O Sinal Fechado
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
O sinal fechou às sete e quarenta e três, justamente quando Marcelo decidiu que ainda conseguiria chegar ao trabalho sem precisar inventar uma desculpa muito elaborada. Tinha saído de casa doze minutos atrasado, o café no copo térmico já estava morno e, para completar, uma garoa fina começava a engrossar sobre o para-brisa.
Bateu os dedos no volante e conferiu o relógio do painel.
— Vamos, vamos…
O semáforo, indiferente aos compromissos profissionais de Marcelo, continuou vermelho.
Na avenida, três filas de carros se acumulavam diante do cruzamento. Um ônibus parou na faixa exclusiva, duas motocicletas se espremeram entre os veículos e um motorista, quatro carros atrás, começou a buzinar sem que houvesse qualquer lugar para onde os demais pudessem ir.
Marcelo olhou pelo retrovisor.
— Deve estar querendo que a gente passe por cima.
Foi quando apareceu o vendedor de balas.
Era um rapaz magro, talvez com pouco mais de vinte anos, usando uma capa de chuva transparente sobre uma camiseta vermelha. Carregava vários pacotes presos ao braço e caminhava entre os carros com a segurança de quem conhecia o tempo daquele semáforo melhor do que os engenheiros de trânsito.
— Três por dez! Bala, paçoca, amendoim! Três por dez!
Alguns motoristas levantavam o vidro quando ele se aproximava. Outros recusavam com a cabeça. Uma senhora comprou duas paçocas e perguntou se ele tinha troco para cinquenta.
— Tenho até para cem, dona. Hoje comecei rico.
Ela riu.
O motorista atrás buzinou novamente.
A senhora colocou a cabeça para fora da janela.
— Se continuar buzinando, vou escolher o sabor também!
Dessa vez, até Marcelo riu.
O sinal abriu e todos avançaram como se tivessem recebido autorização para fugir da cidade. Duzentos metros depois, outra luz vermelha interrompeu a corrida.
Marcelo respirou fundo.
Naquele cruzamento havia um homem vendendo água e outro oferecendo carregadores de celular. Mais adiante, um rapaz limpava para-brisas. Aproximou-se de um carro preto, recebeu uma negativa e seguiu para o próximo. Uma mulher aceitou o serviço.
Enquanto ele passava o rodo no vidro, o sinal ficou verde.
As buzinas começaram imediatamente.
A mulher procurava dinheiro dentro da bolsa, mas o rapaz já havia se afastado para liberar a passagem. Ela avançou alguns metros, encostou perto do meio-fio e esperou que ele viesse buscar o pagamento.
Marcelo observou pelo retrovisor enquanto seguia adiante.
No terceiro semáforo aconteceu algo curioso.
O vendedor de balas apareceu novamente.
Marcelo abaixou o vidro.
— Você está me seguindo?
O rapaz reconheceu o carro e respondeu:
— Eu estou trabalhando no mesmo lugar, chefe. Quem está rodando é o senhor.
Marcelo caiu na risada.
— Quanto é mesmo?
— Três por dez.
— Quero só um.
— Um custa quatro.
— Mas três custam dez?
— Estratégia comercial.
— Então você está me obrigando a economizar gastando mais?
— Agora o senhor entendeu o comércio brasileiro.
Marcelo entregou dez reais e recebeu os três pacotes.
— Você fica aqui todos os dias?
— De segunda a sábado. Quando chove, vendo menos bala e mais amendoim.
— Por quê?
O rapaz deu de ombros.
— Não faço ideia. Mas acontece.
Antes que Marcelo pudesse continuar a conversa, uma menina apareceu entre os carros vendendo panos de prato. O rapaz abriu espaço para ela passar e voltou para o canteiro central.
O sinal abriu.
Marcelo seguiu pela avenida com um pacote de balas no banco do passageiro e dois no bolso lateral da porta.
A garoa havia virado chuva. Nas calçadas, pessoas disputavam espaço sob as marquises. Um homem protegia a cabeça com uma pasta. Uma mulher corria carregando os sapatos nas mãos. No ponto de ônibus, passageiros se apertavam debaixo de uma cobertura pequena demais para tanta gente.
No cruzamento seguinte, Marcelo encontrou uma senhora atravessando a faixa com dificuldade. Caminhava devagar, apoiada numa bengala, enquanto o contador luminoso diminuía depressa.
Oito segundos.
Sete.
Seis.
Um entregador de bicicleta que aguardava no cruzamento percebeu a situação. Desceu, segurou a bicicleta com uma mão e ofereceu o outro braço à senhora. Os dois chegaram à calçada quando o contador já piscava no zero.
O sinal ficou verde.
Ninguém conseguiu avançar imediatamente porque o entregador ainda retornava para a bicicleta.
Uma buzina soou.
Depois outra.
Marcelo levou a mão ao volante.
Parou antes de apertar.
O rapaz montou na bicicleta, fez um gesto de agradecimento e seguiu.
Quando Marcelo finalmente chegou ao último cruzamento antes da empresa, estava vinte e três minutos atrasado. O relógio no painel parecia fazer questão de lembrá-lo disso.
O amarelo apareceu a poucos metros.
Havia tempo para acelerar.
O carro ao lado acelerou.
Marcelo também pisou no pedal, mas percebeu um homem correndo em direção à faixa, tentando alcançar o ônibus parado do outro lado da avenida.
Reduziu.
O sinal fechou.
O motorista atrás imediatamente buzinou.
Marcelo olhou pelo retrovisor. O homem gesticulava alguma coisa dentro do carro, claramente indignado com aqueles segundos perdidos.
Marcelo pegou um dos pacotes de balas e abriu.
O pedestre atravessou correndo e conseguiu alcançar o ônibus. Antes de subir, ainda levantou a mão na direção dos carros, num agradecimento que provavelmente ninguém considerou dirigido a si.
A chuva escorria pelo para-brisa. Os limpadores trabalhavam de um lado para o outro, empurrando a água que imediatamente voltava.
Marcelo mastigou uma bala e observou o movimento.
À sua direita, uma mulher retocava o batom olhando pelo espelho do carro. Um motociclista ajeitava a capa de chuva. Dentro de um ônibus, uma criança desenhava alguma coisa no vidro embaçado. Na calçada, um homem dividia um guarda-chuva pequeno com uma mulher e os dois tentavam caminhar sem que nenhum deles ficasse completamente molhado.
Tudo isso acontecia enquanto ele esperava.
O semáforo abriu.
Dessa vez, Marcelo demorou talvez dois segundos para perceber.
A buzina atrás dele veio imediatamente.
Ele arrancou devagar.
Chegou ao estacionamento da empresa às oito e onze. Desligou o carro, pegou a pasta e encontrou os dois pacotes de balas que sobraram.
Pensou no rapaz da capa transparente.
Três por dez.
Guardou um pacote na pasta e deixou o outro no porta-luvas.
Quando fechou a porta, ouviu ao longe uma sequência de buzinas vindo da avenida.
Provavelmente outro sinal havia fechado.
Marcelo olhou naquela direção por alguns segundos.
Depois entrou na empresa.
Na avenida, o vermelho continuava fazendo aquilo que sempre fizera: segurava carros por alguns instantes.
O que acontecia durante esses instantes já não era problema do semáforo.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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