Terceira Idade (ou, Degraus do Tempo)

Pelas escadas exercia a dor senil,
Que infantilmente descarregava
Nos degraus do tempo!
Vorazmente, enfeitava-se de feiras,
Balinhas de hortelã na bolsa…
Um banquete preparava aos seus vizinhos,
Um ou outro aparecia,
Mas isso a contentava,
Pois sabia que não ficaria só!
Desejos de saborear quitutes nos armazéns do bairro,
lhe traziam felicidade…
… estava só!

As pessoas olhavam com desdém,
Fitavam suas compras,
Seus cabelos longos, com laços de menina,
Ofuscava a todos com seus bordados
Em lantejoulas e madrepérolas…

Mas o que mais encantava
Era seu colar de pérolas!

Passo a passo, o tempo se faz lento,
E é mais uma conquista quando se vence um degrau!

Num dia qualquer, de um ano qualquer
Limpava sua casa, seus lustres,
Suas jóias…
Na escada frente a janela com persianas,
a labirintite maldita lhe deu uma rasteira.
Estava só!
Pois sabiam que ficaria só!

As porcelanas, os bibelôs, seus inesquecíveis camafeus…
Sua Bíblia de luxo, por sobre o balcão de jacarandá,
aberta em Hebreus grifado capítulo 4 versículos 12 e 13..
Fotografias de ilustres desconhecidos…
Ficaram só!
A sala ficou só! Os cômodos ficaram só!
As feiras continuam…só!
As balinhas de hortelã perderam seu sabor!
Tudo ficou só, nos degraus do tempo!

(Ago: 20, 1982)

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