Arquivo para 18 de dezembro de 2024

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (06/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio VI – O Espelho das Horas Perdidas

By Dall-E 3

No cair da noite, quando os olhos buscam no escuro o que o dia se recusou a mostrar, há um instante inevitável em que nos deparamos com o espelho. Não o espelho de Menestrel que reflete apenas o que é visível, mas aquele que habita o fundo do peito, onde moram as verdades que evitamos e as horas que perdemos. E lá, diante dessa superfície turva e implacável, notamos: a imagem refletida já não é a mesma.

Quem sois, vós, que agora vos contemplais no silêncio da noite? Quem sois, senão uma sombra mais pálida do que outrora fostes? O tempo, esse escultor invisível, talha lentamente as faces, apaga os brilhos, estende linhas onde antes havia plenitude. O olhar, que um dia ardia de esperança, hoje carrega o peso de um cansaço mudo. E o espelho, impassível, sussurra: “Eis o que te tornaste.”

Quantas vezes, ao dobrar as esquinas do dia, evitamos olhar para dentro de nós mesmos? Pois sabemos que ali, no entardecer interno, está a verdade sem adornos, despida de impressões. Ah, o espelho não mente! Ele revela o que as palavras disfarçam e o que os sorrisos escondem. No vazio das horas noturnas, ele é o juiz que nos confronta, trazendo à tona memórias sepultadas, promessas esquecidas, desejos que nunca encontraram morada.

Contemplai-vos, pois, mas não vos desespereis. A imagem no espelho não é o fim, mas o testemunho de um caminho percorrido. Quantas vezes ouvimos que “O tempo muda todas as coisas, menos as verdades que carregamos”? E eis que, mesmo no entardecer gasto e na aparência cansada, há algo que permanece: o espírito que resiste, a chama que, ainda que trêmula, não se extinguiu.

É verdade que os olhos não brilham como antes, mas ainda enxergam. O rosto não sorri tão fácil, mas ainda é capaz de ternura. O corpo se curva sob o peso dos anos, mas a alma, se não a deixardes morrer, permanece jovem e ousada. O espelho reflete as cicatrizes, mas cada uma delas é uma história; cada marca é uma vitória silenciosa, conquistada no campo de batalhas invisíveis.

Por que, então, temer o entardecer? Por que lamentar a imagem que se alterou? No cair da noite, quando as memórias se dissipam e tudo que resta é a verdade crua, olhai para vós mesmos e vede: ainda sois. Ainda existis. E, enquanto o peito respira, há tempo de reescrever o que o espelho ainda não viu.

Quantos de vós, ao contemplar vossa própria face, murmuram com pesar: “Não sou mais o que fui”? Ah, mas quem deseja sê-lo? Pois o passado, embora belo, já não vos pertence. O que vedes agora é mais forte, mais sábio, mais pleno, pois carrega em si todas as quedas e reerguimentos, todos os silêncios suportados, todas as noites atravessadas com esperança.

E, se vos parece que o vazio das horas devorou quem sois, recordai-vos disto: “O espelho reflete apenas o que o tempo lhe mostra, mas o que sois está além de qualquer superfície.” Pois a alma não envelhece no Menestrel; ela repousa nos sonhos que ainda ousais sonhar, nas promessas que ainda podeis cumprir, nos caminhos que ainda podem ser trilhados.

A imagem mudou, sim, como tudo muda sob o véu das horas. Mas o espelho, tão cruel em sua fidelidade, também traz uma bênção: ele recorda que ainda sois vós mesmos, por mais que os contornos tenham sido redesenhados pelo tempo. O entardecer é apenas um lembrete de que o tempo passa, mas a essência – essa que vos define – permanece intacta, aguardando o amanhecer de novas promessas.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se esconde atrás do Menestrel, o espelho não mente: ele não reflete o fim, mas um recomeço que ainda espera por vós, se tiverdes coragem de enxergá-lo.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (05/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio V – As Candeias da Esperança

By Dall-E 3

No cair da noite, quando a música noturna desliza entre frestas e janelas, os suspiros brotam como flores tardias, carregados de ausências e desalentos. São leves, quase etéreos, mas pesados no âmago daquele que os expira. Oh, quantos suspiros já foram ouvidos pelo silêncio das horas vazias! E quantos deles ficaram presos nos lábios, como palavras que jamais ousaram ser ditas?

Um suspiro, dizem, carrega mais do que o ar expelido; é a medida exata do que o coração suporta calar. “Ai!” – solta o peito – e o som se perde, vagando pelas paredes do tempo, sem testemunhas. Há nos suspiros algo de solenidade: eles não gritam, mas falam. Não choram, mas lamentam. E, ah, como a noite escuta! Ela escuta como nenhum outro dia ousaria ouvir, pois na escuridão não há olhos julgadores, apenas um vácuo onde os ecos repousam, suaves, invisíveis.

Quem nunca suspirou pelo que foi, ou pelo que nunca será? Quem nunca, diante de uma janela entreaberta, deixou o olhar escapar ao horizonte e ali depositou, junto ao vento, um pesar inexplicável? Há uma verdade universal no suspiro, pois ele pertence tanto ao desespero quanto ao amor. É o murmúrio mais honesto da alma, a entrega de um fardo que já não cabe no peito. Quando a última luz se extingue e a sombra reina soberana, os suspiros tornam-se os senhores das horas.

O vazio das horas, contudo, engana-se ao parecer mudo. Ele é pleno de murmúrios, sussurros e, sobretudo, suspiros. “Ah…” – solta o apaixonado, recordando olhos que jamais lhe olharam de volta. “Oh…” – expira o solitário, lembrando promessas feitas por lábios que mentiram suavemente. Mesmo aquele que ousa desafiar a noite com um silêncio feroz, se trai num suspiro: o suspiro de quem perdeu, de quem aguarda, de quem desistiu.

Não sois vós, ó homem, o artífice de vossos próprios suspiros? Acaso não carregais dentro do peito um oceano onde as ondas se quebram sem ruído? Há nos suspiros a verdade de que somos frágeis e impotentes perante o tempo que não se dobra, perante os amores que se dissipam e perante as memórias que adornam o vazio como flores secas num vaso antigo. Eles falam, mesmo que sem palavras, e são, talvez, a única oração que a noite aceita sem reprovação.

Na janela onde o vento se insinua, os suspiros ganham forma. Eles se elevam, contorcem-se e, então, somem, como se a própria noite os absorvesse em seu seio profundo. Quem escuta esses ecos? Quem os guarda? Talvez ninguém além de nós mesmos. Porque, no final, um suspiro é sempre uma mensagem para dentro, uma confissão murmurada no escuro. “Eu sinto falta,” diz o primeiro. “Eu não entendo,” completa o segundo. E o terceiro, quase imperceptível, murmura: “Eu aceito.”

Mas que ironia há nesse suspiro derradeiro, o da aceitação! Ele não é o fim do vazio, mas o início de uma resignação que se veste de falsa paz. O vazio das horas, agora, parece menos hostil, pois está cheio de suspiros que são ecos de batalhas que não travamos ou vencemos. Eles nos acompanham como companheiros silenciosos, carregando nossas derrotas mais íntimas, mas também nossas esperanças mais ternas.

No cair da noite, cada homem se torna um poeta de si mesmo, um autor que escreve versos sem tinta, apenas com o sopro quente de um lamento. Os suspiros não mentem. Eles são a mais fiel tradução do que nos atormenta e, ainda assim, nos consolam. Pois, como gotas de orvalho que caem no silêncio, eles nos recordam que o coração, mesmo sofrido, ainda pulsa. Que o peito, mesmo apertado, ainda respira.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se apresenta, os suspiros o preenchem como testemunhas do que fomos, do que somos e do que jamais seremos.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (04/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio IV – O Eco dos Suspiros Perdidos

By Dall-E 3

No cair da noite, quando a música noturna desliza entre frestas e janelas, os suspiros brotam como flores tardias, carregados de ausências e desalentos. São leves, quase etéreos, mas pesados no âmago daquele que os expira. Oh, quantos suspiros já foram ouvidos pelo silêncio das horas vazias! E quantos deles ficaram presos nos lábios, como palavras que jamais ousaram ser ditas?

Um suspiro, dizem, carrega mais do que o ar expelido; é a medida exata do que o coração suporta calar. “Ai!” – solta o peito – e o som se perde, vagando pelas paredes do tempo, sem testemunhas. Há nos suspiros algo de solenidade: eles não gritam, mas falam. Não choram, mas lamentam. E, ah, como a noite escuta! Ela escuta como nenhum outro dia ousaria ouvir, pois na escuridão não há olhos julgadores, apenas um vácuo onde os ecos repousam, suaves, invisíveis.

Quem nunca suspirou pelo que foi, ou pelo que nunca será? Quem nunca, diante de uma janela entreaberta, deixou o olhar escapar ao horizonte e ali depositou, junto ao vento, um pesar inexplicável? Há uma verdade universal no suspiro, pois ele pertence tanto ao desespero quanto ao amor. É o murmúrio mais honesto da alma, a entrega de um fardo que já não cabe no peito. Quando a última luz se extingue e a sombra reina soberana, os suspiros tornam-se os senhores das horas.

O vazio das horas, contudo, engana-se ao parecer mudo. Ele é pleno de murmúrios, sussurros e, sobretudo, suspiros. “Ah…” – solta o apaixonado, recordando olhos que jamais lhe olharam de volta. “Oh…” – expira o solitário, lembrando promessas feitas por lábios que mentiram suavemente. Mesmo aquele que ousa desafiar a noite com um silêncio feroz, se trai num suspiro: o suspiro de quem perdeu, de quem aguarda, de quem desistiu.

Não sois vós, ó homem, o artífice de vossos próprios suspiros? Acaso não carregais dentro do peito um oceano onde as ondas se quebram sem ruído? Há nos suspiros a verdade de que somos frágeis e impotentes perante o tempo que não se dobra, perante os amores que se dissipam e perante as memórias que adornam o vazio como flores secas num vaso antigo. Eles falam, mesmo que sem palavras, e são, talvez, a única oração que a noite aceita sem reprovação.

Na janela onde o vento se insinua, os suspiros ganham forma. Eles se elevam, contorcem-se e, então, somem, como se a própria noite os absorvesse em seu seio profundo. Quem escuta esses ecos? Quem os guarda? Talvez ninguém além de nós mesmos. Porque, no final, um suspiro é sempre uma mensagem para dentro, uma confissão murmurada no escuro. “Eu sinto falta,” diz o primeiro. “Eu não entendo,” completa o segundo. E o terceiro, quase imperceptível, murmura: “Eu aceito.”

Mas que ironia há nesse suspiro derradeiro, o da aceitação! Ele não é o fim do vazio, mas o início de uma resignação que se veste de falsa paz. O vazio das horas, agora, parece menos hostil, pois está cheio de suspiros que são ecos de batalhas que não travamos ou vencemos. Eles nos acompanham como companheiros silenciosos, carregando nossas derrotas mais íntimas, mas também nossas esperanças mais ternas.

No cair da noite, cada homem se torna um poeta de si mesmo, um autor que escreve versos sem tinta, apenas com o sopro quente de um lamento. Os suspiros não mentem. Eles são a mais fiel tradução do que nos atormenta e, ainda assim, nos consolam. Pois, como gotas de orvalho que caem no silêncio, eles nos recordam que o coração, mesmo sofrido, ainda pulsa. Que o peito, mesmo apertado, ainda respira.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se apresenta, os suspiros o preenchem como testemunhas do que fomos, do que somos e do que jamais seremos.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (03/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio III – O Sábio Silêncio das Horas

By Dall-E 3

“No cair da noite, o homem se vê como o peregrino no deserto: o horizonte se perde, mas os passos jamais cessam.” Tal é a sentença que as sombras sussurram, à medida que a última luz do dia se apaga e dá lugar ao escuro cheio de murmúrios. O vazio que a noite carrega não é mudo; ele fala em línguas antigas, repletas de provérbios que atravessaram eras, como se fossem faróis a guiar os perdidos que se recusam a descansar.

Quem nunca ouviu que “O tempo nunca devolve o que a pressa rouba”? Ah, o tempo! Um artífice cruel e diligente que, sob o manto noturno, desenha as memórias como tapeçarias de fina trama. No vácuo das horas, cada olhar para o relógio é uma prece silenciosa para que o amanhã chegue sem os pesares de hoje. Mas as horas, como se diz, “arrastam-se lentamente para quem espera, e voam para quem esquece”. Eis o paradoxo do vazio: um espaço cheio de esperanças e desenganos.

No silêncio onde as palavras se desvanecem, o sábio aprende que O homem que mais grita é o que menos ouve a si mesmo”. E quantos de nós, na quietude da noite, nos deparamos com nossos próprios gritos abafados? Não há parede que não ecoe a verdade no escuro, nem mente que não viaje aos confins das memórias quando a sombra é sua única companhia. As horas são honestas, mas nós as transformamos em algo oposto, pois é mais fácil viver a imensidão do que encarar a face nua da realidade.

Ouvi, pois, a lição antiga: “Quem planta impressões, colhe desenganos”. No vazio noturno, essas sementes germinam depressa. Ah, quantas promessas feitas sob o céu estrelado se revelaram mentiras à luz do dia! Quantos beijos trocados ao som da música agora são apenas lembranças empalidecidas pelo tempo? “A noite não tem culpa do que nela ocorre,” dizem os antigos, e nisso há verdade. Ela apenas acolhe os que dela se servem – amantes, sonhadores, solitários e homens de fé no impossível.

Vós, que vagueais pelos corredores da mente na escuridão, recordai o provérbio: “Melhor o silêncio cheio de paz do que o barulho de palavras vãs.” Por que, então, nos perdemos nas memórias que adornam o vazio? Por que tentamos, como crianças, tapar os ouvidos à verdade? A noite é um mestre paciente. Ela espera que admitamos que o vazio não é um inimigo a ser derrotado, mas um espelho no qual enxergamos o que realmente somos.

Não há horas vazias para o coração que sabe ouvir. Pois, como se diz: “O vazio só assusta a quem nunca aprendeu a preenchê-lo de si mesmo.” Quem carrega dentro de si uma alma plena de propósito, quem conhece as veredas do próprio espírito, jamais se perderá nos caminhos do silêncio. A noite não será, então, um castigo, mas um refúgio. Não será um labirinto, mas um descanso.

Recordai outro adágio: “Os olhos fechados enxergam o que os abertos jamais verão”. É na escuridão que os pensamentos mais profundos emergem, como pérolas no fundo do mar. Ali, no vazio cheio de impressões, vemos com clareza os contornos de nossas próprias faltas, de nossas saudades, de nossos desejos tão altos quanto inalcançáveis. Ah, quem dera pudéssemos recolher tais pérolas sem ferir as mãos!

Por fim, lembrai-vos de que “Quem mais busca fora de si, mais longe está do que procura.” As memórias da noite não são verdadeiras, mas são nossas. Elas nos pertencem, como cartas jamais enviadas ou versos nunca declamados. Preencher o vazio das horas com tais quimeras é o tributo que pagamos à nossa própria humanidade. Porque o homem, sendo frágil, se recusa a aceitar que as horas silenciosas revelam o quão pequenas são suas grandes ambições.

Assim, no cair da noite, os provérbios tornam-se lâmpadas, e o vazio das horas, ainda que cheio de IMPRESSÕES, é um professor – paciente, inevitável, e sempre fiel ao seu papel.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (02/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Adágio II – As Sombras que Dançam

By Dall-E 3

No véu implacável que o entardecer arrasta sobre a terra, dança um desfile de sombras. Elas não pertencem ao nada; possuem substância própria, tecidas pelos fios invisíveis da mente que repousa e do coração que teima em pulsar sob o peso do silêncio. Não é o vazio que grita, mas sim as vozes apagadas que o habitam, sussurrando palavras que não se desvanecem com o tempo, como tatuagens impressas nas paredes do ser.

No cair da noite, os olhos perdem a cor do dia e mergulham na penumbra, encontrando, no âmago escuro do existir, um balé de formas indefinidas. Não são fantasmas, tampouco deuses. São os próprios fragmentos da memória, que surgem como ecos tardios do que um dia foi vida. A cadeira vazia, o copo esquecido, a janela entreaberta… cada detalhe torna-se um narrador silencioso das horas que outrora pertenciam ao riso, à presença e à promessa. E, oh! Como nos entregamos, ingênuos e voluntários, ao delírio dessas sombras!

O vazio das horas está pleno. Pleno de passos que nunca mais ecoarão; de sorrisos que se apagaram na metade de um instante; de mãos que não se estenderão de novo. Porém, nesta plenitude estranha, há um engano deliberado, uma armadilha que o espírito tece ao desejar demais o que já não existe. São as memórias que enchem a noite como rios turbulentos, arrastando consigo a tranquilidade dos que buscam refúgio no sono.

Não sois vós, ó homem da imensidão, que fazeis das horas vãs um altar onde a realidade sucumbe? Quem dera pudésseis arrancar do peito essa esperança sem nome, essa busca incessante por algo que nunca chega, mas que, sob a capa da noite, vos sorri como uma amante invisível! O homem não teme o vazio; ele teme que o vazio revele, em sua transparência, a ausência do que fora outrora verdadeiro. E, ao temer, abraça o engano com toda a devoção de um servo que ama seu próprio cárcere.

O vento sopra, e as sombras se movem, convidando-vos a segui-las, como o eco de um chamado tão antigo quanto a própria existência. Podeis ignorá-las? Podeis recusar o espetáculo das impressões, sabendo que, em sua essência, elas vos protegem de um desespero mais profundo? Sim, porque a verdade nua do vazio, cruel e sem adornos, seria intolerável. Antes dançar com as sombras que perecer na clareza de que tudo se perdeu.

As horas caem, uma a uma, como gotas lentas de um relógio que não pertence ao mundo, mas à alma. E lá, onde os segundos se confundem com séculos, cresce o jardim das falsas promessas. Vós o cultivais com esmero, adubando a terra do vosso ser com lembranças doces e vãs. Cada flor ali nascida é uma imensidão, mas que importa? Mesmo a mentira, quando bela, é preferível à solidão árida do nada.

O vazio das horas não é um inimigo. É um espelho. E, no cair da noite, ao contemplar-vos nele, reconheceis o rosto do que fostes, do que podíeis ter sido, e do que jamais sereis. Porém, em meio a tudo isso, a imensidão vos consola. Ela preenche as lacunas do inexorável, ainda que seu preço seja o de nunca mais encontrar a paz.

Assim, sob o peso das sombras, dançamos todos, voluntários na farsa do existir, onde o vazio se revela pleno, e o ilusório, verdadeiro.

(Betto Gasparetto – iii/xx)