A Enfermeira que Parou o Tempo

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Às sete e vinte da manhã, Curitiba parecia ter colocado todos os carros na rua ao mesmo tempo.

A chuva caía pesada, o frio embaçava os vidros e os limpadores de para-brisa trabalhavam sem descanso. Na avenida, uma fila de veículos avançava alguns metros e parava novamente. Buzinas surgiam de todos os lados, embora ninguém soubesse exatamente para quem estavam buzinando. Talvez para o trânsito. Talvez para a chuva. Talvez porque algumas pessoas ainda acreditassem que uma buzina bem apertada pudesse abrir caminho entre quarenta carros.

Renata estava presa no meio daquela confusão.

Enfermeira havia doze anos, começaria o plantão às sete e meia e já sabia que não chegaria no horário. O celular, preso ao suporte do painel, marcava 7h23.

Ligou para uma colega pelo viva-voz.

— Paula, avisa que estou chegando. A avenida travou.

— Está tudo parado aqui também. Vem com cuidado.

— Cuidado eu tenho. Quem não tem é estrada.

Desligou.

O trânsito avançou cinco metros.

Parou.

Renata apoiou a cabeça no encosto e respirou fundo. À frente, um ônibus ocupava a faixa da direita. Alguns passageiros limpavam o vidro embaçado com as mãos para enxergar a rua.

Às 7h26, o ônibus começou a piscar o alerta.

O motorista abriu a porta, desceu sob a chuva e correu para o meio da avenida. Levantou os braços para os carros e gritou alguma coisa que ninguém conseguia ouvir.

Um motorista baixou o vidro.

— Que aconteceu?

— Tem alguém da saúde aí? Enfermeiro, médico, socorrista? Uma passageira está passando mal!

Renata abriu a porta antes de pensar no horário.

— Sou enfermeira!

Pegou a bolsa, atravessou entre os carros e correu até o ônibus.

Lá dentro, encontrou uma jovem grávida deitada sobre dois bancos. Uma passageira segurava sua mão, enquanto outra tentava acalmá-la. A bolsa havia rompido poucos minutos antes, e as contrações estavam muito próximas.

— Meu nome é Renata. Sou enfermeira. Como você se chama?

— Juliana.

— De quantas semanas?

— Trinta e nove.

Outra contração veio antes que ela terminasse de responder.

Renata avaliou rapidamente a situação.

— Chamaram o socorro?

O motorista mostrou o telefone.

— Já. Disseram que estão vindo, mas com esse trânsito…

Renata olhou pela janela.

A ambulância poderia estar a cinco quadras ou a cinco quilômetros. Naquela manhã, dava quase no mesmo.

— Juliana, olha para mim. Vamos respirar juntas.

A jovem apertou sua mão.

— Meu marido está trabalhando. Eu estava indo para a maternidade encontrar minha mãe. Achei que dava tempo.

— Bebê não costuma consultar itinerário de ônibus.

Juliana riu por menos de um segundo.

Depois gemeu novamente.

Do lado de fora, alguma coisa começou a acontecer.

O motorista de um caminhão percebeu a emergência e atravessou o veículo para bloquear parcialmente uma faixa. Um motociclista foi até o cruzamento avisar os outros condutores. Alguém desceu de um carro com um guarda-chuva e ficou protegendo a porta do ônibus.

As buzinas diminuíram.

Dentro do coletivo, os passageiros também encontraram funções sem que ninguém organizasse nada. Uma senhora ofereceu uma manta. Um rapaz entregou uma garrafa de água. Outra passageira telefonou para a mãe de Juliana.

— Ela quer falar com você.

— Agora não consigo falar nem comigo — respondeu a gestante.

Renata sorriu.

— Então deixa sua mãe esperar um pouquinho.

O trabalho de parto avançava depressa demais.

Renata percebeu que talvez não houvesse maternidade antes do nascimento.

Pediu espaço.

Orientou o motorista.

Organizou o que estava disponível.

O ônibus, que dez minutos antes levava quarenta desconhecidos preocupados apenas em chegar aos próprios destinos, tornou-se uma improvisada sala de espera onde ninguém perguntava mais que horas eram.

Lá fora, um homem de terno continuava parado junto ao carro. Tinha uma reunião marcada para as oito, mas agora segurava o guarda-chuva sobre a porta do ônibus.

O motociclista voltou correndo.

— A ambulância está vindo! Conseguiram abrir caminho!

Uma sirene apareceu ao longe.

Juliana ouviu.

— Está chegando?

Renata não sabia se ela perguntava pela ambulância ou pelo bebê.

— Está.

A resposta servia para os dois.

Quando os socorristas entraram no ônibus, encontraram Renata ajoelhada ao lado da gestante, ainda segurando sua mão.

A transferência foi rápida.

Os carros abriram espaço como puderam. O motorista do ônibus permaneceu na rua orientando o trânsito enquanto a maca era levada até a ambulância.

Antes de fecharem a porta, Juliana chamou:

— Renata!

Ela se aproximou.

— Obrigada.

— Depois você me conta quem chegou primeiro, você ou o bebê.

A porta fechou.

A sirene desapareceu pela avenida.

Renata voltou caminhando para o carro. Estava com os cabelos molhados, a barra da calça encharcada e as mãos geladas.

O homem que segurava o guarda-chuva perguntou:

— Deu tudo certo?

— Agora ela está com a equipe.

— Ainda bem.

Ele olhou para o relógio e fez uma careta.

— Perdi minha reunião.

Renata mostrou o próprio celular.

7h58.

— Eu perdi o começo do plantão.

O homem guardou o relógio debaixo da manga.

— Acho que hoje temos boas desculpas.

Os dois riram.

Renata entrou no carro.

O trânsito começou a andar lentamente. Um veículo de cada vez, depois dois, depois a avenida inteira retomou sua pressa habitual. As buzinas voltaram, os motociclistas procuraram espaço e os relógios continuaram cobrando compromissos como se nada tivesse acontecido.

Às oito e dezessete, Renata entrou no hospital.

Paula a encontrou no corredor.

— Pensei que você tivesse sido engolida pelo trânsito.

— Quase.

— O que aconteceu?

Renata começou a explicar, mas seu celular tocou.

Número desconhecido.

Atendeu.

Era o motorista do ônibus.

— Enfermeira, a moça pediu para avisar. O bebê nasceu na maternidade.

Renata encostou-se à parede.

— Está tudo bem?

— Os dois estão bem. Menina. Três quilos e duzentos.

— Que bom.

Houve uma pequena pausa.

— Ela também mandou dizer que o nome é Laura.

Renata agradeceu e desligou.

Paula esperava a continuação.

— E então?

Renata guardou o celular no bolso.

— Nasceu uma menina.

— No ônibus?

— Não. A Laura teve mais educação que o trânsito. Esperou chegar ao hospital.

Paula riu e as duas seguiram pelo corredor.

Do lado de fora, a chuva continuava batendo nas janelas. Em algum ponto da cidade, o ônibus provavelmente já retomara sua linha, recolhendo novos passageiros que não saberiam o que havia acontecido ali pouco antes.

Renata conferiu o relógio da enfermaria e iniciou o plantão.

O ponteiro não havia parado um único segundo naquela manhã.

Ainda assim, durante algum tempo, numa avenida cheia de gente atrasada, pareceu que ninguém se importou com ele.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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