O Troco Esquecido
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Toda manhã era parecida.
Às sete em ponto, as portas automáticas se abriam, os primeiros carrinhos começavam a circular e o caixa número quatro recebia a mesma fila de sempre: quem comprava apenas pão, quem aproveitava a promoção do café e quem chegava atrasado para o trabalho, olhando mais para o relógio do que para as prateleiras.
Marcos trabalhava ali havia oito anos.
Aprendera a registrar códigos, pesar frutas, responder às perguntas dos clientes e suportar as intermináveis reclamações sobre preços, filas e promoções. No fim do expediente, ninguém lembrava seu nome. Era apenas “o rapaz do caixa”.
Naquela terça-feira, um senhor de cabelos completamente brancos colocou sobre a esteira um pacote de arroz, um litro de leite, uma caixa de ovos e um sabonete.
Pagou em dinheiro.
Enquanto Marcos atendia a cliente seguinte, o idoso agradeceu com um leve aceno de cabeça, pegou a sacola e saiu.
Foi só alguns segundos depois que o caixa olhou novamente para a gaveta.
O troco continuava ali.
Quarenta e três reais.
Olhou para a fila.
Olhou para a supervisora.
Pela regra, deveria registrar a sobra ao fechar o caixa. O dinheiro seria conferido no fim do expediente e tudo terminaria em um relatório.
Mas havia outra possibilidade.
Levantou a placa de “Caixa Fechado” e saiu correndo.
— Senhor! Senhor!
O idoso já empurrava lentamente o carrinho pelo estacionamento quando ouviu o chamado.
— O senhor esqueceu o troco.
Ele levou a mão ao bolso, conferiu as notas que havia guardado e sorriu, constrangido.
— Esqueci mesmo… A cabeça já não ajuda mais.
Marcos entregou o dinheiro.
O homem ficou alguns segundos olhando para aquelas notas.
Depois retirou apenas três reais.
— Posso pedir um favor?
— Claro.
— Compre três pães para aquele rapaz.
Apontou discretamente para um jovem sentado perto da entrada do mercado, tentando esconder o rosto sob um boné gasto.
Marcos entrou, comprou os pães e os entregou.
O rapaz agradeceu com um sorriso tímido, como quem não esperava ser lembrado naquele dia.
Quando voltou ao estacionamento, o senhor já havia ido embora.
Não deixou nome.
Não pediu recibo.
Não esperou agradecimentos.
Na semana seguinte, uma senhora apareceu no mesmo caixa.
— Você é o Marcos?
— Sou.
Ela sorriu.
— Meu pai falou de você.
Era filha do homem do troco esquecido.
— Ele comentou que fazia tempo que não encontrava alguém disposto a correr por causa de quarenta e três reais.
Marcos apenas deu de ombros.
— Era o dinheiro dele.
Ela colocou uma pequena embalagem sobre o balcão.
Dentro havia um pacote de broas feitas em casa.
— Ele disse que honestidade merece café fresco.
Marcos agradeceu, um pouco sem jeito.
Quando ela foi embora, percebeu que a fila continuava do mesmo tamanho.
Os códigos de barras continuavam passando pelo leitor.
Os carrinhos seguiam cheios.
Os preços permaneciam os mesmos.
Nada havia mudado no supermercado.
Mas, por algum motivo, naquele dia o trabalho pareceu um pouco mais leve.
Nem todo troco esquecido volta em forma de dinheiro.
Às vezes, ele retorna na confiança que ainda vale a pena depositar nas pessoas.
(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)
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