O Restaurante da Rodovia

(Betto Gasparetto)

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O restaurante ficava no quilômetro 218, depois de uma curva comprida e antes de um posto de combustível. Não tinha nome luminoso, fachada moderna nem qualquer preocupação em parecer bonito nas fotografias. Uma placa amarela anunciava COMIDA CASEIRA – ABERTO 24 HORAS, e isso bastava para quem chegava com fome.

Às onze e meia, o estacionamento começou a encher.

Primeiro vieram dois caminhões. Depois uma caminhonete coberta de barro, três carros de passeio, uma van e um ônibus que despejou quase quarenta passageiros de uma só vez.

Em poucos minutos, o restaurante parecia uma pequena cidade.

Marta trabalhava no caixa e reconhecia muitos clientes sem saber o nome de quase nenhum. Havia o caminhoneiro do boné azul, que sempre pedia café sem açúcar; a mulher da van branca, que comprava duas garrafas de água e nunca almoçava; o vendedor de ferramentas, que reclamava do preço da comida antes de repetir o prato; e um senhor de barba grisalha que aparecia duas ou três vezes por mês e perguntava:

— Hoje tem pudim?

Se não tivesse, parecia considerar aquilo uma falha grave na administração do estabelecimento.

Naquela terça-feira tinha.

— Então o dia começou direito — declarou ele.

Sentou-se numa mesa grande, já ocupada por um caminhoneiro e um casal que viajava com uma menina de aproximadamente oito anos.

Ali ninguém perguntava se podia sentar.

Se havia cadeira vazia, havia lugar.

O caminhoneiro cortava um pedaço de carne quando a menina apontou pela janela.

— Aquele caminhão vermelho é seu?

— É.

— Você dorme lá dentro?

— Às vezes.

— Tem televisão?

— Tem.

— Banheiro?

— Aí você já está querendo transformar em apartamento.

Os pais riram.

A menina continuou:

— E quando você sente sono?

— Eu paro.

— Meu pai não para.

O homem quase engasgou.

— Filha!

O caminhoneiro tomou um gole de refrigerante e olhou para o pai.

— Escuta a fiscalização.

Na mesa ao lado, dois trabalhadores de uma empresa de manutenção discutiam sobre qual deles havia esquecido uma caixa de ferramentas no último serviço. Nenhum aceitava a culpa, mas ambos concordavam que o encarregado descobriria antes do fim do dia.

Perto da janela, uma mulher falava ao telefone.

— Já disse que vou chegar. Não adianta perguntar de quinze em quinze minutos porque isso não faz o carro andar mais rápido.

Desligou, respirou fundo e pediu outro café.

O restaurante tinha esse tipo de intimidade involuntária. As mesas ficavam próximas demais, as conversas atravessavam corredores e, por alguns minutos, desconhecidos conheciam problemas que talvez nem os parentes soubessem.

Ao meio-dia começou a chover.

A água bateu forte no telhado metálico, e vários clientes que já haviam terminado o almoço desistiram de sair.

Marta percebeu imediatamente.

— Chuva aumenta o consumo de café.

O cozinheiro respondeu da porta:

— Então torce para chover até amanhã.

— Você que não limpa o banheiro.

Ele voltou para a cozinha sem discutir.

Um homem entrou correndo, protegendo a cabeça com um jornal. Estava encharcado dos joelhos para baixo e procurou uma mesa.

Não havia nenhuma.

O caminhoneiro do boné azul puxou uma cadeira.

— Cabe aqui.

O recém-chegado agradeceu e sentou.

Era representante comercial. Tinha saído de casa antes das seis e ainda pretendia visitar três clientes naquela tarde.

— Se essa chuva continuar, visito um e invento desculpa para dois.

— Planejamento estratégico — comentou o caminhoneiro.

— Meu chefe chama de baixa produtividade.

Não perguntaram os nomes um do outro.

Conversaram sobre o trânsito, os pedágios, um trecho da rodovia em obras e o café, que o representante considerava forte demais.

— Café de estrada tem que acordar até quem não está bebendo — disse o caminhoneiro.

Quando a chuva diminuiu, começaram as despedidas.

Na verdade, quase não havia despedidas.

As pessoas simplesmente levantavam.

Pagavam.

Usavam o banheiro.

Compravam água.

Voltavam para seus veículos.

A menina da mesa grande passou pelo caminhoneiro e acenou.

— Tchau, moço do caminhão vermelho!

— Tchau, fiscal!

O pai riu e conduziu a família até o carro.

O representante comercial conferiu o celular.

— Tenho quarenta e sete mensagens.

— Quantas importantes?

— Se eu soubesse, não precisava abrir as quarenta e sete.

Pegou a pasta e saiu.

O caminhoneiro terminou o café, pagou no caixa e recebeu o troco de Marta.

— Até a próxima.

— Se a estrada deixar.

— Ela sempre deixa. Só não avisa quando.

Pouco depois, o caminhão vermelho desapareceu na rodovia.

O carro da família seguiu para o lado contrário.

A van branca partiu.

O representante comercial tomou outro rumo.

Nenhum deles sabia o nome dos outros.

Às duas da tarde, o restaurante estava quase vazio.

Marta recolheu uma xícara esquecida e encontrou debaixo da mesa um desenho feito com lápis de cor no verso de um guardanapo de papel.

Era um caminhão vermelho enorme, com seis rodas de tamanhos diferentes. Na cabine, um homem de boné aparecia sorrindo.

Embaixo, a menina havia escrito:

BOA VIAGEM, MOÇO.

Marta colocou o desenho ao lado do caixa.

Talvez o caminhoneiro voltasse na semana seguinte.

Talvez dali a um mês.

Talvez nunca.

Às três e vinte, outro caminhão entrou no estacionamento.

Um homem que Marta nunca tinha visto abriu a porta e perguntou:

— Ainda tem almoço?

— Tem.

— E café?

— Desde que abriram a rodovia.

Ele riu, entrou e escolheu uma mesa.

Do lado de fora, os pneus continuavam riscando o asfalto molhado.

Dentro do restaurante, uma cadeira que havia ficado vazia acabava de receber outra história.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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