NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (02/33)
(Betto Gasparetto)
Adágio II – As Sombras que Dançam

By Dall-E 3
No véu implacável que o entardecer arrasta sobre a terra, dança um desfile de sombras. Elas não pertencem ao nada; possuem substância própria, tecidas pelos fios invisíveis da mente que repousa e do coração que teima em pulsar sob o peso do silêncio. Não é o vazio que grita, mas sim as vozes apagadas que o habitam, sussurrando palavras que não se desvanecem com o tempo, como tatuagens impressas nas paredes do ser.
No cair da noite, os olhos perdem a cor do dia e mergulham na penumbra, encontrando, no âmago escuro do existir, um balé de formas indefinidas. Não são fantasmas, tampouco deuses. São os próprios fragmentos da memória, que surgem como ecos tardios do que um dia foi vida. A cadeira vazia, o copo esquecido, a janela entreaberta… cada detalhe torna-se um narrador silencioso das horas que outrora pertenciam ao riso, à presença e à promessa. E, oh! Como nos entregamos, ingênuos e voluntários, ao delírio dessas sombras!
O vazio das horas está pleno. Pleno de passos que nunca mais ecoarão; de sorrisos que se apagaram na metade de um instante; de mãos que não se estenderão de novo. Porém, nesta plenitude estranha, há um engano deliberado, uma armadilha que o espírito tece ao desejar demais o que já não existe. São as memórias que enchem a noite como rios turbulentos, arrastando consigo a tranquilidade dos que buscam refúgio no sono.
Não sois vós, ó homem da imensidão, que fazeis das horas vãs um altar onde a realidade sucumbe? Quem dera pudésseis arrancar do peito essa esperança sem nome, essa busca incessante por algo que nunca chega, mas que, sob a capa da noite, vos sorri como uma amante invisível! O homem não teme o vazio; ele teme que o vazio revele, em sua transparência, a ausência do que fora outrora verdadeiro. E, ao temer, abraça o engano com toda a devoção de um servo que ama seu próprio cárcere.
O vento sopra, e as sombras se movem, convidando-vos a segui-las, como o eco de um chamado tão antigo quanto a própria existência. Podeis ignorá-las? Podeis recusar o espetáculo das impressões, sabendo que, em sua essência, elas vos protegem de um desespero mais profundo? Sim, porque a verdade nua do vazio, cruel e sem adornos, seria intolerável. Antes dançar com as sombras que perecer na clareza de que tudo se perdeu.
As horas caem, uma a uma, como gotas lentas de um relógio que não pertence ao mundo, mas à alma. E lá, onde os segundos se confundem com séculos, cresce o jardim das falsas promessas. Vós o cultivais com esmero, adubando a terra do vosso ser com lembranças doces e vãs. Cada flor ali nascida é uma imensidão, mas que importa? Mesmo a mentira, quando bela, é preferível à solidão árida do nada.
O vazio das horas não é um inimigo. É um espelho. E, no cair da noite, ao contemplar-vos nele, reconheceis o rosto do que fostes, do que podíeis ter sido, e do que jamais sereis. Porém, em meio a tudo isso, a imensidão vos consola. Ela preenche as lacunas do inexorável, ainda que seu preço seja o de nunca mais encontrar a paz.
Assim, sob o peso das sombras, dançamos todos, voluntários na farsa do existir, onde o vazio se revela pleno, e o ilusório, verdadeiro.
(Betto Gasparetto – iii/xx)
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