A PADARIA ÀS SEIS DA MANHÃ

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Ainda não são seis.

A cidade respira devagar, como quem demora um pouco mais para abandonar o último sonho da madrugada. Algumas janelas continuam escuras. Os ônibus passam quase vazios. Os primeiros pássaros experimentam o silêncio antes que os motores decidam ocupá-lo.

Na esquina, porém, uma porta já está aberta.

O calor escapa primeiro.

Depois vem o cheiro.

Não existe relógio capaz de anunciar a manhã com tanta precisão quanto um pão saindo do forno.

Dentro da padaria, ninguém pergunta as horas.

Elas são medidas pelas fornadas.

O padeiro trabalha desde quando a cidade ainda dormia. As mãos conhecem a massa como quem reconhece um velho amigo. Não precisa olhar o relógio para saber quando o pão está pronto. O forno lhe ensinou um tempo que nenhum calendário registra.

O primeiro cliente entra sem dizer bom-dia.

Também não é falta de educação.

É costume.

Quem chega tão cedo ainda conversa mais com o próprio sono do que com o mundo.

Pede dois pães, um café sem açúcar e permanece alguns segundos diante da vitrine.

Não olha os doces.

Olha a rua.

Como se esperasse que o dia lhe desse um motivo para começar.

Pouco depois entra uma enfermeira.

O uniforme denuncia uma noite inteira acordada.

Compra apenas um café.

Segura o copo com as duas mãos.

Não bebe imediatamente.

Há cansaços que precisam primeiro do calor.

Um motociclista encosta o capacete sobre a cadeira ao lado.

Come em silêncio.

Do bolso tira uma lista dobrada.

Pão.

Leite.

Margarina.

Bananas.

Sorri discretamente ao lembrar que esqueceria metade das coisas se não fosse aquele papel amassado.

Enquanto isso, um senhor aproxima-se do balcão.

Não precisa fazer o pedido.

O balconista já separa o pão de sempre.

— Hoje queimou um pouquinho — diz o rapaz.

O velho observa o pão.

— Melhor assim.

Pão muito bonito costuma esconder pouca conversa.

O balconista ri.

Não entende completamente a frase.

Nem precisa.

Algumas pessoas passam a vida inteira dizendo coisas que só fazem sentido muitos anos depois.

A porta abre outra vez.

Uma estudante entra carregando uma mochila quase do tamanho dela.

Compra apenas um pão de queijo.

Enquanto espera o troco, relê um resumo escrito à mão.

Os olhos percorrem as palavras.

A cabeça está na prova que começará dentro de uma hora.

Ela sai sem perceber que deixou o guardanapo sobre o balcão.

O balconista dobra o papel.

Guarda-o discretamente.

Sabe que ela voltará amanhã.

Sempre volta.

Há clientes que compram pão.

Outros compram rotina.

No canto mais silencioso da padaria, um homem permanece diante de uma xícara quase cheia.

O café já esfriou.

Ele continua olhando pela janela.

Não espera ninguém.

Também não tem pressa de ir embora.

Algumas despedidas demoram mais que uma conversa.

Lá fora, a claridade finalmente alcança as fachadas dos prédios.

As calçadas recebem mais passos.

Os carros aumentam.

As bicicletas aparecem.

O barulho cresce.

A cidade desperta sem perceber que alguém já estava trabalhando muito antes do amanhecer.

Pouco antes das sete, a fila aumenta.

Os pedidos aceleram.

Os sacos de papel passam de mão em mão.

O cheiro do pão mistura-se ao das primeiras notícias do rádio.

A manhã deixa de ser promessa.

Agora já é dia.

Quando o movimento diminui, o balconista recolhe as xícaras vazias.

Sobre uma mesa permanece apenas um jornal aberto.

Na primeira página, as notícias ainda são as mesmas.

Mas ninguém que entrou ali naquela hora saiu exatamente igual a quando chegou.

Uns levaram pão.

Outros café.

Alguns apenas alguns minutos de silêncio antes que o mundo começasse a fazer perguntas.

O padeiro limpa as mãos no avental.

Olha rapidamente para a rua.

Sorri sem motivo aparente.

Daqui a pouco o bairro inteiro estará acordado.

E quase ninguém imaginará que o dia começou muito antes, no instante em que o primeiro pão deixou o forno e alguém abriu aquela porta ainda com a madrugada nos ombros.

(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)

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