Arquivo para julho, 2026

Céu de Concreto

Posted in Sem categoria on 26 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O amanhecer veio cansado
Vestindo fumaça e papel
Os prédios cresceram tão altos
Que esconderam o céu

As ruas acordaram cedo
Sem aprender a sorrir
Levando o mesmo silêncio
Para quem precisava partir

No metrô cabiam milhares
Mas faltava um olhar
Cada estação levava embora
Algo impossível de comprar

Os anúncios brilhavam fortes
Prometendo felicidade
Enquanto o vazio fazia morada
No centro da cidade

Quem desenhou este céu?
Feito de vidro e vapor
Quem deixou a manhã cinzenta
Sem conhecer outra cor?

Ainda existe uma fresta
Entre o concreto e a luz
Esperando alguém
Que descubra onde conduz

Uma criança sorria baixo
Com um biscoito nas mãos
Como quem dividia riqueza
Sem fazer comparação

Na calçada ninguém percebeu
O tamanho daquele instante
Porque a pressa sempre caminha
Um passo adiante

Um mapa perdeu as ruas
Durante uma tempestade comum
Desde então os caminhos
Não pertencem mais a nenhum

As paredes ouviram tudo
Sem repetir uma palavra
Guardando cada memória
Como quem nunca acaba

Quem desenhou este céu?
Quem apagou o azul dali?
Enquanto houver um sorriso
Ainda resta por vir


(Betto Gasparetto – ix – mmxxv)

© Todas as letras, poesias e conceitos autorais desta obra pertencem a Betto Gasparetto. Criadas entre 1978 e a atualidade, no âmbito do projeto Studium Bellum Gloriosum em parceria com Sala Grand Ymperatur I. Arranjos, instrumentação, vozes processadas por IA e demais recursos sonoros integram a direção artística do autor. É vedada a reprodução, adaptação ou utilização sem autorização do titular dos direitos autorais.

O Vizinho que Nunca Sorria

Posted in Sem categoria on 25 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No prédio, quase ninguém sabia o nome dele.

Era simplesmente “o homem do 302″.

Saía cedo.

Voltava sempre no mesmo horário.

Entrava no elevador olhando para o painel dos andares.

Cumprimentava com um discreto movimento de cabeça.

Nunca puxava conversa.

Nunca participava das festas do condomínio.

Nunca aparecia nas reuniões.

As crianças diziam que ele era bravo.

Os adolescentes inventavam histórias.

Uns juravam que tinha sido militar.

Outros diziam que era delegado aposentado.

Havia até quem acreditasse que simplesmente não gostava de gente.

Quando passava pela garagem, sempre encontrava alguém disposto a comentar.

— Esse homem nunca sorri.

— Deve viver de mau humor.

— Tem gente que nasceu para reclamar.

Curiosamente, ninguém jamais o ouvira reclamar.

Apenas não sorria.

Numa quinta-feira de inverno, a energia acabou pouco antes das sete da noite.

O elevador parou.

As luzes de emergência acenderam.

O portão eletrônico deixou de funcionar.

Os moradores começaram a descer pelas escadas para entender o que estava acontecendo.

Foi então que ouviram um choro.

No quinto andar.

Era o pequeno Lucas.

Tinha apenas cinco anos.

Estava preso dentro do elevador com a mãe.

O menino gritava desesperado.

Enquanto algumas pessoas ligavam para a empresa de manutenção e outras apenas davam opiniões sobre o que deveria ser feito, o homem do 302 apareceu carregando uma caixa de ferramentas.

Não disse uma palavra.

Conversou rapidamente com o porteiro.

Abriu o painel da casa de máquinas.

Pediu apenas que ninguém tentasse forçar a porta.

Durante quase vinte minutos trabalhou em silêncio.

Lá dentro, o menino continuava chorando.

De repente, o elevador destravou.

A porta abriu lentamente.

Lucas saiu correndo e abraçou a mãe.

O corredor inteiro aplaudiu.

O homem apenas fechou sua caixa de ferramentas.

Quando se preparava para voltar ao apartamento, o síndico perguntou:

— O senhor trabalha com isso?

Ele respondeu pela primeira vez em muito tempo.

— Trabalhei.

Quarenta anos.

Manutenção de elevadores.

Só isso.

Sorriu de leve.

Talvez pela primeira vez que alguém do prédio percebeu.

Na semana seguinte, o elevador voltou a ser silencioso.

Mas alguma coisa havia mudado.

As crianças passaram a dizer bom-dia.

A vizinha do sexto andar começou a deixar um pedaço de bolo na porta dele quando fazia aniversário.

O porteiro descobriu que seu nome era Antônio.

E, pouco a pouco, os moradores entenderam uma coisa simples.

Nem todo silêncio é arrogância.

Nem toda expressão séria é tristeza.

Algumas pessoas apenas aprenderam a falar pouco.

E, quando realmente precisam dizer alguma coisa, preferem fazê-lo com as próprias mãos.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Último Lugar da Fila

Posted in Sem categoria on 24 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ainda eram oito horas da manhã quando a fila já dobrava o corredor do órgão público.

Na parede, um painel eletrônico chamava as senhas lentamente. Tão lentamente que parecia ter aprendido a caminhar com a burocracia.

Alguns olhavam para o relógio.

Outros, para o celular.

Quase todos olhavam para a porta do guichê como quem esperava um milagre administrativo.

— Isso aqui nunca muda.

Foi o primeiro comentário da manhã.

Um senhor de boné respondeu sem tirar os olhos do painel.

— Se mudasse muito, a gente desconfiava.

Alguns riram.

Outros continuaram reclamando.

Uma mulher dizia que perderia a consulta médica.

Um rapaz reclamava que faltaria ao trabalho.

Outro comentava que já era sua terceira visita porque sempre faltava um documento diferente.

No fim da fila, uma senhora segurava uma pasta de plástico transparente junto ao peito.

Ninguém reparava nela.

Quando alguém chegava, perguntava automaticamente:

— Quem é o último?

Ela levantava discretamente a mão.

— Sou eu.

Pouco depois, um jovem entrou apressado.

Olhou o tamanho da fila e soltou um suspiro daqueles que todo brasileiro conhece.

— Nossa… Isso vai longe.

Foi para o final.

Cinco minutos depois já reclamava do atendimento, da quantidade de funcionários, da demora e até do café vendido na cantina.

A senhora apenas escutava.

Depois de algum tempo, ele perguntou:

— A senhora também está esperando faz tempo?

Ela sorriu.

— Desde as sete.

— Nossa…

— Vale a pena.

Ele fez um gesto de quem não entendia.

Ela abriu cuidadosamente a pasta.

Dentro havia apenas uma certidão antiga.

Amarelada pelo tempo.

— Hoje vou conseguir colocar o nome do meu pai na minha certidão de nascimento.

O rapaz ficou em silêncio.

Ela continuou.

— Tenho setenta e dois anos.

Esperei a vida inteira por isso.

A fila pareceu diminuir de tamanho.

Mais adiante, um senhor aguardava para renovar a carteira de motorista.

Uma jovem precisava registrar a filha recém-nascida.

Um casal buscava documentos para comprar a primeira casa.

Um rapaz tentava regularizar o título de eleitor.

Outro precisava provar que existia no papel para conseguir um emprego.

De repente, ninguém estava ali apenas por causa da fila.

Cada pessoa carregava uma história.

Cada senha escondia uma urgência diferente.

Quando finalmente o painel chamou o número da senhora, ela levantou devagar.

Antes de entrar no atendimento, olhou para o jovem.

— Agora acho que chegou minha vez.

Ele sorriu.

— Acho que sim.

Ela entrou.

O rapaz observou o painel eletrônico mais uma vez.

Continuava lento.

Continuava chamando uma senha de cada vez.

Nada havia mudado.

Mas alguma coisa era diferente.

Às vezes reclamamos do tempo que passamos esperando.

Quase nunca imaginamos quanto tempo a pessoa à nossa frente esperou para chegar até ali.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Chuva Antes do Expediente

Posted in Sem categoria on 23 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na previsão do tempo, diziam que a chuva chegaria apenas à tarde.

Às seis e quarenta da manhã, porém, o céu resolveu discordar.

Bastaram poucos minutos para que as ruas desaparecessem sob uma cortina de água. Os pontos de ônibus ficaram lotados. Motociclistas procuravam abrigo sob marquises. Quem havia saído de casa confiando apenas nas nuvens claras logo descobriu que o guarda-chuva esquecido faria falta.

Na portaria da empresa, os primeiros funcionários começaram a chegar.

Carlos entrou reclamando.

— Impressionante… Basta eu lavar o carro que chove desse jeito.

Sacudiu a água da jaqueta bem no meio da recepção e continuou resmungando sobre o trânsito, a prefeitura, a meteorologia e até sobre o café que ainda nem havia tomado.

Logo atrás veio Rosana.

Sem dizer palavra, percebeu que a faxineira tentava secar o piso enquanto dezenas de pessoas continuavam entrando com os sapatos encharcados.

Pegou um rodo encostado na parede.

Durante alguns minutos, ajudou a empurrar a água para fora da porta.

Quando a faxineira agradeceu, Rosana apenas sorriu.

— Se a senhora cair aqui, quem vai limpar a bagunça depois?

As duas riram.

Pouco depois apareceu João, completamente molhado.

A camisa parecia ter sido mergulhada em uma piscina.

Assim que entrou, abriu os braços.

— Se alguém estiver precisando lavar o carro, é só me abraçar.

A recepção inteira caiu na risada.

Até Carlos, que ainda reclamava da chuva, não conseguiu segurar o sorriso.

No refeitório, alguém colocou uma chaleira para aquecer.

Outro trouxe uma caixa de biscoitos.

Uma funcionária emprestou um casaco reserva.

O segurança improvisou um varal com barbante para secar alguns guarda-chuvas.

Sem combinar, cada um foi resolvendo um pequeno problema.

Quando o relógio marcou oito horas, quase todos já estavam trabalhando.

Lá fora, a chuva continuava forte.

Lá dentro, o ambiente parecia diferente.

Durante o intervalo do almoço, Carlos comentou:

— Engraçado… A chuva estragou meu dia logo cedo.

João respondeu antes mesmo de terminar o café.

— Acho que ela só mostrou como cada um escolhe começar o dia.

Ninguém respondeu.

Não era necessário.

Do lado de fora, as poças continuavam nas calçadas.

O trânsito permanecia lento.

Os ônibus ainda chegavam atrasados.

Nada havia mudado na cidade.

Mas, dentro daquela empresa, a mesma tempestade havia produzido três resultados diferentes.

Uns chegaram trazendo reclamações.

Outros chegaram trazendo ajuda.

E houve quem trouxesse apenas um motivo para todo mundo rir.

Talvez a chuva nunca escolha quem vai molhar.

Mas cada pessoa ainda pode escolher a maneira de atravessá-la.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

O Troco Esquecido

Posted in Sem categoria on 22 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Toda manhã era parecida.

Às sete em ponto, as portas automáticas se abriam, os primeiros carrinhos começavam a circular e o caixa número quatro recebia a mesma fila de sempre: quem comprava apenas pão, quem aproveitava a promoção do café e quem chegava atrasado para o trabalho, olhando mais para o relógio do que para as prateleiras.

Marcos trabalhava ali havia oito anos.

Aprendera a registrar códigos, pesar frutas, responder às perguntas dos clientes e suportar as intermináveis reclamações sobre preços, filas e promoções. No fim do expediente, ninguém lembrava seu nome. Era apenas “o rapaz do caixa”.

Naquela terça-feira, um senhor de cabelos completamente brancos colocou sobre a esteira um pacote de arroz, um litro de leite, uma caixa de ovos e um sabonete.

Pagou em dinheiro.

Enquanto Marcos atendia a cliente seguinte, o idoso agradeceu com um leve aceno de cabeça, pegou a sacola e saiu.

Foi só alguns segundos depois que o caixa olhou novamente para a gaveta.

O troco continuava ali.

Quarenta e três reais.

Olhou para a fila.

Olhou para a supervisora.

Pela regra, deveria registrar a sobra ao fechar o caixa. O dinheiro seria conferido no fim do expediente e tudo terminaria em um relatório.

Mas havia outra possibilidade.

Levantou a placa de “Caixa Fechado” e saiu correndo.

— Senhor! Senhor!

O idoso já empurrava lentamente o carrinho pelo estacionamento quando ouviu o chamado.

— O senhor esqueceu o troco.

Ele levou a mão ao bolso, conferiu as notas que havia guardado e sorriu, constrangido.

— Esqueci mesmo… A cabeça já não ajuda mais.

Marcos entregou o dinheiro.

O homem ficou alguns segundos olhando para aquelas notas.

Depois retirou apenas três reais.

— Posso pedir um favor?

— Claro.

— Compre três pães para aquele rapaz.

Apontou discretamente para um jovem sentado perto da entrada do mercado, tentando esconder o rosto sob um boné gasto.

Marcos entrou, comprou os pães e os entregou.

O rapaz agradeceu com um sorriso tímido, como quem não esperava ser lembrado naquele dia.

Quando voltou ao estacionamento, o senhor já havia ido embora.

Não deixou nome.

Não pediu recibo.

Não esperou agradecimentos.

Na semana seguinte, uma senhora apareceu no mesmo caixa.

— Você é o Marcos?

— Sou.

Ela sorriu.

— Meu pai falou de você.

Era filha do homem do troco esquecido.

— Ele comentou que fazia tempo que não encontrava alguém disposto a correr por causa de quarenta e três reais.

Marcos apenas deu de ombros.

— Era o dinheiro dele.

Ela colocou uma pequena embalagem sobre o balcão.

Dentro havia um pacote de broas feitas em casa.

— Ele disse que honestidade merece café fresco.

Marcos agradeceu, um pouco sem jeito.

Quando ela foi embora, percebeu que a fila continuava do mesmo tamanho.

Os códigos de barras continuavam passando pelo leitor.

Os carrinhos seguiam cheios.

Os preços permaneciam os mesmos.

Nada havia mudado no supermercado.

Mas, por algum motivo, naquele dia o trabalho pareceu um pouco mais leve.

Nem todo troco esquecido volta em forma de dinheiro.

Às vezes, ele retorna na confiança que ainda vale a pena depositar nas pessoas.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)