(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
No supermercado, todas as compras parecem começar iguais.
Um carrinho.
Uma cesta.
Uma lista escrita às pressas.
No fim, nenhuma delas se parece com outra.
O caixa nunca pergunta quem é cada pessoa.
Também não precisa.
Há muitos anos aprendeu que os carrinhos chegam antes das palavras.
E quase sempre dizem mais.
Logo pela manhã aparece um carrinho pequeno.
Um pacote de café.
Pão francês.
Leite.
Uma manteiga.
Bananas.
Nada sobra.
Nada falta.
Quem o empurra conhece o preço de cada produto antes mesmo de olhar a etiqueta.
Enquanto espera a fila andar, confere discretamente a soma no visor da registradora.
Faz pequenas contas de cabeça.
Quando o valor ultrapassa o esperado, pede que retirem um chocolate.
Sorri ao fazer o pedido.
Mas o sorriso termina antes do troco.
Pouco depois chega outro carrinho.
Fraldas.
Lenços umedecidos.
Pomada.
Mamadeiras.
Um pacote enorme de papel higiênico.
No meio de tudo, escondida entre caixas e embalagens, uma pequena girafa de pelúcia.
O pai tenta colocá-la novamente sob as compras.
A menina a retira.
Abraça.
Sorri.
Ele desiste.
Algumas compras nunca estiveram na lista.
Mais tarde, uma senhora deposita lentamente seus produtos sobre a esteira.
Duas maçãs.
Meio quilo de arroz.
Um pedaço pequeno de queijo.
Chá.
Um vaso de violetas.
A operadora passa todos os produtos.
Olha novamente para a tela.
— A senhora esqueceu a flor.
A idosa sorri.
— Não.
Hoje eu resolvi lembrar de mim.
A fila continua.
Ninguém comenta.
Mas duas pessoas sorriem discretamente.
No carrinho seguinte há refrigerantes.
Carne para churrasco.
Carvão.
Sorvete.
Guardanapos coloridos.
Copos descartáveis.
Uma caixa de velas de aniversário.
Enquanto organiza as compras, um rapaz envia mensagens sem parar.
Do outro lado da tela, alguém certamente pergunta se falta alguma coisa.
Sempre falta.
Mesmo quando o carrinho parece cheio.
Mais perto da noite chegam as compras silenciosas.
Uma sopa instantânea.
Dois ovos.
Macarrão.
Sabão em pó.
Escova de dentes.
Um pacote de ração.
Quem compra olha pouco para os produtos.
Olha mais para o relógio.
Quer apenas voltar para casa.
A fila avança lentamente.
Nenhum carrinho permanece muito tempo diante do caixa.
Mas todos deixam alguma impressão.
O cheiro do pão recém-assado.
A pressa de quem esqueceu o gelo.
O cuidado de quem escolhe uma fruta de cada vez.
O constrangimento de devolver um produto.
A alegria discreta de encontrar algo em promoção.
No fim do expediente, quando as portas automáticas se fecham e o último cliente desaparece, a operadora começa a organizar o próprio caixa.
Guarda o crachá.
Desliga a esteira.
Confere os valores.
O supermercado fica quase silencioso.
Os corredores parecem maiores.
Os carrinhos permanecem enfileirados perto da entrada.
Vazios.
Pela manhã voltarão a carregar cafés, brinquedos, flores, remédios, bolos, velas, arroz, ração, chocolates, frutas e pequenas decisões que nunca aparecerão no cupom fiscal.
Porque, no supermercado, as pessoas compram alimentos.
Mas levam para casa muito mais do que isso.
Levam memórias.
Reconciliações.
Primeiros almoços.
Últimos jantares.
Esperanças.
Economias.
Ausências.
E pequenos futuros cuidadosamente acomodados entre o pão, o leite e o arroz.
Na saída, um funcionário empurra de volta os carrinhos espalhados pelo estacionamento.
Todos retornam vazios.
Como se nunca tivessem transportado a vida inteira de alguém.
(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)










