O Último Giz

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Naquela segunda-feira, o professor Álvaro chegou à escola às sete e dez, cumprimentou o porteiro, assinou o livro de presença e entrou na sala dos professores com a mesma pasta de couro que carregava havia quase vinte anos.

Faltavam três semanas para sua aposentadoria.

A notícia já circulava pela escola, embora ele evitasse conversar sobre o assunto. Quando alguém perguntava o que faria depois, respondia com alguma brincadeira.

— Pretendo começar dormindo numa segunda-feira.

Depois mudava de assunto.

Naquela manhã, tinha duas aulas de História com uma turma do terceiro ano. Separou o diário, conferiu algumas anotações e procurou um pincel para quadro branco.

Não encontrou.

— Acabaram de novo? — perguntou.

Uma professora apontou para uma caixa no alto do armário.

— Acho que sobrou material antigo ali.

Álvaro abriu a caixa.

Havia apagadores gastos, réguas quebradas, mapas enrolados, duas caixas vazias e alguns pedaços de giz.

Pegou um branco, curto o suficiente para desaparecer entre os dedos.

— Sobreviveu.

A colega riu.

— Isso é peça de museu.

— Então combina comigo.

Foi para a sala.

Os alunos ainda conversavam quando ele entrou. Um terminava a tarefa de outra disciplina, dois discutiam futebol e uma menina procurava desesperadamente uma tomada para carregar o celular.

— Professor, hoje tem apresentação?

— Tem aula.

— É quase a mesma coisa?

— Para quem não estudou, pode ser pior.

Algumas risadas diminuíram o barulho.

Álvaro aproximou-se do quadro verde, que permanecia numa das paredes apesar de a sala possuir televisão, projetor e acesso à internet. Durante anos ninguém tivera coragem de retirá-lo. Servia para avisos, contas rápidas e, ocasionalmente, para professores que ainda gostavam de escrever.

Com o pequeno giz, colocou a data.

Depois escreveu:

O QUE FICA DA HISTÓRIA?

Um aluno levantou a mão.

— Isso cai na prova?

Álvaro virou-se.

— Provavelmente é a pergunta mais importante do bimestre e você quer saber se vale ponto.

— Se valer, fica mais importante.

— Argumento honesto.

A aula começou.

Álvaro falou sobre memória histórica, documentos, versões dos acontecimentos e aquilo que uma sociedade escolhe preservar ou esquecer. Enquanto explicava, o giz diminuía entre seus dedos.

Foi então que percebeu a coincidência.

Durante quase quarenta anos, escrevera em quadros como aquele.

No início da carreira, o giz era indispensável. Chegava em caixas com dezenas de unidades, e os professores terminavam o dia com as mãos brancas e pequenas manchas nas roupas. Havia giz amarelo, azul, verde e vermelho para destacar datas que os alunos copiavam em cadernos.

Depois chegaram os retroprojetores.

As transparências.

As televisões.

Os computadores.

Os projetores multimídia.

As plataformas digitais.

As apresentações.

As aulas remotas.

As telas interativas.

E o velho quadro foi ficando encostado na parede, testemunhando sua própria aposentadoria sem precisar preencher requerimento.

Álvaro continuou escrevendo.

Uma estudante perguntou:

— Professor, quando o senhor começou a dar aula, já tinha computador na escola?

A turma riu antes da resposta.

— Tinha energia elétrica também.

— Estou perguntando sério.

— No começo, não. Computador apareceu depois.

— E como vocês faziam pesquisa?

— Biblioteca.

— Só?

— Livros, jornais, revistas, enciclopédias.

Um rapaz no fundo arregalou os olhos.

— E se não achasse?

— A gente continuava procurando.

— Muito trabalhoso.

— A humanidade sobreviveu.

Outra estudante perguntou:

— O senhor preferia naquela época?

Álvaro pensou antes de responder.

— Algumas coisas eram melhores. Outras eram muito piores.

— Tipo?

— Hoje vocês conseguem consultar em segundos documentos que eu levava dias para localizar. Isso é extraordinário.

— E o que era melhor?

Ele olhou para a turma.

— O intervalo tinha mais gente olhando para a cara dos outros.

Alguns celulares desceram discretamente.

— Mas vocês também faziam besteira — comentou um aluno.

— Muito mais do que vocês imaginam. A diferença é que não havia câmera em todo lugar para guardar as provas.

A sala riu.

A conversa desviou para a escola de antigamente.

Álvaro contou sobre os mimeógrafos e o cheiro de álcool das provas recém-impressas. Falou dos mapas enormes pendurados nas paredes, das chamadas feitas em cadernetas e dos trabalhos escolares escritos à mão.

Os alunos perguntaram sobre suas primeiras turmas.

Ele tentou lembrar nomes.

Alguns vieram imediatamente.

Outros haviam desaparecido da memória.

Lembrou-se de uma estudante que chorara ao receber a primeira nota baixa e terminara o ano com a melhor média da turma. De um rapaz que dormia nas aulas porque trabalhava durante a madrugada. De outro que desaparecera durante meses e depois retornara para concluir os estudos.

Também lembrou dos erros.

Aulas que não funcionaram.

Discussões desnecessárias.

Alunos que julgara preguiçosos antes de conhecer os problemas que enfrentavam em casa.

Houve um tempo em que acreditava que experiência significava errar menos. Depois descobriu que significava, principalmente, reconhecer alguns erros mais depressa.

— Professor — perguntou uma menina —, o senhor já sabe quantos alunos teve?

— Não.

— Mais de mil?

— Muito mais.

— Cinco mil?

Álvaro tentou calcular.

Desistiu.

— Espero que nenhum esteja me procurando para reclamar de nota.

O giz estava agora tão pequeno que mal conseguia segurá-lo.

Um aluno percebeu.

— Professor, pega outro.

Álvaro olhou para o pedaço entre os dedos.

— Acho que esse dá.

Continuou.

Escreveu no quadro três palavras que resumiam a discussão:

MEMÓRIA – ESCOLHA – TEMPO

Na última palavra, o giz quebrou.

Uma metade caiu no chão.

A outra permaneceu entre seus dedos.

Álvaro abaixou-se para pegar o fragmento.

Por algum motivo, guardou-o no bolso da camisa.

O sinal tocou.

Os alunos começaram a recolher os materiais.

— Semana que vem tem prova? — perguntou alguém.

— Tem.

Vieram os protestos.

— Professor, o senhor vai se aposentar e ainda vai deixar prova?

— Pretendiam que eu deixasse uma herança?

A turma saiu rindo.

Álvaro apagou o quadro.

As palavras desapareceram sob o apagador, deixando apenas uma poeira branca espalhada pela superfície verde.

Na sala dos professores, encontrou uma funcionária carregando caixas de material novo.

— Chegaram os pincéis — disse ela.

— Agora?

— Pedido atrasou.

Álvaro pegou um.

Novo, embalado, ponta perfeita.

Colocou sobre a mesa.

No intervalo, uma professora perguntou:

— Está contando os dias?

— Todo mundo pergunta isso.

— E está?

Ele abriu a agenda.

Na página daquele dia havia compromissos, números de turmas, observações sobre conteúdos e uma anotação para devolver um livro.

— Ainda não.

As três semanas passaram depressa.

No último dia, houve bolo na sala dos professores, fotografias, abraços e discursos que o deixaram mais constrangido do que gostaria. Recebeu uma placa, uma caneta e um álbum com mensagens de colegas e alunos.

Quando todos foram embora, Álvaro voltou sozinho à sala onde dera a última aula.

O quadro estava limpo.

Sobre uma carteira havia uma caneta esquecida e, no chão, uma folha de caderno amassada.

Nada solene.

Apenas uma sala esperando a próxima turma.

Sentou-se por alguns minutos.

Depois lembrou do pequeno pedaço de giz.

Ainda estava no bolso interno da pasta desde aquela aula.

Retirou-o.

Poderia levá-lo para casa.

Talvez colocá-lo junto da placa de homenagem, das fotografias e dos outros objetos que, com o tempo, acabariam numa gaveta.

Em vez disso, aproximou-se do quadro.

Pensou em escrever alguma frase bonita.

Uma despedida.

Uma data.

Talvez o próprio nome.

Não escreveu.

Colocou o pequeno giz na canaleta do quadro e fechou a pasta.

Na porta, encontrou uma professora recém-contratada carregando livros e um notebook.

— Professor Álvaro?

— Sim?

— Desculpe. Disseram que o senhor conhece muito bem as turmas do terceiro ano. Vou assumir algumas delas no próximo período.

— Meus sentimentos.

Ela riu.

— Algum conselho?

Álvaro olhou para a sala.

Quase respondeu.

Depois achou melhor não.

— Conheça a turma primeiro.

A professora agradeceu e entrou.

Álvaro seguiu pelo corredor.

Antes de virar a esquina, ouviu:

— Professor!

Era ela.

— Esse giz é seu?

Álvaro olhou para trás.

A professora segurava o pequeno pedaço branco.

— Não — respondeu. — Pode usar.

Ela examinou o fragmento e sorriu.

— Acho que ainda dá para escrever alguma coisa.

Álvaro concordou com a cabeça e continuou andando.

Atrás dele, ouviu o giz riscando o quadro.

Não voltou para ver o que ela estava escrevendo.

(Betto Gasparetto – ii – mmxiv)

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