Arquivo para 19 de dezembro de 2007

Pelas Minhas Mãos, Um Gesto

Posted in Crônicas on 19 de dezembro de 2007 by Prof Gasparetto

Não restam tempos, nem sóis, nem toldos,

nem nada.

Selam-se os ósculos,

obstáculos e o Rio some;

no alto, vê-se porém que o arrabalde de palafitas

fitam o cloro na tez da estátua, inert e observadora,

que vai tatuando o tempo e o medo…

 Rio! Mas com certo distanciamento dos ritos nômades

dos trejeitos incalculados de passistas

incorformados, transifigurados,

alagados, largados pelas encostas de um grande

boeiro circense e maravilhoso… (…)

 Me preocupa no entanto (…) o dízimo

selado pelos iconoclástas que o homem partido em dois,

num partido cifrário, quem sabe?

que altera rotas, frotas, j (de juros), agiotas, patriotas,

tropas mortas para um bem conspícuo e

de verdadeira ojeriza

às vertebras da lei…

Repentinamente não Rio feito algoz,

o momento sucumbe um aborto prematuro,

dum riso pálido, falido, inválido, caído,

inóspito…

como a roer no óbito seu dinema!

 Mas, não Rio!

 Do alto, a multidão inflaciona-se na natureza

mórbida que prolifera seu testamento

nas encontas imunológicas do voto.

 Rio, agora Morro!

 O jazigo dilacera o momento

no retrato falado dum Rio sem sentido,

visceras que refutam

a anatomia invertebrada do casuísmo!

 Não restam tempos,

porém ouve-se um suspiro,

um fôlego perdido em meio aos escombros, como quem diz:

                                                     “-Rio?  ou Morro?”

                                              (Set: 14, 1987)

Saudades Partidas VI

Posted in Crônicas, Poesia on 19 de dezembro de 2007 by Prof Gasparetto

“Cicek Pasaji” (Passagem da Flor)

Onde estás?

quem te clama nas noites e nas manhãs…

Onde estás?

Partistes meu coração

que viciado ouvia o teu.

Te fiz canções

e preencheste-me de Orientes!

Te fiz presente

e tornaste-me Mediterrâneo!

Onde estão os Fenícios, Assírios?

Se sou rebelde, que me estedam razões:

sôfrego, insano em delírios…

Teu nome é Noite

Teu corpo meu Porto

Teus olhos, Faróis

Teus beijos, Açoites

Onde estás?

quem te clama nas noites e nas manhãs…

Onde estás?

Sou agora deserto…

um peregrino sem tendas ou noturnos!

Me ancorei em braços alheios

esperando encontrar novo rumo…

mas, minhas lembranças foram reveladas pela Kodak,

algumas furtadas em Polaróide, desbotaram-se com o tempo!

Meu oceâno agora é de Arak e Fayruz…

que me conduz em Mozart ou Vivaldi,

no desespero único de uma resposta:

Onde estás?

(Out: 16, 1982)

Saudades Partidas V

Posted in Crônicas, Poesia on 19 de dezembro de 2007 by Prof Gasparetto

(O remorso)

Procuro em muitos rostos teus traços,

teus afrescos de mulher…

A multidão me confunde os gostos,

orquestras desafinadas, muitos rostos

poucos gestos!

Uma dança entre escombros,

vais-e-vens de passos,

olhares, uma dança sem a tua lua…

uma guerra que eu criei,

sem tréguas!

Sinto os teus teus pés subirem escadas

para me abordar n leito

na dança ímpar – o seqüestro!

E pelas inúmeras poesias que criamos

em parceria,

teu corpo em meu corpo

encontramos sílabas…

Teu rítmo em meu rítmo

nos tornamos únicos.

Devolva em mim as sinfonias

ditadas por Gibran

me embebecendo de Arak

num beijo teu!

Eu, um andarilho preso no passado!

e tu, minha carta de alforria!

(Out: 15, 1982)

Saudades Partidas IV

Posted in Crônicas, Poesia on 19 de dezembro de 2007 by Prof Gasparetto

(o êxodo)

Minhas gavetas guardam teus perfumes.

‘inda me lembro nas madrugadas frias,

me cobrias, me aspergias com teus suores,

e licores…

Piazzolas, Nerudas, Jobims, Fayruz,

olhares de Líbano me acariciavam em

horas distantes de nós dois!

E quando pelas ruas bricávamos de amantes,

quão preciosa é tua formosura (minha amada)!

Furtava eu dos jardins de alguéns

algumas pérolas do campo,

e aos teus pés tecia sândalos

como se fôsse o teu corpo

a minha própria escultura!!!

A minha sombra fugiu de mim inesperadamente,

como se fora um recado da solidão!

Ninguém pode imaginar que me tornei

um vândalo atirando indignações

em telhados alheios…

Eu, rastro indesejado sem um fim!

e tu, os meus meios!

(Out: 14, 1982)

Saudades Partidas III

Posted in Crônicas, Poesia on 19 de dezembro de 2007 by Prof Gasparetto

(Pertences)

É a última maneira de tocar

tua pele de pétalas apapouladas

de graça e de perfume!

Mas fui mais que astros vadios

vagando em tuas noites…

Meus olhos eram cegos frágeis

que esbarravam pôs do só!

Pena! Que tudo isso tenha

voado no tempo

sem que a lareira derretesse

o gelo do teu adeus!

O vinho tinto inacabado

está sóbrio às nossas taças

no canto da mesa,

na mesa que não mais no pertence,

nem móveis,

nem quadros,

nem flores,

nem perfumes,

nem o sentir,

nem o ouvir,

nem o olhar,

nem o tocar,

nem um beber,

nem companhias…

Eu, um simples plebeu despejado!

e tu, minha sempre rainha!

(Out: 13, 1982)