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Ser ou Não Ser Tão Ser

Posted in Coleção - Crônicas on 16 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Durante vinte e sete anos, Helena escolhera quem entrava.

Na filial brasileira de uma empresa europeia, começara como assistente administrativa, passara por treinamento, folha de pagamento, recrutamento e desenvolvimento de pessoas até chegar à gerência de Recursos Humanos. Conhecia os diretores pelo primeiro nome, lembrava quais gestores detestavam entrevistas às segundas-feiras e sabia identificar, antes mesmo da reunião terminar, quando uma vaga já tinha candidato escolhido.

Aos cinquenta e quatro anos, tinha uma sala envidraçada, duas especializações, inglês fluente, conhecimento suficiente da empresa para contar sua história sem consultar arquivos e uma certeza que, durante muito tempo, parecera razoável: experiência ainda valia alguma coisa.

Até começarem as mudanças.

Primeiro chegou um novo diretor europeu, doze anos mais jovem que ela. Depois vieram expressões que se multiplicaram pelas reuniões: transformação digital, inteligência de dados, automação, people analytics, competências emergentes.

Helena anotava tudo.

Em casa, pesquisava o que não conhecia.

Foi assim que descobriu que algumas das ferramentas exigidas nas novas vagas de RH simplesmente não existiam quando concluíra sua última especialização.

Numa terça-feira, durante uma videoconferência, ouviu o diretor comentar:

— Precisamos atualizar o perfil estratégico da área.

A frase não mencionava seu nome.

Mesmo assim, Helena passou a noite inteira ouvindo-o.

Na semana seguinte, surgiu uma vaga para especialista sênior em gestão de pessoas. O novo profissional trabalharia diretamente com ela.

Os currículos começaram a chegar.

Helena abriu o primeiro.

Trinta e dois anos. Mestrado. Inglês, alemão e espanhol. Certificação internacional. Experiência com análise de dados aplicada a recursos humanos.

Abriu outro.

Trinta e seis anos. Duas pós-graduações. Projetos internacionais. Conhecimento avançado de ferramentas que Helena ainda aprendia a utilizar.

O terceiro parecia pior.

Ou melhor.

Dependia do ponto de vista.

Fechou o sistema.

Naquela noite, perguntou ao marido:

— Você acha que eu estou velha para o mercado?

Ele tirou os olhos do jornal.

— Aconteceu alguma coisa?

— Fiz uma pergunta.

— E eu fiz outra.

Helena não respondeu.

No escritório, passou a ler os currículos de outra maneira.

Antes procurava competências.

Agora procurava ameaças.

Um candidato tinha excelente formação, mas pouca permanência nas empresas anteriores.

Instabilidade profissional.

Outra apresentava experiência internacional e domínio tecnológico superior ao exigido.

Perfil possivelmente acima da posição.

Um terceiro tinha quarenta e oito anos, longa experiência executiva e formação recente em gestão de dados.

Helena permaneceu alguns minutos diante daquele currículo.

Era quase sua própria trajetória, com atualizações que ela não possuía.

Clicou:

Não aderente.

No início, justificava cada exclusão.

Depois ficou mais fácil.

Currículos impressos para discussão com a equipe começaram a desaparecer na fragmentadora. Os digitais recebiam observações suficientes para impedir que avançassem.

Nada grosseiro.

Nada obviamente irregular.

Helena conhecia RH demais para deixar uma decisão parecer pessoal.

Nas entrevistas presenciais, tornou-se ainda mais cuidadosa.

— Onde você se vê daqui a cinco anos?

— Como lida com conflitos?

— Por que deseja sair da empresa atual?

As perguntas eram convencionais. As conclusões, nem sempre.

Uma candidata de trinta e nove anos chamou sua atenção.

Marina tinha formação sólida, experiência internacional e domínio de sistemas recentes. Falava sem exagerar realizações e admitia quando desconhecia alguma coisa.

Helena tentou encontrar uma falha.

— Seu currículo mostra muitas qualificações para esta posição. Não teme ficar desmotivada?

— Não. Quero trabalhar justamente numa empresa em que eu ainda tenha o que aprender.

Helena anotou:

Risco de baixa permanência.

Na saída, Marina agradeceu.

— Gostei muito da entrevista.

— Nós entraremos em contato.

Era a frase mais eficiente já inventada para encerrar esperanças sem assumir compromisso.

Dois dias depois, Helena reprovou sua candidatura.

Na sexta-feira seguinte, recebeu uma convocação do diretor.

Reunião às dez.

Assunto: Estrutura de Pessoas – Próximo Ciclo.

Seu estômago apertou.

Às nove e cinquenta e cinco, entrou na sala.

O diretor estava acompanhado da vice-presidente regional, recém-chegada da Europa.

— Helena, sente-se.

Sobre a mesa havia uma pasta.

Ela reconheceu o logotipo do departamento jurídico.

Pensou imediatamente na rescisão.

Vinte e sete anos resumidos numa pasta azul.

A vice-presidente começou:

— Estamos reorganizando a gestão de Recursos Humanos na América Latina.

Helena manteve as mãos sobre o colo para que ninguém percebesse que estavam frias.

— Entendo.

— A sede decidiu centralizar parte dos processos de recrutamento.

Pronto.

A palavra seguinte seria agradecimento.

Depois trajetória.

Contribuição.

Nova etapa.

Helena conhecia o vocabulário. Ajudara a escrevê-lo para outras pessoas.

O diretor abriu a pasta.

— Queremos que você assuma a coordenação regional de transição.

Helena demorou a reagir.

— Eu?

— Você conhece esta operação melhor do que qualquer pessoa da equipe.

A vice-presidente continuou:

— Mas precisamos modernizar alguns processos. Principalmente seleção e análise de competências.

Helena sentiu um alívio tão grande que quase doeu.

Então veio a segunda parte.

— Por isso contratamos uma consultoria externa para revisar os últimos processos seletivos.

O alívio desapareceu.

A vice-presidente retirou algumas folhas da pasta.

— Encontramos índices de reprovação muito acima do padrão nos candidatos mais qualificados.

Helena não respondeu.

— Há justificativas inconsistentes e alguns currículos que constavam como recebidos, mas desapareceram do processo.

O silêncio dentro da sala ficou desconfortavelmente profissional.

— Você sabe o que aconteceu?

Helena poderia culpar o sistema.

Poderia falar em critérios subjetivos.

Poderia citar adequação cultural, aderência comportamental ou qualquer uma das expressões que durante anos aprendera a usar com precisão.

Mas, pela primeira vez, nenhuma delas pareceu suficientemente boa.

— Sei.

O diretor esperou.

Helena respirou fundo.

— Fui eu.

A vice-presidente fechou a pasta.

— Por quê?

Essa pergunta era mais difícil que todas as anteriores.

Helena olhou através da parede de vidro. Do lado de fora, funcionários circulavam com notebooks, conversavam diante da máquina de café e entravam em salas de reunião. Reconhecia alguns que ela mesma havia contratado muitos anos antes.

— Eu achei que estavam procurando alguém para me substituir.

O diretor franziu a testa.

— Ninguém estava.

Helena soltou uma pequena risada sem humor.

— Agora eu sei.

A reunião durou mais de uma hora.

Não houve promoção.

Também não houve demissão imediata.

A investigação interna continuaria. Os candidatos prejudicados seriam contatados novamente, e Helena seria afastada temporariamente dos processos seletivos enquanto a empresa analisava sua conduta.

Ao sair, encontrou sua própria equipe trabalhando.

Na mesa que costumava ocupar durante as entrevistas havia uma pilha de currículos recuperados do sistema.

No alto estava o de Marina.

Helena sentou em sua sala e abriu o computador.

Havia um e-mail novo.

Assunto: Processo seletivo – revisão extraordinária.

A lista trazia onze candidatos.

Onze pessoas que talvez tivessem recebido um “não” por razões que jamais imaginariam.

No fim da tarde, enquanto guardava seus objetos, encontrou numa gaveta o currículo que enviara à empresa vinte e sete anos antes.

Duas páginas.

Datilografadas.

Sem pós-graduação internacional.

Sem certificações.

Sem idiomas além do inglês intermediário que possuía na época.

Sem analytics.

Sem competências digitais.

No canto superior, alguém havia escrito à caneta:

“Pouca experiência. Vale entrevistar.”

Helena leu duas vezes.

Não reconheceu a letra.

Ficou tentando imaginar quem, quase três décadas antes, decidira não descartá-la.

Na segunda-feira, Marina voltou à empresa para uma nova entrevista.

Dessa vez, Helena não participou.

Cruzaram-se no corredor.

Marina parou.

— Bom dia.

Helena respondeu.

— Bom dia.

Nenhuma das duas acrescentou nada.

Marina entrou na sala de entrevistas e a porta se fechou.

Helena permaneceu alguns segundos no corredor com seu antigo currículo debaixo do braço.

Depois seguiu para outra sala, onde uma comissão a esperava.

Naquela manhã, pela primeira vez em vinte e sete anos, ela não sabia de que lado da mesa terminaria o processo.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Profeta de Gibran

Posted in Coleção - Crônicas on 15 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Henrique encontrou o pacote sobre a mesa quando voltou do almoço.

Era pequeno, embrulhado em papel pardo e amarrado com um barbante fino. Não havia remetente, cartão ou qualquer indicação de quem o deixara ali. Apenas seu nome, escrito à mão.

— Chegou para mim?

Márcia, da recepção, levantou os olhos do computador.

— Deixaram pouco antes do meio-dia.

— Quem?

— Uma mulher.

— Que mulher?

— Se eu soubesse que haveria interrogatório, tinha pedido documento.

Henrique riu pela primeira vez naquele dia.

Não estava exatamente disposto a rir.

A manhã havia começado com o despertador ignorado duas vezes, café derramado na camisa e quarenta minutos de trânsito. Ao chegar ao escritório, encontrou uma mensagem da direção convocando-o para uma reunião no fim da tarde.

Não explicava o assunto.

Esse era justamente o problema.

A empresa atravessava uma reestruturação, palavra elegante que, nas últimas semanas, significara salas fechadas, conversas baixas e algumas mesas vazias de um dia para o outro.

Henrique tinha cinquenta e seis anos e trabalhava ali havia quase vinte.

Naquela manhã, calculou três vezes quanto tempo conseguiria pagar as contas se fosse dispensado.

Na terceira conta, desistiu.

Levou o pacote para sua mesa e abriu.

Era um livro.

O Profeta, de Khalil Gibran.

A edição não era nova. A capa apresentava pequenas marcas de uso e algumas páginas estavam ligeiramente amareladas. Henrique conhecia o título, naturalmente, mas nunca havia lido o livro inteiro.

Folheou.

Na primeira página havia uma dedicatória:

“Alguns livros chegam quando a gente os compra. Outros esperam a hora de encontrar a gente.”

Sem assinatura.

Henrique reconheceu a letra.

Ou achou que reconheceu.

Procurou o celular e abriu uma conversa antiga.

A última mensagem tinha quase oito meses.

Era de Laura, sua irmã.

Os dois haviam discutido depois da venda da casa da mãe. O motivo inicial fora uma cômoda antiga que ambos queriam guardar. Depois surgiram contas, documentos, lembranças, acusações guardadas havia anos e aquela extraordinária capacidade que as famílias possuem de transformar um móvel em inventário completo de ressentimentos.

A última mensagem dela dizia:

“Quando você quiser conversar sem precisar vencer, me procure.”

Henrique nunca respondeu.

Fechou o telefone.

Abriu o livro.

Começou a ler durante os minutos que ainda restavam do almoço. Encontrou páginas sobre amor, trabalho, filhos, liberdade, alegria, tristeza, amizade e tantas outras coisas que atravessavam vidas muito diferentes da sua e, ainda assim, pareciam estranhamente próximas.

Não encontrou respostas para a reunião das cinco.

Também não encontrou uma fórmula para resolver oito meses de silêncio com a irmã.

Ainda assim, continuou lendo.

Às duas, voltou ao trabalho.

Às três e vinte, discutiu com um colega sobre uma planilha.

Normalmente teria prolongado a discussão até provar que estava certo. Naquele dia, parou no meio.

— Quer saber? Vamos conferir juntos.

O colega estranhou.

— Você está bem?

— Por quê?

— Concordou comigo antes dos quinze minutos regulamentares.

— Não se acostume.

Continuaram trabalhando.

Às quatro e cinquenta, Henrique fechou o computador e caminhou até a sala da direção.

Entrou preparado para receber a notícia que ensaiara durante todo o dia.

A gerente pediu que sentasse.

— Henrique, precisamos conversar sobre sua função.

Ele sentiu o estômago apertar.

Ela continuou.

A empresa realmente reduziria alguns setores, mas queria que ele assumisse uma nova equipe. Precisavam de alguém experiente para acompanhar funcionários mais jovens durante a transição.

Henrique ouviu tudo.

Novo cargo.

Novas responsabilidades.

Mesmo salário durante os primeiros meses.

Treinamento.

Avaliação futura.

Quando saiu, não sabia se havia recebido uma promoção ou um problema com nome mais bonito.

Márcia perguntou:

— Sobreviveu?

— Parece que sim.

— Então comemora.

— Ainda estou decidindo.

Guardou suas coisas.

O livro permanecia sobre a mesa.

Antes de ir embora, abriu novamente a dedicatória.

Pegou o celular.

Ficou alguns segundos olhando para o nome da irmã.

Digitou:

“Foi você?”

A resposta chegou quando já estava no elevador.

“O quê?”

Henrique olhou para o livro debaixo do braço.

Talvez ela estivesse brincando.

Talvez realmente não soubesse.

Escreveu outra mensagem.

Apagou.

Tentou novamente.

“Nada. Como você está?”

Dessa vez a resposta demorou.

Henrique saiu do prédio, atravessou a calçada e entrou numa cafeteria. Pediu um café e escolheu uma mesa perto da janela.

O celular vibrou.

“Estou bem. Estranhei a pergunta.”

Ele sorriu.

“Eu também.”

Vieram três pontinhos na tela.

Desapareceram.

Voltaram.

“Quer tomar um café qualquer dia?”

Henrique olhou para a xícara que acabara de chegar.

“Quero.”

Guardou o telefone.

Do lado de fora, as pessoas atravessavam a rua apressadas. Um ônibus parou, deixou passageiros e seguiu. Um entregador quase esbarrou num homem distraído. Duas mulheres discutiam diante de uma vitrine. A cidade não apresentava qualquer sinal de ter participado daquele pequeno acontecimento.

Henrique abriu o livro novamente.

Ainda queria descobrir quem havia deixado o pacote.

Na manhã seguinte, perguntou ao segurança. Depois ao pessoal da limpeza. Márcia tentou lembrar melhor da mulher que fizera a entrega, mas sua descrição servia para algumas milhares de pessoas.

Ninguém soube dizer.

O livro passou a ficar na gaveta de Henrique.

Não escondido.

Guardado.

De vez em quando ele o levava para casa. Outras vezes lia algumas páginas durante o almoço. Meses depois, Laura percebeu o volume sobre a mesa da sala.

Pegou-o nas mãos.

— Você está lendo Gibran?

Henrique observou atentamente o rosto da irmã.

— Estou.

— Desde quando?

— Desde que alguém me deu.

Ela abriu a primeira página.

Leu a dedicatória.

— Bonita.

— Você reconhece a letra?

Laura examinou por alguns segundos.

— Não.

Devolveu o livro e foi buscar mais café.

Henrique permaneceu olhando para a dedicatória.

Ainda não tinha certeza.

Talvez nunca tivesse.

Fechou o livro.

Da cozinha, Laura gritou:

— Açúcar?

— Sem.

— Desde quando você toma sem açúcar?

Henrique levantou-se.

— Muita coisa aconteceu desde a última vez que você veio aqui.

— Percebi.

Ele foi até a cozinha.

O livro permaneceu sozinho sobre a mesa, com a dedicatória escondida entre a capa e a primeira página.

E o nome de quem o enviara continuou exatamente onde estava desde o começo:

em lugar nenhum.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Almoço de Domingo

Posted in Coleção - Crônicas on 14 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Na família de Lúcia, almoço de domingo nunca começava ao meio-dia.

Meio-dia era apenas o horário que ela anunciava no grupo da família, numa tentativa otimista de fazer quinze pessoas chegarem antes de a comida esfriar. Às doze e vinte apareciam os primeiros. Às doze e quarenta chegavam os que moravam mais perto. E, por volta de uma da tarde, surgia alguém dizendo que o trânsito estava impossível, embora tivesse saído de casa vinte minutos antes.

Naquele domingo, Lúcia começou cedo. Às nove da manhã já havia uma panela grande no fogão, uma assadeira no forno e três potes ocupando a bancada. A receita principal era da mãe, dona Alzira, que aos oitenta anos continuava fiscalizando o preparo da comida mesmo sem precisar levantar da cadeira.

— Você colocou louro?

— Coloquei, mãe.

— Quantas folhas?

— Duas.

— Sua avó colocava três.

Lúcia continuou mexendo a panela.

— Minha avó cozinhava para onze filhos.

— Mas o tempero era bom.

Não havia argumento capaz de vencer uma receita familiar aperfeiçoada por pessoas que já não estavam presentes para confirmar nada.

O primeiro a chegar foi Marcelo, irmão de Lúcia, carregando refrigerantes e uma sobremesa comprada.

Dona Alzira olhou para a embalagem.

— Comprou?

— Comprei.

— Eu percebi.

— Como?

— Está bonita demais.

Marcelo colocou a sobremesa na geladeira sem responder.

Logo chegaram os netos. Vinícius entrou olhando para o celular. Camila apareceu com o namorado, que enfrentaria pela primeira vez o exame silencioso da família inteira. Duas crianças correram diretamente para o quintal e, antes de cumprimentar os adultos, já discutiam por causa de uma bola.

Às doze e cinquenta, quase todos estavam ali.

A mesa precisou ser aumentada com outra menor, ligeiramente mais baixa, criando um degrau entre os pratos. As cadeiras não combinavam. Faltaram garfos. Alguém recebeu um copo de plástico porque os de vidro haviam acabado.

— Agora podemos comer? — perguntou Marcelo.

Lúcia olhou para a porta.

— Seu irmão ainda não chegou.

A mesa inteira protestou.

— Ele sempre atrasa!

— A comida vai esfriar.

— Liga para ele.

— Eu falei meio-dia.

Dona Alzira resolveu a questão:

— Quem chega tarde esquenta no micro-ondas.

A autoridade dos oitenta anos encerrou o debate.

Começaram.

Nos primeiros minutos, ouviam-se apenas talheres, pedidos para passar a travessa e elogios à comida. Depois vieram as conversas paralelas.

Marcelo reclamou do preço do supermercado.

Camila comentou que estava procurando apartamento.

Vinícius disse que pretendia trocar de emprego.

Uma tia perguntou quando alguém pretendia casar.

Três pessoas fingiram não ouvir.

O namorado de Camila permaneceu concentrado no prato.

— Está gostando? — perguntou dona Alzira.

— Muito.

— Pode falar a verdade.

— Estou falando.

Ela apontou para a panela.

— Então repita.

Ele repetiu.

Foi aprovado provisoriamente.

A tranquilidade durou até Marcelo comentar que os jovens não sabiam economizar.

Vinícius largou o garfo.

— Lá vem.

— Estou falando sério. Na nossa idade, a gente juntava dinheiro.

— Na sua idade, apartamento custava quanto?

— Não interessa.

— Então interessa bastante.

Camila entrou na conversa. Uma tia defendeu Marcelo. Outro sobrinho começou a fazer contas no celular. Em poucos minutos, o almoço havia se transformado numa conferência econômica sem qualquer participante qualificado.

Dona Alzira continuou comendo.

Lúcia tentou mudar de assunto.

— Alguém quer mais arroz?

Ninguém ouviu.

— Na minha época… — começou Marcelo.

— Pronto — disse Vinícius. — Chegamos à “minha época”.

— Qual o problema da minha época?

— Nenhum. Só não dá para morar nela.

Houve um segundo de silêncio.

Marcelo tentou segurar o riso.

Não conseguiu.

Vinícius também riu.

A discussão morreu sem vencedor, como morrem muitas discussões familiares quando alguém percebe que a própria frase ficou melhor do que o argumento.

Foi então que o irmão atrasado apareceu.

Uma hora e vinte minutos depois do combinado.

Entrou carregando uma tigela.

— Trouxe maionese.

Lúcia olhou para ele.

— Você perdeu metade do almoço.

— Mas trouxe maionese.

— Isso não é justificativa.

— É contribuição.

Recebeu vaias e procurou um lugar para sentar.

Depois da comida vieram as fotografias.

Alguém encontrou no celular uma imagem antiga de dona Alzira jovem, ao lado do marido, numa praia.

Os netos se aproximaram.

— Vó, você usava esse cabelo?

— Usava.

— E o vô tinha bigode?

— Infelizmente.

Todos riram.

As fotografias seguintes produziram descobertas ainda mais perigosas: Marcelo de cabelo comprido, Lúcia com uma calça que jurou jamais ter possuído e uma tia usando óculos enormes.

Os mais jovens começaram a fotografar as fotografias.

— Para que vocês querem isso? — perguntou Marcelo.

— Para guardar.

— Mas está aqui no álbum.

— O álbum fica aqui.

— E precisa levar tudo no telefone?

Vinícius mostrou a fotografia do tio adolescente.

— Principalmente esta.

— Apaga.

— Agora ela pertence à história.

No meio da tarde, a mesa ainda estava cheia de pratos, xícaras, potes abertos e pedaços de sobremesa. As crianças tinham desaparecido para o quintal. Alguns adultos conversavam na cozinha. Outros já discutiam quem levaria o que sobrou.

Camila ajudava a avó a guardar o velho álbum quando encontrou uma folha dobrada entre duas páginas.

Era uma receita escrita à mão.

— Vó, é sua?

Dona Alzira colocou os óculos.

— Não. Era da minha mãe.

Lúcia aproximou-se.

— A receita do molho?

— Acho que sim.

As três começaram a ler.

No meio das instruções havia uma anotação:

“Duas folhas de louro.”

Lúcia olhou para a mãe.

Dona Alzira leu novamente.

— Deve estar errado.

— A senhora disse três.

— Sua avó devia ter mudado depois.

— Está escrito com a letra dela.

— Então ela esqueceu de corrigir.

Marcelo ouviu da sala:

— Mãe perdeu para um papel!

Dona Alzira fechou o álbum.

— No próximo domingo eu faço.

— Com quantas folhas? — perguntou Lúcia.

Ela pensou por alguns segundos.

— Três.

Ninguém discutiu.

Quando a tarde terminou, foram embora aos poucos. Levaram potes com comida, pedaços de sobremesa, fotografias no celular e assuntos que provavelmente voltariam no domingo seguinte.

Lúcia ficou na cozinha organizando a louça.

Sobre a mesa, encontrou a receita antiga.

Leu outra vez.

Duas folhas.

Pegou uma caneta e escreveu discretamente ao lado:

“A mãe insiste em três.”

Guardou a receita no álbum e colocou-o novamente no armário.

No domingo seguinte, certamente haveria outra discussão.

Talvez sobre dinheiro.

Talvez sobre casamento.

Talvez sobre política, futebol ou o horário combinado.

Quanto ao louro, esse assunto já parecia destinado a atravessar pelo menos mais uma geração.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Enfermeira que Parou o Tempo

Posted in Coleção - Crônicas on 13 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Às sete e vinte da manhã, Curitiba parecia ter colocado todos os carros na rua ao mesmo tempo.

A chuva caía pesada, o frio embaçava os vidros e os limpadores de para-brisa trabalhavam sem descanso. Na avenida, uma fila de veículos avançava alguns metros e parava novamente. Buzinas surgiam de todos os lados, embora ninguém soubesse exatamente para quem estavam buzinando. Talvez para o trânsito. Talvez para a chuva. Talvez porque algumas pessoas ainda acreditassem que uma buzina bem apertada pudesse abrir caminho entre quarenta carros.

Renata estava presa no meio daquela confusão.

Enfermeira havia doze anos, começaria o plantão às sete e meia e já sabia que não chegaria no horário. O celular, preso ao suporte do painel, marcava 7h23.

Ligou para uma colega pelo viva-voz.

— Paula, avisa que estou chegando. A avenida travou.

— Está tudo parado aqui também. Vem com cuidado.

— Cuidado eu tenho. Quem não tem é estrada.

Desligou.

O trânsito avançou cinco metros.

Parou.

Renata apoiou a cabeça no encosto e respirou fundo. À frente, um ônibus ocupava a faixa da direita. Alguns passageiros limpavam o vidro embaçado com as mãos para enxergar a rua.

Às 7h26, o ônibus começou a piscar o alerta.

O motorista abriu a porta, desceu sob a chuva e correu para o meio da avenida. Levantou os braços para os carros e gritou alguma coisa que ninguém conseguia ouvir.

Um motorista baixou o vidro.

— Que aconteceu?

— Tem alguém da saúde aí? Enfermeiro, médico, socorrista? Uma passageira está passando mal!

Renata abriu a porta antes de pensar no horário.

— Sou enfermeira!

Pegou a bolsa, atravessou entre os carros e correu até o ônibus.

Lá dentro, encontrou uma jovem grávida deitada sobre dois bancos. Uma passageira segurava sua mão, enquanto outra tentava acalmá-la. A bolsa havia rompido poucos minutos antes, e as contrações estavam muito próximas.

— Meu nome é Renata. Sou enfermeira. Como você se chama?

— Juliana.

— De quantas semanas?

— Trinta e nove.

Outra contração veio antes que ela terminasse de responder.

Renata avaliou rapidamente a situação.

— Chamaram o socorro?

O motorista mostrou o telefone.

— Já. Disseram que estão vindo, mas com esse trânsito…

Renata olhou pela janela.

A ambulância poderia estar a cinco quadras ou a cinco quilômetros. Naquela manhã, dava quase no mesmo.

— Juliana, olha para mim. Vamos respirar juntas.

A jovem apertou sua mão.

— Meu marido está trabalhando. Eu estava indo para a maternidade encontrar minha mãe. Achei que dava tempo.

— Bebê não costuma consultar itinerário de ônibus.

Juliana riu por menos de um segundo.

Depois gemeu novamente.

Do lado de fora, alguma coisa começou a acontecer.

O motorista de um caminhão percebeu a emergência e atravessou o veículo para bloquear parcialmente uma faixa. Um motociclista foi até o cruzamento avisar os outros condutores. Alguém desceu de um carro com um guarda-chuva e ficou protegendo a porta do ônibus.

As buzinas diminuíram.

Dentro do coletivo, os passageiros também encontraram funções sem que ninguém organizasse nada. Uma senhora ofereceu uma manta. Um rapaz entregou uma garrafa de água. Outra passageira telefonou para a mãe de Juliana.

— Ela quer falar com você.

— Agora não consigo falar nem comigo — respondeu a gestante.

Renata sorriu.

— Então deixa sua mãe esperar um pouquinho.

O trabalho de parto avançava depressa demais.

Renata percebeu que talvez não houvesse maternidade antes do nascimento.

Pediu espaço.

Orientou o motorista.

Organizou o que estava disponível.

O ônibus, que dez minutos antes levava quarenta desconhecidos preocupados apenas em chegar aos próprios destinos, tornou-se uma improvisada sala de espera onde ninguém perguntava mais que horas eram.

Lá fora, um homem de terno continuava parado junto ao carro. Tinha uma reunião marcada para as oito, mas agora segurava o guarda-chuva sobre a porta do ônibus.

O motociclista voltou correndo.

— A ambulância está vindo! Conseguiram abrir caminho!

Uma sirene apareceu ao longe.

Juliana ouviu.

— Está chegando?

Renata não sabia se ela perguntava pela ambulância ou pelo bebê.

— Está.

A resposta servia para os dois.

Quando os socorristas entraram no ônibus, encontraram Renata ajoelhada ao lado da gestante, ainda segurando sua mão.

A transferência foi rápida.

Os carros abriram espaço como puderam. O motorista do ônibus permaneceu na rua orientando o trânsito enquanto a maca era levada até a ambulância.

Antes de fecharem a porta, Juliana chamou:

— Renata!

Ela se aproximou.

— Obrigada.

— Depois você me conta quem chegou primeiro, você ou o bebê.

A porta fechou.

A sirene desapareceu pela avenida.

Renata voltou caminhando para o carro. Estava com os cabelos molhados, a barra da calça encharcada e as mãos geladas.

O homem que segurava o guarda-chuva perguntou:

— Deu tudo certo?

— Agora ela está com a equipe.

— Ainda bem.

Ele olhou para o relógio e fez uma careta.

— Perdi minha reunião.

Renata mostrou o próprio celular.

7h58.

— Eu perdi o começo do plantão.

O homem guardou o relógio debaixo da manga.

— Acho que hoje temos boas desculpas.

Os dois riram.

Renata entrou no carro.

O trânsito começou a andar lentamente. Um veículo de cada vez, depois dois, depois a avenida inteira retomou sua pressa habitual. As buzinas voltaram, os motociclistas procuraram espaço e os relógios continuaram cobrando compromissos como se nada tivesse acontecido.

Às oito e dezessete, Renata entrou no hospital.

Paula a encontrou no corredor.

— Pensei que você tivesse sido engolida pelo trânsito.

— Quase.

— O que aconteceu?

Renata começou a explicar, mas seu celular tocou.

Número desconhecido.

Atendeu.

Era o motorista do ônibus.

— Enfermeira, a moça pediu para avisar. O bebê nasceu na maternidade.

Renata encostou-se à parede.

— Está tudo bem?

— Os dois estão bem. Menina. Três quilos e duzentos.

— Que bom.

Houve uma pequena pausa.

— Ela também mandou dizer que o nome é Laura.

Renata agradeceu e desligou.

Paula esperava a continuação.

— E então?

Renata guardou o celular no bolso.

— Nasceu uma menina.

— No ônibus?

— Não. A Laura teve mais educação que o trânsito. Esperou chegar ao hospital.

Paula riu e as duas seguiram pelo corredor.

Do lado de fora, a chuva continuava batendo nas janelas. Em algum ponto da cidade, o ônibus provavelmente já retomara sua linha, recolhendo novos passageiros que não saberiam o que havia acontecido ali pouco antes.

Renata conferiu o relógio da enfermaria e iniciou o plantão.

O ponteiro não havia parado um único segundo naquela manhã.

Ainda assim, durante algum tempo, numa avenida cheia de gente atrasada, pareceu que ninguém se importou com ele.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Restaurante da Rodovia

Posted in Coleção - Crônicas on 12 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

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O restaurante ficava no quilômetro 218, depois de uma curva comprida e antes de um posto de combustível. Não tinha nome luminoso, fachada moderna nem qualquer preocupação em parecer bonito nas fotografias. Uma placa amarela anunciava COMIDA CASEIRA – ABERTO 24 HORAS, e isso bastava para quem chegava com fome.

Às onze e meia, o estacionamento começou a encher.

Primeiro vieram dois caminhões. Depois uma caminhonete coberta de barro, três carros de passeio, uma van e um ônibus que despejou quase quarenta passageiros de uma só vez.

Em poucos minutos, o restaurante parecia uma pequena cidade.

Marta trabalhava no caixa e reconhecia muitos clientes sem saber o nome de quase nenhum. Havia o caminhoneiro do boné azul, que sempre pedia café sem açúcar; a mulher da van branca, que comprava duas garrafas de água e nunca almoçava; o vendedor de ferramentas, que reclamava do preço da comida antes de repetir o prato; e um senhor de barba grisalha que aparecia duas ou três vezes por mês e perguntava:

— Hoje tem pudim?

Se não tivesse, parecia considerar aquilo uma falha grave na administração do estabelecimento.

Naquela terça-feira tinha.

— Então o dia começou direito — declarou ele.

Sentou-se numa mesa grande, já ocupada por um caminhoneiro e um casal que viajava com uma menina de aproximadamente oito anos.

Ali ninguém perguntava se podia sentar.

Se havia cadeira vazia, havia lugar.

O caminhoneiro cortava um pedaço de carne quando a menina apontou pela janela.

— Aquele caminhão vermelho é seu?

— É.

— Você dorme lá dentro?

— Às vezes.

— Tem televisão?

— Tem.

— Banheiro?

— Aí você já está querendo transformar em apartamento.

Os pais riram.

A menina continuou:

— E quando você sente sono?

— Eu paro.

— Meu pai não para.

O homem quase engasgou.

— Filha!

O caminhoneiro tomou um gole de refrigerante e olhou para o pai.

— Escuta a fiscalização.

Na mesa ao lado, dois trabalhadores de uma empresa de manutenção discutiam sobre qual deles havia esquecido uma caixa de ferramentas no último serviço. Nenhum aceitava a culpa, mas ambos concordavam que o encarregado descobriria antes do fim do dia.

Perto da janela, uma mulher falava ao telefone.

— Já disse que vou chegar. Não adianta perguntar de quinze em quinze minutos porque isso não faz o carro andar mais rápido.

Desligou, respirou fundo e pediu outro café.

O restaurante tinha esse tipo de intimidade involuntária. As mesas ficavam próximas demais, as conversas atravessavam corredores e, por alguns minutos, desconhecidos conheciam problemas que talvez nem os parentes soubessem.

Ao meio-dia começou a chover.

A água bateu forte no telhado metálico, e vários clientes que já haviam terminado o almoço desistiram de sair.

Marta percebeu imediatamente.

— Chuva aumenta o consumo de café.

O cozinheiro respondeu da porta:

— Então torce para chover até amanhã.

— Você que não limpa o banheiro.

Ele voltou para a cozinha sem discutir.

Um homem entrou correndo, protegendo a cabeça com um jornal. Estava encharcado dos joelhos para baixo e procurou uma mesa.

Não havia nenhuma.

O caminhoneiro do boné azul puxou uma cadeira.

— Cabe aqui.

O recém-chegado agradeceu e sentou.

Era representante comercial. Tinha saído de casa antes das seis e ainda pretendia visitar três clientes naquela tarde.

— Se essa chuva continuar, visito um e invento desculpa para dois.

— Planejamento estratégico — comentou o caminhoneiro.

— Meu chefe chama de baixa produtividade.

Não perguntaram os nomes um do outro.

Conversaram sobre o trânsito, os pedágios, um trecho da rodovia em obras e o café, que o representante considerava forte demais.

— Café de estrada tem que acordar até quem não está bebendo — disse o caminhoneiro.

Quando a chuva diminuiu, começaram as despedidas.

Na verdade, quase não havia despedidas.

As pessoas simplesmente levantavam.

Pagavam.

Usavam o banheiro.

Compravam água.

Voltavam para seus veículos.

A menina da mesa grande passou pelo caminhoneiro e acenou.

— Tchau, moço do caminhão vermelho!

— Tchau, fiscal!

O pai riu e conduziu a família até o carro.

O representante comercial conferiu o celular.

— Tenho quarenta e sete mensagens.

— Quantas importantes?

— Se eu soubesse, não precisava abrir as quarenta e sete.

Pegou a pasta e saiu.

O caminhoneiro terminou o café, pagou no caixa e recebeu o troco de Marta.

— Até a próxima.

— Se a estrada deixar.

— Ela sempre deixa. Só não avisa quando.

Pouco depois, o caminhão vermelho desapareceu na rodovia.

O carro da família seguiu para o lado contrário.

A van branca partiu.

O representante comercial tomou outro rumo.

Nenhum deles sabia o nome dos outros.

Às duas da tarde, o restaurante estava quase vazio.

Marta recolheu uma xícara esquecida e encontrou debaixo da mesa um desenho feito com lápis de cor no verso de um guardanapo de papel.

Era um caminhão vermelho enorme, com seis rodas de tamanhos diferentes. Na cabine, um homem de boné aparecia sorrindo.

Embaixo, a menina havia escrito:

BOA VIAGEM, MOÇO.

Marta colocou o desenho ao lado do caixa.

Talvez o caminhoneiro voltasse na semana seguinte.

Talvez dali a um mês.

Talvez nunca.

Às três e vinte, outro caminhão entrou no estacionamento.

Um homem que Marta nunca tinha visto abriu a porta e perguntou:

— Ainda tem almoço?

— Tem.

— E café?

— Desde que abriram a rodovia.

Ele riu, entrou e escolheu uma mesa.

Do lado de fora, os pneus continuavam riscando o asfalto molhado.

Dentro do restaurante, uma cadeira que havia ficado vazia acabava de receber outra história.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)