.
Não houve transformação milagrosa.
Continuava preocupado com dinheiro.
Sentia falta da rotina.
Em alguns dias acordava animado; em outros, passava a manhã inteira convencido de que ninguém contrataria um profissional de sua idade.
Quarenta e três dias depois, recebeu uma ligação do shopping.
Ninguém havia procurado o livro.
Ricardo foi buscá-lo.
Naquela tarde, sentou-se na mesma praça de alimentação e pediu o mesmo café.
Abriu o exemplar.
O bilhete continuava lá.
Leu novamente a frase sobre o fim e o nascimento das coisas. Dessa vez, achou-a otimista demais.
Sorriu.
Pegou uma caneta.
No verso do papel escreveu:
“Nem tudo o que termina abre imediatamente espaço para alguma coisa. Às vezes sobra apenas um espaço vazio, e precisamos descobrir o que fazer com ele.”
Pensou um pouco e acrescentou:
“Li. Ainda não entendi tudo.”
Guardou o bilhete dentro do livro.
Durante alguns meses, o exemplar permaneceu em sua casa. Ricardo leu poemas, pesquisou sobre Augusto dos Anjos e voltou várias vezes às páginas que inicialmente lhe pareciam mais estranhas.
Conseguiu trabalho em outra empresa.
Menor.
Salário um pouco inferior.
Cargo diferente.
No primeiro dia, sentiu-se novamente um iniciante, sensação que não experimentava havia quase trinta anos.
Não gostou muito.
Depois gostou um pouco.
Certo sábado, voltou ao mesmo shopping com a esposa.
Almoçaram.
Antes de ir embora, Ricardo retirou da mochila o velho exemplar de Eu e Outras Poesias.
— Vai fazer o quê? — ela perguntou.
— Ainda não sei.
Escolheu uma mesa vazia próxima ao vidro.
Colocou o livro sobre uma cadeira.
— Você vai abandonar?
— Não estava perdido quando encontrei.
— E agora?
Ricardo olhou para a capa.
— Continua não estando.
A esposa balançou a cabeça.
— Espero que o próximo entenda essa lógica.
— Eu demorei meses.
Os dois caminharam em direção à saída.
Antes de chegar à escada rolante, Ricardo olhou para trás.
Uma jovem usando uniforme de uma das lojas procurava lugar para sentar. Carregava uma bandeja numa mão e o celular na outra.
Viu a mesa vazia.
Sentou-se.
Afastou o livro para colocar a bandeja.
Depois reparou na capa.
Pegou-o.
Abriu.
Ricardo poderia ter esperado para ver o que aconteceria.
Não esperou.
Desceu a escada rolante ao lado da esposa.
Na praça de alimentação, a jovem encontrou o bilhete entre as páginas.
Agora havia três vozes naquele pedaço de papel.
A de Augusto dos Anjos.
A de alguém que Ricardo nunca conhecera.
E a dele.
Ainda sobrava espaço no verso.
(Betto Gasparetto – vi – mmxxiv)


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