Arquivo para agosto, 2026

O Anel que Tu me Destes

Posted in Sem categoria on 6 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O anel era simples.

Prata antiga.

Sem pedras preciosas.

Por dentro, uma pequena inscrição já quase apagada pelo tempo:

“O anel que tu me destes…”

O restante da frase havia desaparecido.

Ninguém sabia quem o mandara gravar.

Nem para quem.

Tudo começou quando dona Cecília o encontrou sobre um banco da Praça Osório.

Esperou alguns minutos.

Olhou em volta.

Perguntou a quem passava.

Ninguém reclamou o objeto.

Levou-o até a administração da praça.

Passaram-se trinta dias.

Nenhum dono apareceu.

A funcionária devolveu o anel.

— Pela lei, agora pertence à senhora.

Cecília sorriu.

— Não gosto de usar anéis.

Guardou-o em uma gaveta.

Meses depois, resolveu presentear a neta no aniversário de dezoito anos.

— Não vale muito.

Mas talvez carregue uma boa história.

A jovem agradeceu.

Usou o anel durante algum tempo.

Até o dia em que terminou um namoro.

Ao olhar para a pequena inscrição incompleta, achou que aquilo parecia ironia.

Guardou-o novamente.

Anos mais tarde, durante uma mudança, encontrou a pequena caixa esquecida.

Decidiu vendê-la em um antiquário.

O dono examinou a peça.

— Curioso…

O valor não está na prata.

Está no mistério.

Dias depois, um professor de História apaixonou-se pelo objeto.

Comprou-o.

Não pela beleza.

Pela frase interrompida.

Mostrava o anel aos alunos.

— Vejam como uma história incompleta desperta mais perguntas do que muitas respostas.

Após sua morte, os filhos doaram parte dos objetos pessoais para um bazar beneficente.

O anel voltou a circular.

Uma atriz o comprou para usar em uma peça teatral.

Um ourives o restaurou.

Um colecionador quase o levou para outro país.

Mas desistiu na última hora.

Décadas se passaram.

O pequeno anel conheceu bolsos, cofres, vitrines, gavetas e dedos diferentes.

Foi símbolo de amor.

De saudade.

De superstição.

De sorte.

De simples decoração.

Cada dono inventava uma explicação.

Nenhuma igual à anterior.

Certo sábado, um menino entrou em um antiquário acompanhado do avô.

Enquanto observava objetos antigos, apontou para o anel.

— Quem foi que perdeu isso?

O vendedor sorriu.

— Talvez ninguém.

Talvez todo mundo.

O avô pegou a peça.

Leu lentamente a inscrição.

Ficou alguns segundos em silêncio.

Depois a devolveu.

— Engraçado…

O anel nunca mudou.

Quem mudou foram as pessoas que passaram por ele.

Saíram da loja de mãos dadas.

O anel permaneceu na vitrine.

Esperando o próximo dono.

Ou melhor…

A próxima história.

Porque os objetos raramente transformam as pessoas.

São as pessoas que depositam neles seus medos, afetos, esperanças e arrependimentos.

Talvez por isso uma sociedade não seja construída apenas por leis, documentos ou papéis.

Ela é feita de lembranças compartilhadas, gestos silenciosos e histórias que passam de mão em mão.

Assim como aquele velho anel.

Que nunca encontrou definitivamente seu dono.

Mas encontrou, ao longo do caminho, um pouco da humanidade de cada um que o segurou.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Caixa Eletrônico

Posted in Sem categoria on 5 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Era segunda-feira.

E, como toda segunda-feira, a agência bancária parecia ter decidido concentrar toda a cidade no mesmo lugar.

A fila dos caixas eletrônicos avançava lentamente.

Uns consultavam o saldo.

Outros pagavam contas.

Havia quem apenas sacasse dinheiro para a semana.

No terceiro terminal, um aviso surgiu de repente na tela.

“Sistema temporariamente indisponível.”

O rapaz que operava a máquina apertou um botão.

Depois outro.

Tentou novamente.

Nada.

Resmungou.

— Justo hoje…

A senhora que aguardava atrás dele perguntou:

— Estragou?

— Acho que sim.

Em poucos minutos, os outros caixas começaram a apresentar o mesmo problema.

O silêncio inicial deu lugar às reclamações.

— Banco moderno, mas vive fora do ar.

— A gente paga tarifa para isso.

— Sempre acontece quando mais precisamos.

Um homem de terno olhava o relógio sem parar.

Uma estudante dizia que perderia o horário da faculdade.

Um aposentado precisava sacar dinheiro para comprar remédios.

Uma jovem mãe tentava acalmar um menino impaciente, já cansado de esperar.

Enquanto todos olhavam para as telas apagadas, um senhor de cabelos brancos aproximou-se de uma senhora que segurava um papel cheio de anotações.

— A senhora precisa de ajuda?

Ela sorriu, um pouco envergonhada.

— Meu neto sempre faz isso para mim.

Hoje ele está viajando.

Era um pagamento de água.

O homem sentou ao lado dela.

Explicou calmamente como usar o aplicativo do banco.

Ela anotava tudo em um pequeno caderno.

Cada passo.

Cada botão.

Quando conseguiu concluir a operação, abriu um sorriso que parecia de criança aprendendo algo novo.

— Consegui!

Os dois comemoraram discretamente.

Perto dali, a jovem mãe tentava entreter o filho.

O menino observava um senhor segurando uma bengala.

Aproximou-se.

— O senhor quer sentar?

O idoso sorriu.

— Aceito.

Obrigado.

A mãe pediu desculpas pela ousadia do filho.

O homem respondeu:

— Não peça.

Educação nunca atrapalha.

Enquanto isso, o rapaz que reclamara da pane percebeu um funcionário do banco tentando explicar a situação para dezenas de clientes ao mesmo tempo.

Aproximou-se.

— Quer que eu organize a fila?

O funcionário aceitou imediatamente.

Em poucos minutos, distribuiu senhas, orientou idosos, indicou outros caixas disponíveis e ajudou pessoas que nem conhecia.

Curiosamente, ninguém mais falava da pane.

Falavam uns com os outros.

Quase uma hora depois, o sistema voltou.

As telas acenderam.

As operações recomeçaram.

Os clientes foram embora aos poucos.

Antes de sair, a senhora do caderno aproximou-se do rapaz que organizara a fila.

— Hoje eu aprendi a pagar uma conta pelo celular.

Ele respondeu sorrindo:

— E eu aprendi que reclamar ocupa muito mais tempo do que ajudar.

Do lado de fora, a vida seguia normalmente.

Carros.

Ônibus.

Pessoas apressadas.

Cada uma voltando para seus compromissos.

A pane seria esquecida em poucos dias.

Talvez nem aparecesse nas estatísticas do banco.

Mas, para quem esteve ali naquela manhã, ficou uma lembrança diferente.

Às vezes, basta uma máquina deixar de funcionar para que as pessoas voltem a fazer aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir.

Olhar umas para as outras.

E descobrir que, antes de sermos clientes, somos simplesmente pessoas.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Sacola de 20 Mil Dólares

Posted in Sem categoria on 4 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A chuva daquela manhã havia chegado sem aviso.

Não era uma tempestade forte, daquelas que assustam as pessoas.

Era uma chuva tranquila, constante, que molhava as plantas, escorria pelas calçadas e deixava o jardim da casa de dona Helena ainda mais bonito.

Aos setenta e oito anos, ela mantinha o mesmo hábito todos os dias.

Antes do café, caminhava lentamente pela escadaria de pedras que levava ao pequeno jardim da frente.

Gostava de observar as flores.

Dizia que as plantas também percebiam quando alguém cuidava delas.

Naquela manhã, porém, algo diferente chamou sua atenção.

Entre o segundo e o terceiro degrau havia uma sacola escura.

Não parecia lixo.

Estava bem fechada.

Protegida da chuva por uma pequena parte do muro.

Dona Helena olhou para os lados.

A rua estava vazia.

Apenas o som da água caindo.

Pegou a sacola com cuidado e levou para dentro de casa.

Pensou que talvez algum vizinho tivesse deixado cair.

Talvez alguém estivesse procurando.

Ao abrir, imaginou encontrar documentos, compras ou algum objeto pessoal.

Mas ficou completamente parada quando viu o conteúdo.

Dentro havia vários maços de dinheiro.

Dólares.

Muitos dólares.

Sentou-se na cadeira da cozinha.

Por alguns segundos, apenas olhou.

Qualquer pessoa poderia imaginar muitas coisas naquele momento.

Uma reforma na casa.

Uma viagem.

Uma ajuda para os filhos.

Uma tranquilidade financeira que talvez nunca tivesse conhecido.

Mas dona Helena fechou a sacola novamente.

Pegou o telefone.

— Preciso comunicar uma coisa que encontrei.

Pouco tempo depois, agentes foram até sua casa.

O dinheiro foi contado.

Vinte mil dólares.

A notícia se espalhou rapidamente.

Alguns vizinhos ficaram admirados.

Outros fizeram comentários.

— Eu não sei se teria essa coragem.

— É muito dinheiro.

— Talvez ninguém nunca descobrisse.

Dona Helena apenas respondeu:

— Mas eu descobriria.

E isso já seria suficiente.

As autoridades iniciaram a investigação para localizar o dono.

Analisaram imagens de câmeras próximas.

Conversaram com moradores.

Verificaram registros.

Dois dias depois, encontraram a resposta.

A sacola pertencia a um homem chamado Ricardo.

Ele morava a poucas quadras dali.

Quando chegou à casa de dona Helena, parecia não acreditar.

Antes mesmo de receber o dinheiro, segurou as mãos dela.

— A senhora não imagina o que fez.

Ela sorriu.

— Apenas devolvi algo que não era meu.

Ricardo explicou a história.

O dinheiro era resultado de anos de economia.

Ele venderia uma pequena propriedade herdada da família e usaria aquele valor para realizar um tratamento médico da esposa em outro país.

Naquela manhã chuvosa, havia saído apressado de casa.

Ao passar pela escadaria, a sacola caiu sem perceber.

Quando percebeu a perda, voltou desesperado pelo caminho.

Mas já não estava mais lá.

Durante a conversa, dona Helena descobriu algo curioso.

Ricardo conhecia seu marido.

Muitos anos antes, quando era jovem, ele havia recebido ajuda dele para conseguir seu primeiro emprego.

— Seu marido acreditou em mim quando ninguém acreditava.

Ela ficou em silêncio.

Nunca imaginou que aquele dinheiro encontrado no jardim também carregava uma antiga história de gratidão.

Na semana seguinte, Ricardo voltou com um presente.

Uma muda de árvore.

Plantaram juntos no jardim.

— Para lembrar desse dia — disse ele.

Dona Helena respondeu:

— Não precisa lembrar do dinheiro.

Lembre-se apenas que ainda existem pessoas tentando fazer o certo.

Com o passar dos meses, a árvore cresceu.

Assim como a história.

Não pelo valor encontrado na sacola.

Mas pela escolha de uma senhora que poderia ter ficado em silêncio e decidiu fazer exatamente o contrário.

Porque algumas pessoas acreditam que honestidade é devolver aquilo que pertence aos outros.

Outras descobrem algo ainda maior:

Honestidade é continuar sendo correto mesmo quando ninguém está olhando.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Boca Maldita

Posted in Sem categoria on 3 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Quem chega pela primeira vez ao centro de Curitiba logo ouve alguém dizer:

— Você já passou na Boca Maldita?

Quem não conhece imagina um lugar perigoso.

Alguns pensam tratar-se de uma lanchonete famosa.

Outros acreditam ser uma antiga lenda da cidade.

Mas basta caminhar pela Rua das Flores para descobrir que a Boca Maldita é muito mais do que um ponto turístico.

É um ponto de conversa.

Logo pela manhã, o aroma do café recém-passado já toma conta da calçada.

Os copos fumegantes circulam de mão em mão.

Alguns preferem sentar.

Outros permanecem em pé.

E há aqueles que parecem frequentar o lugar apenas para ouvir.

Ali se encontram aposentados, comerciantes, jornalistas, estudantes, funcionários públicos, turistas e curiosos.

Não existe convite.

Quem chega acaba participando.

Naquela manhã, um casal de visitantes do interior observava tudo com curiosidade.

— Por que esse lugar está sempre cheio? — perguntou a mulher.

O dono da cafeteria sorriu enquanto servia dois cafés.

— Porque aqui o café esquenta a conversa.

Antes que ela pudesse responder, um senhor de boina aproximou-se da roda.

— Bom dia! Já ficaram sabendo?

Ninguém respondeu.

Era justamente isso que todos esperavam.

— A exposição nova do museu abriu ontem.

Dizem que está excelente.

Outro comentou:

— E a feira gastronômica da praça vai até domingo.

Uma senhora completou:

— A floricultura da esquina recebeu mudas lindas de hortênsias.

Um rapaz interrompeu:

— O trânsito na região sul está complicado por causa das obras.

As notícias mudavam de assunto com a mesma rapidez que os goles de café.

Falava-se de cultura.

De esporte.

Do frio que chegaria à noite.

De um concerto gratuito.

Da padaria que havia mudado de endereço.

Da livraria que reabrira depois da reforma.

Um turista cochichou para a esposa:

— Parece um jornal falado.

O senhor da boina ouviu.

Virou-se sorrindo.

— Melhor.

Aqui a notícia pode fazer perguntas de volta.

Todos riram.

Pouco depois, uma estudante pediu licença.

— Alguém sabe onde fica o antigo Paço Municipal?

Três pessoas responderam ao mesmo tempo.

Cada uma indicando um caminho diferente.

Depois de alguns segundos de discussão, chegaram a um consenso.

A jovem agradeceu.

Antes de sair, ouviu mais um conselho:

— Vá caminhando devagar.

Curitiba revela mais quando a gente anda sem pressa.

Ela seguiu sorrindo.

O movimento continuava.

Ninguém parecia dono da conversa.

As rodas se formavam e se desfaziam naturalmente.

Alguns permaneciam cinco minutos.

Outros passavam a manhã inteira.

Ao meio-dia, o casal do interior terminou o café.

Antes de ir embora, o homem comentou:

— Achei que viria conhecer um ponto turístico.

Acabei conhecendo um jeito de a cidade conversar consigo mesma.

O atendente enxugou uma xícara e respondeu:

— Os monumentos contam a história de uma cidade.

Mas são as pessoas que a mantêm viva.

Enquanto caminhavam novamente pela Rua das Flores, o casal percebeu que a Boca Maldita não era famosa pelas discussões, nem pelos comentários espirituosos, nem mesmo pelo excelente cafezinho servido nas redondezas.

Era conhecida porque ali as notícias ganhavam voz, as novidades encontravam ouvintes e desconhecidos descobriam que uma boa conversa ainda é uma das formas mais simples de aproximar pessoas.

Talvez seja esse o verdadeiro encanto daquele pequeno espaço no coração de Curitiba.

Não importa de onde alguém venha.

Sempre haverá uma roda aberta, uma cadeira disponível e um café quente esperando para acompanhar mais uma boa história.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Varal do Quintal

Posted in Sem categoria on 2 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Quem passava pela rua quase nunca prestava atenção.

No fundo do quintal, esticado entre um pé de goiaba e o muro dos fundos, havia um varal antigo.

Dois fios de aço.

Alguns pregadores de madeira.

Nada mais.

Mas dona Margarida dizia que aquele varal contava histórias.

Não com palavras.

Com roupas.

Durante muitos anos, o quintal amanhecia cheio de uniformes escolares.

Camisetas pequenas.

Calças de moletom.

Meias desencontradas.

Toalhas de banho coloridas.

Os meninos atravessavam o quintal correndo, derrubando pregadores e levando bronca antes mesmo do café da manhã.

— Não puxem a toalha molhada!

— Esperem secar a camisa!

— Quem mexeu no lençol?

Era um barulho bom.

Daqueles que fazem parte da casa.

Com o passar dos anos, as camisetas começaram a crescer.

Os uniformes infantis desapareceram.

No lugar deles vieram calças jeans, moletons universitários e camisetas de academias.

As manhãs ficaram mais silenciosas.

Um sábado, dona Margarida percebeu que havia apenas duas roupas no varal.

Olhou para a casa.

O filho mais velho havia se mudado para outra cidade por causa do trabalho.

A filha passava a semana inteira na faculdade.

O caçula começara um estágio e saía antes do nascer do sol.

Ainda havia gente morando ali.

Mas a rotina já era outra.

Alguns meses depois, surgiram roupas muito pequenas.

Macacõezinhos.

Fraldas de pano.

Cobertores delicados.

A vizinha perguntou pelo muro:

— Receberam visitas?

Dona Margarida sorriu.

— Não.

Recebemos um neto.

O quintal voltou a ter risadas.

Carrinho de bebê.

Brinquedos esquecidos na grama.

Chinelos minúsculos espalhados pela varanda.

O velho varal parecia mais cheio do que nunca.

Os anos continuaram passando.

Numa manhã de inverno, havia apenas camisas sociais, uma blusa de lã e duas toalhas brancas.

Seu Alberto já estava aposentado.

Os filhos visitavam aos domingos.

O neto aparecia nas férias.

Enquanto estendia as roupas, dona Margarida ficou alguns instantes olhando para os pregadores.

Ainda havia um azul desbotado.

Outro vermelho, rachado pelo tempo.

Reconheceu cada um.

Alguns estavam ali havia mais de vinte anos.

Naquele momento, o portão se abriu.

O neto entrou correndo.

Atrás dele vinha a filha carregando uma cesta de roupas.

— Mãe, a máquina de lavar lá de casa estragou. Posso usar o seu varal?

Dona Margarida riu.

— Claro.

Sempre cabe mais um.

Pouco tempo depois, o quintal voltou a se encher.

Peças grandes.

Peças pequenas.

Uniforme da escola.

Roupinhas de bebê.

Toalhas coloridas.

Meias sem par.

Seu Alberto observou a cena da varanda.

— Engraçado…

O varal nunca ficou velho.

Só foi acompanhando a idade da família.

Dona Margarida terminou de prender o último lençol.

O vento começou a balançar todas as roupas ao mesmo tempo.

Pareciam acenar umas para as outras.

Ela sorriu.

As fotografias costumam guardar os rostos.

Os documentos registram datas.

Mas, às vezes, é um simples varal no quintal que revela, sem dizer uma única palavra, tudo o que mudou na vida de uma família.

E, enquanto houver roupas secando ao vento, sempre haverá alguma história continuando dentro daquela casa.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)