Perfumes ao Vento (ou Rastros de Adeus) XII
XII – METADES
I
Preciso de um conselho:
quando todos os anos passarem
quero eu gravar um livro
e nele, nas escritas,
esculpir todas as minhas lidas,
Todas as situações,
Teus mistérios…
As vãs sombras que acobertam meu spirito
Revelam-me que devo guardar-te…
És prefácio?
Um presságio que dedilha acordes
Substantivos de mulher em minha vida?
Ilusão? Mentiras?
Quando o sol reluz nossas sombras
Pela parede de mármore grego,
Percebo então quão belo
Teus matizes, reflexos de loba
Que aguarda o romper das emoções
E com garras e dentes
O prazer se faz afoito…
Os carrilhões do salão nobre,
Não consegue conter sua euforia!!!
E gritas, e me riscas em parágrafos
E me alinhas em redondilhas maiores…
e te faço coitos verbais,
aquilo que simples frases
não podem traduzir!
Mulher de grandeza infinita,
Lábios de mananciais desejos
Cria em mim, o teu amado,
O forçar contínuo de gemidos…
Uníssonos gritos carnais…
Por ventura, amada minha,
Os ventos conhecem tua fragrância felina?
Leva-me em emboscadas tranqüilas,
Teu corpo, arrojo atrevido,
Desconheces-me quando fechas a porta,
E mergulhas na banheira com sândalos,
Róseas pétalas hispânicas…
Tudo me hipnotiza, teus quadros,
Tuas curvas, teus ambientes,
teus suores, teu corpo esbelto e possessivo…
se atira por completo em mim!
Alieno-me à cama úmida
Aguardando tua boca úmida me umedecer!
Eu, aqui, esquartejado em desejos
Sinto em minha pele
Que me perdi nos teus momentos de outrora!
E toda a minha alma se fez tarde!
Preciso de um conselho:
quando todos os anos passarem
quero eu gravar um livro
e nele, nas escritas,
apresentar nossas metades!
II
O Candelabro Italiano, lembras?
Percorremos nos lençóis em busca do querer,
E encontramos nós dois,
Espalhados, num estado romanesco
E de tal perplexidade
Que ríamos compulsivamente…
Bateram em nossa porta,
Silenciamo-nos por alguns segundos,
E voltamos às cenas
Ao tema musical que escolhestes…
Com excesso de gozo se fez a beleza
Do teu corpo!
Coração bateu rápido,
Assim como o tempo…
Entre noites e madrugadas
Pousastes teus lábios,
Como a abelha suga da seiva o mel,
E ao meu lado desmaiastes,
E nossos corpos,
Ficaram ali estendidos
Tocando-se, pensando-se,
Analisando-se,
E tua boca ao mel navega,
A castigar-me, como açoitando
A querer mais…
A querer sentir mais…
A querer ousar,
Sentir,
Fingir de medo,
Beijar meus dedos,
E com tua língua, navegando em meu tórax,
Faz-se feroz, felina,
Loba menina, que castiga,
E tua língua atrevida,
Obriga-me a mergulhar mar adentro,
A buscar em teus seios, o aconchego dos dias,
E pelos ambientes eu te sustento,
E tu levitas, e acreditas estar voando,
E queres aterrissar, mas as ondas
Sobem e descem,
E estais em meus braços a navegar,
A dançar eroticamente,
Realizando frenesi continuo
Por sermos assim
Metades inocentes do prazer!
III
A sede nos pegou de surpresa,
A jarra com água, no balcão da cozinha,
Nos convidou a descermos
Pelas escadas, teus olhos invadiam os meus,
Agressivos e sedentos
Que parássemos o tempo,
E te domasse ali, degrau por degrau…
Tua pele toda
Transpirava musk,
E pousei um beijo em teu seio,
E outro, e outro,
Ajoelhavas ante meu corpo
E num aroma delirante em cio aberto,
Nos descobrimos, como namorados,
Em nossa palidez lasciva
Que as ramas da paixão nos entregaram!
Oh musa encantadora,
Senhora dos meus sonhos,
Bebas o néctar que guardei pra ti!
Levante destes teus anseios
Como humilde abelha
E hasteies tua bandeira
Em meu mastro,
e a tremular aos ventos,
irás, em tuas graças e curvas
aprisionar
para sempre esta tua outra metade
que te pertence agora!
Eu ainda preciso de um conselho,
Lembras?
(Jun: 26, 2001)
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