Perfumes ao Vento (ou Rastros de Adeus) VIII
VIII – QUEBRA-NOZES
I
Imaginação, o que está além de ti?
Todos os seus atos e os seus gostos?
As suas cadeias e os seus limites?
Quero poder fazê-lo abolir os teus limites,
Aceitá-la como uma interpretação diferente,
Não vulgar,
Não efêmera,
Simplesmente, simples, como és!
Não posso exigir tal transformação de ti,
apesar das tuas sempre frases pomposas,
tua eterna idade de menina,
ou de teus quereres furtivos…
tanta graça em teus passos,
sapatilhas, gestos, sombras,
unges teu corpo em óleo perfumado
de íntimo amor…
não queria os tesouros da terra,
nem todas as pérolas do mar,
da minha carne crua,
a minha graça te dava,
e não alimentavas
com tua paixão só tua…
e fiz-me então um plebeu,
atrás das muralhas me escondo,
e sondo os teus afazeres…
olhai, quão perdido estou,
com pedras, armaduras
tão fugas,
tão capaz,
de mostrar aos teus zelos
que não importam
se grandes muralhas,
ou portas fechadas,
eu seguirei triunfante,
a te buscar amante,
se ainda quiseres ser minha,
somente!
II
Escondestes-me no engenho,
Como uma cana malhada
Não o sol nascer, nem lua dormir…
Por tempos, fiquei ali,
Encolhido por espanto,
No anonimato esplendor,
De ter triturada as palavras
De um oculto escritor!
Sou desconhecido poeta,
Que no engenho de açucares,
Fiz do nossos lugares, melaço…
Fiz dos teus acordes, inchaços,
Não queria mais doer,
Nem queria mais sorrir…
Eram chibatas dançando,
Nos beirais dos casarões…
Nozes,
Amêndoas,
Castanhas…
Felizes os gentios
Que vasculham nas cegueiras, a luz…
Que rompem dos silêncios, a voz…
Que vigiam seus senhorios…
Nos teus engenhos, aprendi
Que por mais que eu lute por teu amor,
Não terei razão de continuar…
Se continuar, quebrarão meus braços
Com todos os cansaços a não te abraçar!
Vedarão meus olhos,
Que felizes te viam
E te seguiam como uma menina,
Convertida em uma bela bailarina…
Pararão meu coração,
Para estancar as paixões que tive
Nos momentos venosos da vida!
Farão de tudo,
Mas não abrirão de mim
Segredos do que é o amor!
III
Me fizeram soldado
Por uma luta sem tréguas,
Me proibiram armas,
Me retiram cantis,
Das amêndoas ficaram os aromas,
Das nozes somente o prazer de juntá-las,
E nunca prová-las…
Meu corpo guardam cicatrizes,
De todas as vezes que eu queria te ver…
Porém com brutal insistência,
Te criei paciência,
Pra sentir teu bailar,
De sentir teu prazer,
De um dia provar,
O que eu não pude provar:
Perfumes ao vento,
Abelha rainha!
(Jun: 09, 2001)
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