(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na sala do segundo ano havia trinta e quatro carteiras, mas uma delas parecia valer por duas.
Era a última da fileira junto à janela, no fundo da sala.
Ninguém sabia quando começara a disputa. Talvez no primeiro mês de aula, quando descobriram que dali era possível enxergar o quadro inteiro, a porta, os colegas e ainda uma parte da quadra esportiva. Talvez fosse simplesmente porque adolescente gosta de acreditar que alguns metros de distância da mesa do professor constituem uma forma legítima de independência.
Na segunda-feira, Vinícius chegou quinze minutos antes do sinal e colocou a mochila sobre ela.
— Reservei.
Rafael entrou logo depois.
— Desde quando carteira tem reserva?
— Desde que eu cheguei primeiro.
— Então tira a mochila que vou desapropriar.
A discussão terminou quando Camila sentou no lugar enquanto os dois argumentavam.
— Pronto. “Reforma agrária” concluída!
Os três riram, e Vinícius acabou ocupando a carteira ao lado.
Aquele canto tinha suas vantagens. Ali circulavam bilhetes, comentários sobre a aula, desenhos feitos no verso das folhas e previsões absolutamente infundadas sobre o conteúdo da prova. Também era de lá que surgiam perguntas como:
— Professor, isso vale nota?
A pergunta geralmente aparecia antes mesmo de alguém saber o que deveria fazer.
Mas a carteira do fundo tinha uma fama maior do que merecia.
Os professores novos olhavam para ela com alguma prevenção. Quando surgia conversa durante a explicação, o primeiro olhar quase sempre ia naquela direção, mesmo que o barulho tivesse começado na primeira fileira.
Certa manhã, alguém derrubou uma régua.
O professor interrompeu a explicação e olhou imediatamente para Vinícius.
— Nem fui eu.
— Não falei que foi.
— Mas olhou com acusação.
A turma riu.
— Meu olhar ainda não vale como prova.
— Ainda bem.
Era esse tipo de conversa que mantinha a reputação do lugar.
No começo de agosto chegou um aluno novo.
Chamava-se André.
Entrou acompanhado da pedagoga, carregando uma mochila preta e aquele desconforto facilmente reconhecível de quem chega quando todos os grupos já parecem formados.
— Pessoal, este é o André. Veio de outra escola.
Alguns disseram “oi”. Outros apenas levantaram a cabeça.
A pedagoga saiu.
Restava uma carteira vazia.
Justamente a do fundo.
André caminhou até ela e sentou.
Vinícius, que naquele dia havia chegado atrasado, parou ao lado.
— Essa carteira…
André levantou imediatamente.
— Foi mal. Não sabia que tinha lugar marcado.
Vinícius percebeu que ele estava realmente disposto a sair.
— Tem não. Eu ia dizer que essa carteira balança. Coloca um papel dobrado no pé esquerdo.
André sentou novamente.
No intervalo, porém, não saiu.
Enquanto a turma corria para o pátio, permaneceu mexendo no celular.
Camila percebeu.
— Você não vai comer?
— Não estou com fome.
— A cantina vende uma coxinha capaz de mudar essa opinião.
Ele sorriu pela primeira vez.
Foi com eles.
Nos dias seguintes, a última carteira perdeu temporariamente sua disputa tradicional. Ninguém comentou. André continuou ocupando o lugar, e Vinícius passou para a fileira ao lado.
Foi assim que começaram a descobrir algumas coisas sobre ele.
Desenhava muito bem.
Era péssimo no vôlei.
Sabia tocar violão.
Tinha dificuldade em matemática e uma habilidade quase profissional para imitar a voz do locutor que anunciava os avisos da escola.
Também descobriram por que falava tão pouco.
A família havia mudado de cidade depois que o pai perdera o emprego. André deixara amigos, time de futsal e uma garota com quem estava começando a namorar.
— Ela terminou? — perguntou Rafael.
— Não.
— Então vocês estão namorando?
— Também não sei.
— Relacionamento moderno.
— Mais ou menos.
— Complicado?
— Bastante.
— Então é moderno.
A conversa terminou em risadas.
Algumas semanas depois, durante uma prova de matemática, André ficou olhando para a folha por vários minutos.
Vinícius percebeu seu nervosismo.
Não podia ajudar.
A professora caminhava entre as fileiras.
André apagava contas, recomeçava, mordia a ponta da caneta e olhava para o relógio.
Quando entregou a prova, saiu sem conversar com ninguém.
No dia seguinte faltou.
Também não apareceu no outro.
Na sexta-feira, Camila mandou uma mensagem.
A resposta demorou:
“Acho que vou voltar para minha antiga cidade.”
Na segunda-feira, a carteira permaneceu vazia.
Ninguém colocou mochila sobre ela.
Na terça, também.
Vinícius chegou cedo, olhou para o lugar e escolheu outra carteira.
— Não vai sentar lá? — perguntou Rafael.
— Hoje não.
Na quarta-feira, poucos minutos antes da aula, André apareceu na porta.
Entrou devagar.
— Achei que você tinha ido embora — disse Camila.
— Quase.
— E aí?
Ele ajeitou a mochila no ombro.
— Minha mãe conseguiu trabalho aqui.
Rafael apontou para o fundo.
— Seu imóvel está disponível.
André caminhou até a última carteira.
Havia um papel dobrado sobre o assento.
Abriu.
ALUGUEL ATRASADO: 3 COXINHAS.
Ele começou a rir.
Sentou-se e colocou o papel sob o pé esquerdo da carteira, exatamente onde Vinícius havia ensinado no primeiro dia.
Parou de balançar.
A aula começou.
Alguns minutos depois, o professor fez uma pergunta difícil. Ninguém respondeu.
André levantou a mão.
Acertou.
Vinícius virou para trás.
— Olha ele…
André deu de ombros.
— Estudei.
No intervalo, os quatro saíram juntos.
A carteira ficou vazia por vinte minutos, com alguns riscos de caneta, um chiclete antigo grudado por baixo e o papel das três coxinhas sustentando um dos pés.
No ano seguinte, outra turma ocuparia aquela sala.
Alguém certamente correria para o fundo e colocaria a mochila sobre ela antes dos demais.
Talvez dissesse:
— Reservei.
E a disputa começaria outra vez, sem que ninguém soubesse quem havia sentado ali antes ou por que um pedaço de papel dobrado continuava debaixo do pé esquerdo.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)








