Arquivo para julho, 2026

O CAIXA DO SUPERMERCADO

Posted in Sem categoria on 16 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No supermercado, todas as compras parecem começar iguais.

Um carrinho.

Uma cesta.

Uma lista escrita às pressas.

No fim, nenhuma delas se parece com outra.

O caixa nunca pergunta quem é cada pessoa.

Também não precisa.

Há muitos anos aprendeu que os carrinhos chegam antes das palavras.

E quase sempre dizem mais.

Logo pela manhã aparece um carrinho pequeno.

Um pacote de café.

Pão francês.

Leite.

Uma manteiga.

Bananas.

Nada sobra.

Nada falta.

Quem o empurra conhece o preço de cada produto antes mesmo de olhar a etiqueta.

Enquanto espera a fila andar, confere discretamente a soma no visor da registradora.

Faz pequenas contas de cabeça.

Quando o valor ultrapassa o esperado, pede que retirem um chocolate.

Sorri ao fazer o pedido.

Mas o sorriso termina antes do troco.

Pouco depois chega outro carrinho.

Fraldas.

Lenços umedecidos.

Pomada.

Mamadeiras.

Um pacote enorme de papel higiênico.

No meio de tudo, escondida entre caixas e embalagens, uma pequena girafa de pelúcia.

O pai tenta colocá-la novamente sob as compras.

A menina a retira.

Abraça.

Sorri.

Ele desiste.

Algumas compras nunca estiveram na lista.

Mais tarde, uma senhora deposita lentamente seus produtos sobre a esteira.

Duas maçãs.

Meio quilo de arroz.

Um pedaço pequeno de queijo.

Chá.

Um vaso de violetas.

A operadora passa todos os produtos.

Olha novamente para a tela.

— A senhora esqueceu a flor.

A idosa sorri.

— Não.

Hoje eu resolvi lembrar de mim.

A fila continua.

Ninguém comenta.

Mas duas pessoas sorriem discretamente.

No carrinho seguinte há refrigerantes.

Carne para churrasco.

Carvão.

Sorvete.

Guardanapos coloridos.

Copos descartáveis.

Uma caixa de velas de aniversário.

Enquanto organiza as compras, um rapaz envia mensagens sem parar.

Do outro lado da tela, alguém certamente pergunta se falta alguma coisa.

Sempre falta.

Mesmo quando o carrinho parece cheio.

Mais perto da noite chegam as compras silenciosas.

Uma sopa instantânea.

Dois ovos.

Macarrão.

Sabão em pó.

Escova de dentes.

Um pacote de ração.

Quem compra olha pouco para os produtos.

Olha mais para o relógio.

Quer apenas voltar para casa.

A fila avança lentamente.

Nenhum carrinho permanece muito tempo diante do caixa.

Mas todos deixam alguma impressão.

O cheiro do pão recém-assado.

A pressa de quem esqueceu o gelo.

O cuidado de quem escolhe uma fruta de cada vez.

O constrangimento de devolver um produto.

A alegria discreta de encontrar algo em promoção.

No fim do expediente, quando as portas automáticas se fecham e o último cliente desaparece, a operadora começa a organizar o próprio caixa.

Guarda o crachá.

Desliga a esteira.

Confere os valores.

O supermercado fica quase silencioso.

Os corredores parecem maiores.

Os carrinhos permanecem enfileirados perto da entrada.

Vazios.

Pela manhã voltarão a carregar cafés, brinquedos, flores, remédios, bolos, velas, arroz, ração, chocolates, frutas e pequenas decisões que nunca aparecerão no cupom fiscal.

Porque, no supermercado, as pessoas compram alimentos.

Mas levam para casa muito mais do que isso.

Levam memórias.

Reconciliações.

Primeiros almoços.

Últimos jantares.

Esperanças.

Economias.

Ausências.

E pequenos futuros cuidadosamente acomodados entre o pão, o leite e o arroz.

Na saída, um funcionário empurra de volta os carrinhos espalhados pelo estacionamento.

Todos retornam vazios.

Como se nunca tivessem transportado a vida inteira de alguém.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

O ELEVADOR

Posted in Sem categoria on 15 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Existem poucos lugares onde estranhos permanecem tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes.

O elevador é um deles.

A porta se fecha e, durante alguns segundos, todos parecem assinar um acordo silencioso.

Ninguém pergunta.

Ninguém comenta.

Ninguém invade.

Cada passageiro recebe um pequeno território invisível, medido não por paredes, mas pela delicadeza de não existir demais diante dos outros.

Há quem descubra, naquele breve percurso, um interesse repentino pelos números do painel.

Outros examinam com atenção a própria imagem refletida no aço polido, como se o espelho tivesse algo novo a revelar entre o térreo e o décimo segundo andar.

Há também os que encontram extraordinário fascínio pelos próprios sapatos.

Qualquer coisa serve.

A gravata.

O relógio.

A bolsa.

O botão de abrir a porta.

Tudo parece mais confortável do que sustentar o olhar de um desconhecido durante cinco segundos.

Curiosamente, ninguém entra em um elevador levando apenas o corpo.

Entram preocupações.

Reuniões.

Consultas.

Entrevistas.

Compras.

Saudades.

Às vezes, até despedidas.

Mas tudo isso permanece escondido atrás de uma expressão cuidadosamente neutra.

Como se o silêncio fosse parte do uniforme exigido para subir alguns andares.

Uma senhora segura um vaso de violetas com as duas mãos.

Um rapaz carrega um capacete de motociclista.

Uma criança abraça uma mochila maior que as próprias costas.

Um entregador equilibra duas caixas de papelão.

Nenhum deles conhece a história do outro.

Nem precisa.

O elevador nunca foi construído para aproximar pessoas.

Foi construído para aproximar andares.

Mesmo assim, acontece.

De vez em quando, um bebê sorri para alguém.

Uma criança pergunta em voz alta por que todos estão tão quietos.

Um cachorro decide cumprimentar quem fingia não notar sua presença.

Nesses instantes, o pacto do silêncio vacila.

Os adultos sorriem.

Quase constrangidos.

Como se tivessem sido surpreendidos esquecendo uma regra que nunca foi escrita.

O painel anuncia mais um andar.

A porta se abre.

Alguém sai.

Outro entra.

O perfume muda.

O silêncio permanece.

Talvez seja esse o verdadeiro mistério dos elevadores.

Eles aproximam corpos.

Mas deixam às pessoas a tarefa muito mais difícil de decidir até onde desejam aproximar as próprias vidas.

No último andar, todos se dispersam com a rapidez de quem precisa recuperar a distância interrompida por alguns segundos.

Ninguém se despede.

Ninguém promete voltar.

O elevador fecha novamente as portas.

Desce vazio.

Pela primeira vez naquela manhã, não carrega perfumes.

Nem pastas.

Nem sacolas.

Nem silêncios.

Carrega apenas o espaço que, dentro de alguns instantes, será novamente ocupado por pessoas que aprenderam, desde muito cedo, a compartilhar poucos metros quadrados sem jamais permitir que a própria existência ultrapasse a linha discreta de um cumprimento.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

A SALA DE ESPERA

Posted in Sem categoria on 14 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há lugares construídos para receber pessoas.

Outros, para fazê-las permanecer.

A sala de espera pertence à segunda espécie.

Ela começa a existir muito antes da primeira consulta.

Ainda está vazia quando a funcionária destranca a porta, acende as luzes e endireita, quase sem olhar, uma revista esquecida sobre a mesa de centro. Abre as persianas, liga o aparelho de ar-condicionado, enche o filtro de água e confirma, por hábito, que o relógio continua marcando a hora certa. Nunca pergunta se alguém o observa. Basta que esteja ali.

Lá fora, a cidade já decidiu começar o dia.

Os ônibus chegam aos pontos.

As vitrines despertam.

As padarias espalham cheiro de pão recém-saído do forno.

Os semáforos distribuem pressa.

Ali dentro, porém, a pressa perde a utilidade.

A primeira paciente entra antes das oito.

Cumprimenta a recepcionista com um sorriso discreto, entrega um documento e senta-se sempre na mesma cadeira, perto da janela. Faz isso há tantos anos que ninguém precisou lhe indicar o lugar. Enquanto espera, tricota. Não conversa. O movimento das agulhas parece medir um tempo diferente daquele marcado pelo relógio da parede.

Pouco depois chega um rapaz usando camisa social recém-passada. Carrega uma pasta fina e consulta o celular a cada minuto. Tenta parecer tranquilo, mas o pé direito insiste em bater no piso. Está ali para um exame admissional. Ainda não conseguiu o emprego. Trouxe consigo uma esperança que tenta esconder atrás da gravata.

Uma menina atravessa a sala segurando um dinossauro de plástico.

A mãe pede desculpas pelo barulho.

Ninguém se incomoda.

As crianças ainda não aprenderam que os adultos transformam o silêncio em regra justamente nos lugares onde mais precisam conversar.

O relógio marca oito e vinte.

Ninguém comenta.

Na sala de espera, os minutos nunca têm o mesmo tamanho.

Há quem atravesse meia hora sem levantar os olhos da revista.

Há quem viva uma eternidade entre um número chamado e outro.

Um senhor entra devagar.

Apoia a bengala ao lado da cadeira e olha ao redor antes de se sentar.

— Ainda bem que as cadeiras continuam mais novas do que eu.

A recepcionista sorri.

Ele também.

Faz a mesma brincadeira toda vez que aparece.

Há anos.

Talvez porque certas piadas envelheçam melhor do que as pessoas.

Enquanto espera, tira do bolso um pequeno pacote de balas de hortelã.

Desembrulha uma.

Guarda outra sobre a mesa.

Ninguém sabe para quem.

Ele também não explica.

Um menino entra logo depois.

Traz uma mochila maior do que as costas.

Enquanto a mãe conversa na recepção, aproxima-se da mesa de revistas. Não pega nenhuma.

Fica olhando o relógio.

Conta baixinho os segundos quando percebe que o ponteiro maior se move.

Ainda não sabe ler as horas.

Mas já descobriu que o tempo faz barulho.

Tac.

Tac.

Tac.

Quando a mãe o chama, ele aponta para o relógio.

— Ele nunca cansa?

Ela olha para cima.

Sorri.

Não responde.

Há perguntas que continuam crescendo mesmo depois da infância.

Uma porta se abre.

Um nome é chamado.

Uma cadeira fica vazia.

Outra pessoa ocupa o lugar poucos minutos depois.

Durante toda a manhã, esse movimento se repete sem nunca ser exatamente igual.

Um homem sai enxugando discretamente os olhos.

Logo depois, uma jovem deixa a mesma porta segurando um envelope e tentando esconder um sorriso.

A sala não pergunta.

Nunca perguntou.

Aprendeu que portas fechadas guardam notícias que pertencem apenas a quem as atravessa.

Perto das dez horas, falta energia.

O aparelho de ar-condicionado silencia.

A televisão apaga.

O relógio para.

Pela primeira vez naquela manhã, ninguém olha para o celular.

As pessoas levantam os olhos.

Olham umas para as outras.

Trocam pequenos sorrisos, como se o tempo, finalmente interrompido, lhes devolvesse aquilo que haviam esquecido desde cedo: a presença dos outros.

A luz retorna poucos minutos depois.

O relógio volta a funcionar.

As conversas desaparecem.

Cada um regressa ao próprio silêncio.

No fim da manhã, a sala começa a esvaziar-se.

A recepcionista organiza as revistas.

Recolhe um copo descartável.

Fecha uma persiana que o sol insistia em atravessar.

Sobre a mesa permanece uma bala de hortelã.

A mesma que o velho deixou antes de entrar.

Ele saiu.

Esqueceu-se dela.

Ou decidiu deixá-la.

Ninguém sabe.

A funcionária estende a mão para recolhê-la.

Pensa melhor.

Deixa-a onde está.

Pouco depois, outro menino entra acompanhado da avó.

Enquanto ela entrega os documentos, ele se aproxima da mesa.

Olha a bala.

Sorri.

Guarda-a no bolso.

Como se alguém a tivesse deixado exatamente para ele.

A sala de espera não percebe presentes.

Nem despedidas.

Conhece apenas uma verdade antiga.

As pessoas entram carregando perguntas.

Saem levando respostas.

Ou novas perguntas.

Ela continua ali.

Recebendo o intervalo entre umas e outras.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

Os Doze Cânticos da Permanência (12/12)

Posted in Sem categoria on 13 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico XII — O Último Capítulo Permanecia em Branco

Transitus Primus — O Manuscrito Inacabado

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Toda grande narrativa conhece o instante em que seus personagens compreendem que nenhuma história verdadeiramente nobre termina quando a última página é alcançada.
Os antigos cronistas sabiam disso.
Por essa razão deixavam sempre espaço suficiente para que o tempo acrescentasse aquilo que nenhuma pena poderia prever.
Não era descuido.
Era sabedoria.
Reconheciam que a existência possui uma capacidade inesgotável de ampliar aquilo que parecia concluído.
No interior da fortaleza existia um amplo salão reservado à preservação dos grandes registros da cidade.
Ali permaneciam reunidos mapas cuidadosamente desenhados, tratados elaborados por estudiosos, relatos de viajantes, correspondências diplomáticas, diários de expedições, projetos arquitetônicos e incontáveis manuscritos cuja importância havia atravessado muitas gerações.
Cada documento ocupava seu lugar com a mesma serenidade das pedras que sustentavam as muralhas.
Nada buscava superioridade.
Tudo contribuía para uma memória comum.
As estantes elevavam-se até próximo ao teto de madeira escura.
Escadas móveis deslizavam silenciosamente para alcançar os volumes mais altos.
As mesas largas permaneciam iluminadas pela claridade que atravessava as altas janelas arqueadas.
O ambiente inteiro parecia dedicado a proteger aquilo que somente o tempo consegue transformar em legado.

Transitus Secundus — O Legado da Convivência

Também os sentimentos mais elevados aspiram tornar-se legado.
Não desejam limitar-se ao entusiasmo dos primeiros encontros.
Buscam adquirir a estabilidade das obras destinadas a permanecer úteis muito depois de seu nascimento.
Esse era o verdadeiro privilégio da convivência paciente.
Cada dia acrescentava uma pequena linha ao grande manuscrito da memória.
Nenhuma parecia extraordinária quando observada isoladamente.
Entretanto, reunidas ao longo dos anos, transformavam-se em capítulos cuja beleza ultrapassava qualquer expectativa inicial.
As manhãs continuavam surgindo com admirável regularidade.
A luz percorria lentamente os jardins.
As fontes preservavam seu movimento constante.
Os artesãos abriam suas oficinas.
Os mercados acolhiam discretamente os primeiros visitantes.
Os escribas preparavam a tinta e organizavam novos pergaminhos.
Nada interrompia o delicado equilíbrio da cidade.
Essa continuidade não representava repetição.
Era aperfeiçoamento.
Cada amanhecer oferecia a oportunidade de realizar com ainda mais excelência aquilo que já havia sido iniciado.
Assim amadurecia o romance.
Jamais dependia da novidade para conservar seu encanto.
Encontrava beleza na permanência.
Descobria entusiasmo na constância.
Renovava-se através da atenção dedicada aos detalhes que somente a convivência prolongada consegue revelar.

Transitus Tertius — As Páginas do Futuro

As conversações permaneciam longas.
Ora percorriam antigos acontecimentos preservados pela memória.
Ora imaginavam projetos destinados ao futuro.
Nunca havia oposição entre recordar e sonhar.
Ambos pertenciam ao mesmo caminho.
Quem valoriza a memória compreende melhor aquilo que deseja construir.
Quem cultiva o futuro aprende a honrar ainda mais aquilo que recebeu do passado.
Os grandes salões acolhiam caminhadas tranquilas entre as estantes.
Cada livro retirado revelava uma nova perspectiva.
Cada mapa aberto ampliava a compreensão do mundo.
Cada relato antigo lembrava que nenhuma geração começa verdadeiramente do início.
Toda existência recebe uma herança invisível formada pelas experiências daqueles que vieram antes.
Também o afeto recebia semelhante herança.
Aprendia diariamente com cada gesto de respeito.
Fortalecia-se pela confiança acumulada.
Expandia-se através da admiração continuamente renovada.
As janelas permaneciam abertas para os jardins.
A brisa movimentava suavemente as páginas dos manuscritos.
O perfume das árvores aproximava o mundo exterior daquele espaço dedicado ao pensamento.
Era impossível separar completamente o conhecimento da contemplação.
Ambos pertenciam à mesma forma de sabedoria.
Conhecer sem admirar empobrece a inteligência.
Admirar sem compreender enfraquece a beleza.
Quando ambos caminham juntos, nasce uma serenidade capaz de atravessar o tempo.

Transitus Quartus — A Página Que Ainda Espera

As estações continuavam alternando suas cores sobre os campos.
Os rios prosseguiam silenciosamente em direção ao horizonte.
As pontes permaneciam unindo margens.
As torres conservavam sua vigilância tranquila.
Nada parecia extraordinário.
Entretanto, exatamente nessa continuidade repousava o verdadeiro esplendor da existência.
As obras destinadas a permanecer não precisam reinventar-se diariamente.
Basta-lhes conservar a fidelidade àquilo que lhes concedeu identidade.
O romance alcançava então uma maturidade silenciosa.
Já não buscava explicar sua própria grandeza.
Ela manifestava-se naturalmente.
Na confiança que dispensava confirmações.
Na liberdade sustentada pelo respeito.
Na alegria tranquila de compartilhar o cotidiano.
Na disposição constante para continuar aprendendo.
Na certeza de que ainda existiam inúmeros capítulos por escrever.
Os antigos escribas encerravam seus manuscritos com caligrafia cuidadosa.
Jamais apressavam a última linha.
Sabiam que o encerramento merece a mesma atenção concedida ao primeiro parágrafo.
Contudo, alguns deles deixavam deliberadamente uma folha em branco ao final da obra.
Não era ausência de inspiração.
Era uma homenagem ao futuro.
Reconheciam que nenhuma inteligência consegue antecipar todas as possibilidades da existência.
Também aquele romance recusava qualquer conclusão definitiva.
Preferia conservar aberta a possibilidade de novas descobertas.
De novas caminhadas.
De novos jardins.
De novas bibliotecas.
De novos horizontes.
Cada amanhecer ainda possuía algo a ensinar.
Cada diálogo ainda escondia perguntas jamais formuladas.
Cada silêncio ainda continha significados que apenas o tempo revelaria.
Foi então que a última página deixou de representar um fim.
Transformou-se em convite.
Não para recomeçar aquilo que já havia sido vivido, mas para continuar ampliando uma história cuja verdadeira riqueza consistia precisamente em nunca considerar concluída a arte de conhecer, admirar e acompanhar a existência de quem caminhava ao lado.
Assim permaneceu o derradeiro capítulo, deliberadamente vazio de palavras, mas pleno de possibilidades, aguardando apenas que novas experiências, novas delicadezas, novos gestos de generosidade e novas manhãs viessem preencher, com a mesma elegância cultivada desde o primeiro encontro, a continuação de uma narrativa que jamais pertenceu ao encerramento, mas à inesgotável capacidade humana de transformar cada novo dia em mais uma página digna de ser preservada entre as obras mais nobres da memória.

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POST SCRIPTUM

Nenhum destes cânticos pretende encerrar uma verdade.
Cada um oferece apenas uma janela.
Uma estrada.
Uma biblioteca.
Um jardim.
Uma ponte.
Um horizonte.

As grandes obras não aspiram ao ruído.
Desejam apenas permanecer.
Que assim aconteça também com estes cânticos.
Que sejam revisitados em diferentes estações da vida.
Que encontrem novos significados a cada reencontro.
Que acompanhem momentos de contemplação, de esperança e de amadurecimento.
E que, ao fechar este conjunto de cânticos, o leitor descubra que a última página jamais representa um término, mas apenas a delicada passagem entre a história que foi lida e aquela que continuará sendo escrita, silenciosamente, pela própria existência.
Assim repousa este manuscrito.
Não como uma obra encerrada.
Mas como uma porta que permanece entreaberta, aguardando o instante em que um novo leitor, movido pela curiosidade, pela serenidade e pelo desejo de caminhar sem pressa, decida atravessá-la novamente.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

Os Doze Cânticos da Permanência (11/12)

Posted in Sem categoria on 12 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico XI — O Relógio Nunca Apressava as Horas

Transitus Primus — A Torre do Tempo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na torre mais elevada da antiga cidade havia um grande relógio cuja presença ultrapassava a simples função de anunciar a passagem das horas.
Seu mecanismo fora construído por mãos pacientes, capazes de compreender que a precisão não nasce da velocidade, mas da perfeita harmonia entre cada pequena engrenagem.
Nenhuma peça procurava destacar-se das demais.
Cada uma aceitava silenciosamente sua responsabilidade.
Era dessa discreta cooperação que surgia a exatidão admirada por toda a cidade.
Muito antes do amanhecer, quando os primeiros sinais de luz ainda repousavam além das colinas, o velho relógio já cumpria seu ofício com a mesma serenidade dos dias anteriores.
As ruas permaneciam silenciosas.
As janelas continuavam fechadas.
As praças aguardavam a chegada dos habitantes.
Entretanto, o tempo jamais permanecia imóvel.
Avançava com uma elegância impossível de perceber pelos olhos apressados.
As torres observavam os campos distantes.
As muralhas acolhiam a brisa suave que descia das montanhas.
Os jardins ainda conservavam o brilho delicado do orvalho.
Tudo parecia repousar em perfeita concordância com a lenta respiração da manhã.
Havia beleza naquela espera.
Nem toda grande transformação necessita ser imediatamente visível.
Algumas das mais profundas acontecem justamente enquanto o mundo acredita que nada está acontecendo.

Transitus Secundus — As Engrenagens da Convivência

Também o romance seguia esse mesmo princípio.
Não procurava modificar os dias através de acontecimentos extraordinários.
Preferia alterar lentamente a maneira como cada amanhecer era percebido.
Os caminhos continuavam os mesmos.
As casas permaneciam em seus lugares.
Os mercados conservavam sua rotina.
Entretanto, tudo adquiria nova luminosidade quando observado ao lado de quem aprendera a compartilhar a mesma direção.
A convivência revelava pequenas descobertas que anteriormente passavam despercebidas.
Uma janela aberta permitindo a entrada da luz da manhã.
O perfume discreto das árvores próximas aos jardins.
O som tranquilo da água percorrendo antigas fontes de pedra.
O brilho dos manuscritos repousando sobre grandes mesas de carvalho.
Nada possuía grandiosidade isoladamente.
Mas reunidos, esses detalhes compunham uma beleza impossível de ignorar.
As conversações atravessavam lentamente as horas.
Jamais demonstravam preocupação em alcançar rapidamente uma conclusão.
Cada assunto encontrava seu próprio ritmo.
Cada reflexão amadurecia naturalmente.
As perguntas não eram formuladas para desafiar.
Nasciam da curiosidade respeitosa.
As respostas não pretendiam encerrar o pensamento.
Apenas ofereciam novos caminhos para continuar caminhando.
Assim crescia a admiração.
Não como uma chama inquieta.
Mas como a luz constante de uma manhã que lentamente ocupa toda a paisagem.

Transitus Tertius — A Dança da Permanência

Os antigos relojoeiros ensinavam que o segredo da precisão repousa no equilíbrio entre todas as partes.
Nenhuma engrenagem pode trabalhar isoladamente.
Nenhuma mola suporta sozinha todo o mecanismo.
A perfeição depende da cooperação silenciosa.
Também os vínculos mais duradouros descobrem essa verdade.
O respeito fortalece a confiança.
A confiança amplia a liberdade.
A liberdade favorece a sinceridade.
A sinceridade aprofunda a convivência.
Cada virtude sustenta a seguinte.
Nenhuma existe plenamente sem a presença das demais.
As estações sucediam-se sobre a cidade.
Os jardins renovavam suas cores.
Os telhados recebiam diferentes tonalidades conforme a posição do sol.
Os campos amadureciam lentamente.
As colheitas sucediam-se com admirável regularidade.
Nada buscava interromper o curso natural do tempo.
A verdadeira sabedoria consistia justamente em acompanhá-lo.
Não existia qualquer desejo de antecipar o amanhã.
O presente possuía riqueza suficiente para ocupar plenamente o pensamento.
Cada encontro oferecia novas possibilidades de compreender.
Cada caminhada acrescentava uma lembrança à memória.
Cada silêncio fortalecia aquilo que as palavras haviam iniciado.

Transitus Quartus — Um Beijo no Espelho

As antigas oficinas continuavam produzindo suas obras.
Os artesãos aperfeiçoavam detalhes quase invisíveis.
Os encadernadores restauravam livros antigos.
Os arquitetos desenhavam novas construções respeitando a harmonia da cidade.
Toda criação dialogava respeitosamente com aquilo que já existia.
Também o romance compreendia que crescer não significa abandonar o passado.
Significa oferecer novos significados às experiências anteriormente vividas.
As tardes aproximavam-se com delicada serenidade.
A luz atravessava lentamente os vitrais dos grandes salões.
As sombras caminhavam sobre o piso de pedra como se também obedecessem ao velho relógio da torre.
Nada parecia deslocado.
Tudo encontrava naturalmente seu devido lugar.
Era justamente essa ordem silenciosa que tornava a cidade tão acolhedora.
Quando cada elemento aceita sua verdadeira medida, a convivência floresce sem esforço.
Ao cair da noite, pequenas luzes surgiam nas janelas espalhadas pelas ruas estreitas.
As fontes continuavam murmurando discretamente.
As árvores permaneciam imóveis sob o céu tranquilo.
O relógio seguia marcando as horas sem qualquer ansiedade.
Jamais procurava acelerar a chegada do amanhecer.
Jamais lamentava o desaparecimento do entardecer.
Limitava-se a cumprir com dignidade sua vocação.
Essa constância revelava uma profunda lição: um beijo no espelho.
Nem sempre a maior demonstração de amor consiste em transformar completamente a vida de alguém.
Às vezes, manifesta-se simplesmente na decisão firme de permanecer presente, oferecendo estabilidade, serenidade e confiança enquanto o tempo realiza silenciosamente sua própria obra.
Então compreendia-se que o mais precioso dos relógios não era aquele instalado na torre mais alta da cidade.
Existia outro, invisível, construído pela delicadeza compartilhada entre duas existências que aprenderam a medir os dias não pela quantidade de horas transcorridas, mas pela profundidade das conversações, pela elegância dos gestos cotidianos, pela fidelidade às pequenas virtudes e pela admirável capacidade de permitir que o tempo amadurecesse naturalmente aquilo que somente a paciência, a confiança e o respeito poderiam transformar em uma história destinada a permanecer luminosa muito além da memória das próprias gerações.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)