Cântico dos Bloqueios
(Betto Gasparetto)
Estou morrendo.
Não porque eu quero, mas porque eu sinto…
É inevitável que isso ocorra…
De tantas desculpas, me alterei na culpa. Foi por isso que tudo se tornou noite, se tornou vazio, se tornou deserto…
Ontem me fiz de alvo das minhas próprias ironias, tropecei em todos os sentidos, e calei-me vendo-me num espelho envelhecido às sombras de um fracassado humano…
O húmus grita para me acolher num estado vegetativo de ser ou não ser…
Meu sangue aspirja nojo e melancolia… o asco se torna sóbrio num leito fétido de culturas fétidas…
Alguém cuspiu o sarro de Nietzsche na minha identidade!
Quem diria eu, sobrepondo em bibliotecas, um precisar insano de quereres e deveres?
Não. Acho que chegou o momento de transcrever no jazigo uma advertência: “SE A VIDA SE RESUME EM BLOQUEIOS, ENTÃO SAIBAS QUE MATASTE UM SONHO!”
Ontem acreditei que poderia ter suportado a mordaça das responsabilidades… hoje infelizmente, tudo se materializou em bueiros intelectuais num faz-de-conta…
A irmandade evaporou-se no cessar fogo.
Vitimizamos demais a vida e o que há nela.
Foi surreal viver no circo dos saberes, e acreditar que no outro a lâmina não teria fio suficiente para dilacerar a empatia…
O grande blefe aconteceu simplesmente…
Sinto que estou morrendo física, moral e espiritualmente.
Não quero nada. Somente um silêncio que se torne infinito em minha cabeça…
Silenciosamente a mente em silêncio…
Estou morrendo.
Não porque eu quero, mas porque eu sinto…
O tempo melancoliza o tempo que esbarra no luto…
Meus sentimentos adoeceram em meu semelhante com estrias de angústias e murmúrios…
O adeus não seria suficiente para estrangular tantos sentimentos inóspitos, porém seria por uma fagulha apenas que minha sombra varreu o pretérito imperfeito…
Estou morrendo.
Não porque eu quero, mas porque eu sinto…
Estou morrendo.
Não porque eu quero, mas porque eu sinto… um assim seja!
O vozerio dos estúpidos, entupidas com féretro àqueles que me abraçaram com futilidades…
Estou morrendo.
Não porque eu quero, mas porque eu sinto… o torpor gélido que implantaram em meu coração …
A terra que me cobriram, urinaram com complexo de édipo!
Já se faz tarde…
Estou morrendo.
Não porque eu quero, mas porque eu sinto…
Agora por favor, poderia fechar a porta? Mas antes, apague a luz!
(Betto Gasparetto)
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