NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (03/33)

(Betto Gasparetto)

Adágio III – O Sábio Silêncio das Horas

By Dall-E 3

“No cair da noite, o homem se vê como o peregrino no deserto: o horizonte se perde, mas os passos jamais cessam.” Tal é a sentença que as sombras sussurram, à medida que a última luz do dia se apaga e dá lugar ao escuro cheio de murmúrios. O vazio que a noite carrega não é mudo; ele fala em línguas antigas, repletas de provérbios que atravessaram eras, como se fossem faróis a guiar os perdidos que se recusam a descansar.

Quem nunca ouviu que “O tempo nunca devolve o que a pressa rouba”? Ah, o tempo! Um artífice cruel e diligente que, sob o manto noturno, desenha as memórias como tapeçarias de fina trama. No vácuo das horas, cada olhar para o relógio é uma prece silenciosa para que o amanhã chegue sem os pesares de hoje. Mas as horas, como se diz, “arrastam-se lentamente para quem espera, e voam para quem esquece”. Eis o paradoxo do vazio: um espaço cheio de esperanças e desenganos.

No silêncio onde as palavras se desvanecem, o sábio aprende que O homem que mais grita é o que menos ouve a si mesmo”. E quantos de nós, na quietude da noite, nos deparamos com nossos próprios gritos abafados? Não há parede que não ecoe a verdade no escuro, nem mente que não viaje aos confins das memórias quando a sombra é sua única companhia. As horas são honestas, mas nós as transformamos em algo oposto, pois é mais fácil viver a imensidão do que encarar a face nua da realidade.

Ouvi, pois, a lição antiga: “Quem planta impressões, colhe desenganos”. No vazio noturno, essas sementes germinam depressa. Ah, quantas promessas feitas sob o céu estrelado se revelaram mentiras à luz do dia! Quantos beijos trocados ao som da música agora são apenas lembranças empalidecidas pelo tempo? “A noite não tem culpa do que nela ocorre,” dizem os antigos, e nisso há verdade. Ela apenas acolhe os que dela se servem – amantes, sonhadores, solitários e homens de fé no impossível.

Vós, que vagueais pelos corredores da mente na escuridão, recordai o provérbio: “Melhor o silêncio cheio de paz do que o barulho de palavras vãs.” Por que, então, nos perdemos nas memórias que adornam o vazio? Por que tentamos, como crianças, tapar os ouvidos à verdade? A noite é um mestre paciente. Ela espera que admitamos que o vazio não é um inimigo a ser derrotado, mas um espelho no qual enxergamos o que realmente somos.

Não há horas vazias para o coração que sabe ouvir. Pois, como se diz: “O vazio só assusta a quem nunca aprendeu a preenchê-lo de si mesmo.” Quem carrega dentro de si uma alma plena de propósito, quem conhece as veredas do próprio espírito, jamais se perderá nos caminhos do silêncio. A noite não será, então, um castigo, mas um refúgio. Não será um labirinto, mas um descanso.

Recordai outro adágio: “Os olhos fechados enxergam o que os abertos jamais verão”. É na escuridão que os pensamentos mais profundos emergem, como pérolas no fundo do mar. Ali, no vazio cheio de impressões, vemos com clareza os contornos de nossas próprias faltas, de nossas saudades, de nossos desejos tão altos quanto inalcançáveis. Ah, quem dera pudéssemos recolher tais pérolas sem ferir as mãos!

Por fim, lembrai-vos de que “Quem mais busca fora de si, mais longe está do que procura.” As memórias da noite não são verdadeiras, mas são nossas. Elas nos pertencem, como cartas jamais enviadas ou versos nunca declamados. Preencher o vazio das horas com tais quimeras é o tributo que pagamos à nossa própria humanidade. Porque o homem, sendo frágil, se recusa a aceitar que as horas silenciosas revelam o quão pequenas são suas grandes ambições.

Assim, no cair da noite, os provérbios tornam-se lâmpadas, e o vazio das horas, ainda que cheio de IMPRESSÕES, é um professor – paciente, inevitável, e sempre fiel ao seu papel.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

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