NAS PALAVRAS DISTANTES AS LETRAS EMUDECERAM-SE NA FRIEZA HUMANA (I/II)
(Betto Gasparetto)

by Dall-E 3
I
Os dias passam como folhas que caem de uma árvore já quase desfolhada. Cada vez mais me deparo com essa realidade inescapável: as pessoas se afastam, tornam-se espectros de si mesmas, vivendo em uma frieza que parece não ter fim. É como se a vida se tornasse uma rotina de sobrevivência emocional, onde o distanciamento é a regra e a proximidade, a exceção.
II
À medida que observo o mundo ao meu redor, não posso deixar de sentir um vazio crescente. As palavras, que antes fluíam com naturalidade, agora se tornam hesitantes, como se tivessem medo de sair e enfrentar o vazio gelado que as aguarda. Elas se retraem, se calam, e na frieza humana, as letras emudecem-se, perdendo seu poder de tocar, de emocionar.
III
Tento, às vezes em vão, romper essa barreira invisível que parece separar-nos uns dos outros. Busco nos olhos alheios um reflexo de calor, de vida, mas encontro apenas o brilho opaco de uma existência anestesiada. Parece que todos construímos muralhas em torno de nossas almas, como se temêssemos que, ao nos abrirmos, seríamos consumidos pela dor que evitamos a todo custo.
IV
É complicado entender as pessoas, pois muitas vezes nem elas mesmas se compreendem. Vagueiam por seus próprios desertos interiores, carregando fardos que não conseguem compartilhar. E, nesse silêncio compartilhado, na ausência de um verdadeiro diálogo, o mundo se torna um lugar árido, onde o calor humano é uma raridade, uma miragem distante.
V
O que restou das palavras que um dia foram nossas companheiras mais fiéis? Onde está a poesia que nos unia, que nos fazia sentir vivos? Ela parece ter sido enterrada sob camadas de indiferença, sufocada pelo peso de uma existência que perdeu seu encanto. As letras, que antes dançavam em versos e rimas, agora se escondem, tímidas, em um canto escuro da nossa consciência.
VI
E, no entanto, ainda persiste em mim o desejo de encontrar algum sentido nesse vazio. Continuo a escrever, a tentar capturar em palavras aquilo que parece escapar a cada tentativa. Mas, como é difícil! As palavras se tornam pesadas, arrastadas, como se estivessem sendo puxadas para o fundo de um abismo emocional. E, na frieza das almas que encontro, elas se emudecem, impotentes.
VII
Às vezes, tento lembrar-me de um tempo em que a vida parecia mais simples, em que as palavras tinham o poder de unir, de curar. Mas esse tempo parece tão distante, quase inalcançável. Como se pertencesse a uma outra vida, a uma outra pessoa que eu já não sou. E tudo o que resta são as sombras desse passado, vagando pelas memórias como fantasmas de um sonho esquecido.
(Betto Gasparetto – x/xxi)
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