(Betto Gasparetto)
Adágio VI – O Espelho das Horas Perdidas

By Dall-E 3
No cair da noite, quando os olhos buscam no escuro o que o dia se recusou a mostrar, há um instante inevitável em que nos deparamos com o espelho. Não o espelho de Menestrel que reflete apenas o que é visível, mas aquele que habita o fundo do peito, onde moram as verdades que evitamos e as horas que perdemos. E lá, diante dessa superfície turva e implacável, notamos: a imagem refletida já não é a mesma.
Quem sois, vós, que agora vos contemplais no silêncio da noite? Quem sois, senão uma sombra mais pálida do que outrora fostes? O tempo, esse escultor invisível, talha lentamente as faces, apaga os brilhos, estende linhas onde antes havia plenitude. O olhar, que um dia ardia de esperança, hoje carrega o peso de um cansaço mudo. E o espelho, impassível, sussurra: “Eis o que te tornaste.”
Quantas vezes, ao dobrar as esquinas do dia, evitamos olhar para dentro de nós mesmos? Pois sabemos que ali, no entardecer interno, está a verdade sem adornos, despida de impressões. Ah, o espelho não mente! Ele revela o que as palavras disfarçam e o que os sorrisos escondem. No vazio das horas noturnas, ele é o juiz que nos confronta, trazendo à tona memórias sepultadas, promessas esquecidas, desejos que nunca encontraram morada.
Contemplai-vos, pois, mas não vos desespereis. A imagem no espelho não é o fim, mas o testemunho de um caminho percorrido. Quantas vezes ouvimos que “O tempo muda todas as coisas, menos as verdades que carregamos”? E eis que, mesmo no entardecer gasto e na aparência cansada, há algo que permanece: o espírito que resiste, a chama que, ainda que trêmula, não se extinguiu.
É verdade que os olhos não brilham como antes, mas ainda enxergam. O rosto não sorri tão fácil, mas ainda é capaz de ternura. O corpo se curva sob o peso dos anos, mas a alma, se não a deixardes morrer, permanece jovem e ousada. O espelho reflete as cicatrizes, mas cada uma delas é uma história; cada marca é uma vitória silenciosa, conquistada no campo de batalhas invisíveis.
Por que, então, temer o entardecer? Por que lamentar a imagem que se alterou? No cair da noite, quando as memórias se dissipam e tudo que resta é a verdade crua, olhai para vós mesmos e vede: ainda sois. Ainda existis. E, enquanto o peito respira, há tempo de reescrever o que o espelho ainda não viu.
Quantos de vós, ao contemplar vossa própria face, murmuram com pesar: “Não sou mais o que fui”? Ah, mas quem deseja sê-lo? Pois o passado, embora belo, já não vos pertence. O que vedes agora é mais forte, mais sábio, mais pleno, pois carrega em si todas as quedas e reerguimentos, todos os silêncios suportados, todas as noites atravessadas com esperança.
E, se vos parece que o vazio das horas devorou quem sois, recordai-vos disto: “O espelho reflete apenas o que o tempo lhe mostra, mas o que sois está além de qualquer superfície.” Pois a alma não envelhece no Menestrel; ela repousa nos sonhos que ainda ousais sonhar, nas promessas que ainda podeis cumprir, nos caminhos que ainda podem ser trilhados.
A imagem mudou, sim, como tudo muda sob o véu das horas. Mas o espelho, tão cruel em sua fidelidade, também traz uma bênção: ele recorda que ainda sois vós mesmos, por mais que os contornos tenham sido redesenhados pelo tempo. O entardecer é apenas um lembrete de que o tempo passa, mas a essência – essa que vos define – permanece intacta, aguardando o amanhecer de novas promessas.
Assim, no cair da noite, quando o vazio se esconde atrás do Menestrel, o espelho não mente: ele não reflete o fim, mas um recomeço que ainda espera por vós, se tiverdes coragem de enxergá-lo.
(Betto Gasparetto – iii/xx)



