I
Estranhos que me estranham em dias
Não sabendo que pelos caminhos todos
Deixamos nossos rastros…
II
Rastros que ficamos rastros
Pelas palavras cruas que fingimos
E que tatuamos nossos corpos…
III
Corpos que esculpimos corpos
Em temas murmurantes e tão frios
No castigo de um único silêncio…
IV
Silencio que gritamos no silencio
Os tangos de um Gardel introvertido
Num salão sem publico presente…
V
Presente que te fiz presente
No meu cantar soprano indiferente
No desafino insulto te dizer adeus…
VI
Adeus que me excluiu adeus
Na sôfrega saudade de amar
Enclausurada morre a nossa alma…
VII
Alma que me fugiu da alma
O toque bárbaro de um banquete
Alimentando nosso ultimo momento
VIII
Momento que se perdeu em um momento
Script ultrajado e cafajeste
Num tempo de Piazzola a torturar…
IX
Sempre torturas que ansiamos em torturar
Os nossos sílabas na pagina arrancada
Também agora o ícone rebelde e covarde…
X
Covarde! Sei que sou mais um covarde
Que seqüestrou teu hímen nas manhas
Na transição do outono para o inverno…
XI
Inverno, o amor se fez inverno!
Criando chagas em um leito desvalido
Que adoece num pensamento ateu!
XII
Ateu não foi o nosso amor ateu!
A morte da saudade que se escreve
Em mão escribas com tinta algoz profana!
XIII
Profana pubiana és profana…
O beijo proibido de andarilhos
Nos palcos de gemidos e rancores…
XIV
Rancores! E nunca beberemos tais rancores!
Entorpecemos nosso sexo em renascença
E não sofremos a priori o mal do século!
XV
Nos séculos nos perdemos mais um século!
Beijamos nus o afresco amor perdido…
Pelos telhados embaçados da paixão!
XVI
Paixão! O que significa tal paixão?
Se nos brindamos virgens em outonos
No gosto imaculado do prazer?
XVII
Prazer que do adeus se faz prazer
O amargo de uma lágrima sofrida
Caindo em ombros tão desconhecidos…
XVIII
Desconhecidos amores desconhecidos
A barbárie dos sentimentos mutilados
Gritávamos aos silêncios vicinais!
XIX
Vizinhos nossos quartos tão vizinhos
Que na lamúria um grito Orpheu desaparece
Retumba pelas grades o desespero…
XX
Desespero, minha vida em desespero…
Extravasa um gesto insano
De um querer bem perto tão somente…
XXI
Somente a solidão! Somente!
Criada na angústia vai morrendo
A dor aprisionada de uma dor…
XXII
Oh dor porque trouxestes tanta dor?
Se fico aqui descalço na varanda
Pelo sereno a percorrer todo o meu rosto?
XXIII
No rosto a tal velhice espanca nossos rostos
Que perco os dias a lembrar
De um rosto que um dia me fez feliz!
XXIV
Feliz? É o que eu sinto agora: feliz!
Por saber que os dias se perderam no passado,
Já não mais pertencem a nós…
XXV
Pertences! Quero estar em teus pertences
E em qualquer da suspirar em teus ouvidos:
-“Sempre te amei e nunca procurei,
Amores vão – estranhos!”
I
Estranhos que me estranham em dias!
…